SERMÃO 13

Sobre o pecado nos crentes

Contra as conclusões apressadas: o pecado que ainda permanece nos que creem.

2Co 5.17, NAA ⏱ 23 min de leituraPecado e arrependimento

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”

(2Co 5.17, NAA)

Antes de ler

Quando uma pessoa é justificada e nasce de novo, todo pecado é imediatamente eliminado de seu coração? Ou o pecado permanece presente, embora já não governe sua vida?

Neste sermão, Wesley enfrenta uma questão central para a compreensão da santificação. Ele rejeita dois extremos. O primeiro descreve o crente como alguém ainda escravizado pelo pecado, quase sem diferença em relação ao não convertido. O segundo afirma que, no momento da justificação, todo pecado interior é completamente destruído.

A posição de Wesley é clara: quando somos justificados, somos verdadeiramente renovados, libertos da culpa e do domínio do pecado. Entretanto, ainda permanecem no coração tendências como orgulho, vontade própria, incredulidade, ira e amor ao mundo. Elas não reinam, mas precisam ser continuamente combatidas pela fé e pela graça.

Reconhecer a presença do pecado não deve conduzir ao desespero, mas à vigilância e à busca da plena santificação.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

I. A questão apresentada

1. Existe pecado naquele que está em Cristo? O pecado permanece em alguém que crê nele? Existe algum pecado nos que nasceram de Deus, ou eles foram completamente libertos de todo pecado?

Ninguém deve imaginar que esta seja apenas uma questão de curiosidade ou que tenha pouca importância qual resposta oferecemos.

Trata-se de uma questão extremamente importante para todo cristão sincero, pois sua correta compreensão está intimamente relacionada à felicidade presente e eterna.

2. Não tenho conhecimento de que essa questão tenha sido discutida na Igreja Primitiva. Na verdade, não havia motivo para debate, pois os cristãos concordavam entre si.

Até onde pude observar, todos os antigos cristãos que deixaram escritos afirmavam que os crentes em Cristo, enquanto ainda não estivessem fortalecidos no Senhor e na força de seu poder, precisavam lutar tanto contra uma natureza corrompida quanto contra os principados e as potestades.

3. Neste ponto, nossa própria Igreja segue exatamente o ensino da Igreja Primitiva.

Seu nono artigo declara, em resumo, que o pecado original é a corrupção da natureza de todos os seres humanos, pela qual são naturalmente inclinados ao mal, de modo que a carne deseja aquilo que é contrário ao Espírito.

Essa corrupção da natureza permanece até mesmo naqueles que foram regenerados. Por isso, a inclinação da carne não se submete à lei de Deus.

Embora já não exista condenação para os que creem, essa inclinação possui em si mesma a natureza do pecado.

4. O mesmo testemunho é apresentado por outras igrejas, não apenas pelas igrejas grega e romana, mas pelas igrejas reformadas da Europa, independentemente de sua denominação.

Algumas, porém, parecem levar essa afirmação longe demais.

Descrevem a corrupção existente no coração do crente de tal maneira que quase não reconhecem que ele possui domínio sobre ela. Parece que o crente continua escravizado pelo pecado.

Dessa forma, deixam pouca diferença entre aquele que crê e aquele que não crê.

5. Para evitar esse extremo, algumas pessoas bem-intencionadas, especialmente aquelas orientadas pelo falecido conde Zinzendorf, caíram no extremo oposto.

Afirmaram que todos os verdadeiros crentes foram salvos não somente do domínio do pecado, mas também da própria existência do pecado interior e exterior, de modo que ele já não permanece neles.

Cerca de vinte anos atrás, muitos de nossos compatriotas receberam deles a mesma opinião: a corrupção da natureza deixou completamente de existir naqueles que creem em Cristo.

6. É verdade que, quando alguns alemães foram questionados sobre essa posição, logo reconheceram que o pecado ainda permanecia na carne, embora não no coração do crente.

Depois que se mostrou o absurdo dessa distinção, muitos abandonaram essa ideia e reconheceram que o pecado permanece naquele que nasceu de Deus, embora já não reine sobre ele.

7. Entretanto, os ingleses que receberam essa opinião — alguns diretamente, outros por meio de uma segunda ou terceira pessoa — não foram tão facilmente convencidos a abandonar sua ideia favorita.

Mesmo depois que a maioria compreendeu que ela era completamente indefensável, alguns poucos continuaram sustentando-a.

