Estudos do Bispo Ildo · Reino de Deus e Missão
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Já vimos que a Missão de Cristo e da Igreja não tem a ver apenas com indivíduos e com aspectos espirituais. Há uma íntima relação entre indivíduos e sistemas sociais. Pois enquanto as pessoas criam sistemas sociais como instituições econômicas, políticas, religiosas e culturais, ao mesmo tempo estas mesmas instituições modelam as pessoas. i O impacto da queda afeta tanto o indivíduo como o sistema social, portanto o impacto do Evangelho do Reino deve se fazer sentir sobre ambos. A missão cristã trabalha em favor da redenção de todas as pessoas, sistemas sociais e meio ambiente, apresentando um Evangelho completo que tem a ver com toda a vida. Este é o Reino de Deus. ii Veremos, mais adiante, como foi que Wesley e o metodismo encararam de modo exemplar questões sociais que eram muito importantes naquele tempo. O sucesso deles em algumas empreitadas como na questão da abolição da escravidão, nos inspira e nos dá confiança para enfrentarmos os grandes desafios sociais dos nossos tempos. Como Igreja devemos saber quais são as questões sociais que estão aí diante de nós, como um desafio para a Igreja.
Poderíamos falar sobre injustiça social, globalização, guerras, violência urbana, desestruturação familiar, crise de autoridade, relativismo, vícios, pornografia, comportamento sexual, hedonismo, individualismo, consumismo, materialismo, aborto, eutanásia, corrupção, questões do meio-ambiente, e tantas outras sérias questões que afetam a humanidade. Mas não é propósito deste trabalho tratar de cada uma das sérias questões sociais que a Igreja tem que encarar nos dias de hoje, mas, como exemplo, queremos levantar algumas questões buscando traçar algumas linhas de ação para a Igreja diante de alguns desafios que se apresentam.
Um dos principais problemas que ainda desafia a consciência cristã na atualidade é a questão da justiça social. Gerada pelo individualismo materialista e hedonista da nossa sociedade que tem sido caracterizada pelo consumismo. Como bem advertiu Padilla, quando disse que, nós, como Igreja, “não podemos perder de vista o caráter demoníaco de todo o meio ambiente espiritual que condiciona o pensamento e a conduta dos homens. Não podemos ignorar a realidade do materialismo, a absolutização da era presente no que ela oferece”. iii Concordo com Padilla quando ele diz que o cristianismo secular está obcecado com a vida deste mundo, onde a esperança cristã acaba se confundindo com a esperança intramundana do marxismo, expressa na teologia da libertação, e do capitalismo, expressa na teologia da prosperidade, e, no extremo oposto, temos a escatologia futurista que faz da religião um meio de escape da realidade presente, postura esta que acaba por justificar à critica marxista de que a religião é o ópio do povo iv, pois serve como instrumento para manutenção do status quo, tanto por uma atitude de fuga no caso dos dispensacionalistas, como numa atitude de acomodação ao espírito da época na edificação de um cristianismo-cultura como acontece no caso da teologia da prosperidade, na apresentação de um “evangelho” adequado ao “cliente”, que são os “livre consumidores”. Precisamos, continuamente, estarmos nos julgando a nós mesmos e as nossas ações a luz da palavra de Deus para que não sejamos um mero reflexo da sociedade, com seu materialismo, mas, sim, que possamos cumprir nossa missão na terra como agentes do Reino de Deus, agindo como sal da terra e luz do mundo.
