SERMÃO 16
Os meios da graça
Oração, Escritura e Ceia do Senhor — os canais ordinários da graça de Deus.
“Desde os dias dos seus pais, vocês se desviaram dos meus estatutos e não os guardaram.”
(Ml 3.7, NAA)Antes de ler
Como Deus comunica sua graça às pessoas? Devemos apenas esperar passivamente ou utilizar práticas como a oração, a leitura da Bíblia, a pregação e a Ceia do Senhor?
Wesley chama essas práticas de “meios da graça”: sinais, palavras e ações instituídos por Deus como canais ordinários pelos quais ele concede graça preveniente, justificadora e santificadora.
Esses meios não possuem poder mágico, não compram o favor de Deus e não substituem a fé. O mérito pertence exclusivamente a Cristo, e a eficácia vem somente do Espírito Santo. Mesmo assim, desprezar os meios instituídos por Deus é rejeitar o caminho no qual ele normalmente decidiu encontrar-se conosco.
O equilíbrio wesleyano é claro: não confiar nos meios, mas também não abandoná-los; utilizá-los com fé, buscando neles não a prática em si, mas o próprio Deus.
— Bispo Ildo Mello
I. Os extremos relacionados às práticas exteriores
1. Existem ainda ordenanças divinas depois que a vida e a imortalidade foram trazidas à luz pelo evangelho?
Na dispensação cristã, existem meios instituídos por Deus como canais habituais de sua graça?
Essa pergunta dificilmente poderia ter sido levantada na Igreja dos apóstolos, a não ser por alguém que se declarasse abertamente pagão.
Todos os cristãos concordavam que Cristo havia instituído determinados meios exteriores para comunicar sua graça à alma humana.
A prática constante da Igreja colocava isso acima de qualquer dúvida:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.”
(At 2.42, NAA)
2. Com o passar do tempo, quando o amor de muitos esfriou, algumas pessoas começaram a confundir os meios com o fim.
Passaram a colocar a religião mais na realização de obras exteriores do que em um coração renovado segundo a imagem de Deus.
Esqueceram-se de que o alvo do mandamento é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia.
O verdadeiro objetivo é amar o Senhor com todo o coração e o próximo como a si mesmo e ser purificado do orgulho, da ira e dos desejos pecaminosos por meio da fé operada por Deus.
Outros imaginavam que, embora a religião não consistisse principalmente nas práticas exteriores, havia nelas algo que agradava automaticamente a Deus e os tornava aceitáveis, mesmo que negligenciassem as questões mais importantes da Lei: justiça, misericórdia e amor a Deus.
3. É evidente que, para aqueles que abusavam dessas práticas, elas não alcançavam a finalidade para a qual haviam sido instituídas.
Aquilo que deveria contribuir para seu bem tornou-se motivo de queda.
Em vez de receberem bênção, atraíam condenação sobre si. Em vez de se tornarem mais espirituais no coração e na vida, tornavam-se ainda mais endurecidos.
Outros, percebendo que os meios não comunicavam a graça de Deus a essas pessoas, chegaram a uma conclusão geral equivocada: afirmaram que eles não eram meios de graça.
4. Durante muito tempo, porém, o número daqueles que abusavam das ordenanças foi muito maior do que o daqueles que as desprezavam.
Então surgiram homens de grande entendimento e conhecimento, que também pareciam possuir amor e verdadeira experiência da religião interior.
Alguns foram luzes ardentes e brilhantes em sua geração e prestaram grande serviço à Igreja de Cristo, resistindo à crescente impiedade.
Não podemos imaginar que, inicialmente, pretendessem ensinar algo além disto: a religião exterior não possui valor sem a religião do coração.
Deus é Espírito, e seus adoradores devem adorá-lo em espírito e em verdade.
O culto exterior é inútil sem um coração dedicado a Deus. As ordenanças são muito proveitosas quando promovem a santidade interior, mas, quando não fazem isso, são vazias e sem valor.
Quando utilizadas como substitutas da verdadeira religião, tornam-se uma abominação diante do Senhor.
5. Entretanto, não é surpreendente que alguns desses homens, profundamente impressionados com a terrível profanação das ordenanças de Deus, tenham falado como se toda religião exterior não tivesse valor algum.
Em seu zelo pela glória de Deus e pela libertação das pessoas daquele engano, nem sempre utilizaram palavras suficientemente cuidadosas.