II. Definição da questão

1. Para ajudar aqueles que verdadeiramente temem a Deus e desejam conhecer a verdade que está em Jesus, convém examinar essa questão com calma e imparcialidade.

Utilizarei, neste sermão, as expressões “regenerado”, “justificado” e “crente” de maneira equivalente.

Elas não possuem exatamente o mesmo significado. A regeneração indica uma transformação interior e real; a justificação, uma mudança em nossa relação com Deus; e a fé, o meio pelo qual recebemos as duas.

Entretanto, estão inseparavelmente ligadas, pois todo aquele que crê é justificado e nasce de Deus.

2. Por “pecado”, entendo aqui o pecado interior: qualquer disposição, paixão ou afeição pecaminosa.

Isso inclui orgulho, vontade própria, amor ao mundo em qualquer forma ou grau, desejos impuros, ira, irritação ou qualquer disposição contrária à atitude que houve em Cristo.

3. A questão não é se um filho de Deus pratica ou não pecado exterior.

Concordamos e afirmamos firmemente que aquele que vive na prática do pecado procede do diabo e que aquele que nasceu de Deus não vive pecando (1Jo 3.8–9).

Também não estamos perguntando se o pecado interior permanecerá para sempre nos filhos de Deus, ou se continuará na alma enquanto ela permanecer no corpo.

Não estamos discutindo se uma pessoa justificada pode voltar a cair no pecado interior ou exterior.

A pergunta é simplesmente esta:

Uma pessoa justificada e regenerada é liberta de todo pecado no mesmo instante em que é justificada? A partir daquele momento não existe mais nenhum pecado em seu coração, a menos que venha a cair da graça?

4. Reconhecemos que a condição da pessoa justificada é indescritivelmente grande e gloriosa.

Ela nasceu novamente, não do sangue, da vontade da carne ou da vontade humana, mas de Deus (Jo 1.13).

É filha de Deus, membro de Cristo e herdeira do Reino dos Céus.

A paz de Deus, que excede todo entendimento, guarda seu coração e sua mente em Cristo Jesus (Fp 4.7).

Seu corpo é templo do Espírito Santo e habitação de Deus no Espírito.

Ela foi criada novamente em Cristo Jesus. Foi lavada e santificada.

Seu coração é purificado pela fé. Ela escapa da corrupção existente no mundo, e o amor de Deus é derramado em seu coração pelo Espírito Santo.

Enquanto continua andando em amor — o que pode fazer continuamente —, adora a Deus em espírito e em verdade.

Guarda os mandamentos de Deus, pratica aquilo que é agradável aos seus olhos e procura manter uma consciência limpa diante de Deus e das pessoas.

Desde o momento em que foi justificada, recebeu poder sobre o pecado exterior e também sobre o pecado interior.

III. O testemunho das Escrituras e da experiência

1. Mas a pessoa justificada não foi liberta de todo pecado, de modo que não existe pecado algum em seu coração?

Não posso afirmar isso nem acreditar nisso, porque Paulo afirma o contrário.

Falando aos crentes e descrevendo sua condição em geral, o apóstolo declara:

“Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito luta contra a carne, porque são opostos entre si.”

(Gl 5.17, NAA)

Nada poderia ser mais claro.

Paulo afirma diretamente que a carne, isto é, a natureza corrompida, se opõe ao Espírito até mesmo nos crentes. Existem nos regenerados dois princípios opostos entre si.

2. Ao escrever aos crentes de Corinto, aqueles que haviam sido santificados em Cristo Jesus, Paulo declarou:

“Eu, porém, irmãos, não pude falar a vocês como a pessoas espirituais, e sim como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo.”

(1Co 3.1, NAA)

E acrescentou que ainda eram carnais, pois existiam entre eles invejas e brigas.

Paulo estava falando com pessoas que eram verdadeiramente crentes e as chamava de irmãos e crianças em Cristo. Mesmo assim, reconhecia que ainda eram, em alguma medida, carnais.

Havia inveja, uma disposição pecaminosa, que produzia conflitos entre eles. Entretanto, o apóstolo não dá qualquer indicação de que haviam perdido a fé.

Pelo contrário, afirma claramente que ainda eram crianças em Cristo.

Ele fala de ser carnal e de ser criança em Cristo como coisas que podiam coexistir. Isso mostra claramente que todo crente, enquanto é apenas uma criança em Cristo, ainda possui algum grau de carnalidade.

