Coletânea histórica · Tradução integral

Ordenando Mulheres

Benjamin Titus Roberts, fundador da Igreja Metodista Livre · 1891

“Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus.”Gálatas 3.28

Em 1891, dois anos antes de morrer, B. T. Roberts publicou Ordaining Women, a defesa bíblica da ordenação de mulheres que se tornou um marco da tradição metodista livre. Dois anos depois de sua morte, a igreja que ele fundou ainda não o havia acompanhado; hoje, a ordenação de mulheres é convicção assumida da Igreja Metodista Livre em todo o mundo — e este livro é uma das razões.

Esta é a tradução integral dos 17 capítulos do original de 1891, feita a partir do texto publicado pela Earnest Christian Publishing House. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Toque em cada capítulo para abri-lo.

Prefácio do autor+

Prefácio do autor

Escrevi este livro movido por uma forte convicção de dever. Cristo nos ordena que deixemos a nossa luz brilhar.

Não há razão para que este assunto não seja examinado com a mesma calma e a mesma franqueza com que examinamos qualquer outro. Não devemos nos recusar a estudá-lo à luz da Escritura e da razão por receio de consequências terríveis caso algumas mulheres venham a ser ordenadas. Entre os Quacres, por mais de duzentos anos, a mulher recebeu os mesmos direitos que o homem — e nem por isso perdeu nada de sua feminilidade. Em nenhum outro grupo as mulheres são mais íntegras, modestas, dedicadas ao lar, nobres, refinadas e ocupadas em toda boa obra do que entre eles. Em nenhum outro lugar se encontram lares mais belos e felizes do que na Sociedade dos Amigos.

Tampouco precisamos de maus presságios caso a igualdade de direitos na igreja venha a conduzir à igualdade de direitos no Estado. Esse experimento também já foi feito. O senador norte-americano Carey declarou que, no estado do Wyoming, a mulher votava havia vinte anos, e nenhuma das objeções levantadas contra a extensão do sufrágio se confirmou na prática: a participação das mulheres era tão ampla quanto a dos homens, o seu voto era mais consciencioso, e a sua influência se exercia sempre do lado do bom governo e da escolha dos melhores homens para os cargos públicos.

Evitei de propósito todo apelo ao sentimento e ao “espírito da época”, e fundamentei os meus argumentos principalmente na Palavra de Deus. Onde algum texto foi interpretado de modo contrário ao sentido comumente aceito, apresentei razões que, espero, serão consideradas satisfatórias. Esforcei-me para tornar tudo claro.

Peço, como favor especial àqueles que já decidiram discordar da posição que assumi, que leiam antes de condenar. O assunto é digno de investigação paciente e feita em oração.

Não tenho dúvidas quanto à verdade do que escrevi, nem maus pressentimentos quanto às consequências, se as posições aqui defendidas vierem a ser geralmente aceitas.

Peço somente que a verdade prevaleça, que Cristo seja glorificado e que o seu Reino avance na terra.

Capítulo 1 — Preconceito+

“Erros, como palhas, flutuam na superfície; quem busca pérolas precisa mergulhar.” — Dryden
“Quem se dispõe seriamente a buscar a verdade deve, antes de tudo, preparar a mente com o amor a ela; pois quem não a ama não se esforçará muito para encontrá-la, nem se importará muito quando não a achar.” — Locke

Cristo dá grande ênfase à verdade. Há nela uma qualidade salvadora. “Santifica-os na verdade” (Jo 17.17). Só nos é possível ser santificados na medida em que abrimos o coração para receber a verdade e resolvemos, no íntimo, obedecer a ela. O Espírito Santo é o Espírito da verdade (Jo 14.17).

“Eduquemo-nos”, diz o Duque de Argyll, “até aquele alto padrão de amor à verdade em que odiamos e desprezamos uma falácia intelectual tanto quanto odiamos e desprezamos uma mentira comum.”

Aos direitos da mulher sob o Evangelho, portanto, como questão importante que é, devemos dar a nossa atenção honesta. Se estivermos tomados de preconceito, cabe-nos, como disse Daniel Webster, “vencer os nossos preconceitos”. O sentimento contrário a que a mulher receba direitos iguais aos do homem é antigo e está profundamente enraizado. De modo geral, entre os homens, a lei da força tem sido a lei dominante: os mais fortes tiranizam os mais fracos.

Aristóteles foi um dos maiores filósofos da Grécia antiga. No seu livro sobre política e economia, escreveu: “Por natureza, alguns seres mandam e outros obedecem, para segurança mútua; pois o ser dotado de discernimento e previdência é, por natureza, o superior e o governante; ao passo que aquele que só é capaz de executar com o trabalho do corpo é o inferior e escravo natural; e por isso o interesse do senhor e o do escravo são idênticos.” E ainda: “É claro, portanto, que alguns homens são livres por natureza e outros são escravos, e que, no caso destes últimos, a condição de escravidão é vantajosa e justa.” E mais: “A arte da guerra é, em certo sentido, parte da arte de adquirir; pois a caça é parte dela, e devemos empregá-la contra os animais selvagens e contra aqueles homens que, destinados por natureza à escravidão, não se dispõem a submeter-se; nessa ocasião, tal guerra é por natureza justa.”

Até bem pouco tempo, enquanto houve escravidão a tolerar, a escravidão humana foi tolerada pelas principais igrejas deste país. Apelava-se à razão e à revelação em defesa da prática. Ainda em 1836, a Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal registrou em ata a seguinte decisão: “Resolvem os delegados das Conferências Anuais, reunidos em Conferência Geral: 1. Que desaprovam, no sentido mais absoluto, a conduta de dois membros da Conferência Geral que, segundo se relata, discursaram recentemente nesta cidade em favor do abolicionismo moderno. 2. Que se opõem decididamente ao abolicionismo moderno e renunciam inteiramente a qualquer direito, desejo ou intenção de interferir na relação civil e política entre senhor e escravo, tal como existe nos estados escravagistas desta União.”