Ouvintes desatentos poderiam concluir que condenavam todos os meios exteriores como inteiramente inúteis e que Deus não os havia instituído como canais ordinários de sua graça.
É possível que alguns desses homens piedosos tenham finalmente adotado essa opinião, especialmente aqueles que, pela providência de Deus, foram privados das ordenanças, talvez por viverem perseguidos, sem residência fixa ou escondidos em lugares isolados.
Experimentando a graça de Deus mesmo sem os meios exteriores, poderiam concluir que a mesma graça seria necessariamente concedida àqueles que, por decisão própria, se abstivessem deles.
6. A experiência demonstra como essa ideia se espalha facilmente, especialmente entre pessoas despertadas do sono espiritual e que começam a sentir o peso insuportável de seus pecados.
Elas ficam impacientes com seu estado e procuram qualquer caminho para escapar.
Talvez tenham experimentado diversas práticas exteriores e não encontrado alívio. Pelo contrário, sentiram ainda mais remorso, medo, tristeza e condenação.
Por isso, torna-se fácil convencê-las de que seria melhor abandonar todos esses meios.
Já estão cansadas de lutar aparentemente sem resultado e recebem com satisfação qualquer desculpa para abandonar aquilo que não lhes proporciona prazer e entregar-se à inatividade.
II. O que são os meios da graça
1. Examinemos agora se realmente existem meios da graça.
Por “meios da graça”, entendo sinais exteriores, palavras ou ações instituídos por Deus e destinados a ser canais ordinários pelos quais ele comunica às pessoas graça preveniente, justificadora ou santificadora.
Utilizo essa expressão porque não conheço outra melhor e porque ela tem sido utilizada durante muitos séculos pela Igreja cristã.
Nossa própria Igreja nos ensina a agradecer a Deus pelos meios da graça e pela esperança da glória. Também define o sacramento como sinal exterior da graça interior e meio pelo qual a recebemos.
Os principais meios são:
A oração, tanto em particular quanto na grande congregação;
A investigação das Escrituras, incluindo leitura, pregação, escuta e meditação;
A participação na Ceia do Senhor, comendo o pão e bebendo o cálice em memória de Cristo.
Cremos que Deus instituiu essas práticas como canais ordinários de sua graça para a alma humana.
2. Reconhecemos que todo o valor dos meios depende de sua verdadeira contribuição para o objetivo da religião.
Separados desse objetivo, são menos do que nada e completa inutilidade.
Se não conduzem efetivamente ao conhecimento e ao amor de Deus, não são aceitáveis diante dele. Pelo contrário, podem tornar-se repugnantes e insuportáveis para o Senhor.
Acima de tudo, quando são utilizados como substitutos da religião que deveriam promover, dificilmente existem palavras para descrever a insensatez e a maldade de usar as próprias armas de Deus contra ele e impedir que o cristianismo entre no coração por meio daquilo que foi instituído para introduzi-lo.
3. Também reconhecemos que todos os meios exteriores, quando separados do Espírito de Deus, não produzem benefício algum.
Não podem contribuir nem mesmo no menor grau para o conhecimento ou o amor de Deus.
Toda ajuda verdadeira vem do próprio Senhor. Somente ele, por seu poder infinito, realiza dentro de nós aquilo que lhe agrada.
Todas as coisas exteriores, se Deus não agir nelas e por meio delas, são apenas elementos fracos e pobres.
Aquele que imagina existir poder intrínseco em qualquer meio está profundamente enganado, pois não conhece as Escrituras nem o poder de Deus.
Não existe poder inerente nas palavras pronunciadas em oração, nas letras da Bíblia, no som da pregação ou no pão e no vinho recebidos na Ceia.
Deus é o único doador de toda boa dádiva e o autor de toda graça.
Todo o poder por meio do qual alguma bênção é comunicada à alma pertence a ele.
Sabemos também que Deus pode conceder a mesma graça ainda que não exista qualquer meio exterior disponível.
Nesse sentido, em relação a Deus, não existem meios necessários, pois ele pode realizar sua vontade por meio deles, por outros meios ou sem qualquer meio.
4. Reconhecemos ainda que a utilização de todos os meios jamais poderá pagar por um único pecado.
Somente o sangue de Cristo reconcilia o pecador com Deus. Não existe outra expiação pelos pecados nem outra fonte de purificação.
Todo crente está profundamente convencido de que o mérito pertence somente a Cristo.