3. O ensino de que existem no crente dois princípios opostos — natureza e graça, carne e Espírito — atravessa todas as cartas de Paulo e, na verdade, todas as Escrituras.

Quase todas as orientações e exortações bíblicas se fundamentam nessa realidade.

Os autores inspirados apontam disposições e práticas erradas em pessoas que, apesar disso, são reconhecidas como crentes.

Essas pessoas são continuamente exortadas a lutar contra essas disposições e vencê-las por meio da fé que receberam.

4. Quem poderia duvidar de que havia fé no anjo da igreja de Éfeso quando o Senhor lhe disse:

“Conheço as suas obras, tanto o seu esforço como a sua perseverança.”

(Ap 2.2, NAA)

O Senhor reconheceu que ele havia suportado dificuldades por causa de seu nome e não havia desanimado.

Mas isso significava que não havia pecado em seu coração?

Não. Caso contrário, Cristo não teria acrescentado:

“Tenho, porém, contra você o seguinte: você abandonou o seu primeiro amor.”

(Ap 2.4, NAA)

Isso era verdadeiro pecado, percebido por Deus em seu coração, e por isso ele foi chamado ao arrependimento. Mesmo assim, não temos autoridade para dizer que já não possuía fé.

5. O anjo da igreja de Pérgamo também foi chamado ao arrependimento, o que implica a presença de pecado, embora o Senhor tenha declarado:

“Você não negou a fé em mim.”

(Ap 2.13, NAA)

Ao anjo da igreja de Sardes, Jesus disse:

“Fortaleça o que resta e que estava para morrer.”

(Ap 3.2, NAA)

O bem que permanecia estava quase morrendo, mas ainda não estava morto. Portanto, ainda existia alguma fé, e ele foi ordenado a conservar aquilo que possuía.

6. Quando Paulo exorta os crentes a purificarem-se de toda impureza da carne e do espírito (2Co 7.1), ensina claramente que ainda não estavam inteiramente purificados dessas coisas.

Alguém poderá responder:

“Aquele que se abstém de toda forma de mal automaticamente se purifica de toda impureza.”

Isso não é verdade.

Suponha que alguém me ofenda. Sinto ressentimento, que é uma impureza do espírito, mas não digo uma única palavra.

Nesse caso, abstive-me da manifestação exterior do mal. Entretanto, isso não me purificou do ressentimento interior que senti, como reconheço com tristeza.

7. A afirmação de que não existe pecado no crente, nem mentalidade carnal ou tendência para se afastar de Deus, é contrária à Palavra de Deus e também à experiência de seus filhos.

Eles percebem continuamente no coração uma inclinação para se afastar, uma tendência natural para o mal e uma propensão a abandonar Deus e apegar-se às coisas terrenas.

Diariamente reconhecem que permanecem dentro deles orgulho, vontade própria e incredulidade.

Também percebem que o pecado se mistura com suas palavras e ações, até mesmo com suas melhores obras e com seus deveres mais santos.

Ao mesmo tempo, sabem que pertencem a Deus.

O Espírito confirma claramente ao espírito deles que são filhos de Deus. Eles se alegram em Deus por meio de Jesus Cristo, por quem receberam a reconciliação.

Possuem igual certeza de que o pecado permanece neles e de que Cristo está neles, a esperança da glória.

8. Mas Cristo pode habitar no mesmo coração em que existe pecado?

Sem dúvida. Caso contrário, o coração jamais poderia ser salvo do pecado.

Onde está a enfermidade, ali está também o Médico:

Realizando dentro de nós sua obra, lutando até expulsar o pecado.

Cristo não pode reinar onde o pecado reina. Também não habita em um coração que aceita e tolera conscientemente algum pecado.

Entretanto, ele está presente e habita no coração de todo crente que luta contra todos os pecados, embora esse coração ainda não tenha sido inteiramente purificado.

9. Já observamos que a doutrina de que não existe pecado nos crentes é completamente nova na Igreja de Cristo.

Durante aproximadamente mil e setecentos anos, ela não foi ouvida, até ser apresentada pelo conde Zinzendorf.

Não me lembro de encontrar a menor indicação dessa ideia em autores antigos ou modernos, a não ser, talvez, entre alguns antinomianos descontrolados.

Mesmo eles afirmavam e negavam a doutrina ao mesmo tempo, reconhecendo que existia pecado em sua carne, embora não em seu coração.