Algum tempo depois de a escravidão ter sido abolida pela guerra, essas resoluções foram revogadas — e outra Conferência Geral da mesma igreja aprovou uma resolução declarando ser motivo de congratulação que a Igreja Metodista Episcopal sempre estivera à frente das igrejas irmãs no movimento antiescravagista.

Há cerca de trinta anos, o reverendíssimo John Henry Hopkins, doutor em teologia e em direito, um dos homens cultos do seu tempo e bispo episcopal protestante da diocese de Vermont, escreveu e publicou um livro em que se esforçava por provar que a escravidão humana, tal como então existia nos Estados Unidos, era sustentada “pela autoridade da Bíblia, pelos escritos dos Pais, pelos decretos dos Concílios, pelo juízo concorde dos teólogos protestantes e pela Constituição”. Os esforços para derrubá-la ele caracterizava como “assaltos de uma filantropia equivocada, em união com a infidelidade, o fanatismo e a conveniência política”.

Ora, se homens tidos como grandes intérpretes da razão e da revelação, e que expressavam o sentimento dominante do seu tempo, estavam tão redondamente enganados num assunto que hoje nos parece tão evidente que nem admite disputa — que todo homem tem direito à liberdade —, não é possível que o sentimento corrente quanto à posição que a MULHER deve ocupar na Igreja de Cristo também esteja errado?

Leitor, você admite essa possibilidade? Aceita sentar-se como jurado imparcial nesta causa e pesar com cuidado as provas que vamos apresentar?

O mundo levou muito tempo para entender o Evangelho de Jesus Cristo; e ainda agora o entende de modo imperfeito. Não se verifica a verdade de uma opinião perguntando pela sua idade. Consideremos que, assim como a Igreja interpretou mal, por séculos, os ensinos da Bíblia sobre a escravidão, também pode estar falhando agora em apreender o que ela ensina sobre os direitos da mulher.

Homens e mulheres cristãos não devem esperar que uma causa justa se torne popular para lhe dar o seu apoio. Os que assim fazem estão simplesmente seguindo a moda, embora pensem estar seguindo o Senhor.

Não basta dizer que o direito triunfará no fim; se nos dizemos justos, devemos ajudar o direito a triunfar.

Capítulo 2 — A condição legal da mulher+

“Há quem espere, rebaixado o mérito do próximo, a preeminência para si; e cobice, para a própria grandeza, a queda de outrem.” — Dante

Na maioria das nações, excetuadas a judaica e a cristã, a condição da mulher foi, desde tempos imemoriais, uma condição de escravidão. Ela era vendida em casamento. Roma deu leis ao mundo; contudo, o jovem romano, diz Gibbon, “segundo o costume da antiguidade, comprava a noiva dos pais dela, e ela consumava a coemptio comprando, com três moedas de cobre, a justa introdução à casa e aos deuses domésticos do marido”. A servidão dela era decorada com o título de “adoção” e, por ficção legal, tornava-se “filha” do marido e “irmã” dos próprios filhos. O poder parental, na sua extensão máxima, pertencia ao marido em relação à esposa tanto quanto em relação aos filhos. “Pelo seu juízo ou capricho, a conduta dela era aprovada, censurada ou castigada; ele exercia a jurisdição de vida e de morte; e admitia-se que, em caso de adultério ou embriaguez, a sentença podia ser propriamente executada. Ela adquiria e herdava para proveito exclusivo do seu senhor; e tão claramente era a mulher definida não como pessoa, mas como coisa, que, faltando o título original, podia ser reclamada, como os demais bens móveis, pelo uso e posse de um ano inteiro.”

As mulheres espartanas recebiam o mesmo treinamento físico que os homens e, em consequência, eram de fato mais livres do que as mulheres de qualquer outro país daquela época. “Não pode haver muita dúvida”, diz Mill, “de que a experiência espartana sugeriu a Platão, entre muitas outras de suas doutrinas, a da igualdade social e política dos sexos.” Ainda assim, por lei, em Esparta como no resto da Grécia, o estado da mulher era o de sujeição.

Stanley, escrevendo sobre a África Central, diz: “Embora a mulher seja nessas terras um bem móvel como qualquer artigo que os seus senhores possuam, avaliada entre uma e cinco cabeças de gado, ela é tida em honra e estima e possui direitos que não podem ser desrespeitados impunemente. O dote pode ter sido entregue ao pai; mas, se ela for maltratada, facilmente dá um jeito de voltar aos pais, e, antes que seja restituída, o marido precisa comprá-la de novo — e, como o gado é valioso, ele provavelmente refreará o gênio.”

Embora o cristianismo tenha melhorado muito a condição da mulher, não lhe assegurou, nem mesmo nas nações mais esclarecidas, aquela igualdade que o Evangelho inculca. Um escritor de apenas trinta anos atrás dizia: “As mulheres alemãs das classes baixas, e em certa medida das classes médias, estão sujeitas a privações maiores do que as mulheres de qualquer outra nação da Europa. O trabalhador rural, o artífice e até o pequeno lavrador faz da esposa ou da mãe a sua serva braçal, obrigando-a aos trabalhos mais pesados e humildes, enquanto ele caminha ao lado dela, desocupado, fumando o seu cachimbo. Há poucos anos, cidadãos americanos testemunharam, em Viena, mulheres servindo de ajudantes de pedreiro, carregando tijolos e argamassa pelos andaimes de altos edifícios em construção.”