Não existe mérito em nossas obras: nem na oração, nem na leitura das Escrituras, nem na pregação, nem na participação na Ceia do Senhor.
Se alguém afirma que “Cristo é o único meio da graça” querendo dizer que ele é a única causa meritória da graça, nenhum conhecedor da graça de Deus discordará.
5. Reconhecemos ainda uma triste verdade: grande parte daqueles que são chamados cristãos continua abusando dos meios da graça para a destruição da própria alma.
Isso acontece com aqueles que se contentam com a forma da piedade, sem possuir seu poder.
Alguns imaginam que já são cristãos porque praticam determinadas coisas, embora Cristo jamais tenha sido revelado no coração e o amor de Deus não tenha sido derramado neles.
Outros acreditam que certamente se tornarão cristãos simplesmente porque utilizam os meios.
Talvez, sem perceber claramente, imaginem que existe algum poder automático nessas práticas que, mais cedo ou mais tarde, os tornará santos.
Ou imaginam que existe algum mérito em utilizá-las, mérito que obrigará Deus a conceder-lhes santidade ou a aceitá-los sem ela.
6. Essas pessoas compreendem muito pouco o grande fundamento de todo o edifício cristão:
“Pela graça vocês são salvos.”
(Ef 2.8, NAA)
Somos salvos da culpa e do poder do pecado e restaurados ao favor e à imagem de Deus, não por obras, méritos ou merecimentos pessoais, mas pela graça gratuita e pela misericórdia de Deus, por causa dos méritos de seu Filho amado.
Não somos salvos por poder, sabedoria ou força existentes em nós ou em qualquer criatura, mas unicamente pela graça e pelo poder do Espírito Santo, que realiza tudo em todos.
7. Contudo, permanece a questão principal.
A pessoa convencida de que ainda não possui essa salvação poderá perguntar:
“Sei que a salvação é presente e obra de Deus, mas como posso recebê-la?”
Se você responde: “Creia, e será salvo”, ela pergunta: “Mas como poderei crer?”
Você responde: “Espere em Deus.”
Ela pergunta:
“Como devo esperar? Utilizando os meios da graça ou abandonando-os? Devo esperar a graça salvadora de Deus enquanto utilizo esses meios ou enquanto permaneço afastado deles?”
8. Não podemos imaginar que a Palavra de Deus tenha deixado sem orientação uma questão tão importante.
Também não podemos pensar que o Filho de Deus, que desceu do céu para nossa salvação, nos tenha deixado sem resposta em uma questão tão intimamente relacionada a ela.
Ele mostrou claramente o caminho que devemos seguir.
Precisamos apenas consultar as Escrituras, perguntar o que está escrito e permanecer em sua decisão. Então não restará dúvida.
III. Os principais meios da graça
1. Segundo a decisão das Escrituras, todos os que desejam a graça de Deus devem esperá-la utilizando os meios que ele instituiu, e não abandonando-os.
Primeiro, todos os que desejam a graça devem esperá-la por meio da oração.
Essa é a orientação expressa de nosso Senhor.
Depois de explicar no Sermão do Monte a natureza da religião e seus principais aspectos, Jesus declarou:
“Peçam, e lhes será dado; busquem, e acharão; batam, e a porta será aberta para vocês.”
(Mt 7.7, NAA)
Somos orientados a pedir para receber, buscar para encontrar a graça de Deus e continuar batendo se desejamos entrar em seu Reino.
2. Para remover toda dúvida, Jesus apela ao coração dos pais.
Se um filho pedir pão, seu pai lhe dará uma pedra? Se pedir peixe, lhe dará uma serpente?
“Ora, se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!”
(Mt 7.11, NAA)
Em outra ocasião, Jesus reuniu todas essas coisas boas em uma só promessa:
“Quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem!”
(Lc 11.13, NAA)
Observe que as pessoas orientadas a pedir ainda não haviam recebido o Espírito Santo em sua plenitude.
Mesmo assim, Jesus ordenou que utilizassem esse meio e prometeu que, pedindo, receberiam o Espírito daquele cuja misericórdia está sobre todas as suas obras.
3. A necessidade de utilizar esse meio aparece também na parábola do amigo que chega à meia-noite.
Um homem pede três pães ao amigo. O outro responde de dentro da casa que não deseja levantar-se.
Jesus declara que, mesmo que não se levante por causa da amizade, levantará por causa da insistência do homem e lhe dará tudo o que necessita.
