SERMÃO 17

A circuncisão do coração

Pregado na igreja de St. Mary, em Oxford, diante da universidade, em 1º de janeiro de 1733.

Rm 2.29, NAA ⏱ 18 min de leituraSantidade e perfeição

“Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão é a do coração, produzida pelo Espírito, não pela letra.”

(Rm 2.29, NAA)

Antes de ler

Este é um dos mais importantes sermões da juventude de Wesley. Nele já aparecem temas que permaneceriam centrais em toda a sua teologia: santidade interior, humildade, fé, esperança, amor perfeito e inteira dedicação a Deus.

A verdadeira religião não consiste apenas em formas exteriores, ritos ou declarações doutrinárias. A “circuncisão do coração” é a renovação profunda da pessoa pelo Espírito Santo. Ela corta o orgulho, a autossuficiência, os desejos desordenados e o amor ao mundo, dirigindo todas as afeições para Deus.

Wesley resume a santidade cristã em quatro realidades: humildade, fé, esperança e amor. O ponto culminante é o amor perfeito: amar a Deus com todo o ser e amar todas as demais coisas nele, por ele e para a sua glória.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Um homem excelente fez esta triste observação: aquele que hoje prega os deveres mais essenciais do cristianismo corre o risco de ser considerado, por grande parte de seus ouvintes, alguém que anuncia doutrinas novas.

Muitas pessoas conservaram a profissão da religião, mas abandonaram sua essência.

Assim que são apresentadas as verdades que distinguem o Espírito de Cristo do espírito do mundo, elas dizem:

“Você está trazendo coisas estranhas aos nossos ouvidos. Queremos saber o que significam.”

Entretanto, o pregador está apenas anunciando Jesus e a ressurreição, juntamente com sua consequência necessária:

Se Cristo ressuscitou, devemos morrer para o mundo e viver inteiramente para Deus.

2. Essa é uma palavra difícil para a pessoa natural, que está viva para o mundo e morta para Deus.

Ela dificilmente será convencida a recebê-la como verdade divina, a menos que seja explicada de maneira tão fraca que perca todo significado e toda aplicação.

A pessoa natural não recebe as coisas do Espírito de Deus em seu sentido simples e evidente. Elas lhe parecem loucura.

Não consegue conhecê-las porque são discernidas espiritualmente. Somente podem ser percebidas por um sentido espiritual que ainda não despertou nela.

Por isso, rejeita como imaginações humanas aquilo que é sabedoria e poder de Deus.

3. A circuncisão verdadeira é a do coração, realizada pelo Espírito e não apenas pela letra.

A marca que distingue o verdadeiro seguidor de Cristo e aquele que foi aceito por Deus não é a circuncisão exterior, o batismo ou qualquer outra forma externa.

É uma condição correta da alma: mente e espírito renovados segundo a imagem daquele que os criou.

Essa é uma das verdades importantes que somente podem ser discernidas espiritualmente.

Paulo indica isso nas palavras seguintes:

“E o louvor que ele recebe não vem das pessoas, mas de Deus.”

(Rm 2.29, NAA)

É como se dissesse:

“Você que segue seu grande Mestre não espere que o mundo e aqueles que não o seguem digam: ‘Muito bem, servo bom e fiel.’

A circuncisão do coração, selo de sua vocação, é loucura para o mundo.

Espere pelo louvor até o dia da manifestação do Senhor. Naquele dia, você receberá o louvor de Deus diante da grande assembleia de seres humanos e anjos.”

Examinarei:

I. Em que consiste a circuncisão do coração.

II. Algumas conclusões que surgem naturalmente dessa investigação.

I. Em que consiste a circuncisão do coração

1. A circuncisão do coração que recebe o louvor de Deus é, em termos gerais, aquela disposição habitual da alma que as Escrituras chamam de santidade.

Ela implica ser purificado do pecado, de toda impureza da carne e do espírito.

Consequentemente, implica receber as virtudes que existiam em Cristo Jesus; ser renovado no espírito da mente; e tornar-se perfeito em amor, como nosso Pai celestial é perfeito.

2. Mais especificamente, a circuncisão do coração envolve humildade, fé, esperança e amor.

A humildade é uma compreensão correta de nós mesmos.

Ela purifica a mente das ideias exageradas sobre nossa própria perfeição e da opinião indevida sobre nossas capacidades e realizações, frutos naturais de uma natureza corrompida.

Elimina o pensamento:

“Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma.”

(Ap 3.17, NAA)

Convence-nos de que, por natureza, somos miseráveis, pobres, cegos e nus.