John Stuart Mill, escritor inglês da mais alta autoridade, diz: “Pelas velhas leis da Inglaterra, o marido era chamado senhor da esposa; era literalmente considerado o seu soberano, a ponto de o assassinato do marido pela esposa ser chamado traição (pequena, em distinção da alta traição) e ser vingado com mais crueldade do que a própria alta traição, pois a pena era a morte na fogueira. Como essas várias enormidades caíram em desuso (a maior parte nunca foi formalmente abolida, ou só o foi muito depois de deixar de ser praticada), os homens supõem que tudo está agora como deveria estar quanto ao contrato de casamento; e ouvimos continuamente que a civilização e o cristianismo restituíram à mulher os seus justos direitos. Entretanto, a esposa é a serva efetiva do marido; não menos, no que toca à obrigação legal, do que os escravos propriamente ditos. Ela jura no altar obediência vitalícia a ele, e a lei a mantém presa a esse juramento pela vida afora. Ela não pode praticar ato algum senão com a permissão dele, ao menos tácita. Não pode adquirir propriedade senão para ele: no instante em que algo se torna dela, ainda que por herança, torna-se ipso facto dele. […] Os dois são chamados ‘uma só pessoa perante a lei’, para daí se inferir que tudo o que é dela é dele; mas nunca se tira a inferência paralela de que tudo o que é dele é dela; a máxima não se aplica contra o homem, exceto para torná-lo responsável perante terceiros pelos atos dela, como o senhor responde pelos atos dos seus escravos ou do seu gado. Estou longe de pretender que as esposas sejam, em geral, tratadas tão mal quanto os escravos; mas nenhum escravo é escravo na mesma extensão, e no sentido tão pleno da palavra, quanto uma esposa o é. […] E qual é a posição dela em relação aos filhos, nos quais ela e o seu senhor têm interesse conjunto? Por lei, são filhos dele. Só ele tem direitos legais sobre eles. Ela não pode praticar um único ato em relação a eles senão por delegação dele. Mesmo depois de morto ele, ela não é a tutora legal dos filhos, a menos que ele a tenha constituído tal por testamento.”

Não admira que os nossos preconceitos contra os direitos da mulher, descendo até nós de tais fontes e instilados em nós desde a primeira infância, sejam tão fortes. Mas a razão e a graça servem para vencer o preconceito.

Em nenhuma outra nação do mundo a condição legal da mulher é tão favorável quanto neste país; e, no entanto, em trinta e seis dos nossos estados a mulher com marido vivo não é a proprietária legal dos próprios filhos. O controle legal pertence ao marido — e, em alguns estados, ele pode dispor por testamento do filho, tirando-o da esposa antes mesmo de a criança nascer.

Capítulo 3 — As palavras+

“Não estou tão perdido na lexicografia a ponto de esquecer que as palavras são filhas da terra, e as coisas são filhos do Céu.” — Samuel Johnson

“As palavras”, diz o bispo Berkeley, “arruinaram e invadiram todas as ciências. Para ver a deformidade do erro, basta despi-lo” — isto é, tirar-lhe os disfarces verbais.

“Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual” (1Co 15.46). Isso é verdade não só das coisas, mas das palavras que as representam. Pneuma, espírito, no seu sentido primário significa vento, ar, o ar que respiramos. Kērux, pregador, era o arauto que convocava a assembleia e nela mantinha a ordem. Apostolos, apóstolo, era o enviado — mensageiro, emissário, embaixador. Presbyteros, presbítero, ancião no grau comparativo, era alguém de idade madura. Episkopos, bispo, era o supervisor, vigia, guardião. Diakonos, diácono, era o serviçal — e a palavra é de gênero comum, servindo igualmente para homem ou mulher.

Assim poderíamos percorrer todos os termos eclesiásticos do Novo Testamento: todos tinham, primariamente, um sentido secular. Mas, quando é evidente que um escritor dá a uma palavra um sentido especial, derivado, não devemos, nos escritos dele, tomar essa palavra em seu sentido primário, a menos que o contexto o exija de modo absoluto. Fazê-lo para sustentar uma teoria é altamente impróprio; nunca se faz isso no interesse da verdade.

Fazer uma palavra significar uma coisa numa passagem e outra coisa em contexto essencialmente igual, com o fim de pôr o escritor a serviço das nossas opiniões, viola os princípios da reta interpretação. Diz Locke: “Em todo discurso em que um homem pretende instruir ou convencer outro, deve usar constantemente a mesma palavra no mesmo sentido. Se isso fosse feito — e ninguém pode recusá-lo sem má-fé —, muitas das controvérsias em disputa chegariam ao fim.”

Mas, onde é claro que uma palavra é usada no seu sentido primário, assim devemos entendê-la. A palavra ekklēsia, igreja — primariamente, assembleia — ocorre 115 vezes no Novo Testamento. É corretamente traduzida por “igreja” em todos os lugares, exceto em Atos 19.32, 39 e 41, onde evidentemente conserva o sentido original de assembleia.

“A fidelidade nos nomes”, diz Tertuliano, “assegura a justa apreciação das propriedades.”

As palavras são sinais arbitrários de ideias ou de coisas; e muitas vezes a mesma palavra representa coisas sem relação alguma entre si. Essas observações mostram que, para apurar o sentido de uma palavra, precisamos olhar para o contexto em que ela se encontra. Nas nossas citações, procuraremos dar às palavras a significação pretendida por quem as usou.

Se não dermos às palavras o seu verdadeiro sentido, não chegaremos à verdade que buscamos. “Hei de insistir convosco”, diz o arcebispo Trench, “em quanto vale a pena estudar as palavras que costumais usar ou encontrar, sejam as que se referem às mais altas coisas espirituais, sejam as palavras comuns da loja e do mercado e de todo o trato familiar da vida.” E Max Müller acrescenta: “O estudo das palavras pode ser tedioso para o menino de escola, como quebrar pedras o é para o trabalhador da estrada; mas ao olhar atento do geólogo essas pedras são cheias de interesse. Também a linguagem tem maravilhas próprias, que desvela ao olhar inquiridor do estudante paciente. Há crônicas sob a sua superfície; há sermões em cada palavra.”

Capítulo 4 — A ordenação+

“Sem sangue, sem altar agora; o sacrifício terminou; sem chama, sem fumaça subindo ao alto; o Cordeiro já não é morto! Mas sangue mais rico fluiu de veias mais nobres, para purgar a alma da culpa e lavar as manchas mais vermelhas.” — Bonar
“Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.” — São Paulo (1Co 14.40)

As diferentes denominações sustentam diferentes concepções de ordenação.