Então conclui:
“Peçam, e lhes será dado.”
(Lc 11.9, NAA)
Nosso Senhor mostra claramente que podemos receber de Deus, por meio da oração perseverante, aquilo que de outro modo não receberíamos.
4. Jesus contou também a parábola da viúva persistente para ensinar que devemos orar sempre e nunca desanimar.
A viúva continuou apresentando sua causa diante de um juiz que não temia a Deus nem respeitava as pessoas.
Durante algum tempo, ele se recusou a atendê-la. Depois, resolveu fazer justiça porque ela continuava insistindo.
Jesus pergunta:
“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite?”
(Lc 18.7, NAA)
Devemos continuar em oração até recebermos de Deus a resposta que buscamos.
5. O apóstolo Tiago apresenta a mesma orientação:
“Se alguém de vocês necessita de sabedoria, peça-a a Deus.”
(Tg 1.5, NAA)
A palavra “sabedoria” inclui aqui a sabedoria salvadora, a compreensão das coisas de Deus e a capacidade espiritual de recebê-las.
A pessoa que reconhece sua necessidade deve pedir a Deus, que concede generosamente e sem censurar.
6. Tiago acrescenta:
“Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando.”
(Tg 1.6, NAA)
Isso não significa que a pessoa já deva possuir plenamente a fé salvadora antes de pedir por ela.
Seria absurdo afirmar que Deus ordena àquele que sabe não possuir a fé que peça por ela, prometendo concedê-la, e logo depois declarar que não a receberá se ainda não a possuir.
A pessoa deve pedir confiando na bondade e na fidelidade de Deus, sem duvidar de que ele ouve a oração e cumprirá aquilo que prometeu.
Concluímos, portanto, que todos os que desejam a graça devem esperá-la no caminho da oração.
7. Em segundo lugar, todos os que desejam a graça devem esperá-la examinando as Escrituras.
A orientação de Jesus também é clara:
“Vocês examinam as Escrituras […] e são elas mesmas que dão testemunho de mim.”
(Jo 5.39, NAA)
Jesus orientou aqueles que ainda não criam a examinar as Escrituras para que chegassem à fé nele.
A bênção de Deus sobre esse meio aparece na experiência dos bereanos. Depois de ouvirem Paulo, examinaram diariamente as Escrituras para verificar se as coisas eram realmente assim.
“Com isso, muitos deles creram.”
(At 17.12, NAA)
Encontraram a graça de Deus no caminho que ele havia instituído.
Talvez alguns tenham recebido a fé ouvindo a mensagem, e a leitura tenha confirmado essa fé. Entretanto, examinar as Escrituras inclui ouvir, ler e meditar.
8. Esse é um meio pelo qual Deus não apenas concede, mas também confirma e aumenta a verdadeira sabedoria.
Paulo escreveu a Timóteo:
“Desde a infância você conhece as Sagradas Letras, que podem torná-lo sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus.”
(2Tm 3.15, NAA)
E acrescentou que toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, a repreensão, a correção e a educação na justiça, a fim de preparar completamente o servo de Deus para toda boa obra.
9. Paulo estava falando principalmente das Escrituras que Timóteo conhecia desde a infância, isto é, o Antigo Testamento, pois o Novo ainda não havia sido inteiramente escrito.
Como Paulo estava distante de desprezar o Antigo Testamento!
Que isso seja observado por aqueles que tratam com pouco respeito metade dos oráculos de Deus.
O próprio Espírito Santo declara que essas Escrituras são úteis para ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça.
10. As Escrituras não são úteis somente para aqueles que já caminham na luz da presença de Deus, mas também para os que ainda estão em escuridão e procuram aquele que não conhecem.
Pedro chama a Palavra profética de luz que brilha em lugar escuro:
“Vocês fazem bem em prestar atenção a ela, como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça no coração de vocês.”
(2Pe 1.19, NAA)
Todos os que desejam que esse dia nasça em seu coração devem esperá-lo examinando as Escrituras.
11. Em terceiro lugar, todos os que desejam crescer na graça devem esperá-la participando da Ceia do Senhor.
Essa também é uma orientação dada pelo próprio Cristo.
Na noite em que foi traído, ele tomou o pão, deu graças, partiu-o e ordenou que seus discípulos comessem em memória dele.
Depois tomou o cálice e declarou que representava a nova aliança em seu sangue.
“Façam isto em memória de mim.”
