A igreja que se sustenta na presença de Deus
O que faz uma igreja ser forte? Seus programas, sua estrutura, o talento de sua gente? Ou existe algo mais escondido, que sustenta tudo isso por baixo e que raramente aparece nos relatórios? Por que Jesus, que teve tão pouco tempo de ministério, gastava noites inteiras orando? E por que a primeira igreja, antes de qualquer estratégia, simplesmente se ajoelhou?
O Ministério de Oração nasce dessas perguntas. Ele não é mais um departamento ao lado dos outros; é o fôlego que dá vida a todos os demais. Onde a oração esfria, a igreja adoece, por mais movimento que tenha na agenda. Onde a oração arde, Deus age. É disso que trata esta página: do lugar da oração na vida da igreja e do que a Escritura nos ensina, pelo exemplo de homens e mulheres que oraram e foram ouvidos.
“A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos.”Tiago 5.16 (NAA)
Antes de ser uma técnica, a oração é uma relação. É a igreja falando com o seu Pai e ouvindo a sua voz. O ministério de oração organiza e alimenta essa relação em toda a comunidade: ensina o povo a orar, mobiliza intercessores, sustenta em oração os pastores, os missionários, os enfermos e as decisões da igreja, e mantém acesa a adoração que reconhece a Deus como Senhor de tudo.
Paulo resume as faces dessa vida quando pede que se façam “súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens” (1Tm 2.1). Não se trata, portanto, apenas de pedir. É adorar, agradecer, confessar e interceder. Um ministério de oração saudável cultiva todas essas dimensões, e não deixa a igreja reduzir a oração a uma lista de pedidos apresentada às pressas.
A oração não é uma sugestão piedosa, mas um mandamento. “Orai sem cessar”, diz o apóstolo (1Ts 5.17); “perseverai na oração” (Cl 4.2); “não andeis ansiosos… em tudo, pela oração e súplica, apresentai as vossas petições a Deus” (Fp 4.6). O próprio Senhor contou uma parábola “para mostrar que eles deviam orar sempre e nunca esmorecer” (Lc 18.1).
Aqui surge uma pergunta legítima: se Deus é soberano e já sabe do que precisamos, por que orar mudaria alguma coisa? A resposta da Escritura não nega a soberania de Deus, mas mostra que Ele, soberanamente, escolheu agir em resposta às orações do seu povo. Foi Deus quem disse a Salomão: “se o meu povo… orar… então eu ouvirei… e sararei a sua terra” (2Cr 7.14). E foi Ele quem lamentou não achar “ninguém que se interpusesse” diante de si em favor da terra (Ez 22.30). A oração não dobra o braço de Deus contra a sua vontade; ela nos coloca dentro daquilo que Ele quer fazer, e faz de nós parceiros do seu agir. Por isso Tiago pode afirmar que a oração do justo “pode muito” (Tg 5.16).
A melhor maneira de aprender a orar não é decorar regras, mas sentar-se aos pés de quem orou. A Escritura nos dá uma verdadeira escola de intercessores, e cada um deles nos ensina algo:
Se alguém não precisava orar, humanamente falando, era o Filho de Deus. E, no entanto, ninguém orou como Ele. De madrugada, muito antes de amanhecer, saía para um lugar deserto e ali orava (Mc 1.35). Antes de escolher os doze, passou a noite inteira em oração (Lc 6.12). No Getsêmani, diante da cruz, orou até suar como que gotas de sangue, e nos deixou a mais difícil e mais sublime das orações: “não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42).
Foi Ele quem nos ensinou a orar, dando-nos o modelo do Pai Nosso (Mt 6.9-13), e quem insistiu na persistência de quem bate à porta e não se cansa (Lc 11.5-13). E há um consolo que sustenta todo o nosso orar: neste momento, ressurreto e à direita do Pai, Ele “vive sempre para interceder” por nós (Hb 7.25; Rm 8.34). Quando oramos, não gritamos para um céu vazio; oramos amparados pela intercessão do próprio Cristo.
A igreja do livro de Atos nasceu de joelhos. Antes de Pentecostes, os discípulos “perseveravam unânimes em oração” (At 1.14); depois dele, a oração figura entre as quatro marcas da comunidade, ao lado da doutrina, da comunhão e do partir do pão (At 2.42). Quando ameaçados, não pediram proteção, mas ousadia — e “o lugar em que estavam reunidos tremeu” (At 4.31).
O padrão se repete: a oração precede e sustenta a missão. Foi orando e jejuando que a igreja de Antioquia ouviu o Espírito enviar Barnabé e Saulo (At 13.1-3). E foi a igreja em oração, reunida na casa de Maria, que viu Pedro sair da prisão (At 12.12). Aquela comunidade não orava por não ter o que fazer; orava porque sabia que, sem Deus, nada do que fizesse teria valor.
Um ministério de oração ganha corpo em ações concretas: reuniões e vigílias de oração, correntes de intercessão pelos enfermos e pelas causas urgentes, oração pelos pastores, pelos missionários e pelas famílias, momentos de intercessão antes dos cultos, um mural ou grupo para receber e acompanhar pedidos, e o ensino contínuo sobre como orar. Diante da enfermidade, a igreja se achega com fé, chamando os presbíteros para orar e ungir com óleo em nome do Senhor (Tg 5.14-16).
Vale, porém, um cuidado pastoral. A oração não é fórmula mágica nem barganha para dobrar a Deus; é confiança que se entrega. Oramos com fé, crendo que Deus pode todas as coisas, e ao mesmo tempo com humildade, confiando o resultado às suas mãos, no espírito do próprio Cristo: “não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42). Quem intercede sob essa consciência não manipula a Deus — rende-se a Ele.
Minha convicção, depois de anos de ministério, é simples: nenhuma igreja se eleva acima do nível da sua vida de oração. Podemos ter boa pregação, bom louvor e boa organização, mas, se a oração for fraca, tudo o mais será apenas atividade religiosa. Foi por isso que os apóstolos se recusaram a deixar a oração e o ministério da Palavra para cuidar de outras coisas (At 6.4): eles sabiam onde estava a força da igreja.
Por isso convido cada membro a fazer parte deste ministério — não como especialista, mas como filho que aprende a falar com o Pai. Se você acha que não sabe orar, comece assim mesmo; o Espírito nos ajuda na fraqueza e intercede por nós (Rm 8.26). E que a nossa igreja seja, acima de tudo, o que o Senhor chamou de “casa de oração” (Mt 21.13). Onde um povo ora, Deus continua fazendo história.
No amor do Senhor,
Bispo Ildo Mello