Eu já morri para o pecado — ou ainda vou morrer?
“Vocês morreram” (Cl 3.3) e “façam morrer” (Cl 3.5) estão no mesmo capítulo. Qual é qual?
“Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus.”Romanos 6.11 · NAA
Para começar
A Escritura fala da morte para o pecado ora como algo já acontecido, ora como algo a fazer todo dia. Três perguntas para desatar o nó.
“Vocês morreram” (Cl 3.3) e “façam morrer” (Cl 3.5) estão no mesmo capítulo. Qual é qual?
Se o velho homem foi crucificado (Rm 6.6), de onde vêm as inclinações da carne que ainda sinto?
Uma experiência decisiva de rendição — ou o crescimento paciente de toda a vida? A resposta bíblica é: os dois.
O aspecto decisivo
Há um lado da santificação que a Bíblia descreve como algo já feito, num ponto definido do passado. Não é só um processo lento: há também rupturas.
1 Coríntios 6.11
“Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados.” Os três verbos estão no aoristo — ação pontual, concluída. Como foram justificados em certo momento, também foram santificados.
Romanos 6
Quem está em Cristo “foi crucificado com Ele” (v.6, aoristo); o pecado “não terá domínio sobre vocês” (v.14); e passaram a obedecer “de coração” ao padrão do ensino (v.17).
Por isso Paulo pode chamar cristãos reais, com problemas reais, de “santificados em Cristo Jesus” (1Co 1.2). A santidade tem um ponto de partida objetivo: o que Deus fez por nós e em nós, e que a fé recebe. Há decisões, momentos, experiências de rendição em que a graça avança de modo marcante.
Duas datas
Se “morremos para o pecado” (Rm 6.2), cabe perguntar: quando? A resposta tem duas datas que não competem entre si.
1 · Na cruz
Eu morri quando Cristo morreu por mim. Estou identificado com Ele na sua morte: quando Ele morreu, quebrou o poder do pecado; quando ressuscitou, inaugurou a nova vida em que podemos entrar pela fé.
2 · Na minha experiência
“Fomos sepultados com Ele na morte, por meio do batismo” (Rm 6.4); “vocês ressuscitaram com Cristo” (Cl 3.1); “já se despiram do velho homem… e se revestiram do novo” (Cl 3.9-10). O que é verdade na cruz torna-se minha por fé, no novo nascimento e nas rendições que se seguem.
Uma coisa foi feita por mim, na história; a outra se torna real em mim, pela fé. A morte de Cristo é o fato; a minha morte para o pecado é a apropriação desse fato.
O paradoxo
Aqui está o nó que confunde muitos: se o velho homem já foi crucificado, por que ainda incomoda? Porque um crucificado ainda leva tempo para morrer — e, enquanto isso, se debate para se soltar da cruz.
“Considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus.”Romanos 6.11
O verbo “considerem-se” (ou “tende-vos por”) é um chamado a tornar-se quem você já é em Cristo. Você está morto para o pecado e vivo para Deus — então viva assim. Quem morreu para o pecado deve seguir despojando-se do velho homem e mortificando as obras da carne, não para conquistar uma posição, mas para ocupar a que já lhe foi dada.
O aspecto contínuo
Se há rupturas, há também crescimento. A santificação não termina numa experiência; ela continua até a glória.
Crise e processo não são teorias rivais. São o mesmo caminho visto de perto e de longe: momentos em que a graça avança de modo marcante, dentro de um crescimento que não para — “nenhum nível de perfeição que não admita crescimento contínuo” (Sermão 40).
Realismo até o fim
Convém dizer com todas as letras, para não prometermos o que a Escritura não promete: a vida santa não é um estado de descanso sem conflito. Vestimo-nos da armadura para a batalha, não para a folga.
“Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito… eles se opõem um ao outro.”Gálatas 5.16-17
O conflito permanece — e é justamente por isso que a exortação continua necessária: “vivam pelo Espírito”. A promessa não é a ausência de guerra, mas a vitória disponível a cada dia a quem anda no Espírito (Rm 8.13-14). Enquanto durar esta vida, a armadura não sai (Ef 6.10-18).
Onde eu fico
Reunindo os dois lados, deixo minha posição explícita.
Creio que a santificação tem crise e processo. Há momentos decisivos — a conversão, rendições profundas, experiências marcantes da plenitude do Espírito — em que Deus faz avançar a sua obra de modo real. E há um crescimento diário, com mortificação da carne e uso dos meios da graça, que não cessa deste lado da glória. Recuso, por isso, dois erros. O de quem reduz tudo a um único toque que resolveria de vez a luta e dispensaria a vigilância. E o de quem, temendo esse exagero, nega qualquer experiência decisiva e transforma a santidade num gradualismo sem esperança. O caminho bíblico guarda os dois: buscar de coração as rupturas que Deus quer operar, e caminhar todos os dias na graça que Ele fornece — com a armadura vestida, correndo com perseverança.
Para concluir
Chegamos ao fim do curso. Vale recolher o fio das quatro aulas antes das perguntas finais.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
0 de 5
Para pensar e conversar
Tarefas
Escrever meia página respondendo às três perguntas iniciais desta aula à luz do que você aprendeu; e ler o Sermão 14 — O arrependimento dos crentes, ligando-o à mortificação diária (Rm 8.13).
Revisar o curso
Retome as quatro aulas com a sua classe: o que é/não é a santidade, a sua base bíblica, a sinergia da graça e a vida entre crise e processo. Voltar à Aula 1 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. · Bispo Ildo Mello