Hoje, vivemos numa sociedade de consumo, antes dela o que tínhamos era uma sociedade de produção, onde se exigia muita abnegação e renúncia em prol da produção e também da construção da própria felicidade, realização e prazer que eram adiados para um tempo futuro ou de aposentadoria. Foi a aquela sociedade que Freud se reportou. Mas na tentativa de combater um extremo de repressão, acabamos mergulhando num extremo oposto, num mundo do "não se reprima!", "experimenta!", " No limit!"… Portanto, na sociedade atual de consumo, o que predomina é o individualismo e o hedonismo. Não existe disposição para se adiar nada. Os próprios pais procuram satisfazer todos os desejos dos filhos, que acabam não aprendendo a lidar com frustrações e "nãos". As propagandas, que são o pulmão deste sistema, criam novas "necessidades" e nos falam de uma vida plena de satisfação imediata, tipo êxtase proporcionado pelas drogas. Só que isto é utópico para a maioria das pessoas que estão excluídas dos bens de consumo. Tal frustração, incrementada pelo grande contraste entre a realidade e o sonho, só faz é escancarar ainda mais a porta para o alcoolismo e para o mundo das drogas. As drogas parecem, em algum sentido, ainda que por pouco tempo, proporcionar a sensação de prazer tão valorizada por esta sociedade de consumo. O incremento da violência também é uma outra decorrência! Esta visão tão colorida da vida, que pouco tem a ver com a realidade da grande maioria das pessoas, acaba fomentando ainda mais inveja, cobiça e frustração, não apenas pela ausência do básico, mas, agora, também pela ausência do supérfluo que nos é apresentado como sendo indispensável para a sensação de bem-estar. Temos também que, em nome da felicidade individual e também fascinado pela "grama do vizinho que parece mais verde que a nossa", impaciente e frustrado com as naturais crises do casamento, o indivíduo, está cada dia menos disposto a pagar um preço de renúncia em prol da sobrevivência da relação, e, não tendo disposição de suportar frustração, a curto prazo, para conquistar realização a médio e longo prazo, acaba optando pelo caminho aparentemente mais fácil e de recompensa mais imediata ainda que isto possa lhe custar sua felicidade futura.
A teologia da prosperidade é produto desta sociedade de consumo, prometendo conceder através da fé tudo aquilo que as propagandas dizem que uma pessoa precisa ter para ser feliz. Tal teologia tem domesticado o texto bíblico a fim de adequá-lo a mentalidade consumista, numa tentativa de validar o acumulo de riquezas, o que tem levado muitos crentes a se acomodarem e se amoldarem a este mundo, contrariando os rogos do Aposto Paulo (Rm 12.1-2). Assim sendo, muitas igrejas, em vez de serem um termostato, acabam sucumbindo e se tornam apenas um termômetro que reflete e se ajusta ao clima, só mostrando o clima, mas não influenciando e transformando o clima. Esta teologia faz da fé uma varinha de condão e, do nome de Jesus, uma espécie de abracadabra ou lâmpada de Aladin para a realização de todos os sonhos despertados pela sociedade de consumo. Alguns pastores sucumbem aos encantos do sucesso e, buscando se tornarem celebridades, acabam entrando no espírito deste mundo consumista. Passam a pregar uma mensagem triunfalista e adocicada que esconde o preço do discipulado, nada falando sobre a necessidade da negação de si mesmo e de se carregar cada um a sua própria cruz, nada dizendo também sobre a graça de padecermos por Cristo. Usam Deus e a Bíblia como justificativa e meio para satisfação da ganância humana. Pregadores da teologia da prosperidade estão como que dizendo que tudo está bem e que o sistema é magnífico e que os outros podem também vir a serem ricos como eles. Nada de novo nisto, pois Miquéias 7.2-4 mostra que a injustiça estava institucionalizada e permeava toda a sociedade incluindo os falsos sacerdotes e profetas que, já em sua época, visavam buscar riqueza para si mesmos.
