Neemias, o sábioAula 3

Família, integridade e avivamento

“Não fiquem tristes, porque a alegria do Senhor é a força de vocês.”Neemias 8.10 (NAA)

Bispo Ildo MelloIgreja Metodista Livre do Brasil

Para começar

Perguntas norteadoras

O muro está de pé. Mas a obra de Deus não para na pedra. Guarde três perguntas.

1

Quando a posição muda, o meu caráter continua o mesmo diante de Deus?

2

Estou lutando pela minha família, ou deixei brechas abertas em casa?

3

A Palavra de Deus tem o primeiro lugar na minha vida, ou virei um cristão apenas nominal?

A reconstrução dos muros trouxe dignidade, proteção e paz para a cidade de Jerusalém. Mas o trabalho não parou por aí, pois o mais lindo foi que Neemias colaborou para o povo de Deus voltar a dar ouvidos às Escrituras Sagradas (Ne 8).

O caráter no poder

Íntegro também como governador

Neemias mostrou-se íntegro mesmo após assumir a posição de governador (Ne 5.14-18). Neemias não foi para Jerusalém porque intencionava o posto de governador; sua missão foi motivada por pura compaixão (Ne 1.3-4).

No entanto, como ele foi fiel no pouco, sobre muito foi colocado, mas, mesmo assim, seguiu sendo leal a Deus e aos seus princípios éticos (Mt 25.23). O capítulo 5 mostra, em detalhes, como era essa integridade no exercício do poder.

Doze anos sem o salário do cargo. “Desde o dia em que fui nomeado governador na terra de Judá… doze anos”, diz ele, nem ele nem os seus irmãos comeram o pão que cabia ao governador (Ne 5.14). O cargo dava direito a isso; a consciência, não.
Diferente dos antecessores. “Os primeiros governadores, que estiveram antes de mim, oprimiram o povo”, cobrando pão, vinho e prata; ele não fez assim, por temor a Deus (Ne 5.15). O padrão dele não era “o que todo mundo faz”, mas o que Deus aprova.
Trabalhou e não enriqueceu. “Também trabalhei na reconstrução da muralha, sem comprar nenhuma terra” (Ne 5.16). O governador carregou pedra e não aproveitou a crise para fazer patrimônio.
Mesa aberta, do próprio bolso. Sustentava à sua mesa cento e cinquenta pessoas, além dos visitantes, com um boi e seis ovelhas por dia, sem cobrar do povo (Ne 5.17-18). Generosidade custeada pelo próprio líder.
Coragem de confrontar os poderosos. Quando os ricos exploravam os pobres com juros e tomavam filhos e campos como garantia, Neemias se irou, “pensou bem a respeito disso” e repreendeu nobres e magistrados: “Não é bom o que vocês estão fazendo” (Ne 5.6-9). E exigiu restituição no mesmo dia (Ne 5.11-13).

“Muito bem, servo bom e fiel; você foi fiel no pouco, sobre o muito o colocarei; venha participar da alegria do seu senhor.”Mateus 25.23 (NAA)

A obra começa em casa

Lutar em favor da família

Neemias nos conclama a lutar em favor da família! “Lutem pelos seus irmãos, seus filhos, suas filhas, pelas mulheres e pela casa de vocês” (Ne 4.14).

Notar também o que está registrado em Neemias 3.28: os sacerdotes fizeram os reparos “cada um em frente da sua casa”. Precisamos fechar as brechas da muralha para nos protegermos contra os ataques inimigos (Ne 4.7). Devemos também lutar contra todos os inimigos que pretendem destruir a família, lembrando que nossa luta não é contra carne e sangue, mas, sim, contra os exércitos espirituais que semeiam a corrupção e que atuam sobre os filhos da desobediência (Ef 6.12; 2.1-2).

A família atravessa o livro inteiro de Neemias. Quando veio a ameaça de ataque, ele “pôs o povo, por famílias” atrás da muralha, com espadas, lanças e arcos (Ne 4.13): a família era a unidade de defesa. Quando a Lei foi lida, a congregação era “composta por homens, mulheres e todos os que eram capazes de entender o que ouviam” (Ne 8.2): a família era a unidade de ensino. Quando o pacto foi firmado, o povo aderiu “com as suas mulheres, os seus filhos e as suas filhas” (Ne 10.28): a família era a unidade de compromisso. E na dedicação do muro, “também as mulheres e as crianças se alegraram” (Ne 12.43): a família era a unidade de celebração.

“Sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Vistam-se com toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo. Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais.”Efésios 6.10-12 (NAA)

Guarde isto

Cada um repara o muro diante da própria casa

A reconstrução do povo começou na porta de cada lar. Antes de reformar o mundo, cuide da sua casa (Ne 3.28). Um muro só é forte se cada trecho estiver firme; uma igreja só é forte se cada família estiver de pé.

Ne 3.28; 4.13-14

O mais lindo veio depois

Avivamento pela Palavra

A Palavra de Deus produziu um grande avivamento espiritual! Repare como tudo aconteceu no capítulo 8: não foi uma campanha, foi uma leitura.

Um povo reunido e sedento. “Todo o povo se reuniu, como um só homem, na praça, diante do Portão das Águas” (Ne 8.1). E foram eles que pediram a Esdras que trouxesse o Livro da Lei. O avivamento começou com fome da Palavra.
Uma leitura longa e atenta. Esdras leu “desde o amanhecer até o meio-dia” (Ne 8.3), diante de homens, mulheres e de todos os que podiam entender (Ne 8.2). Quando abriu o livro, “todo o povo se pôs em pé” (Ne 8.5), e respondeu ao louvor com “Amém! Amém!”, de mãos levantadas (Ne 8.6).
Uma explicação que fazia entender. Os levitas “iam lendo o Livro da Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que o povo entendesse o que se lia” (Ne 8.8). Ler não basta; é preciso ensinar. Aqui está a raiz de todo púlpito e de toda classe bíblica.
Do choro à alegria. O povo chorou ao ouvir a Lei, porque viu o quanto tinha se afastado (Ne 8.9). Mas Neemias e Esdras disseram que aquele dia era santo e que a tristeza não era a resposta: “Não fiquem tristes, porque a alegria do Senhor é a força de vocês” (Ne 8.10). E o povo foi comer, beber e “mandar porções aos que nada tinham” (Ne 8.12). Avivamento verdadeiro gera alegria e generosidade.
Obediência redescoberta. No dia seguinte, estudando a Lei, descobriram a Festa dos Tabernáculos, esquecida desde os dias de Josué, e a celebraram com grande alegria, lendo a Lei todos os dias (Ne 8.13-18). A Palavra entendida vira prática.
Confissão e oração. Semanas depois, o povo jejuou, separou-se do pecado, leu a Lei por uma quarta parte do dia e confessou por outra quarta parte (Ne 9.1-3). A grande oração do capítulo 9 reconhece: “Tu foste justo em tudo o que nos aconteceu, pois agiste com fidelidade, enquanto nós procedemos mal” (Ne 9.33).

Compromisso por escrito

O povo faz um pacto

O povo fez um pacto (Ne 9.38) no sentido de priorizar as coisas de Deus: “Não abandonaremos o templo do nosso Deus” (Ne 10.39).

“Por causa de tudo isso, nós fazemos uma aliança fiel, por escrito” (Ne 9.38). O primeiro a colocar o selo foi Neemias, o governador (Ne 10.1); depois sacerdotes, levitas e chefes do povo, e todo o restante aderiu “com juramento e sob pena de maldição, que andariam na Lei de Deus” (Ne 10.29). O capítulo 10 registra os compromissos concretos:

Pureza da família. Não dariam os filhos em casamento aos povos da terra, para que a fé não fosse diluída dentro de casa (Ne 10.30).
O dia do Senhor. Não comprariam nada no sábado nem nos dias santificados, e guardariam o ano sabático (Ne 10.31).
Sustento do culto. Contribuição anual para o serviço do templo, lenha para o altar, primícias da terra e dos frutos (Ne 10.32-36).
Dízimos. Levariam os dízimos aos levitas, em todas as cidades onde havia lavoura (Ne 10.37-38).
A casa de Deus. Tudo se resume na última frase do capítulo: “Não abandonaremos o templo do nosso Deus” (Ne 10.39).

O povo se comprometeu com a construção das muralhas e agora está também comprometido com a edificação da Casa de Deus! Note a sequência: primeiro a Palavra (Ne 8), depois a confissão (Ne 9), depois o compromisso (Ne 10). Pacto sem Palavra é legalismo; Palavra sem pacto é sentimento passageiro.

A festa do muro

A alegria que se ouvia de longe

A obra que começou com choro (Ne 1.4) terminou com dois coros cantando sobre a muralha.