Mostra que, em nosso melhor estado e considerados apenas em nós mesmos, somos pecado e vaidade; que confusão, ignorância e erro governam nosso entendimento; e que paixões irracionais, terrenas e pecaminosas procuram dominar nossa vontade.

Em resumo, demonstra que nenhuma parte da alma permanece naturalmente saudável e que os fundamentos de nossa natureza estão desordenados.

3. Ao mesmo tempo, somos convencidos de que não somos capazes de salvar ou restaurar a nós mesmos.

Sem o Espírito de Deus, apenas acrescentamos pecado ao pecado.

Somente ele, por seu poder infinito, realiza dentro de nós tanto o querer quanto o fazer aquilo que é bom.

Sem a ajuda sobrenatural do Espírito, é tão impossível produzirmos um pensamento verdadeiramente bom como seria impossível criarmos a nós mesmos ou renovarmos toda a alma em justiça e verdadeira santidade.

4. Um efeito seguro dessa compreensão correta de nossa pecaminosidade e incapacidade é deixarmos de valorizar excessivamente a honra que vem das pessoas.

Quem conhece a si mesmo não deseja nem valoriza o elogio que sabe não merecer.

Considera coisa de pouca importância ser julgado por um tribunal humano.

Comparando aquilo que o mundo diz a seu favor ou contra ele com o que percebe no próprio coração, reconhece que o mundo, assim como o deus deste mundo, muitas vezes é enganador.

Quanto aos filhos de Deus, ele poderá desejar, se essa for a vontade divina, ser considerado um administrador fiel dos bens do Senhor, especialmente se essa reputação o tornar mais útil aos seus irmãos.

Entretanto, essa utilidade é o único motivo pelo qual deseja a aprovação deles. Não descansa nela.

Sabe que Deus jamais ficará sem instrumentos para realizar sua vontade, pois pode levantar servos até mesmo das pedras.

5. Essa é a humildade aprendida de Cristo por aqueles que seguem seu exemplo e caminham em seus passos.

O conhecimento de sua doença vai purificando-os do orgulho e da vaidade e os prepara para receber o segundo elemento da circuncisão do coração:

A fé, única capaz de restaurá-los e único remédio dado por Deus para curar sua enfermidade.

6. A fé é o melhor guia para os cegos, a luz mais segura para os que estão nas trevas e a instrutora mais perfeita para os que não possuem sabedoria espiritual.

Mas precisa ser uma fé poderosa em Deus para destruir fortalezas.

Ela derruba os preconceitos da razão corrompida, as falsas máximas admiradas pela sociedade, os maus costumes e hábitos e toda a sabedoria do mundo que é loucura diante de Deus.

Essa fé destrói raciocínios e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus e leva todo pensamento cativo à obediência de Cristo.

7. Tudo é possível ao que crê dessa maneira.

Os olhos de seu entendimento são iluminados, e ele reconhece sua vocação: glorificar a Deus, que o comprou por preço tão elevado, no corpo e no espírito, que pertencem a Deus tanto pela criação como pela redenção.

Ele experimenta a extraordinária grandeza do poder daquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos e que também pode dar vida aos que estavam mortos no pecado pelo Espírito que habita neles.

“Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”

(1Jo 5.4, NAA)

Essa fé não é apenas aceitação firme de tudo o que Deus revelou nas Escrituras, especialmente das grandes verdades de que Jesus veio ao mundo para salvar pecadores, levou nossos pecados na cruz e é a expiação não somente pelos nossos pecados, mas pelos de todo o mundo.

É também a revelação de Cristo no coração: evidência divina de seu amor livre e imerecido por mim, pecador; confiança segura em sua misericórdia perdoadora, produzida pelo Espírito Santo.

Por essa confiança, cada verdadeiro crente pode testemunhar:

“Sei que meu Redentor vive. Tenho um Advogado junto ao Pai. Jesus Cristo, o Justo, é meu Senhor e a expiação pelos meus pecados.

Sei que ele me amou e se entregou por mim. Reconciliou a mim, até mesmo a mim, com Deus.

Nele tenho redenção por seu sangue, o perdão dos pecados.”

8. Essa fé demonstra o poder daquele que a inspira.

Ela liberta seus filhos do jugo do pecado e purifica a consciência das obras mortas.

Fortalece-os de tal maneira que já não são obrigados a obedecer aos desejos do pecado.

Em vez de oferecerem os membros do corpo como instrumentos de injustiça, entregam a si mesmos inteiramente a Deus, como pessoas que passaram da morte para a vida.

9. Aqueles que assim nascem de Deus pela fé também recebem forte consolação por meio da esperança.

Esse é o terceiro elemento da circuncisão do coração.

