Inteira Santificação · Aula 2Aula 2

A base bíblica da santidade

“Como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito: ‘Sejam santos, porque eu sou santo’.”1 Pedro 1.15-16 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Lv 11.44-45; 19.1-2; Sl 15; 2Co 3.18; Hb 11–12; 2Pe 1.3-11

Para começar

As perguntas que nos guiam

A doutrina não flutua no ar: ela nasce da Escritura. Três perguntas abrem a aula.

1

O que a Bíblia quer dizer com “santo”?

A palavra aparece cerca de 900 vezes. Se não entendermos o sentido, transformamos santidade numa lista de proibições.

2

Santidade é algo que eu tenho?

Ou é uma relação em que eu entro e que preciso manter? A resposta muda tudo na prática.

3

É realmente alcançável?

A Escritura ordena a santidade — e Deus não ordena o impossível a quem Ele mesmo capacita. Mas de que modo isso é possível nesta vida?

Vocabulário

O sentido de “santo”

Santidade e santo aparecem cerca de 900 vezes na Bíblia. A ideia de fundo é dupla: separado daquilo que é impuro e consagrado à pureza — posto à parte para Deus.

Transcendência

No Antigo Testamento, “santo” descreve Deus em sua distância infinita da criação: “Eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim” (Is 46.9; cf. Sl 99.1-3).

Perfeição moral

Mas também descreve o caráter puro de Deus: “O Senhor dos Exércitos é exaltado em juízo, e o Deus santo é santificado em justiça” (Is 5.16).

Chamar Deus de santo, portanto, não é só dizer que Ele é diferente; é dizer que Ele é bom de um modo que nos julga e nos atrai ao mesmo tempo. E quando Ele chama o seu povo à santidade, chama-o a refletir esse caráter.

Raízes

Santidade no Antigo Testamento: cerimonial e moral

“Consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44). O chamado tem duas faces, e é fácil ficar só na primeira.

Interior · moral

O caráter de Deus na vida

O povo é chamado a cultivar em si o próprio caráter de Deus (Lv 19.2; Nm 15.40). O Salmo 15 traduz isso em exigências éticas: quem habita no monte santo é o de “mãos limpas e coração puro” (cf. Sl 24.4).

A tentação de todo tempo é reter o cerimonial e esvaziar o moral — cuidar da aparência e descuidar do coração. Wesley chamou o remédio disso de “circuncisão do coração”: veja o Sermão 17.

Chave de leitura

Santidade é relação, antes de ser lista

Aqui está a chave que reorganiza tudo: santidade não é, em primeiro lugar, algo que possuímos, mas um relacionamento no qual entramos. Ela é derivada — vem do nosso vínculo com o Deus que é santo.

“Tudo o que tocar o altar será santo.”Êxodo 29.37

O objeto não era santo em si; tornava-se santo pela relação com o altar. Assim também nós: a santidade não é uma qualidade que estocamos, e sim uma comunhão que precisa ser mantida. Cortada a relação, cessa a santidade; mantida a relação, ela cresce.

O fio da história

A presença de Deus: perdida e restaurada

A Bíblia inteira pode ser lida como a história de uma Presença. Deus andava com o homem no Éden (Gn 3.8); o pecado trouxe separação e fez o homem esconder-se (Gn 3.10); e Deus, em vez de desistir, buscou-o e cobriu a sua vergonha (Gn 3.21).

Lv 26.12“Andarei entre vocês e serei o seu Deus.”
Mc 3.14Jesus “designou doze para estarem com Ele” — antes de enviá-los.
1Co 3.16“Vocês são santuário de Deus, e o Espírito de Deus habita em vocês” — no plural: a comunidade é o templo.
Ap 21.3“Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos… o próprio Deus estará com eles.”

A santidade é isto: viver de novo na presença. Não um código a cumprir para merecer Deus, mas a Presença recuperada moldando quem somos.

O alvo

A imagem de Deus, sendo restaurada

O modo mais rico de descrever a santificação é a renovação da imagem de Deus em nós — algo que abrange a pessoa e a comunidade.

“Revestiram-se do novo, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10).
“Predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29; cf. Ef 1.4).
“Somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18).
“Revestir-se do novo homem, criado segundo Deus em justiça e santidade procedentes da verdade” (Ef 4.24).

Dimensão social e missionária. Essa imagem restaurada não é para consumo próprio. Somos sal e luz (Mt 5.13-14); a nossa santificação está voltada à santificação do mundo (Cl 1.20). Como disse Wesley, “a vossa própria natureza é dar sabor a tudo quanto vos rodeia”. As pessoas precisam ver algo da glória de Deus quando olham para nós — tema do Sermão 24.

A medida

Cristo é o padrão da nossa santidade

Nosso alvo não é uma ideia abstrata de perfeição, mas uma Pessoa: Cristo, “o resplendor da glória e a expressa imagem” do Pai (Hb 1.3). A semelhança com Deus é o padrão permanente.

Imitar a Deus e a Cristo

“Sejam imitadores de Deus” (Ef 5.1); andar “como Ele andou” (1Jo 2.6); “sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1).