Para a dedicação, Neemias buscou os levitas e os cantores de todos os lugares, “a fim de que fizessem a dedicação com alegria, louvores, canto, címbalos, liras e harpas” (Ne 12.27). Sacerdotes e levitas purificaram a si mesmos, depois o povo, os portões e a muralha (Ne 12.30). Então ele formou “dois grandes coros em procissão”: um seguiu para a direita sobre a muralha, o outro para a esquerda, com Neemias atrás, até que os dois se encontraram na Casa de Deus (Ne 12.31-40).

“No mesmo dia, ofereceram grandes sacrifícios e se alegraram, pois Deus os havia enchido de alegria. Também as mulheres e as crianças se alegraram, de modo que a alegria de Jerusalém podia ser ouvida de longe” (Ne 12.43). A mesma cidade cuja ruína se ouvia de longe, lá em Susã, onde Neemias chorou (Ne 1.3-4), agora era ouvida de longe por causa da alegria.

Princípio

A alegria do Senhor é a nossa força

O povo não se alegrou porque a vida ficou fácil (os inimigos continuavam ali), mas porque “Deus os havia enchido de alegria” (Ne 12.43). Alegria cristã não é ausência de luta; é a presença de Deus no meio dela. E é contagiosa: ouve-se de longe.

Ne 8.10; 12.43

Zelo pela casa de Deus

Como Jesus, purificou o templo

Não podemos ser cristãos nominais, não podemos servir a Deus de qualquer maneira. Como Jesus, Neemias purificou o templo! Ele mostrou-se também muito zeloso quanto à necessidade de santidade no ministério sacerdotal (Ne 13.26-30).

O capítulo 13 é duro de ler, porque mostra como o pacto do capítulo 10 foi sendo quebrado ponto por ponto enquanto Neemias estava de volta na Pérsia. Ao retornar, ele encontrou quatro brechas abertas, e fechou uma por uma:

O inimigo morando dentro do templo. O sacerdote Eliasibe havia preparado para Tobias, o amonita, justamente o opositor da obra, uma grande câmara dentro da Casa de Deus (Ne 13.4-5). Neemias jogou fora os móveis de Tobias, mandou purificar as câmaras e devolveu-as ao seu uso sagrado (Ne 13.7-9).
Os levitas abandonados. As porções dos levitas não estavam sendo entregues, e eles tinham fugido para o campo para sobreviver. A pergunta de Neemias aos magistrados foi direta: “Por que a Casa de Deus ficou abandonada?” (Ne 13.10-11). Ele os reuniu de novo e restabeleceu os dízimos (Ne 13.12-13).
O sábado profanado. Lagares, cargas e mercado funcionavam no dia do Senhor. “Que coisa errada é esta que vocês estão fazendo? Estão profanando o dia de sábado!” (Ne 13.17). Neemias mandou fechar os portões antes do sábado e pôs guardas (Ne 13.19-22).
A família diluída. Judeus haviam se casado com mulheres de Asdode, Amom e Moabe, e os filhos já não sabiam falar a língua de Judá (Ne 13.23-24). Neemias os repreendeu, lembrando a queda de Salomão (Ne 13.25-27), expulsou um neto do sumo sacerdote que era genro de Sambalá (Ne 13.28) e purificou o sacerdócio “de tudo o que era estrangeiro” (Ne 13.30).

Assim como Jesus, séculos depois, fez um chicote de cordas, expulsou os vendedores e disse “Não façam da casa de meu Pai uma casa de negócio!” (Jo 2.13-17), Neemias corrigiu abusos e restaurou a pureza do culto e do serviço a Deus. O zelo pela casa do Senhor não é intolerância: é amor que não se conforma com o descuido nas coisas santas. Os discípulos lembraram que estava escrito: “O zelo da tua casa me consumirá” (Jo 2.17). Esse mesmo zelo consumia Neemias.

Identidade e missão

Povo do pacto, povo da missão

O povo de Deus é povo do pacto, povo aliançado com Deus, povo comprometido com a Missão!

O mesmo povo que se comprometeu com a construção das muralhas agora se compromete com a edificação da Casa de Deus. E a Casa de Deus, no Novo Testamento, somos nós: “vocês são lavoura de Deus e edifício de Deus” (1Co 3.9). O muro era para proteger; o templo, para adorar; a Palavra, para formar; o pacto, para perseverar. Tire qualquer um desses e a obra fica incompleta.