1. Os Quacres não têm sacramentos nem pregadores ordenados. O seu grande teólogo, Robert Barclay, diz: “Quando se reúnem para esperar em Deus e para adorá-lo, aqueles que o Espírito separa para o ministério, abrindo-lhes a boca pelo seu poder e influência divinos e dando-lhes exortar, repreender e instruir com virtude e poder — esses são assim ordenados por Deus e admitidos ao ministério, e os seus irmãos não podem deixar de ouvi-los, recebê-los e honrá-los por causa da sua obra.” Barclay toma posição semelhante quanto ao batismo, que reduz ao batismo do Espírito, do qual o batismo de João teria sido apenas figura temporária; e quanto à Ceia do Senhor, que considera comunhão puramente interior e espiritual, cuja prática exterior teria cessado para os que alcançaram a substância.

A principal objeção a esse ensino é que ele contraria o ensino claro do Novo Testamento. (1) Todos os verdadeiros ministros são chamados pelo Espírito Santo; mas, antes que alguém se torne ministro do Evangelho no sentido pleno, o seu chamado divino precisa ser reconhecido e devidamente ratificado pela igreja. Assim foi designado o sucessor de Judas (At 1.15-26); assim Paulo foi divinamente chamado e, de maneira formal, publicamente ordenado (At 26.16-18; 13.2-3). (2) Nem todo batismo com água é o batismo de João, como ensina Barclay. O batismo cristão é batismo com água, e isso fica perfeitamente claro em Atos 19.2-6, onde se distinguem três atos: o batismo de João, o batismo em nome do Senhor Jesus — isto é, o batismo cristão — e a vinda do Espírito Santo em poder miraculoso. Isso mostra que o batismo do Espírito não aboliu o batismo com água. O mesmo se ensina com igual clareza em Atos 10.47: “Será que alguém pode negar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?” Eram pessoas que haviam recebido a substância; precisavam agora receber o sinal. (3) Igualmente contrária à Escritura é a posição acima quanto à Ceia do Senhor. Nela o corpo de Cristo deve ser participado de maneira espiritual; mas deve haver também o sinal exterior (1Co 11.23-26). Não era pão figurado, mas pão real, o que comiam; deviam fazê-lo abertamente, não como sacrifício pelo pecado, mas como memória de Cristo; e não “por um tempo, por causa dos fracos”, mas por TODO o tempo — “até que ele venha”.

2. Os católicos romanos. Em contraste flagrante com as posições acima está o ensino da Igreja de Roma. O Concílio de Trento, no terceiro cânon da vigésima terceira sessão, diz: “Se alguém afirmar que a ordem, ou a sagrada ordenação, não é um sacramento instituído por Cristo, o Senhor, seja anátema.” E no quarto cânon da mesma sessão: “Se alguém afirmar que o Espírito Santo não é dado pela ordenação, seja anátema.” Quanto ao poder conferido pela ordenação, o Catecismo Romano ensina que sacerdotes e bispos são “os intérpretes e arautos de Deus, os representantes de Deus sobre a terra”, chamados “não só anjos, mas deuses, porque detêm o lugar, o poder e a autoridade de Deus na terra”; e que ao sacerdócio da nova lei pertence “o poder de consagrar e oferecer o corpo e o sangue do Senhor e de remitir pecados, tal que a mente humana não o pode compreender”. Na ordenação, o bispo entrega ao candidato o cálice e a patena dizendo: “Recebe o poder de oferecer sacrifício a Deus e de celebrar missas tanto pelos vivos como pelos mortos.”

Que pretensões espantosas! Os próprios apóstolos jamais reivindicaram tais poderes. Nunca pretenderam transformar pão e vinho no corpo e no sangue do nosso Senhor Jesus Cristo. Não há registro de que reivindicassem perdoar pecados no lugar de Deus, ou pronunciar absolvição pela autoridade dele. Deviam perdoar aos que pecassem contra eles — mas isso todos os cristãos devem fazer. O que fizeram foi estabelecer, com autoridade, as condições sob as quais Deus perdoa o pecado. E o poder que os Doze possuíam, jamais presumiram transmiti-lo a outros. Simão, o mago, foi o único no Novo Testamento a atribuir-lhes tal poder — e foi severíssimamente repreendido (At 8.18-24).

É notável que, embora a palavra “sacerdote” ocorra cento e cinquenta e uma vezes no Novo Testamento, nem uma só vez é aplicada a um ministro cristão. Nem João, nem Pedro, nem Paulo, nem Tiago é jamais chamado sacerdote. Qual é a razão? Sacerdote é aquele que oferece sacrifícios pelos pecados de outros: “Todo sumo sacerdote é tomado dentre os homens e constituído a favor deles nas coisas concernentes a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 5.1; cf. 8.3). Mas Cristo ofereceu-se a si mesmo em sacrifício pelos nossos pecados UMA VEZ POR TODAS: “Todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, para sempre está assentado à direita de Deus” (Hb 10.11-12). Note bem: o sacrifício pelos pecados é para sempre; nunca há de repetir-se (cf. Hb 7.26-27).

Há, portanto, uma razão válida para que a religião cristã não tenha sacerdotes: não tem sacrifícios pelo pecado a oferecer. O sacrifício pelo pecado está completo. O Redentor apareceu entre os homens; o homem está redimido. Ministros que presumem ser sacerdotes, no sentido sacerdotal, insultam abertamente a Cristo.

O sacerdócio cristão abrange todo o povo de Deus. Foi a todos os santos que São Pedro escreveu: “Também vocês, como pedras que vivem, são edificados casa espiritual para serem sacerdócio santo, a fim de oferecerem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo” (1Pe 2.5). E no v. 9: “Vocês, porém, são raça eleita, sacerdócio real.” Os sacrifícios desse sacerdócio estão claramente especificados: os nossos corpos (Rm 12.1) — e nenhum sacerdote os oferece por outro; as boas obras (Hb 13.16; Ef 5.2); e o louvor (Hb 13.15) — que nenhum coro, por hábil ou bem pago que seja, pode oferecer por nós. São esses todos os sacrifícios que o Novo Testamento manda os cristãos oferecerem, e cada um os oferece por si mesmo. Nem uma palavra se diz sobre oferecer “o sacrifício da missa” como expiação pelos nossos pecados.