Numa perspectiva bíblica é possível enxergar a pobreza dos ricos, que ainda que sejam ricos para si mesmos, são pobres para com Deus e para com os demais seres humanos. Tal pobreza do rico alimenta a pobreza do pobre. v Hoje, os pastores da teologia da prosperidade, com a promessa de prosperidade e saúde sempre em nome da fé, entram numa competição desenfreada em busca de adeptos ou “consumidores”, chegando a apelar para novidades e “promoções” a fim de atrair o povo. Por falar no povo, é ele a grande vítima de todo este complexo sistema de nossa sociedade consumista, que acabou até seduzindo parte da Igreja evangélica. Diante da grande mentira de que o prazer, o sucesso e o bem-estar físico, econômico e social são o grande alvo da vida e que tudo isto está acessível a todos, iludido, o povo busca no consumo a realização imediata deste ideal, mas, quase sempre, tem que lidar com a realidade de uma vida de privações, injustiça, lutas e muitos sofrimentos. Frustrado, desamparado e só está o “freguês”, sentindo-se fracassado e oprimido pela ditadura do ter. Agora, nem na Igreja encontra respostas para a sua dor, mas apenas ainda mais culpa por não ter tido fé suficiente para ter sido bem sucedido na vida profissional ou para ter sido curado de algum mal.
A espiritualidade cristã não pode ser confundida com prosperidade financeira, nem com sucesso e nem com saúde. Pois, fosse este o caso, não poderíamos considerar nem a Jesus e nem os apóstolos como homens espirituais, visto que eram pobres, ficavam doentes, passaram muitas necessidades, sofreram perseguições, foram presos, desprezados pelo mundo e foram martirizados. Jesus mesmo disse que não tinha onde reclinar a cabeça (Mt 8.20) e não tinha dinheiro sequer para pagar o imposto, tendo que solicitar a Pedro que pescasse um peixe que teria uma moeda dentro de si que serviria para pagar esta divida (Mt 17.24-27), pois sabemos que Jesus, sendo rico se fez pobre (2 Co 8.9). Pedro e João disseram claramente que não possuíam ouro nem prata (At 3.6). Paulo experimentou período de pobreza (Fp 4.11, 2 Co 6.10, Tg 2.5). Comunidades inteiras de cristãos do Novo Testamento eram muito pobres (2 Co 8.2, Rm 15.26, Ap 2.9). A própria Maria, entre todas as mulheres a mais agraciada, não teve um lugar descente para dar a luz ao seu Filho bendito. Todas as portas se fecharam e apenas a porta do curral foi a que se abriu para ela e para José seu esposo. Ela não ficou murmurando e nem ficou rejeitando aquele lugar fétido e incipiente. Ela não ficou ali inconformada reivindicando um lugar condizente a sua condição de bendita entre todas as mulheres. Ela, pelo contrário, aceitou a sua própria cruz, acolheu a bendita graça de padecer por Cristo e não de somente crer nele (Fp 1.13). Foi naquele curral e naquela manjedoura improvisada de berço que se fez Natal. A noite mais feliz da história humana! Eis aí mais um exemplo do privilégio de participar dos sofrimentos de Cristo e completar o que falta de suas aflições (Colossenses 1.24). Perguntaram a William Booth, fundador do Exército de Salvação, qual era o segredo do seu sucesso, ele respondeu: "Deus teve de mim tudo o que Ele quis". Infelizmente os evangélicos seduzidos pelo consumismo têm feito o contrário: exigem de Deus tudo o que eles querem. i Myers, Bryant L. Caminar con Los Pobres. Manual teórico-prático de desarrollo transformador. Buenos Aires: Kairós. 2002. P.51 ii Myers, Bryant L.
Caminar con Los Pobres.
Manual teórico-prático de desarrollo transformador. Buenos Aires: Kairós. 2002. P.52. iii Padilla, C. R. Missão Integral, São Paulo, FTL-B/Temática, 1992. 209 pp. iv Ibid. v Myers, Bryant L.
Caminar con Los Pobres.
Manual teórico-prático de desarrollo transformador.
Buenos Aires: Kairós. 2002. P.59.
Por Bispo Ildo Mello Você já se sentiu invisível? Já experimentou a dor de não ser notado, de não ter espaço, de sentir que sua vida não importa para os sistemas à sua volta?