(1Co 11.24–25, NAA)
Todas as vezes que comemos desse pão e bebemos desse cálice, anunciamos a morte do Senhor até que ele venha.
Por esses sinais visíveis, diante de Deus, dos anjos e das pessoas, demonstramos nossa lembrança solene de sua morte.
12. A pessoa deve examinar a si mesma: verificar se compreende a natureza e a finalidade dessa instituição e se realmente deseja ser conformada à morte de Cristo.
Depois disso:
“Coma do pão e beba do cálice.”
(1Co 11.28, NAA)
Essas palavras não representam uma simples permissão, mas uma ordem clara.
A ordem é dirigida tanto aos que já possuem paz e alegria na fé como aos que reconhecem sinceramente que a lembrança de seus pecados é dolorosa e seu peso é insuportável.
A Ceia é um meio habitual de receber a graça de Deus:
“O cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?”
(1Co 10.16, NAA)
Comer o pão e beber o cálice são meios exteriores e visíveis pelos quais Deus comunica à alma a graça espiritual, a justiça, a paz e a alegria no Espírito Santo compradas pelo corpo de Cristo entregue e por seu sangue derramado.
Portanto, todos os que desejam sinceramente a graça de Deus devem comer desse pão e beber desse cálice.
IV. Respostas às objeções
1. Embora Deus tenha mostrado claramente o caminho em que deseja ser buscado, inúmeras objeções foram levantadas por pessoas sábias aos próprios olhos.
A primeira e principal é:
“Você não pode utilizar esses meios sem confiar neles.”
Onde isso está escrito?
Mostrem uma declaração clara das Escrituras. Sem ela, não posso receber essa afirmação, pois não estou convencido de que vocês sejam mais sábios do que Deus.
Se realmente fosse impossível utilizar os meios sem confiar neles, Cristo certamente saberia disso e nos teria advertido.
Como não existe nenhuma declaração dessa natureza na revelação de Jesus Cristo, considero essa afirmação falsa.
Alguém poderá dizer:
“Abandone os meios durante algum tempo para descobrir se confia neles.”
Isso significaria desobedecer a Deus para descobrir se confio em minha obediência!
Seria fazer o mal esperando que algum bem resultasse. A condenação daqueles que ensinam assim é justa.
2. Uma segunda objeção afirma:
“Isso é procurar a salvação pelas obras.”
Você compreende o significado dessa expressão?
Nos escritos de Paulo, procurar salvação pelas obras significa buscar ser salvo pela observância ritual da Lei de Moisés ou esperar salvação por causa do mérito de nossa própria justiça.
Como qualquer dessas ideias está envolvida em esperar no caminho que Deus instituiu e crer que ele me encontrará ali porque prometeu fazê-lo?
Espero que Deus cumpra sua Palavra, encontre-me e me abençoe nesse caminho.
Não por causa de alguma obra que pratiquei nem por causa do mérito de minha justiça, mas unicamente pelos méritos, sofrimentos e amor de seu Filho amado.
3. Uma terceira objeção declara:
“Cristo é o único meio da graça.”
Isso é apenas um jogo de palavras.
Quando afirmamos que a oração é meio da graça, queremos dizer que é um canal pelo qual Deus comunica a graça.
Quando alguém afirma que Cristo é o meio da graça, quer dizer que ele é o único que comprou e mereceu a graça e que ninguém vem ao Pai senão por ele.
Quem negaria isso?
São dois sentidos diferentes da palavra “meio”, e a afirmação não responde à questão discutida.
4. Uma quarta objeção afirma:
“As Escrituras não nos orientam simplesmente a esperar pela salvação? Davi não disse que sua alma esperava em Deus, de quem vinha a salvação? Isaías não declarou que esperava no Senhor?”
Tudo isso é verdadeiro. Como a salvação é dom de Deus, devemos esperar nele.
Mas como devemos esperar?
Se Deus instituiu um caminho, podemos encontrar maneira melhor de esperar?
As próprias palavras citadas de Isaías respondem:
“Também através dos teus juízos, Senhor, esperamos em ti.”
(Is 26.8, NAA)
Davi também esperava enquanto guardava a lei do Senhor e procurava aprender seus estatutos.
5. Alguns dizem:
“Deus instituiu outro caminho: ‘Fiquem parados e vejam a salvação do Senhor.’”
Examinemos os textos.
Quando o faraó se aproximou, os israelitas ficaram aterrorizados. Moisés lhes disse que não temessem, mas permanecessem firmes e contemplassem o livramento do Senhor.