Uma doutrina verdadeiramente nova deve ser considerada errada, pois a religião antiga é a verdadeira, e nenhuma doutrina pode estar correta se não for a mesma que existia desde o princípio.

10. Outro argumento contra essa doutrina nova e antibíblica pode ser retirado de suas terríveis consequências.

Uma pessoa diz: “Hoje senti ira.”

Devo responder: “Então você não possui fé”?

Outra declara: “Sei que seu conselho é bom, mas minha vontade é completamente contrária a ele.”

Devo dizer: “Então você é incrédulo e está debaixo da ira e da maldição de Deus”?

Qual será a consequência natural disso?

Se acreditar no que digo, a pessoa ficará profundamente entristecida e ferida e talvez seja espiritualmente destruída. Abandonará a confiança que possui grande recompensa.

Depois de lançar fora o escudo da fé, como apagará os dardos inflamados do Maligno? Como vencerá o mundo, se a vitória que vence o mundo é a nossa fé?

Ficará desarmada no meio de seus inimigos e exposta a todos os ataques.

Não é surpreendente que seja derrotada, levada cativa e caia de uma maldade para outra.

Não posso aceitar a afirmação de que nenhum pecado permanece no crente desde o momento em que é justificado.

Primeiro, porque é contrária ao ensino geral das Escrituras.

Segundo, porque é contrária à experiência dos filhos de Deus.

Terceiro, porque é uma doutrina inteiramente nova.

Finalmente, porque produz consequências extremamente perigosas, entristecendo aqueles que Deus não entristeceu e talvez arrastando-os para a perdição.

IV. Respostas às objeções

1. Ouçamos com imparcialidade os principais argumentos daqueles que procuram defender essa doutrina.

Primeiro, procuram demonstrar pelas Escrituras que não existe pecado no crente.

Argumentam assim:

“A Escritura afirma que todo crente nasceu de Deus, está limpo, é santo, santificado, puro de coração, possui um coração novo e é templo do Espírito Santo.

Aquilo que nasceu da carne é carne e completamente mau; aquilo que nasceu do Espírito é espírito e completamente bom.

Uma pessoa não pode estar limpa, santificada e santa e, ao mesmo tempo, impura, não santificada e profana.

Não pode ser simultaneamente pura e impura nem possuir um coração novo e um coração velho.

Sua alma também não pode ser profana enquanto é templo do Espírito Santo.”

Apresentei essa objeção da maneira mais forte possível, para que seu peso seja plenamente considerado.

Examinemos cada parte.

“Aquilo que nasceu do Espírito é espírito e completamente bom.”

Aceito o texto, mas não essa interpretação.

O texto afirma somente que toda pessoa nascida do Espírito é uma pessoa espiritual. Isso é verdade.

Entretanto, alguém pode ser espiritual sem ser inteiramente espiritual.

Os cristãos de Corinto eram pessoas espirituais; caso contrário, não seriam cristãos. Mesmo assim, não eram inteiramente espirituais. Ainda eram, em parte, carnais.

Alguém dirá: “Eles haviam caído da graça.”

Paulo afirma que não. Ainda eram crianças em Cristo.

“Mas uma pessoa não pode estar limpa, santificada e santa e, ao mesmo tempo, ser impura, não santificada e profana.”

Pode, sim, em sentidos diferentes. Foi exatamente o caso dos coríntios.

O apóstolo lhes disse:

“Vocês foram lavados, foram santificados.”

(1Co 6.11, NAA)

Haviam sido purificados da imoralidade, da idolatria, da embriaguez e de outros pecados exteriores.

Ao mesmo tempo, em outro sentido, ainda não estavam inteiramente santificados. Ainda não haviam sido purificados interiormente da inveja, das suspeitas e da parcialidade.

“Certamente não possuíam ao mesmo tempo um coração novo e um coração velho.”

Possuíam. Naquele momento, seu coração havia sido verdadeiramente renovado, mas ainda não inteiramente.

A mentalidade carnal havia sido pregada na cruz, mas ainda não havia sido totalmente destruída.

“Poderiam ser profanos enquanto eram templos do Espírito Santo?”

Sim. É certo que eram templos do Espírito Santo e igualmente certo que possuíam algum grau de carnalidade, isto é, de falta de santidade.