Seu próprio espírito e o Espírito Santo confirmam que são filhos de Deus.

O mesmo Espírito produz neles a confiança clara e alegre de que o coração está voltado para Deus; a segurança de que, pela graça, estão praticando aquilo que lhe agrada; de que caminham na estrada que conduz à vida; e de que, pela misericórdia divina, permanecerão nela até o fim.

O Espírito concede-lhes viva expectativa de receber todas as coisas boas das mãos de Deus e alegre visão da coroa de glória reservada nos céus.

Por essa âncora, o cristão permanece firme no meio das ondas deste mundo conturbado e é preservado de dois rochedos fatais: presunção e desespero.

10. Ele não é desanimado por uma falsa ideia da severidade de Deus nem despreza as riquezas de sua bondade.

Não imagina que as dificuldades da corrida cristã sejam maiores do que a força que Deus lhe concede.

Também não pensa que sejam tão pequenas que possa vencê-las sem empregar toda a força recebida.

Sua experiência na batalha cristã demonstra que seu trabalho no Senhor não é inútil quando faz com dedicação aquilo que encontra para fazer.

Ao mesmo tempo, essa experiência o impede de imaginar que obterá vitória sem esforço ou que a virtude e o louvor serão alcançados por corações desanimados e mãos enfraquecidas.

Ele segue o exemplo de Paulo:

“Assim corro, não sem rumo; assim luto, não como desferindo golpes no ar.”

(1Co 9.26, NAA)

O apóstolo disciplinava o corpo e o reduzia à submissão, para que, depois de pregar aos outros, não viesse a ser desqualificado.

11. Todo bom soldado de Cristo deve aprender, pela mesma disciplina, a suportar dificuldades.

Fortalecido dessa maneira, será capaz de rejeitar não apenas as obras das trevas, mas também todo desejo e afeição que não estejam submetidos à lei de Deus.

“Todo o que tem essa esperança nele purifica a si mesmo, assim como ele é puro.”

(1Jo 3.3, NAA)

Diariamente, pela graça de Deus em Cristo e pelo sangue da aliança, procura purificar as regiões mais profundas da alma dos desejos que anteriormente a dominavam e contaminavam.

Purifica-se da impureza, inveja, maldade, ira e de toda paixão e disposição carnal que nasce da corrupção ou a alimenta.

Sabe que, sendo seu corpo templo de Deus, não deve permitir nele coisa alguma impura.

A santidade convém para sempre à casa em que o Espírito de santidade se digna habitar.

12. Contudo, ainda falta uma coisa àquele que uniu à profunda humildade uma fé firme e uma esperança viva e que, por meio delas, teve o coração amplamente purificado da corrupção interior.

Se deseja ser perfeito, acrescente a tudo isso o amor.

Acrescente o amor, e possuirá a circuncisão do coração.

“O amor é o cumprimento da lei.”

(Rm 13.10, NAA)

O amor é a essência, o espírito e a vida de toda virtude.

Não é somente o primeiro e maior mandamento, mas todos os mandamentos reunidos em um.

Tudo o que é justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou digno de louvor está incluído nesta palavra: amor.

Nele estão a perfeição, a glória e a felicidade.

A lei real do céu e da terra é:

“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força.”

(Mc 12.30, NAA)

13. Isso não significa que estejamos proibidos de amar qualquer coisa além de Deus. O mandamento inclui o amor ao próximo.

Também não significa, como alguns estranhamente imaginaram, que não possamos sentir prazer em qualquer coisa além de Deus.

Pensar assim seria acusar a fonte da santidade de produzir o pecado, pois Deus ligou naturalmente certo prazer ao uso das criaturas necessárias para conservar a vida que ele nos deu.

O verdadeiro significado é explicado claramente por Jesus e pelos apóstolos.

As declarações “O Senhor é o único Deus”, “Não tenha outros deuses”, “Ame o Senhor com todas as forças”, “Apegue-se a ele” e “O desejo de sua alma esteja voltado para seu nome” significam isto:

O único Bem perfeito deve ser seu único objetivo final.

Deseje uma coisa por causa dela mesma: desfrutar daquele que é tudo em todos.

Proponha à alma uma única felicidade: união com aquele que a criou, comunhão com o Pai e com o Filho e união com o Senhor em um só Espírito.

Persiga um único propósito até o fim: desfrutar de Deus no tempo e na eternidade.

Deseje outras coisas somente na medida em que contribuam para esse objetivo.

Ame a criatura quando ela o conduz ao Criador.

Em cada passo, mantenha esse alvo glorioso diante dos olhos.