Quantas preciosas lições podemos aprender com este fiel servo de Deus que foi Neemias! Ele chorou pela cidade, orou antes de agir, pediu licença ao rei, inspecionou em silêncio, mobilizou o povo, organizou a obra, enfrentou zombaria, ameaça, calúnia e traição, recusou o salário do cargo, confrontou os poderosos, lutou pela família, devolveu a Palavra ao centro, celebrou com alegria e zelou pela santidade da casa de Deus. Tudo isso sem nunca pedir a fama para si.

Para a vida

Aplicações práticas

1

Cuide do caráter quando a posição mudar. Fidelidade no pouco é o que sustenta a fidelidade no muito (Ne 5.14-16; Mt 25.23).

2

Lute pela sua família. Repare o muro diante da sua própria casa e feche as brechas (Ne 3.28; 4.14).

3

Recoloque a Palavra no centro. Avivamento verdadeiro nasce das Escrituras lidas, explicadas, compreendidas e obedecidas (Ne 8.8).

4

Transforme convicção em compromisso. O povo escreveu e assinou o que decidiu; faça o mesmo com as suas decisões diante de Deus (Ne 9.38; 10.29).

5

Celebre. Deus quer ser ouvido de longe também pela alegria do seu povo, não só pelo seu trabalho (Ne 12.43).

6

Não seja cristão nominal. Tenha zelo pela casa de Deus, pelo dia do Senhor, pelo sustento da obra e pela pureza da sua fé (Ne 13; 10.39).

Fixação

Cartões de memorização

Toque em cada cartão para virar. Comece pelo versículo e siga pelos conceitos da aula.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco perguntas com correção imediata. Ao escolher, você vê na hora o acerto, a alternativa certa e um comentário que ensina.

Respondidas: 0 de 5

Para orar e responder

Reflexões

1. Reflexão pastoral: qual é o meu “reparo em frente da própria casa”?

Que providência concreta preciso tomar em favor da minha família nesta semana: uma conversa, um perdão, um altar em casa, mais tempo, mais oração? E há alguma “câmara de Tobias” na minha vida, algo do inimigo a que eu dei espaço dentro do lugar que pertence a Deus?

Resposta sugerida: escolher uma atitude prática de cuidado com a própria casa e começar hoje, entendendo que a luta é espiritual antes de ser prática (Ne 3.28; 4.14; Ef 6.12). Se houver uma “câmara de Tobias”, esvaziá-la sem demora e devolver aquele espaço ao seu uso santo (Ne 13.8-9).

2. Reflexão apologética: “basta boa vontade para ter avivamento?”

Alguns esperam avivamento apenas de reuniões emocionantes, ou acham que ele pode ser produzido por método. Como responder com mansidão?

Resposta sugerida: em Neemias, o avivamento nasceu quando o povo voltou a ouvir e a entender a Palavra (Ne 8.8), e se consolidou em confissão (Ne 9) e compromisso (Ne 10). Emoção sem Escritura não sustenta; a alegria do Senhor, fundada na Palavra e no pacto, é que se torna força (Ne 8.10). Ao mesmo tempo, o capítulo 13 nos lembra que até um avivamento genuíno precisa ser guardado: sem vigilância, o pacto se desfaz em poucos anos. A vida cristã se firma pela fé que ouve, obedece e persevera.

3. Reflexão sobre liderança: o que eu faria com o “pão do governador”?

Neemias tinha direito a um sustento que não usou, para não pesar sobre o povo (Ne 5.14-18). Que direitos legítimos eu poderia abrir mão, por amor à obra e ao próximo?

Resposta sugerida: a integridade bíblica vai além de não fazer o errado; inclui renunciar ao permitido quando isso serve melhor aos outros. Paulo fez o mesmo ao não usar o direito de ser sustentado (1Co 9.12-15). Identificar um “direito” concreto (tempo, dinheiro, reconhecimento) do qual posso abrir mão nesta semana em favor de alguém.

Conclusão

Neemias foi íntegro no poder, recusou o pão do governador, confrontou os poderosos, lutou pela família e zelou pela casa de Deus. Fiel no pouco, permaneceu fiel no muito (Ne 5.14-19; 13; Mt 25.23).

O ápice não foi o muro, mas o avivamento: a Palavra lida e entendida, o pacto assinado, a alegria ouvida de longe. Que a alegria do Senhor seja a nossa força (Ne 8.8-10; 10.39; 12.43).

← Aula anterior: O líder e a oposição  |  Fim da série Neemias, o sábio. Veja também o estudo completo “Neemias, o sábio!”, com o vídeo da pregação.

Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil. Referências na versão Nova Almeida Atualizada (NAA).