Se os ministros cristãos fossem chamados a abater bois e ovelhas em sacrifício pelo pecado, então seria impróprio que mulheres fossem ministros. É por isso que, no Antigo Testamento, nenhuma mulher é chamada sacerdotisa. Algumas foram profetisas, para instruir e reformar o povo; mas nenhuma mulher foi sacerdote para oferecer sacrifícios pelos pecados. Na igreja cristã primitiva, quando os ministros se tornaram orgulhosos e ambiciosos e assumiram prerrogativas sacerdotais, atribuíram à mulher um lugar inferior no ministério cristão; e, por fim, à medida que apostatavam mais plenamente, excluíram-na de todo do ministério.

Entre esses dois extremos — o dos Quacres, que não fazem absolutamente nada da ordenação, e o dos romanistas, que fazem dela uma apoteose, uma divinização — está a verdade.

Entre os protestantes em geral, a ordenação é vista como o reconhecimento solene, pela igreja, da autoridade para pregar daqueles que Deus chamou para este ofício e que deram plena prova do seu ministério. John Wesley, referindo-se a eclesiásticos da Igreja da Inglaterra, à qual pertencia, disse que por quarenta anos estivera em dúvida sobre a questão: “Que obediência é devida a sacerdotes pagãos e a infiéis mitrados?” — donde é evidente que ele não considerava a ordenação como conferidora de caráter cristão, muito menos angélico ou divino.

A ordenação é necessária para impedir que pessoas impróprias se introduzam no ministério, expondo o Evangelho ao desprezo. Daniel Webster dizia: “As formas são tão necessárias quanto os arcos de um barril: impedem que o conjunto se despedace.” “Os elementos essenciais do ato de ordenação”, diz o Rev. H. J. Van Dyke, “são a oração e a imposição de mãos, com a intenção declarada de separar o candidato para a obra do ministério, como alguém que, após o devido exame, se crê chamado por Deus para esse ofício.”

Para a ordenação há a autoridade clara do Novo Testamento. A ordenação dos sete diáconos (At 6.2-6), ocorrida logo após o derramamento do Espírito no Pentecostes, com a presença de todos os apóstolos, pode ser considerada — como sem dúvida o foi durante todo o período apostólico — a ordenação modelo para a igreja subsequente. Os seus traços característicos foram: a exigência de homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria; a eleição pela igreja sobre essa base; a oração dos apóstolos; e a imposição de mãos. A função da igreja na ordenação, portanto, não é criar ou conferir o dom do ministério, mas simplesmente reconhecê-lo e autenticá-lo quando conferido pelo Cabeça da Igreja.

A ordenação de presbíteros: na igreja apostólica, bispos e presbíteros eram o mesmo. Paulo, de Mileto, mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso e lhes disse que o Espírito Santo os havia constituído bispos para apascentarem a igreja de Deus (At 20.17, 28). Nas listas de oficiais da igreja no Novo Testamento, presbíteros e bispos jamais figuram juntos na mesma lista. E esses presbíteros eram ordenados (At 14.23; Tt 1.5-7 — onde os que no v. 5 são chamados presbíteros, no v. 7 são chamados bispos).

A ordenação de apóstolos: em Antioquia, enquanto ministravam ao Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: “Separem Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.” Então, tendo jejuado e orado, impuseram sobre eles as mãos e os despediram (At 13.1-3). E qual foi a virtude dessa ordenação? Deu a Paulo e Barnabé título para o ministério? De modo algum: o próprio Deus já os havia chamado, e autorização mais alta não podiam receber. O Espírito Santo requereu que fossem separados para a obra, e a imposição de mãos foi a forma pela qual foram designados para o ofício. Deus previu que o rito da imposição de mãos seria tristemente abusado, que se lhe atribuiria uma potência quase mágica e que acabaria convertido, por uma pequena classe de ministros, em monopólio eclesiástico — e por isso nos deu, nessa narrativa singela, o antídoto contra a ilusão.

Nada há, portanto, na natureza da ordenação que indique que nenhuma mulher jamais deva ser ordenada. Se ela é chamada por Deus para a sua obra, e isso é evidente à igreja, então pode a igreja separá-la para essa obra pela ordenação.

A ordenação, embora não transmita no próprio rito nenhum poder sobrenatural ou mágico, deve ser ocasião de grande e permanente bênção para o ordenado. Mas isso depende, não da forma, e sim das partes envolvidas. Se os que ordenam são orgulhosos, mundanos, carnais e formais, e o candidato não é convertido, a ordenação provavelmente só o tornará mais orgulhoso, exigente e ambicioso. Mas, se os que ordenam são homens cheios de fé e do Espírito Santo, e o ordenado é espiritual, humilde e plenamente consagrado a Deus, ele pode receber na ordenação um batismo do Espírito que lhe dê novo poder por todos os seus dias. Whitefield contou quanto lutou em oração antes de aceitar as ordens — “Senhor, não me deixes ir ainda” — até que estas palavras lhe vieram ao coração: “Ninguém vos arrancará das minhas mãos.” E do dia da ordenação disse: “Quando o bispo pôs as mãos sobre a minha cabeça, o meu coração se derreteu, e ofereci a Deus todo o meu espírito, alma e corpo.” Queixaram-se ao bispo de que, com o primeiro sermão, ele havia enlouquecido quinze pessoas. O bom homem respondeu que esperava que aquela loucura durasse.

Capítulo 5 — Objeções: o Antigo Testamento+

“Deus fez livres todas as suas criaturas; a própria vida é liberdade; Deus não ordenou outros laços senão corações e mãos unidos.” — James Montgomery

As objeções à ordenação de mulheres podem ser classificadas sob dois títulos: as bíblicas e as naturais.

Alega-se que a Bíblia apresenta a mulher como inferior ao homem e sujeita a ele; que, portanto, não se lhe deve permitir ocupar posição igual à dele, seja na igreja, seja no Estado. Como prova, apresenta-se o fato de ela ter sido criada por último.

Mas, se isso prova alguma coisa, prova a sua superioridade — pois a obra da criação avançou em gradação regular, do inferior ao superior. No primeiro dos seis dias, apareceu a luz; no segundo, formou-se a atmosfera; no terceiro, ajuntaram-se as águas, surgiu a terra seca e veio à existência o mundo vegetal; no quarto, os luminares celestes; no quinto, peixes, aves e répteis; no sexto, os animais terrestres — o ser humano por último; o homem primeiro; a mulher, por último de tudo.