Essa é a sensação que cinco mulheres do Antigo Testamento experimentaram — e que, com coragem e fé, decidiram enfrentar. A história delas está registrada em
e tem muito a nos ensinar sobre fé ativa, justiça divina e transformação social.
Na cultura hebraica da época, a herança era transmitida apenas aos filhos homens. Quando Zelofeade morreu sem deixar filhos, suas cinco filhas — Maala, Noa, Hogla, Milca e Tirza — se viram sem direito à terra, ao nome da família e a um futuro.
A lei, como estava, não lhes dava nenhuma garantia. O nome do pai seria esquecido, e elas seriam condenadas à invisibilidade.
Essas mulheres poderiam ter se calado. Poderiam ter aceitado seu destino e se resignado à exclusão. Mas não o fizeram.
Elas se apresentaram diante de Moisés, dos líderes e de toda a congregação — um ato surpreendente para mulheres naquele contexto — e questionaram a norma estabelecida.
Não com arrogância ou violência, mas com fé e reverência. Elas criam que Deus é justo e que sua promessa não poderia ser apenas para alguns.
Moisés, diante do pedido, não respondeu por si. Ele levou o caso a Deus. E Deus não apenas ouviu — Ele deu razão às mulheres.
A decisão divina mostrou que a justiça do Reino não está limitada pelas tradições humanas. Deus não é refém de culturas patriarcais nem de sistemas excludentes. Ele vê os esquecidos, ouve os marginalizados e age em favor dos que confiam em Sua justiça.
Essa história mostra que a lei de Deus é viva, dinâmica e sensível às necessidades do ser humano.
A fé dessas mulheres não era passiva. Não esperava tudo cair do céu. Era uma fé que orava, buscava e agia.
Elas acreditavam na promessa da Terra e sabiam que a herança divina era também para elas. E foi.
Ao conquistar o direito à herança, as filhas de Zelofeade não garantiram apenas terras — preservaram a memória do pai e o legado de sua família entre o povo de Deus.
Essa é uma bela lembrança do mandamento de honrar pai e mãe (Êx 20.12), que vai além do respeito pessoal e abrange também a preservação do testemunho e da história familiar.
Num sistema patriarcal, essas cinco irmãs se tornaram símbolos de liderança e transformação.
Elas nos lembram que a voz da mulher tem papel essencial na edificação de uma sociedade mais justa e na expressão da justiça do Reino de Deus.
O apóstolo Paulo afirmou:
“…não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.”
( Gl 3.28)
A história dessas mulheres nos desafia a:
Defender causas justas, mesmo que isso signifique questionar normas tradicionais; Confiar na justiça de Deus, que ouve o clamor dos esquecidos; Agir com sabedoria e reverência, buscando mudança sem confronto hostil; Buscar orientação divina, como fez Moisés, reconhecendo que a verdadeira justiça vem do Senhor.
A história das filhas de Zelofeade não é apenas sobre divisão de terras. Ela é um prenúncio do Reino de Deus.
Um Reino onde: ninguém é invisível, ninguém é excluído, a justiça e a dignidade são para todos.
“O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo.”
( Rm 14.17)
Outros também se levantaram, inspirados pela justiça do Reino:
John Wesley lutou contra a escravidão e pelos marginalizados.
B. T. Roberts, fundador da Igreja Metodista Livre, defendeu os pobres e o ministério feminino.
Martin Luther King Jr. enfrentou o racismo com coragem e fé.
Essas pessoas, assim como as filhas de Zelofeade, se recusaram a aceitar a injustiça como algo normal. Foram instrumentos de mudança.
Se você se sente esquecido, sem voz ou sem valor, saiba que Deus te vê. Deus te ouve. Deus se importa.
E mais do que isso:
Deus te chama a ser parte ativa de Seu Reino.
“Assim como as filhas de Zelofeade não se calaram diante da injustiça, nós também não podemos nos calar.”