2. Outra passagem, dizem, resolveria definitivamente a questão:

“Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”

(2Co 5.17, NAA)

Certamente, dizem, uma pessoa não pode ser ao mesmo tempo uma nova criatura e uma velha criatura.

Pode, sim. Pode ter sido parcialmente renovada, como aconteceu com os coríntios.

Eles haviam sido renovados no espírito da mente; caso contrário, não seriam crianças em Cristo.

Entretanto, ainda não possuíam inteiramente a atitude de Cristo, pois sentiam inveja uns dos outros.

Alguém insistirá:

“Está escrito claramente que as coisas antigas passaram e que tudo se tornou novo.”

Não podemos interpretar as palavras de Paulo de uma maneira que faça o apóstolo contradizer a si mesmo.

O significado simples é este: a antiga compreensão da pessoa sobre justificação, santidade, felicidade e as coisas de Deus passou.

Seus antigos desejos, projetos, afetos, disposições e comportamentos também passaram.

Tudo isso se tornou novo, tendo sido profundamente transformado.

Entretanto, embora sejam novos, ainda não são inteiramente novos.

O crente ainda percebe, para sua tristeza e vergonha, restos da velha natureza e marcas de suas antigas disposições.

Essas coisas, porém, não conseguem dominá-lo enquanto ele permanece vigilante em oração.

3. O argumento “se está limpo, então está completamente limpo” ou “se é santo, então é completamente santo” não passa de um jogo de palavras.

É a falácia de chegar a uma conclusão geral com base em uma afirmação particular.

O argumento completo seria:

“Se possui alguma santidade, possui toda a santidade.”

Isso não é verdade.

Toda criança em Cristo é santa, mas ainda não inteiramente santa.

Ela foi salva do pecado, mas ainda não completamente. O pecado permanece, embora não reine.

Aquele que imagina que nenhum pecado permanece, pelo menos nas crianças em Cristo, ainda não considerou a altura, a profundidade, o comprimento e a largura da lei de Deus — a lei do amor apresentada em 1Coríntios 13.

Todo desvio ou falta de conformidade com essa lei é pecado.

Não existe nenhuma falta de conformidade com ela no coração ou na vida de um crente?

A condição de um cristão amadurecido é outra questão. Mas alguém precisa conhecer muito pouco a natureza humana para imaginar que toda criança em Cristo já está perfeitamente de acordo com essa lei.

4. Outra objeção:

“Os crentes andam segundo o Espírito e o Espírito de Deus habita neles. Consequentemente, foram libertos da culpa, do poder e, em uma palavra, da própria existência do pecado.”

Essas três coisas são reunidas como se fossem a mesma realidade. Não são.

A culpa é uma coisa, o poder é outra e a existência é uma terceira.

Concordamos que os crentes foram libertos da culpa e do poder do pecado.

Negamos que, por isso, tenham sido imediatamente libertos de sua presença.

Essa conclusão não decorre dos textos citados.

Uma pessoa pode possuir o Espírito de Deus habitando nela e andar segundo o Espírito enquanto ainda sente a carne lutando contra o Espírito.

5. Outra objeção:

“A Igreja é o corpo de Cristo. Isso significa que seus membros foram lavados de toda impureza; caso contrário, Cristo e Belial estariam unidos no mesmo corpo.”

Essa conclusão não procede.

O fato de os membros do corpo de Cristo ainda perceberem a carne lutando contra o Espírito não significa que Cristo tenha comunhão com o diabo ou com o pecado que ele os capacita a resistir e vencer.

6. Outra objeção:

“Os cristãos não chegaram à Jerusalém celestial, onde nada impuro pode entrar?”

Sim. Eles chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à incontável multidão de anjos e aos espíritos dos justos aperfeiçoados (Hb 12.22–23).

Isso significa que:

Terra e céu vivem em harmonia; todos pertencem a uma grande família.

Os crentes também são santos e incontaminados enquanto caminham segundo o Espírito, embora reconheçam que existe neles outro princípio que se opõe ao Espírito.

7. Outra objeção:

“Os cristãos foram reconciliados com Deus. Isso não seria possível se permanecesse neles alguma mentalidade carnal, pois ela é inimizade contra Deus. Portanto, a reconciliação só pode acontecer depois da destruição completa dessa mentalidade.”

Somos reconciliados com Deus por meio do sangue da cruz.

Nesse momento, a corrupção da natureza, que é inimiga de Deus, é colocada debaixo de nossos pés. A carne já não possui domínio sobre nós.