Matthew Henry, comentando, diz: “Adão foi formado primeiro, depois Eva (1Tm 2.13), e ela foi feita do homem e para o homem (1Co 11.8-9) […]. Contudo, tendo o ser humano sido feito por último dentre as criaturas, como a melhor e mais excelente de todas, o fato de Eva ter sido feita depois de Adão, e a partir dele, confere honra àquele sexo, como glória do homem (1Co 11.7). Se o homem é a cabeça, ela é a coroa; coroa para o marido, coroa da criação visível. O homem foi pó refinado, mas a mulher foi pó duplamente refinado, um grau mais distante da terra.”

A mulher foi criada, não como serva do homem, mas como sua companheira, sua igual. “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda” (Gn 2.18). O dr. Adam Clarke, comentando este versículo, diz: “Ezer kenegdo: um auxílio, uma contraparte de si mesmo, alguém formado a partir dele e perfeita semelhança da sua pessoa. Se a expressão for verificada escrupulosamente ao pé da letra, significa alguém como ele, ou igual a ele, posto diante dele. E isso implica que a mulher devia ser perfeita semelhança do homem, sem inferioridade nem superioridade, mas em todas as coisas igual a ele.”

O domínio que Deus deu à humanidade na criação foi um domínio conjunto — dado à mulher tanto quanto ao homem: “Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra… Criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.26-27). Tenham ELES domínio.

É evidente, portanto, que Deus criou a mulher como um ser humano do sexo feminino — nada mais, nada menos. Ela tinha todos os direitos e prerrogativas do homem. O domínio dado a ele foi dado igualmente a ela.

Nada se disse sobre sujeição da mulher antes da queda. Depois daquele triste acontecimento é que se disse à mulher, como parte do seu castigo: “O seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará” (Gn 3.16). Sobre este versículo diz Adam Clarke: “‘E ele a dominará’ — embora na criação ambos tenham sido formados com direitos iguais, e a mulher provavelmente tivesse tanto direito de governar quanto o homem; mas a sujeição à vontade do marido é parte da sua maldição.”

Mas foi prometido que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). Cristo é A SEMENTE DA MULHER. A mulher deu ao mundo o Redentor do homem. Se ela foi a primeira na queda, foi a primeira na restauração. “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gl 3.13). O “nos” inclui a mulher.

Os fariseus perguntaram a Cristo: “É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?” Na resposta, ele não apelou às leis vigentes nem aos costumes estabelecidos: fundou-a no estado de coisas anterior à queda. “Não leram que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher?” (Mt 19.4). Por que esse apelo ao princípio? PARA REPROMULGAR A LEI ALI PROMULGADA. Assim Cristo restaurou a lei primitiva. E não disse nada sobre a sujeição da mulher — nem uma palavra.

“Mas”, objeta-se, “a sociedade doméstica exige que a esposa seja sujeita ao marido.” Grande engano. Se exigisse, Cristo certamente teria dado instruções nesse sentido. A maior felicidade doméstica existe sempre onde marido e mulher vivem em termos de igualdade. Dois homens, com interesses individuais, unidos apenas por laços de negócios, convivem diariamente como sócios por anos, sem que um esteja sujeito ao outro; consideram-se iguais e tratam-se como iguais. Não poderão um homem e uma mulher, unidos pelo amor conjugal — o laço mais forte que pode unir dois seres humanos — e tendo os mesmos interesses, viver juntos da mesma maneira? Cristo veio reparar a ruína operada pela queda. Nele, e somente nele, o Paraíso é restaurado. O Evangelho pertence à mulher tanto quanto ao homem.

Objeta-se ainda que, sob o sacerdócio arônico, somente homens eram sacerdotes. É verdade; mas os sacerdotes não eram os únicos nem os principais mestres religiosos dos judeus: os profetas, nesse aspecto, estavam acima dos sacerdotes. E as mulheres profetizavam. Miriã era profetisa (Êx 15.20), e Deus, falando da libertação do seu povo do Egito, coloca-a ao lado de Moisés e Arão: “Enviei adiante de você Moisés, Arão e Miriã” (Mq 6.4). Ela foi, portanto, uma das líderes escolhidas do povo, enviada por Deus. Isso não responde à pergunta — por que Deus nunca designou uma mulher para liderar, se algum dia é certo que a mulher lidere? Com Moisés e Arão, Deus enviou Miriã “adiante” do seu povo — isto é, para conduzi-lo.

Débora foi profetisa e juíza. Desempenhou todos os deveres que desempenhavam os homens que julgaram Israel — até conduzir os seus exércitos a batalha vitoriosa (Jz 4.4). Hulda foi profetisa (2Rs 22.14); e também Noadia (Ne 6.14).

Concluímos, pois, que nada há na criação da mulher, nem na sua condição sob a lei, que prove que nenhuma mulher deva ser ordenada ministra do Evangelho.

Capítulo 6 — Objeções: o Novo Testamento+

“Todo mistério é defeito, e palavras nebulosas são fraqueza, não força; são perda, não ganho; ninguém vence batalhas com espadas de espectro; o barco fantasma sulca em vão o largo mar.” — Bonar

Em tudo o que já ouvimos e lemos contra o direito de a mulher ser, no sentido mais pleno, ministra do Evangelho, jamais ouvimos ou lemos uma única citação das palavras de Jesus contra esse direito. Isso é significativo. Cristo aplicou à mulher as mesmas regras de conduta moral que ao homem. O seu tratamento da mulher apanhada em adultério quase não tem paralelo. Nenhuma mulher veio a ele para ser repelida.

Mas, diz-se, se as mulheres devem pregar, por que ele não escolheu uma mulher entre os Doze? Perguntamos, em resposta: se os gentios devem pregar, por que ele não escolheu um gentio entre os Doze? Por que os Doze eram judeus, todos eles? O exemplo obriga tanto num caso quanto no outro.