Quando a igreja se levanta para defender os que não têm voz, ela manifesta o caráter do Reino.
E que nós, como elas, sejamos agentes dessa transformação — na nossa casa, na igreja e na sociedade.
Afinal, em Cristo, todos somos herdeiros da promessa (Gl 3.29).
As Cinco Filhas de Zelofeade: Fé para Enfrentar a Injustiça by José Ildo Swartele de Mello
–> Wesley e os metodistas primitivos não entravam em pânico quando se deparavam diante de fortes crises morais, pois criam que o status quo não tem a última palavra. Ele ousou acreditar que o mundo poderia ser transformado pelo poder da graça de Deus. Imagine o que seria ter vivido nos dias de Wesley e decidir trabalhar duro para mudar um problema social tão grande como a escravidão, que estava enraizado na sociedade mundial há milhares de anos? Utopia? A última carta que Wesley escreveu antes de morrer foi endereçada a William Wilberforce, um membro do parlamento inglês que havia se convertido no ministério de Wesley e que inspirado por ele, estava agora lutando contra a escravidão. A carta de Wesley expressava sua oposição à escravidão e encorajava Wilberforce a continuar firme na luta por mudança. O parlamento, após mais de 20 anos de ações políticas e sociais encabeçadas por Wilberforce, no ano de 1807 proibiu a participação inglesa no tráfico negreiro. A Inglaterra foi o primeiro país a abolir a escravidão, e, a partir daí, muitos outros foram inspirados e pressionados a fazerem o mesmo.
Wesley formou sociedades antiescravocratas, grupos para reforma de prisões, casas de abrigo e agências de assistência aos pobres, numerosas sociedade missionárias, hospitais e escolas se multiplicaram. Wesley lutou contra o trabalho infantil e em favor de direitos civis. Concentrou seu ministério entre os pobres. O Metodismo foi indiretamente responsável pelo crescimento da autoconfiança e capacidade de organização de trabalho do povo inglês. Em 1928, o Arcebispo Davidson escreveu dizendo que Wesley praticamente mudou a perspectiva e o próprio caráter da nação inglesa. E, alguns historiadores têm mantido que o avivamento wesleyano alterou o curso da história o que livrou a Inglaterra de uma revolução sangrenta. Leliévre afirma que “todos os historiadores concordam que, embora o século XVIII fosse para a Europa continental uma época de dissolução, para a Inglaterra, pelo contrário, foi o momento de uma benéfica mudança, que regenerou a vida de uma nação e iniciou uma era inteiramente nova”. i Edmundo Scherer referiu-se ao metodismo como o movimento que transformou a face da Inglaterra e, Cornélio de Witt disse que, se a Inglaterra de seus dias não se parecia mais com a Inglaterra do início do século XVIII, este fato devia-se principalmente a Wesley. ii Lelièvre comenta ainda que “o nível moral da nação elevou-se de tal modo, que necessariamente se impôs na própria aristocracia, livrando-a da corrupção. iii Seria possível sonhar que o mesmo acontecesse no Brasil?
Quem poderia dizer o que seria se o movimento metodista tivesse ido ainda mais a fundo em questões sociais e se tivesse feito uma melhor crítica do sistema capitalista de livre iniciativa, e se também não tivesse entrado em declínio anos depois da morte de Wesley? Será que seria ingênuo de nossa parte supor que Marx não teria tido tanta inspiração assim para dizer que a religião é o ópio do povo? Sabemos que um século após, Karl Marx irá fazer uma crítica ao capitalismo, mas só que com uma base não muito cristã. Tem sido dito que o avivamento wesleyano salvou a Inglaterra de uma revolução política. Seria possível que uma ainda mais radical ética social no Metodismo poderia ter salvado o mundo de uma revolução comunista, por fazê-la simplesmente desnecessária? iv Vimos aqui alguns fatores que contribuíram para o poderoso ministério de Wesley: sua experiência de avivamento espiritual, sua consagração à missão da Igreja, o dinamismo de seu ministério que concedia participação aos leigos, num sistema de discipulado em grupos pequenos, com uma teologia que cria no poder da graça para transformação de indivíduos, famílias, bairros, cidades e da sociedade como um todo. Trataremos a seguir, com mais detalhes, da importância do sistema de classes no movimento wesleyano para a edificação de comunidades cristãs que tinham como propósito viver e expressar os valores do Reino de Deus. i Lelièvre, Mateo.