Entretanto, continua existindo e, por sua própria natureza, continua sendo inimiga de Deus e desejando aquilo que é contrário ao Espírito.

8. Outra objeção:

“Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos.”

(Gl 5.24, NAA)

Isso é verdade. Entretanto, a carne ainda permanece neles e muitas vezes luta para desprender-se da cruz.

“Mas eles se despiram do velho ser humano com suas práticas” (Cl 3.9).

Sim. No sentido já explicado, as coisas antigas passaram e tudo se tornou novo.

Poderiam ser citadas muitas outras passagens com o mesmo sentido, e todas admitiriam a mesma resposta.

Finalmente:

“Cristo amou a igreja e entregou-se por ela, para apresentá-la a si mesmo gloriosa, sem mancha.”

(Ef 5.25,27, NAA)

Assim será plenamente no final. Entretanto, desde o princípio até hoje, a Igreja ainda não alcançou coletivamente essa condição completa.

9. Outra objeção apela para a experiência:

“Todos os que são justificados experimentam naquele momento uma libertação absoluta de todo pecado.”

Tenho dúvidas de que isso aconteça dessa forma. Mas suponhamos que aconteça: eles conservam essa condição depois?

Caso contrário, o argumento nada prova.

“Se não conservam, a culpa é deles.”

Isso ainda precisa ser demonstrado.

10. Outra objeção:

“Pela própria natureza das coisas, alguém pode possuir orgulho e não ser orgulhoso? Pode possuir ira e não estar irado?”

Uma pessoa pode possuir orgulho, pensando a respeito de si mesma, em alguns aspectos, além do que deveria. Nesse ponto, age orgulhosamente.

Mesmo assim, o orgulho pode não ser a característica dominante de seu caráter.

Pode sentir ira e possuir forte inclinação para uma ira violenta sem se entregar a ela.

“Mas podem existir ira e orgulho em um coração no qual somente são sentidas mansidão e humildade?”

Não. Contudo, algum orgulho e alguma ira podem existir em um coração no qual também existem muita mansidão e humildade.

Alguém argumenta:

“Não adianta dizer que essas disposições existem, mas não reinam, porque o pecado não pode existir em qualquer grau sem reinar. Culpa e poder são propriedades essenciais do pecado; onde existe uma, todas precisam existir.”

Essa afirmação é surpreendente.

Dizer que o pecado não pode existir em qualquer grau sem reinar é contrário à experiência, às Escrituras e ao bom senso.

O ressentimento diante de uma ofensa é pecado, pois não está de acordo com a lei do amor.

Senti isso muitas vezes. Entretanto, não reinou e não reina sobre mim.

“Mas culpa e poder são propriedades essenciais do pecado.”

Não necessariamente.

Se não me entrego nem por um momento ao ressentimento que sinto, não existe culpa ou condenação diante de Deus por causa dele.

Também não possui poder sobre mim. Embora lute contra o Espírito, não consegue prevalecer.

Assim, nesse e em muitos outros casos, existe pecado sem culpa voluntariamente assumida e sem poder dominante.

11. Outra objeção:

“A ideia de que o pecado permanece no crente é assustadora e desanimadora. Significa que lutamos contra um poder que possui nossa força, mantém seu domínio sobre o coração e continua guerreando contra nosso Redentor.”

Não é assim.

Reconhecer que o pecado permanece em nós não significa que ele possui nossa força, assim como uma pessoa crucificada não domina aqueles que a crucificaram.

Também não significa que o pecado conserva o trono do coração.

O usurpador foi destronado. Permanece no lugar onde antes reinava, mas está acorrentado.

Em certo sentido, ainda continua a guerra. Entretanto, torna-se cada vez mais fraco, enquanto o crente avança de força em força, vencendo e prosseguindo para vencer.

12. Outra objeção:

“Aquele que possui pecado é escravo do pecado. Portanto, você afirma que uma pessoa pode ser justificada enquanto continua escrava.

Se orgulho, ira e incredulidade permanecem, mesmo temporariamente, em todos os justificados, não é surpreendente que existam tantos crentes orgulhosos, irados e incrédulos.”

Não afirmo que uma pessoa justificada seja escrava do pecado.

Afirmo que o pecado permanece, pelo menos durante algum tempo, em todos os que foram justificados.