Responde-se, porém, que Paulo resolve a questão: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus” (Gl 3.28). Ora, é contrário a todos os princípios sadios de interpretação dizer que esta passagem concede ao grego os mesmos direitos que ao judeu num sentido, e à mulher os mesmos direitos que ao homem em outro sentido, muito mais restrito. Se ela dá a homens de todas as nações o direito de se tornarem ministros do Evangelho, dá às mulheres precisamente o mesmo direito.

Faça-se deste o TEXTO-CHAVE sobre o assunto, e dê-se às demais passagens uma interpretação que concorde com ele, e tudo é harmonia. O aparente conflito acaba. Tiram-se os grilhões da mulher, e ela fica livre para servir a Cristo em qualquer posição que esteja habilitada e seja chamada a ocupar. Por que não fazê-lo?

Objeta-se, na linguagem forte e clara de um ministro capaz: em Gl 3 o assunto, do princípio ao fim, seria apenas a salvação pela fé; homem e mulher seriam “um” apenas quanto ao modo de ser salvos; levar a unidade além disso seria acrescentar ao texto inspirado. A essa objeção respondemos:

1. Se este versículo se referisse apenas à salvação pela fé, a mulher não seria mencionada — seria uma superfluidade. Nas muitas ofertas de salvação do Novo Testamento, a mulher não é mencionada em separado. Nem uma vez. “Quem crer e for batizado será salvo” inclui a mulher tanto quanto o homem, e todos assim o entenderam; nunca houve disputa sobre isso. As mulheres perseveravam na primeira reunião de oração (At 1.14); criam no Senhor (At 5.14); eram tão ativas na causa de Cristo que provocavam perseguição (At 8.3); e, desde o início, eram batizadas (At 8.12) — embora não haja mandamento específico de batizar mulheres, nem oferta separada de salvação para elas. Se Gl 3.28 tratasse só da salvação, mencionar o “grego” e o “escravo” teria propósito — foi preciso um milagre para convencer Pedro de que um gentio podia ser salvo —, mas a menção teria parado neles. Todos já consideravam a mulher incluída nas provisões gerais do Evangelho. Devemos, pois, dar a este versículo o seu sentido pleno, natural, abrangente: ele ensina, como de fato ensina, a perfeita igualdade de todos, sob o Evangelho, em direitos e privilégios, sem distinção de nacionalidade, condição ou sexo.

2. Há dois modos corretos de raciocinar: dos particulares deduzir uma verdade geral; ou de uma verdade geral admitida aplicar aos particulares. O apóstolo adota aqui o primeiro método. Mostra que Abraão foi justificado pela fé; que a lei mosaica era temporária, até que Cristo viesse; que todos os que têm fé em Cristo se tornam filhos de Deus. Então faz duas afirmações gerais: que em Cristo Jesus ficam abolidos todos os privilégios peculiares baseados em nacionalidade, condição ou sexo — no Evangelho, uma nação tem os mesmos direitos que outra, o escravo os mesmos que o livre, a mulher os mesmos que o homem; e que todos, sem distinção, os que creem em Cristo são filhos de Abraão e herdeiros segundo a promessa.

Com isso concorda Adam Clarke no seu comentário deste versículo: “‘Nem homem nem mulher.’ Com grande razão o apóstolo introduz isto. Entre os privilégios de homens e mulheres havia grande disparidade entre os judeus. […] Em muitos casos elas eram tratadas mais como crianças do que como adultas; e até hoje não lhes é permitido assembleiar-se com os homens nas sinagogas. Sob o bendito espírito do cristianismo, elas têm direitos iguais, privilégios iguais e bênçãos iguais e — deixem-me acrescentar — são igualmente úteis.” É tudo o que defendemos. Estamos em pleno acordo com estas palavras do grande comentarista.

Alega-se ainda que Paulo, em palavras expressas, proíbe as mulheres de se tornarem ministras do Evangelho. Em prova, citam-se duas passagens: “As mulheres fiquem caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa ao seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja” (1Co 14.34-35). E: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o marido; que ela permaneça em silêncio” (1Tm 2.11-12).

1. Estas são as únicas passagens desse tipo na Bíblia. Não há outras que pareçam proibir a mulher de pregar ou de exercer os demais deveres de um ministro do Evangelho.

2. Nenhuma denominação aplica estas passagens ao pé da letra. Se aplicasse, não permitiria: que as mulheres cantassem na igreja — pois cantar não é ficar calada; nem que orassem, pela mesma razão; nem que testemunhassem — pois testemunhar é falar; nem que ensinassem na escola dominical ou em qualquer outro lugar — pois a declaração é geral: “não permito que a mulher ensine”; nem que escrevessem livros religiosos ou para periódicos religiosos — pois isso é ensinar. Note-se: a pregação não é especificada; só é proibida enquanto é um dos modos de quebrar o silêncio, um dos modos de ensinar. Até aqui, portanto, todos concordam que estas palavras de Paulo não devem ser tomadas literalmente. Os presbiterianos mais rígidos permitem que as mulheres cantem na igreja e ensinem na escola dominical. Madame Guyon e outras santas mulheres entre os católicos romanos escreveram livros religiosos — e assim ensinaram.

3. É evidente que Paulo não pretendeu proibir as mulheres de tomar parte nos cultos, nem mesmo de pregar. Pois, nesta mesma epístola, ele dá instruções sobre o vestuário delas quando, nas congregações públicas, tomam parte nos exercícios — oram e profetizam, isto é, pregam: “Toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua própria cabeça” (1Co 11.5). Isso certamente pressupõe que ela orava e profetizava em público. Logo, Paulo não exigiu que todas as mulheres guardassem silêncio na igreja em sentido absoluto. Ele permitiu que algumas ensinassem — pois, se não ensinassem, como edificariam os ouvintes? Queria que se vestissem de modo a não levantar suspeita quanto à sua modéstia.