João Wesley, sua vida e sua obra.
Tradução de Gordon Chown.
São Paulo: Editora Vida. 1997. P. 371. ii Ibdem, p. 372. citando:
La Societé francaise e la société anglaise au XVIII siècle, p. 237. iii Lelièvre, Mateo.
João Wesley, sua vida e sua obra.
Tradução de Gordon Chown.
São Paulo: Editora Vida. 1997. P. 373. iv Snyder, Howard A. The Radical Wesley and Patterns fo Church Renewal. Eugene, OR: Wipf and Stock Publishers, 1998, p. 158.
Por Bispo José Ildo Swartele de Mello Hoje, vivemos numa sociedade de consumo, antes, o que tínhamos era uma sociedade de produção, onde se exigia muita abnegação e renúncia em prol da produção e também da construção da própria felicidade, realização e prazer que eram adiados para um tempo futuro ou de aposentadoria. Foi àquela sociedade que Freud se reportou. Mas na tentativa de combater um extremo de repressão, acabamos mergulhando num extremo oposto, num mundo do "não se reprima!", "experimenta!", "No limit!"…
Portanto, na sociedade atual de consumo, o que predomina é o individualismo e o hedonismo. Não existe disposição para se adiar nada. Os próprios pais procuram satisfazer todos os desejos dos filhos, que acabam não aprendendo a lidar com frustrações e "nãos".
As propagandas, que são o pulmão deste sistema, criam novas "necessidades" e nos falam de uma vida plena de satisfação imediata, tipo êxtase proporcionado pelas drogas. Só que isto é utópico para a maioria das pessoas que estão excluídas dos bens de consumo. Tal frustração, incrementada pelo grande contraste entre a realidade e o sonho, só faz é escancarar ainda mais a porta para o alcoolismo e para o mundo das drogas. As drogas parecem, em algum sentido, ainda que por pouco tempo, proporcionar a sensação de prazer tão valorizada por esta sociedade de consumo. O incremento da violência também é uma outra decorrência! Esta visão tão colorida da vida, que pouco tem a ver com a realidade da grande maioria das pessoas, acaba fomentando ainda mais inveja, cobiça e frustração, não apenas pela ausência do básico, mas, agora, também pela ausência do supérfluo que nos é apresentado como sendo indispensável para a sensação de bem-estar.
Temos também que, em nome da felicidade individual e também fascinado pela "grama do vizinho que parece mais verde que a nossa", impaciente e frustrado com as naturais crises do casamento, o indivíduo, está cada dia menos disposto a pagar um preço de renúncia em prol da sobrevivência da relação, e, não tendo disposição de suportar frustração a curto prazo para conquistar realização a médio e longo prazo, acaba optando pelo caminho aparentemente mais fácil e de recompensa mais imediata ainda que isto possa lhe custar sua felicidade futura.
A teologia da prosperidade é produto desta sociedade de consumo, prometendo conceder através da fé tudo aquilo que as propagandas dizem que uma pessoa precisa ter para ser feliz. Fazendo da fé uma varinha de condão e, do nome de Jesus, uma espécie de abracadabra ou lâmpada de Aladin para a realização de todos os sonhos despertados pela sociedade de consumo. Alguns pastores sucumbem aos encantos do sucesso e, buscando se tornarem celebridades, acabam entrando no espírito deste mundo consumista. Passam a pregar uma mensagem triunfalista e adocicada que esconde o preço do discipulado, nada falando sobre a necessidade da negação de si mesmo e de se carregar cada um a sua própria cruz, nada dizendo também sobre a graça de padecermos por Cristo. Com a promessa de prosperidade e saúde sempre em nome da fé, entram numa competição desenfreada em busca de adeptos ou "consumidores", chegando a apelar para novidades e "promoções" a fim de atrair o "freguês".