Logo depois, porém, Deus ordenou:
“Diga aos filhos de Israel que marchem.”
(Êx 14.15, NAA)
A salvação que deveriam contemplar enquanto permaneciam firmes foi experimentada enquanto avançavam com todas as forças pelo caminho aberto no mar.
A outra passagem trata do rei Josafá. Quando uma grande multidão veio contra Judá, o rei buscou o Senhor e proclamou jejum. Todo o povo reuniu-se para pedir ajuda a Deus.
O Espírito do Senhor declarou que não precisariam lutar, mas que deveriam apresentar-se e contemplar o livramento divino.
No dia seguinte, levantaram-se cedo e saíram. Quando começaram a cantar e louvar, Deus derrotou os inimigos.
Foi assim que contemplaram a salvação do Senhor.
Como qualquer dessas passagens demonstra que não devemos esperar a graça utilizando os meios instituídos por Deus?
6. Uma última objeção afirma:
“Paulo diz: ‘Se vocês morreram com Cristo, por que se sujeitam a ordenanças?’ Portanto, o cristão já não precisa utilizar ordenanças.”
Seria isso dizer:
“Se sou cristão, já não estou sujeito às ordenanças de Cristo”?
A própria contradição demonstra que as ordenanças mencionadas em Colossenses 2 não são as de Cristo, mas os regulamentos cerimoniais judaicos.
As palavras seguintes tornam isso evidente:
“Não toque nisso, não coma disso, não pegue naquilo.”
(Cl 2.21, NAA)
A objeção é, portanto, extremamente fraca.
Permanece inabalável a verdade: todos os que desejam a graça de Deus devem esperá-la nos meios que ele instituiu.
V. Como utilizar os meios da graça
1. Reconhecendo que todos os que desejam a graça devem esperá-la nos meios instituídos por Deus, ainda podemos perguntar em que ordem e de que maneira devem ser utilizados.
Quanto à ordem, podemos observar que existe certa sequência que Deus normalmente utiliza para conduzir o pecador à salvação.
Uma pessoa insensível continua seguindo seu caminho sem pensar em Deus. De repente, Deus a alcança — talvez por meio de uma pregação ou conversa que a desperta; talvez por uma providência solene; talvez por uma ação direta do Espírito, sem qualquer meio exterior.
Agora ela deseja fugir da ira futura e procura ouvir como poderá fazer isso.
Quando encontra um pregador que fala ao coração, fica admirada e começa a examinar as Escrituras para verificar se aquelas coisas são verdadeiras.
Quanto mais ouve e lê, mais se convence. Passa a meditar dia e noite.
Talvez encontre outro livro que explique e aplique aquilo que ouviu e leu na Bíblia. Por todos esses meios, a convicção se aprofunda.
Começa a falar sobre as coisas de Deus, que ocupam seus pensamentos, e também começa a falar com Deus em oração.
Talvez, por medo e vergonha, mal saiba o que dizer. Mesmo sem conseguir expressar-se, não consegue deixar de orar, ainda que apenas com gemidos inexprimíveis.
Deseja também orar com aqueles que conhecem a Deus, reunidos na grande congregação.
Ali, observa outras pessoas aproximando-se da mesa do Senhor e pensa:
“Cristo disse: ‘Façam isto.’ Por que não faço? Sou pecador demais. Não estou preparado. Não sou digno.”
Depois de lutar contra essas dúvidas, finalmente se aproxima.
Assim continua no caminho de Deus: ouvindo, lendo, meditando, orando e participando da Ceia, até que Deus, da maneira que escolher, fale ao seu coração:
“A sua fé salvou você; vá em paz.”
(Lc 7.50, NAA)
2. Observando essa ordem geral, podemos compreender qual meio recomendar a cada pessoa.
Para alcançar alguém indiferente e espiritualmente adormecido, talvez sejam mais adequadas a pregação e uma conversa séria.
Para quem começa a sentir o peso dos pecados, tanto ouvir como ler a Palavra e outros livros espirituais podem aprofundar a convicção.
Também podemos aconselhá-lo a meditar naquilo que lê e a conversar sobre essas coisas, especialmente com pessoas que caminham no mesmo caminho.
Quando a aflição e a tristeza se apoderarem dele, devemos incentivá-lo a derramar o coração diante de Deus, orando sempre e não desanimando.