Onde e como imitá-lo

Não em sua onipotência, mas em seu amor: perdoando como fomos perdoados (Ef 4.32), servindo e lavando os pés uns dos outros (Jo 13.14-15), tendo a mente humilde de Cristo (Fp 2.5-11), seguindo os seus passos (1Pe 2.21).

A promessa

Um alvo alcançável nesta vida

A Escritura fala da maturidade como algo a buscar e alcançar aqui, não apenas na glória.

Efésios 4 nos chama a andar “de modo digno” (v.1), esforçando-nos (v.3), “até que todos cheguemos… à medida da estatura da plenitude de Cristo” (v.13).
Paulo, sem se dar por perfeito, “esquece as coisas que ficam para trás” e “prossegue para o alvo” (Fp 3.12-14).
“Neste mundo somos como Ele” — e por isso temos confiança no dia do juízo (1Jo 4.17).
A graça “nos ensina a viver de modo sensato, justo e piedoso na presente era” (Tt 2.11-14); e o Deus da paz nos “santifica inteiramente” (1Ts 5.23).

O estímulo

A grande nuvem de testemunhas

Como crer que a santidade é possível para gente comum como nós? A Escritura responde apontando para uma multidão: a galeria dos heróis da fé (Hb 11), homens e mulheres falhos que, apesar de tudo, viveram para Deus.

“Visto que estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta.”Hebreus 12.1

Quando aprendi a andar de bicicleta. Guardo bem essa lembrança de menino. A bicicleta parecia grande demais, o equilíbrio, impossível — eu tinha certeza de que iria cair. E caí, várias vezes. O que me fez subir de novo não foi um argumento, foi uma nuvem de testemunhas: os outros meninos da rua já andavam. Se eles conseguiam, aquilo era possível — e se era possível para eles, podia ser para mim. A coragem não veio de olhar para a minha falta de equilíbrio, mas de olhar para quem já pedalava. Um dia o equilíbrio veio, e nunca mais fui esquecido.

É exatamente isso que Hebreus 11 e 12 fazem por nós. Aquela multidão de fiéis não está ali para nos envergonhar, mas para nos animar: viver em santidade é possível — muitos, tão falhos quanto nós, viveram. Por isso o texto não conclui com “desista”, mas com “corramos com perseverança”. E a história da igreja segue cheia de gente comum que levou a sério esse chamado.

E não corremos sozinhos

Capacitados por Deus

“Seu divino poder nos concedeu tudo o que diz respeito à vida e à piedade… para que vocês se tornem participantes da natureza divina” (2Pe 1.3-4). A nuvem nos anima; a graça nos capacita. Não é força de vontade contra o pecado, é o poder de Deus dado a quem crê.

Onde eu fico

A santidade que a Bíblia promete

Reunindo o fio da aula, deixo minha posição explícita.

A santidade bíblica não é uma lista de proibições nem um ideal decorativo. É relação restaurada com o Deus santo, que nos recupera a sua presença, refaz em nós a sua imagem e nos torna sal e luz no mundo. Tem Cristo por padrão, é ordenada como alvo real desta vida e é sustentada por dois apoios que o crente nunca deve soltar: a nuvem de testemunhas, que nos anima a crer que é possível, e o poder de Deus, que nos capacita. Não prometo uma vida sem tropeços; afirmo, com a Escritura, uma vida em que o pecado já não reina. A próxima aula mostra como Deus e nós cooperamos nisso.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Quem é a sua “nuvem de testemunhas”? Cite pessoas — bíblicas ou da sua vida — cujo exemplo te faz crer que a santidade é possível.Ver resposta sugerida
A pergunta é pessoal de propósito. Podem vir nomes de Hebreus 11 (Abraão, Moisés, Raabe, Gideão), mas também um avô fiel, uma professora de escola dominical, um pastor que perdoou. O ponto pastoral é o mesmo da bicicleta: ver alguém pedalar dá coragem para tentar. Se ninguém em santidade te anima hoje, aproxime-se de quem corre bem a corrida (Hb 13.7) e leia as vidas dos que já correram. E lembre: você também é, para alguém mais novo na fé, parte dessa nuvem.
“Ninguém é perfeito, então para que insistir em santidade?” Como responder sem cair nem no conformismo nem na presunção?Ver resposta sugerida
Distinguindo duas coisas que a Escritura distingue: tropeçar e ser governado pelo pecado. É verdade que “todos tropeçamos” (Tg 3.2) e que ainda temos pecado (1Jo 1.8) — isso derruba a presunção. Mas também é verdade que “quem é nascido de Deus não vive em pecado” (1Jo 5.18) — isso derruba o conformismo. Insistimos na santidade não porque nos julgamos perfeitos, mas porque fomos chamados a ela (1Pe 1.15-16) e capacitados para ela (2Pe 1.3-4). Desistir seria descrer da promessa de quem disse que o faria (1Ts 5.24).

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Hebreus 11 inteiro e escolher três “testemunhas” que mais te animam, anotando por quê; e ler o Sermão 17 — A circuncisão do coração, ligando-o à ideia de santidade interior (Sl 15).

Aula 3

Sinergia: a santificação como obra do Deus Trino e como o nosso dever — “Deus opera, por isso trabalhamos” (Fp 2.12-13) — e os meios da graça pelos quais prosseguimos para a perfeição. Ir para a Aula 3 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. · Bispo Ildo Mello