“Mas, se o pecado permanece no crente, ele é pecador. Se existe orgulho, é orgulhoso; se existe vontade própria, é obstinado; se existe incredulidade, é incrédulo e, portanto, não é verdadeiramente crente. Como se diferencia de uma pessoa não regenerada?”

Novamente, isso é apenas um jogo de palavras.

Significa somente que, se existem pecado, orgulho e vontade própria nele, então essas coisas realmente estão presentes. Ninguém nega isso.

Nesse sentido limitado, pode-se dizer que ainda possui orgulho ou vontade própria.

Entretanto, não é orgulhoso ou obstinado no mesmo sentido que o não convertido, isto é, não é governado por essas disposições.

Esta é a diferença: o não regenerado obedece ao pecado; o crente não.

A carne existe nos dois. O primeiro anda segundo a carne; o segundo anda segundo o Espírito.

“Mas como pode existir incredulidade em um crente?”

A palavra “incredulidade” possui dois sentidos.

Pode significar ausência de fé ou fraqueza da fé.

No primeiro sentido, não existe incredulidade no crente. No segundo sentido, existe em todas as crianças na fé.

Sua fé frequentemente está misturada com dúvida e medo, isto é, com alguma incredulidade no sentido de fraqueza.

Nosso Senhor perguntou:

“Por que vocês estão com medo, homens de pequena fé?”

(Mt 8.26, NAA)

E a Pedro:

“Homem de pequena fé, por que você duvidou?”

(Mt 14.31, NAA)

Havia incredulidade em pessoas que possuíam fé: pouca fé e muita dúvida.

13. Outra objeção:

“A doutrina de que o pecado permanece no crente e de que uma pessoa pode estar no favor de Deus enquanto existe pecado em seu coração certamente encoraja as pessoas a pecar.”

Quando a afirmação é corretamente compreendida, essa consequência não existe.

Uma pessoa pode continuar no favor de Deus enquanto sente o pecado dentro de si, mas não enquanto se entrega a ele.

Sentir a presença do pecado não significa perder o favor de Deus. Entregar-se ao pecado, sim.

Embora a carne lute contra o Espírito, você ainda pode ser filho de Deus. Entretanto, se andar segundo a carne, será filho do diabo.

Essa doutrina não nos incentiva a obedecer ao pecado, mas a resistir-lhe com toda a nossa força.

V. Conclusão

1. O resumo de tudo é este:

Em cada pessoa, mesmo depois da justificação, existem dois princípios opostos: natureza e graça, chamados por Paulo de carne e Espírito.

Assim, embora as crianças em Cristo tenham sido santificadas, ainda o foram parcialmente.

Segundo a medida de sua fé, são espirituais. Entretanto, em alguma medida, ainda são carnais.

Por isso, os crentes são continuamente exortados a vigiar contra a carne, assim como contra o mundo e o diabo.

Isso está de acordo com a experiência constante dos filhos de Deus.

Enquanto percebem o testemunho de que pertencem a Deus, também percebem uma vontade que ainda não está inteiramente submetida à vontade divina.

Sabem que estão em Cristo e, ao mesmo tempo, encontram no coração uma tendência para se afastar dele, inclinação para o mal em diversas situações e resistência àquilo que é bom.

A doutrina contrária é inteiramente nova e produz consequências perigosas.

Ela elimina a vigilância contra nossa natureza corrompida, como se a Dalila que estava em nosso colo já houvesse partido, quando ainda permanece ali.

Também retira o escudo dos crentes fracos, destrói sua fé e os deixa expostos aos ataques do mundo, da carne e do diabo.

2. Conservemos, portanto, a sã doutrina entregue de uma vez por todas aos santos e transmitida com a Palavra escrita às gerações seguintes:

Embora sejamos verdadeiramente renovados, limpos, purificados e santificados no momento em que cremos em Cristo, ainda não somos renovados, limpos, purificados e santificados inteiramente.

A carne, isto é, a natureza corrompida, ainda permanece, embora subjugada, e luta contra o Espírito.

Por isso, sejamos ainda mais diligentes no bom combate da fé.

Vigiemos e oremos com maior seriedade contra o inimigo interior.

Revistamo-nos cuidadosamente de toda a armadura de Deus, para que, embora nossa luta seja contra a carne e o sangue, contra principados, potestades e forças espirituais do mal, possamos resistir no dia mau e, depois de termos vencido tudo, permanecer firmes.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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