Quando perceber a pobreza das próprias orações, devemos lembrá-lo de reunir-se com os que temem a Deus e orar com a congregação.
Então as palavras de Cristo sobre a Ceia provavelmente serão trazidas à sua memória, indicando que é hora de acompanhar os movimentos do Espírito Santo.
Assim podemos conduzi-lo passo a passo pelos meios instituídos por Deus, não segundo nossa preferência, mas conforme a providência e o Espírito abrem o caminho.
3. Não existe nas Escrituras uma ordem fixa e obrigatória para todos.
A providência e o Espírito de Deus também não seguem exatamente a mesma sequência em cada pessoa.
Os meios nos quais pessoas diferentes são conduzidas e recebem a bênção de Deus são variados, invertidos e combinados de milhares de maneiras.
Nossa sabedoria consiste em acompanhar as orientações da providência e do Espírito.
Devemos observar as oportunidades que Deus nos oferece e também nossa experiência, percebendo por qual meio o Espírito geralmente trabalha em nosso coração.
Enquanto isso, permanece uma regra geral e segura para todos os que desejam a salvação:
Sempre que houver oportunidade, utilizem todos os meios que Deus instituiu, pois ninguém sabe em qual deles Deus o encontrará com a graça salvadora.
4. Quanto à maneira de utilizar os meios, dela depende sua verdadeira utilidade.
Primeiro, devemos conservar uma percepção viva de que Deus está acima de todos os meios.
Não limite o Todo-Poderoso. Ele faz aquilo que deseja, quando deseja.
Pode comunicar sua graça dentro ou fora de qualquer meio que instituiu.
Talvez apareça durante a oração, a leitura, a pregação ou a Ceia; talvez antes ou depois; talvez quando você estiver impedido de participar deles.
Deus não está impedido.
Está sempre pronto, sempre capaz e sempre disposto a salvar.
“É o Senhor; faça o que bem lhe parecer.”
(1Sm 3.18, NAA)
Segundo, antes de utilizar qualquer meio, grave profundamente na alma:
“Não existe poder nesta prática. Em si mesma, ela é pobre, morta e vazia. Separada de Deus, é uma folha seca e uma sombra.
Também não existe mérito em minha utilização dela. Não há nada aqui pelo qual eu mereça qualquer favor de Deus.”
Mesmo assim, porque Deus ordenou, eu pratico. Porque ele orientou que eu esperasse nesse caminho, aqui espero por sua misericórdia gratuita, da qual vem minha salvação.
Compreenda que a simples realização da obra não possui valor automático.
Não existe poder salvador a não ser no Espírito de Deus, nem mérito a não ser no sangue de Cristo.
Mesmo aquilo que Deus ordena não comunica graça à alma quando a pessoa confia na prática em vez de confiar somente nele.
Por outro lado, aquele que realmente confia em Deus não ficará afastado da graça, mesmo que seja privado de todas as ordenanças exteriores.
Terceiro, ao utilizar todos os meios, busque somente a Deus.
Através de todas as práticas exteriores, olhe exclusivamente para o poder do Espírito e para os méritos do Filho.
Não pare na atividade em si, pois, se fizer isso, todo o esforço será inútil.
Nada menos do que Deus pode satisfazer sua alma. Procure-o em todas as coisas, através delas e acima delas.
Utilize os meios como meios: eles foram instituídos não por causa de si mesmos, mas para a renovação da alma em justiça e verdadeira santidade.
Se realmente contribuem para isso, são bons. Caso contrário, são apenas perda.
Finalmente, depois de utilizar qualquer meio, tome cuidado para não valorizar a si mesmo por causa disso.
Não felicite a si mesmo como se houvesse realizado algo grandioso. Isso transformaria tudo em veneno.
Pense:
“Se Deus não esteve presente, que benefício existe nisso? Talvez eu apenas tenha acrescentado pecado ao pecado. Senhor, salva-me, ou perecerei!”
Se Deus esteve presente e seu amor foi derramado em seu coração, a prática exterior perde importância diante da presença dele.
Você vê, conhece e sente que Deus é tudo em todos.
Humilhe-se profundamente diante dele. Entregue-lhe todo o louvor.
“Para que, em todas as coisas, Deus seja glorificado, por meio de Jesus Cristo.”
(1Pe 4.11, NAA)
Que todo o seu ser declare:
“Cantarei para sempre as misericórdias do Senhor e anunciarei sua fidelidade de geração em geração.”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.