Por falar no "freguês", é ele a grande vítima de todo este complexo sistema de nossa sociedade consumista, que acabou até seduzindo parte da igreja evangélica. Diante da grande mentira de que o prazer, o sucesso e o bem-estar físico, econômico e social são o grande alvo da vida e que tudo isto está acessível a todos, iludido, o freguês busca no consumo a realização imediata deste ideal, mas tem de lidar com a realidade de uma vida de privações, injustiças, lutas e muito sofrimento. Frustrado, desamparado e só está o freguês, sente-se fracassado e oprimido pela ditadura do ter. Agora, nem em boa parte das igrejas, ele encontra respostas para a sua dor, mas apenas ainda mais culpa por não ter tido fé suficiente para conquistar seus anseios, pois a teologia da prosperidade promete tudo rápido através da fé e se não funcionar como prometido, a culpa não é dos pregadores, mas da falta de fé do indivíduo.
Temos sido seduzidos em alguma medida pelo espírito desta sociedade de consumo?
Qual tem sido nossa postura diante disto tudo?
Como agir diante do quadro apresentado acima?
Basta desbloquear o celular, ligar a TV para um jogo de futebol ou entrar num ônibus lotado. A mensagem está em toda parte, insistente e sedutora: aposte, mude de vida, ganhe dinheiro rápido. O que se vende como entretenimento transformou a casa de milhões de brasileiros num cassino aberto 24 horas por dia. Por trás das luzes dos aplicativos e dos sorrisos dos influenciadores, está um dos vícios mais silenciosos do nosso tempo: a ludopatia, o vício em jogos de azar.
O que estamos dispostos a aceitar em nome do entretenimento? Até que ponto a promessa de “jogue com responsabilidade” é real, e até que ponto é apenas uma forma de transferir a culpa para quem menos tem condições de resistir? E, sobretudo: o que a sabedoria das Escrituras, escrita muito antes de qualquer aplicativo existir, já nos ensinava sobre a ganância e o dinheiro fácil?
Os dados confirmam o que já se percebe no dia a dia. Segundo a pesquisa Raio-X do Investidor Brasileiro (Anbima/Datafolha), a proporção de brasileiros que apostam em plataformas online subiu de 14% em 2023 para 17% em 2025. Entre esses apostadores, 11% já se enquadram como jogadores problemáticos e outros 28% estão em risco moderado de dependência, segundo o índice PGSI (Problem Gambling Severity Index) usado na pesquisa — ou seja, quase quatro em cada dez apostadores apresentam algum grau de risco de vício.
O volume movimentado pelas apostas saltou de R$ 4 bilhões para R$ 30 bilhões por mês em três anos, conforme levantamento da Confederação Nacional do Comércio com base em dados do Banco Central. No mesmo período, cerca de 270 mil famílias passaram a viver em situação de inadimplência severa por causa dos gastos com apostas.
Vivemos num país onde a maioria trabalha de sol a sol e ainda assim mal fecha as contas no fim do mês. Para muitos, a ascensão financeira parece um sonho fora de alcance pelas vias normais. É exatamente nessa fresta de cansaço e desesperança que as “bets” se instalam.
Elas não vendem apenas um jogo. Funcionam como uma espécie de bilhete de esperança comprado a crédito. O problema é que, como em qualquer cassino, a casa sempre ganha: o algoritmo não foi desenhado para tirar ninguém da pobreza, mas para transferir o dinheiro de quem já tem pouco para quem já tem muito. Não é acaso que quem mais aposta e mais se endivida costuma ser quem mais precisa do dinheiro.