Subordine a ele cada afeição, pensamento, palavra e ação.

Tudo o que desejar ou temer, procurar ou evitar, pensar, falar ou fazer deve contribuir para sua felicidade em Deus, que é tanto a fonte como o objetivo de sua existência.

Não possua outro objetivo final além de Deus.

Jesus declarou que uma só coisa é necessária.

Paulo disse:

“Uma coisa faço: prossigo para o alvo.”

(Fp 3.13–14, NAA)

Tiago ordenou que os pecadores purificassem as mãos e que os indecisos purificassem o coração.

João ensinou:

“Não amem o mundo nem as coisas que há no mundo.”

(1Jo 2.15, NAA)

Buscar felicidade na satisfação dos sentidos, da imaginação ou do orgulho — em novidade, beleza, poder, grandeza, elogio ou admiração — não procede do Pai, mas do mundo.

Essa busca caracteriza aqueles que não desejam que Deus reine sobre eles.

II. Conclusões e exame pessoal

1. Depois de examinarmos a circuncisão do coração que recebe o louvor de Deus, apresentaremos algumas conclusões que servem como regra para cada pessoa avaliar se pertence ao mundo ou a Deus.

Primeiro, ninguém possui direito ao louvor de Deus enquanto seu coração não for circuncidado pela humildade.

Isso significa tornar-se pequeno e sem importância aos próprios olhos e estar profundamente convencido da corrupção natural que nos afastou da justiça original.

A natureza humana caída está inclinada ao mal e resistente ao bem.

A mentalidade da carne é inimiga de Deus e não se submete à sua lei.

Ninguém recebe o louvor divino enquanto não sente profundamente que, sem o Espírito repousando sobre ele, não consegue pensar, desejar, falar ou realizar coisa alguma verdadeiramente boa e agradável a Deus.

Ninguém recebe esse louvor enquanto não reconhece sua necessidade de Deus e não busca a honra que vem somente dele, deixando de desejar a honra humana, exceto quando ela possa contribuir para a glória divina.

2. Outra conclusão é que ninguém receberá a honra que vem de Deus enquanto seu coração não for circuncidado pela , uma fé produzida pela ação divina.

A pessoa deve deixar de ser conduzida pelos sentidos, apetites e paixões e até mesmo pela razão natural quando ela se torna um guia cego idolatrado pelo mundo.

Deve viver e caminhar pela fé, dirigindo cada passo como alguém que procura aquele que é invisível.

Não deve fixar os olhos nas coisas visíveis e temporárias, mas nas invisíveis e eternas.

Deve governar desejos, planos, pensamentos, ações e conversas como alguém que já entrou além do véu, onde Jesus está assentado à direita de Deus.

3. Seria desejável que conhecessem melhor essa fé aqueles que gastam tanto tempo estabelecendo outro fundamento.

Alguns fundamentam a religião apenas na conveniência eterna das coisas, na excelência natural da virtude, na beleza das ações morais ou em raciocínios abstratos sobre o bem e o mal.

Essas explicações concordam com o fundamento bíblico ou não.

Se concordam, por que confundir pessoas bem-intencionadas com uma nuvem de termos que transforma verdades simples em questões obscuras?

Se não concordam, aqueles que as apresentam devem considerar a origem de sua doutrina.

Mesmo que um anjo do céu anunciasse outro evangelho além do de Cristo, a sentença de Deus já foi pronunciada:

“Que seja anátema.”

(Gl 1.8, NAA)

4. Nosso evangelho não conhece outro fundamento para as boas obras além da fé, nem outro fundamento para a fé além de Cristo.

Também ensina claramente que não somos discípulos de Cristo se negamos que ele seja o autor de nossa fé e de nossas obras e que seu Espírito seja aquele que as inspira e aperfeiçoa.

“Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.”

(Rm 8.9, NAA)

Somente ele pode dar vida aos que estão mortos para Deus e soprar neles a vida cristã.

Somente ele pode preceder, acompanhar e seguir as pessoas com sua graça, conduzindo os bons desejos a resultados santos.

“Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.”

(Rm 8.14, NAA)

Esse é o relato simples de Deus sobre a verdadeira religião e a verdadeira virtude. Ninguém pode estabelecer outro fundamento.

5. Em terceiro lugar, ninguém é verdadeiramente guiado pelo Espírito enquanto esse Espírito não confirmar ao seu espírito que é filho de Deus; enquanto não enxergar diante de si o prêmio e a coroa e não se alegrar na esperança da glória divina.

Enganaram-se profundamente aqueles que ensinaram que não devemos considerar nossa felicidade ao servir a Deus.

