Quando o evangelho chegou ao Brasil pela primeira vez? Quem foram os primeiros mártires protestantes das Américas, executados na baía de Guanabara? Por que o protestantismo só se enraizou aqui trezentos anos depois? E como a Igreja Metodista Livre chegou a esta terra?
O que esta aula cobre. De 1500 a 2000: o Brasil colonial católico, os huguenotes da Guanabara e os holandeses de Pernambuco, as portas abertas do século 19 (imigração e missões), a explosão pentecostal, e a história da nossa própria casa: a IMeL no Brasil, de 1928 aos nossos dias.
Situando-se na história
Linha do tempo (1500-2000)
1549
Os jesuítas
Nóbrega e, depois, Anchieta: começa a cristandade colonial portuguesa, e o Brasil nasce oficialmente católico.
1557-1558
Guanabara
Calvinistas enviados de Genebra celebram o primeiro culto reformado das Américas; presos, escrevem a Confissão da Guanabara, e três são executados: os primeiros mártires protestantes do continente.
1630-1654
Pernambuco holandês
Sob Nassau, igrejas reformadas e uma tolerância religiosa rara para a época; com a expulsão dos holandeses, o protestantismo é varrido do país por 150 anos.
1810-1824
Portas entreabertas
Tratados com a Inglaterra toleram o culto de estrangeiros; imigrantes alemães luteranos chegam ao sul em 1824.
1855-1882
A era das missões
Kalley e a escola dominical permanente de Petrópolis (1855); Simonton e os presbiterianos (1859); os metodistas (missão definitiva a partir de 1867-1876); os batistas (1882).
1910-1911
Os pentecostais
Francescon funda a Congregação Cristã (1910); Vingren e Berg, vindos com uma palavra sobre o “Pará”, começam em Belém o que viria a ser a Assembleia de Deus (1911).
1928-1936
A IMeL chega
Daniel Nishizumi desembarca em 1928 para evangelizar os imigrantes japoneses; em 1º de novembro de 1936, o primeiro culto metodista livre, com 21 pessoas, em São Paulo.
1946-2024
A IMeL cresce
1946: começa a ala brasileira, com o Pr. Emerenciano; 1966: concílios Nikkei e Paulista; 2003: primeiro bispo brasileiro; 2024: as duas Conferências unidas no Concílio Geral Brasileiro.
Parte 1
O Brasil colonial e a Guanabara
O Brasil nasceu sob a cristandade colonial portuguesa. Os jesuítas, com Nóbrega e Anchieta à frente, catequizaram os povos indígenas, com dedicação real e também com os limites e as violências do projeto colonial; os africanos escravizados foram batizados em massa, quase sempre sem catequese digna desse nome, e ainda assim geraram uma vigorosa fé popular, visível nas irmandades negras, que se tornaram espaços de dignidade, organização e resistência. A mesma cristandade que produziu missionários dedicados conviveu por séculos com a escravidão: julgar essa herança ambígua com honestidade faz parte de contar a nossa história.
O primeiro capítulo protestante, por sua vez, é heroico e breve. Em 1555, franceses fundaram na baía de Guanabara a França Antártica, sob Villegagnon. A pedido dele, Genebra enviou em 1557 um grupo de colonos calvinistas, com dois pastores: no dia 10 de março de 1557, celebraram ali aquele que é tradicionalmente considerado o primeiro culto reformado das Américas.
Villegagnon, porém, voltou-se contra eles. Expulsos e depois rechamados, quatro crentes foram presos e intimados a responder por escrito sobre sua fé. Em poucas horas, no cárcere, redigiram a Confissão de Fé da Guanabara (1558), dezessete artigos firmes e serenos, tradicionalmente considerados o primeiro documento de fé evangélica escrito nas Américas. Três deles, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon, foram executados e lançados ao mar: os protomártires protestantes do continente, mortos onde hoje é o Rio de Janeiro.
Setenta anos depois, o domínio holandês em Pernambuco (1630-1654) trouxe igrejas reformadas, cultos em várias línguas, e, sob Maurício de Nassau, um grau de tolerância religiosa incomum para os padrões coloniais da época, estendido até a judeus (a primeira sinagoga das Américas foi no Recife). Com a expulsão dos holandeses (1654), tudo foi desmontado, e por um século e meio o Brasil ficou oficialmente fechado ao evangelho reformado.
Não trate esses episódios como curiosidade: eles são a nossa memória de que o evangelho no Brasil começou com culto, confissão e sangue, três séculos antes das missões. A semente esmagada na Guanabara germinaria; Deus não perde a hora (Gl 6.9).
Parte 2
O século 19: imigrantes e missionários
As portas se entreabriram com a chegada da corte portuguesa: os tratados de 1810 toleraram o culto (discreto) de estrangeiros, e em 1824 imigrantes alemães luteranos se estabeleceram no sul. Faltava o evangelho em português, para o povo brasileiro. Ele veio pela era das missões que estudamos na aula 4, agora batendo à nossa porta.