Uma das frases mais repetidas nos comerciais de apostas é “jogue com responsabilidade”. Soa razoável, mas funciona como uma transferência de culpa. Como exigir responsabilidade de alguém que entrou num sistema desenhado para prender sua atenção? Pedir moderação a quem já está preso nesse ciclo é como dizer a um alcoólatra que beba com moderação. A responsabilidade da plataforma não desaparece porque foi escrita em letras pequenas no rodapé do comercial.
Diferente da dependência química, que deixa marcas visíveis, o vício em apostas é praticamente invisível. Alguém pode estar à mesa com a família, fisicamente presente, com a mente presa a um placar do outro lado do mundo, ansioso para saber se um time vai fazer o número de escanteios em que apostou.
O futebol, que já foi ritual de união entre amigos e família, virou terreno de ansiedade para muita gente. O torcedor foi transformado em investidor nervoso, apostando contra as próprias chances.
Quando o dinheiro acaba, o padrão costuma se repetir: primeiro vem a perda de algo essencial, como o aluguel ou a comida; depois, a ilusão de que apostar mais uma vez recupera o prejuízo; em seguida, os empréstimos disfarçados com parentes ou, em casos mais graves, o envolvimento com agiotas. No fim, casamentos se rompem pela quebra de confiança, o lar vira um ambiente de tensão, e o desespero financeiro empurra muitas pessoas para a depressão, e em alguns casos, para pensamentos de morte.
Se você ou alguém que você ama está enfrentando essa luta, o primeiro passo é romper o silêncio: procurar apoio familiar, buscar ajuda profissional e contar com uma comunidade de fé que acolha sem julgar. Há caminho de volta.
Muito antes de existirem algoritmos e aplicativos, as Escrituras já alertavam sobre a ganância e a ilusão da riqueza rápida:
“A riqueza obtida com facilidade, essa diminui, mas quem a ajunta pelo trabalho, esse a vê aumentar.” (Pv 13.11)
“O homem fiel será cumulado de bênçãos, mas quem tem pressa de enriquecer não ficará sem castigo.” (Pv 28.20)
A promessa de que o dinheiro resolve tudo leva muita gente a sacrificar princípios e famílias. Paulo descreveu com precisão o que se vê hoje entre os viciados em apostas:
“Mas os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos insensatos e nocivos, que levam as pessoas a se afundar na ruína e na perdição. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores.” (1Tm 6.9–10)
A fé cristã é sobre liberdade; o vício, por definição, é escravidão. Quando o celular passa a ditar o humor, o foco e os recursos de alguém, ele ocupou um lugar que só pertence a Deus.
“Todas as coisas me são lícitas”, mas nem todas convêm. “Todas as coisas me são lícitas”, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. (1Co 6.12)
A justiça bíblica também condena sistemas que enriquecem à custa dos pobres e vulneráveis, o que descreve bem a lógica das casas de apostas.
Não vejo espaço para tratar as apostas eletrônicas como entretenimento neutro. O modelo de negócio depende estruturalmente de que uma fração relevante dos apostadores perca o controle; isso não é efeito colateral, é o motor financeiro do sistema. Isso não significa tratar cada jogador como culpado sem discernimento, a Palavra nos chama à compaixão com quem está preso nesse ciclo, mas significa que a Igreja não pode ficar em silêncio diante de um comércio que lucra bilhões enquanto destrói lares.
Como pastores, o cuidado prático inclui falar sobre o tema do púlpito com a mesma naturalidade com que se fala de outros vícios, acompanhar de perto famílias que sinalizam endividamento súbito ou mudança de humor ligada ao celular, e apontar sempre para a liberdade que só se encontra em Cristo, não como fórmula mágica, mas como o único fundamento capaz de sustentar uma vida que recusa se deixar dominar (1Co 6.12).
Bispo Ildo Mello