Pelo contrário, somos frequentemente orientados a considerar a recompensa, a comparar o trabalho com a alegria colocada diante de nós e as aflições leves e momentâneas com o eterno peso de glória.

Permanecemos estranhos às alianças da promessa e sem Deus no mundo enquanto ele, por sua grande misericórdia, não nos gerar novamente para uma viva esperança de uma herança incorruptível, sem mácula e que não perde seu valor.

6. Se essas coisas são verdadeiras, está na hora de serem honestos consigo mesmos aqueles que estão tão distantes dessa segurança alegre que chegam a discutir com a própria aliança de Deus e a falar contra suas condições.

Alguns afirmam que os mandamentos são severos demais e que ninguém jamais conseguiu ou conseguirá cumpri-los.

Isso não é acusar Deus de ser um senhor cruel, exigindo dos servos mais do que lhes concede capacidade para realizar?

Não seria dizer que ele zombou de suas criaturas indefesas, obrigando-as a realizar o impossível e ordenando-lhes que vencessem sem força própria e sem graça suficiente?

7. No extremo oposto, existem aqueles que imaginam poder cumprir os mandamentos de Deus sem esforço algum.

Esperança inútil!

Como um filho de Adão poderá entrar no Reino de Cristo sem lutar e esforçar-se para entrar pela porta estreita?

Como aquele que nasceu em pecado poderá imaginar ser purificado como seu Senhor é puro sem caminhar em seus passos e tomar diariamente a própria cruz?

Como poderá abandonar antigas opiniões, paixões e disposições e ser santificado completamente no espírito, na alma e no corpo sem uma vida contínua de negação de si mesmo?

8. O próprio Paulo, que suportou fraquezas, insultos, necessidades, perseguições e angústias por amor a Cristo; que realizou sinais e maravilhas; e que foi arrebatado ao terceiro céu, considerava que sua caminhada estaria em perigo sem contínua disciplina.

Ele disse:

“Assim corro, não sem rumo; assim luto, não como desferindo golpes no ar.”

(1Co 9.26, NAA)

Isso ensina claramente que quem não corre dessa maneira e não nega diariamente a si mesmo corre sem segurança e luta inutilmente.

9. Da mesma maneira, fala inutilmente sobre combater o bom combate da fé e espera em vão receber a coroa aquele cujo coração não é circuncidado pelo amor.

O amor elimina o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida e envolve a pessoa inteira — corpo, alma e espírito — na busca ardente de um único objetivo.

O amor é tão essencial ao filho de Deus que, sem ele, mesmo aquele que parece estar vivo é considerado morto diante de Deus.

Ainda que alguém fale as línguas humanas e dos anjos, possua dons proféticos, compreenda mistérios e tenha grande conhecimento, sem amor não passa de som vazio.

Ainda que possua fé capaz de remover montanhas, nada será sem amor.

Ainda que distribua todos os bens aos pobres e entregue o próprio corpo ao sofrimento, nada lhe aproveitará sem amor.

10. Aqui está o resumo da lei perfeita. Esta é a verdadeira circuncisão do coração.

Que o espírito retorne a Deus, que o concedeu, acompanhado de todas as suas afeições.

Que os rios retornem à fonte da qual saíram.

Deus não deseja outro sacrifício além do sacrifício vivo do coração.

Que ele seja continuamente oferecido a Deus por meio de Cristo, em chamas de santo amor.

Nenhuma criatura deve dividir com Deus o coração, pois ele é Deus zeloso.

Não dividirá seu trono com outro. Reinará sem rival.

Nenhum plano ou desejo deve ser admitido no coração se não tiver Deus como objetivo final.

Vivam não para outra coisa, mas para louvar o nome dele.

Que todos os pensamentos, palavras e ações contribuam para sua glória.

Firmem o coração nele e considerem todas as outras coisas somente na medida em que existem nele e procedem dele.

Que a alma seja tão completamente cheia do amor de Deus que nada ame senão por causa dele.

Tenham intenção pura e atenção constante à glória divina em todas as ações.

Fixem os olhos na bendita esperança de sua vocação e façam com que todas as coisas deste mundo contribuam para esse objetivo.

Somente então existirá em nós a mesma atitude que houve em Cristo Jesus.

Isso acontecerá quando, em cada movimento do coração, palavra dos lábios e obra das mãos, nada buscarmos a não ser em relação a Deus e em submissão à sua vontade.

Quando não pensarmos, falarmos ou agirmos para cumprir nossa vontade, mas a vontade daquele que nos enviou.

Quando, comendo, bebendo ou fazendo qualquer outra coisa, fizermos tudo para a glória de Deus.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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