Kalley, Sarah e a escola dominical (1855)
Já em 1836, o missionário metodista Justin Spaulding organizara no Rio de Janeiro a primeira escola dominical documentada do Brasil, com dezenas de crianças, inclusive em português. O médico escocês Robert Reid Kalley e sua esposa Sarah chegaram em 1855; em 19 de agosto daquele ano, em Petrópolis, reuniram a escola dominical de caráter permanente que se tornou o marco da expansão evangélica em português. Deles vieram a Igreja Evangélica Fluminense (1858), o hinário Salmos e Hinos e os primeiros convertidos brasileiros do protestantismo de missão.
Simonton e os presbiterianos (1859)
O jovem americano Ashbel Green Simonton chegou ao Rio em 1859, com 26 anos; em oito anos de vida que lhe restaram, plantou igreja, fundou jornal (a Imprensa Evangélica) e um seminário. Morreu aos 34, deixando raiz funda.
Metodistas e batistas
Depois da tentativa pioneira dos anos 1830 (Fountain Pitts e Justin Spaulding), o metodismo se estabeleceu de vez a partir de 1867, com trabalho consolidado por John James Ransom (1876) e, na sequência, escolas que marcaram o país. Os batistas organizaram sua primeira igreja para brasileiros em Salvador, em 1882, com os Bagby e os Taylor. Congregacionais, presbiterianos, metodistas, batistas e episcopais formaram a primeira geração evangélica brasileira.
Os pentecostais (1910-1911)
O italiano Luigi Francescon fundou a Congregação Cristã (1910); os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, movidos por uma palavra profética sobre um lugar chamado “Pará”, desembarcaram em Belém e dali nasceu a Assembleia de Deus (1911). Do movimento que vimos nascer na Rua Azusa, o Brasil se tornaria, ao longo do século, um dos maiores centros pentecostais do mundo.
Parte 3
A Igreja Metodista Livre no Brasil
E chegamos à nossa própria história, que a página Nossa História deste site conta em detalhe. Em 1928, o pastor Daniel Nishizumi (1888-1946) atravessou o oceano para evangelizar os imigrantes japoneses nas lavouras de café do interior paulista, começando com um pequeno grupo de três pessoas.
Em 1º de novembro de 1936, realizou-se o primeiro culto metodista livre do Brasil, com 21 pessoas, à Rua Conde de Sarzedas, 40, em São Paulo. Nishizumi morreu em junho de 1946; em setembro daquele mesmo ano, na casa do Pr. José Emílio Emerenciano (1902-1998), o primeiro pastor brasileiro da denominação, começou o trabalho entre os brasileiros. A obra ganhou organização própria (Concílio Missionário Brasileiro, 1948), cresceu nas duas alas e se estruturou em concílios: Nikkei e Paulista (1966), este renomeado Brasileiro (1971), profetizando a expansão nacional.
Em 2003, a igreja consagrou seu primeiro bispo brasileiro, José Ildo Swartele de Mello; e em 2024, num culto histórico, as Conferências Brasileira e Nikkei se uniram no Concílio Geral Brasileiro, com autonomias preservadas e dois bispos, uma só missão. Hoje a IMeL do Brasil, parte de uma comunhão metodista livre presente em dezenas de países, caminha com convicção missionária, buscando a santidade e o impacto transformador na sociedade.
Repare como a nossa pequena história repete os padrões da série inteira: começa com um migrante levando a fé (como os cristãos anônimos de Antioquia, Série 1); passa de um povo a outro (do japonês ao brasileiro, como a corrente de Patrício e Bonifácio); cresce de três pessoas para um país (como o grão de mostarda, Mt 13.31-32); e une culturas diferentes numa mesa só (como Antioquia e como Azusa). A história da igreja não é assunto de museu: nós somos um capítulo dela.
Fontes primárias
Vozes do evangelho no Brasil
Confissão de Fé da Guanabara · 1558
Escrita no cárcere, em poucas horas
“Cremos em um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra e de todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis, o qual é distinto em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. […] Cremos que Jesus Cristo, quanto a nós, é o único mediador, intercessor e advogado, pelo qual temos acesso ao Pai.”
Dos dezessete artigos respondidos por Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon e André La Fon. Os três primeiros foram executados: os protomártires evangélicos das Américas.
Memória do metodismo brasileiro
A vocação das escolas e da imprensa
A primeira geração missionária brasileira entendeu que evangelizar incluía educar e publicar: a escola dominical de Kalley (1855), a Imprensa Evangélica de Simonton (1864), os colégios metodistas e batistas. O evangelho chegou ao Brasil de Bíblia numa mão e cartilha na outra, herdeiro direto do padrão que vimos em Halle, na Inglaterra de Raikes e nas missões de Carey.
Nossa História · metodistalivre.org.br
O grão de mostarda paulista
“De um pequeno grupo de três pessoas, em 1928, a um Concílio Geral Brasileiro que abraça todo o país. […] ‘Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus’ (1Co 3.6). Que as próximas páginas da nossa história sejam escritas com a mesma fé dos pioneiros.”
A ponte wesleyana
O que o Brasil evangélico deve à família de Wesley
Puxe os fios desta aula e quase todos passam pela família wesleyana. O metodismo plantou aqui igrejas e escolas influentes. O movimento de santidade gerou denominações presentes em todo o país, a nossa entre elas. O pentecostalismo brasileiro, um dos maiores do mundo, é neto do movimento de santidade e bisneto de Wesley, como a aula 6 mostrou. Até o hinário evangélico brasileiro canta Charles Wesley em português, inclusive nas traduções publicadas neste site.
E uma palavra de identidade, com caridade e clareza: num país evangélico majoritariamente pentecostal e crescentemente tomado pela pregação da prosperidade, a vocação da IMeL não é disputar gritos, é oferecer o que herdou: graça para todos, santidade de coração e vida, evangelho aos pobres sem barganha, formação séria na Escritura. Foi para isso que Deus nos trouxe até aqui, de Epworth a Pekin, de Pekin à Rua Conde de Sarzedas.
Da história para a vida
Aplicação pastoral
1
Honre os que chegaram primeiro
Guanabara, Kalley, Simonton, Nishizumi, Emerenciano: o evangelho que você recebeu de graça custou travessias, cárceres e vidas inteiras. Gratidão histórica é antídoto contra a arrogância de achar que a igreja começou conosco (Hb 13.7).
2
Migrante é missionário
A IMeL chegou ao Brasil dentro de um navio de imigrantes. Os migrantes de hoje (venezuelanos, haitianos, bolivianos, nordestinos nas grandes cidades) são campo e força missionária. Sua igreja os vê como Deus os vê?
3
Escreva a próxima página
“Que as próximas páginas da nossa história sejam escritas com a mesma fé dos pioneiros.” De três pessoas em 1928 a um concílio nacional: o mesmo Deus continua multiplicando grãos de mostarda. Qual é o pequeno começo fiel que Ele está pedindo a você (Zc 4.10)?
Fixação
Cartões de memorização
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Avaliação
Teste o que você aprendeu
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
0 de 10 respondidas
Para pensar e conversar
Perguntas para reflexão
A IMeL chegou ao Brasil dentro de um navio de imigrantes, e seu primeiro missionário evangelizava colonos em lavouras de café. Quem são os “imigrantes nas lavouras” do Brasil de hoje, e o que a sua igreja local faria se os visse como Nishizumi via os seus patrícios?Ver resposta sugerida
Os equivalentes atuais têm nome e endereço: venezuelanos e haitianos nas cidades e nos frigoríficos do interior, bolivianos nas oficinas de costura de São Paulo, nordestinos e nortistas nas periferias das metrópoles, brasileiros retornados, e as comunidades de aplicativo que vivem sobre duas rodas sem pertencer a lugar algum. Vê-los como Nishizumi via os seus significa três movimentos que a nossa própria história ensina: ir até eles (Nishizumi foi às lavouras; ninguém veio à igreja primeiro), servir na língua e na cultura deles (culto, célula ou classe no idioma e no horário possíveis a eles, como a ala japonesa fez por décadas antes de gerar a ala brasileira), e formar líderes deles para eles (o alvo nunca foi manter dependentes, foi levantar Emerencianos). A Escritura sela o dever: “o estrangeiro que peregrina entre vocês será como o natural… você o amará como a si mesmo” (Lv 19.34), e Hb 13.2 lembra o que pode estar escondido num migrante. Comece pequeno como a nossa igreja começou: três pessoas e um pastor que atravessou o mar.
Os quatro presos da Guanabara tiveram algumas horas para escrever o que criam, sabendo que a resposta poderia custar-lhes a vida. Se a sua igreja (ou você) tivesse uma noite para redigir a própria confissão, o que não poderia faltar, e por que vale a pena escrevê-la sem estar no cárcere?Ver resposta sugerida
O exercício vale ouro justamente porque não estamos no cárcere. O que não poderia faltar, a própria Confissão da Guanabara ensina pela estrutura: quem é Deus (um só, em três pessoas), quem é Cristo e o que ele fez (único mediador, morte e ressurreição suficientes), como se recebe a salvação (pela graça, mediante a fé), o que são os sacramentos e a igreja, e a esperança final. Note o que os mártires não gastaram tinta defendendo: preferências litúrgicas, polêmicas menores, costumes de época; à beira da morte, sobra o essencial, e essa é a primeira lição. A segunda é pastoral: igreja que nunca formulou o que crê terceiriza sua fé para o último pregador de rede social; um credo escrito, ensinado aos novos e recitado com entendimento, vacina o rebanho (2Tm 1.13-14). Proposta concreta: promova na sua igreja uma noite da confissão: leiam juntos a Confissão da Guanabara (é curta), e depois cada família escreva em uma página o que crê e por quê. Onde faltarem palavras, é ali que falta ensino, e o pastor descobrirá exatamente o que precisa pregar no próximo ano.
Para casa e próxima aula
Para aprofundar. Leia a página Nossa História deste site, com a linha do tempo completa da IMeL no Brasil e as biografias dos pioneiros; e 1 Coríntios 3 com as Notas de Wesley.
Na última aula da série: “A igreja global hoje e as lições de vinte séculos”: onde a igreja está, o que a ameaça, e o que vinte séculos nos ensinam para escrever a próxima página.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.