Priscila era mulher. Apolo era um eloquente pregador do Evangelho. Mas Áquila e Priscila expuseram a Apolo com mais exatidão o caminho de Deus. Paulo, nas suas epístolas, enviou saudações a várias mulheres que trabalhavam no Senhor: “Peço também a você, meu fiel companheiro de jugo, que ajude essas mulheres que trabalharam ao meu lado no evangelho, com Clemente e os meus demais cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida” (Fp 4.3). A palavra aqui traduzida “trabalharam ao meu lado” é synēthlēsan — de syn, junto, e athleō, lutar, a mesma raiz de “atleta”. Significa lutar ao lado de alguém, ajudá-lo vigorosamente. Clemente foi ministro célebre — o mesmo, supõe-se, que depois foi bispo de Roma. Essas mulheres deram a Paulo a mesma ajuda que Clemente deu. “Saúdem Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram o próprio pescoço; e isso lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios” (Rm 16.3-4). Cooperadores: synergous. Com outros, ele saúda Maria, Júnia e Júlia. “Saúdem Trifena e Trifosa, que trabalham no Senhor. Saúdem a estimada Pérside, que muito trabalhou no Senhor” (Rm 16.12).

Comentando este versículo, diz o dr. Clarke: “Aprendemos daqui que mulheres cristãs, tanto quanto homens, trabalhavam no ministério da palavra. Muitos gastaram muito trabalho inútil no esforço de provar que essas mulheres não pregavam. Que havia profetisas, além de profetas, na igreja cristã, nós o sabemos; e que a mulher podia orar ou profetizar, contanto que tivesse a cabeça coberta, também; e que quem profetizava falava aos outros para edificação, exortação e consolo, São Paulo o declara (1Co 14.3). E que nenhum pregador pode fazer mais do que isso, toda pessoa há de reconhecer — porque edificar, exortar e consolar são os fins primordiais do ministério do Evangelho. Se as mulheres assim profetizavam, então as mulheres pregavam. Há, contudo, muito mais do que isso implicado no ministério cristão, de que somente homens, e homens chamados por Deus, são capazes.” Nesta última frase vemos o poder do preconceito até sobre um homem tão grande e bom quanto o dr. Clarke. Que “muito mais” é esse, de que “somente homens são capazes”, ele não nos diz — e nós não conseguimos imaginar.

O próprio São Paulo, portanto, deixa claro que os dois versículos citados acima não devem ser interpretados literalmente.

4. Pedro diz que em todas as epístolas de Paulo há coisas difíceis de entender (2Pe 3.16). Por que não classificar entre essas coisas difíceis o que ele diz sobre o silêncio das mulheres nas igrejas, e conformar a nossa prática ao que encontramos, em outras passagens, que as mulheres de fato faziam na igreja apostólica? Não vemos nada de errado nesse caminho. Aliás, igrejas que não permitem à mulher orar ou testemunhar nos cultos públicos não dão atenção nenhuma à proibição de as mulheres se adornarem com ouro, pérolas ou vestuário dispendioso (1Tm 2.9) — e, no entanto, todo o teor da Escritura está em harmonia com esta última restrição!

5. Cremos, porém, que o que ele diz sobre o silêncio das mulheres pode ser explicado satisfatoriamente. O contexto de 1Co 14.34 mostra que o apóstolo está tratando de desordem e confusão, não do direito de a mulher pregar. “Porque Deus não é Deus de confusão” (v. 33). Ao homem também se ordena o silêncio em certas circunstâncias: “mas, se não houver intérprete, fique calado na igreja” (v. 28). A mulher deve sujeitar-se à devida autoridade? O homem também: “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas” (v. 32).

Crisóstomo, que viveu no século IV, comentando 1Co 14.34, lança luz sobre o assunto: tendo o apóstolo contido a perturbação vinda das línguas e das profecias, passa em seguida à desordem que vinha das mulheres, reprimindo a sua ousadia inoportuna de falar. E, descrevendo o comportamento na igreja do seu tempo, diz Crisóstomo: “Costuma haver grande ruído entre elas, muito clamor e conversa, e em nenhum lugar tanto quanto neste. Podem ser vistas aqui todas conversando mais do que no mercado ou nos banhos. Como se viessem para recrear-se, todas se ocupam em conversar sobre assuntos inúteis. Assim, tudo é confusão.”

Corinto era a Paris do seu tempo: um povo alegre, frívolo, entregue ao prazer. A igreja cristã da cidade compunha-se dos que, dentre esse povo, haviam aceitado a Cristo. As mulheres, admitidas à liberdade do Evangelho, abusavam dessa liberdade — como também os homens. A maior parte do capítulo 14 de 1Coríntios é dedicada a regras para os homens. Quando fala das mulheres, não é em termos gerais, mas “as vossas mulheres” — as mulheres que cedem ao espírito desordeiro que prevalece entre vós. A proibição do v. 34 era local e temporária.

Timóteo trabalhava entre igrejas compostas principalmente de convertidos do paganismo. Assim, quando Paulo lhe escreve “não permito que a mulher ensine, nem que usurpe autoridade sobre o homem”, as palavras são evidentemente usadas no mesmo sentido das palavras semelhantes de Coríntios: quando uma mulher é devidamente autorizada a ensinar, ela não usurpa autoridade. A autoridade que lhe foi devidamente conferida, ela tem o direito de exercer, de maneira própria e dentro dos devidos limites.

Concluímos este capítulo com uma constatação que todos devem admitir: as restrições que estivemos considerando impedem tanto o que as igrejas geralmente permitem à mulher fazer — cantar, orar, falar — quanto a sua ordenação. Ou voltamos atrás, ou vamos adiante. Ou lhe damos direitos iguais aos dos homens, ou a reduzimos à servidão das eras passadas. Ou nos governamos pela lei cristã do amor e da equidade, ou damos um passo de volta à barbárie e nos governamos pela lei da força bruta. Qual será?

A posição atual das igrejas não é apenas errada; é incoerente. Concedem à mulher demais, se as palavras restritivas de Paulo devem ser tomadas ao pé da letra; concedem de menos, se essas palavras devem ser entendidas em harmonia com o resto da Bíblia. Se a mulher, ao usar a voz para louvar a Deus ou declarar a sua verdade nas vossas igrejas, é transgressora — então silenciai-a a qualquer custo; mas, se está fazendo o que é certo, removei todos os grilhões e dai-lhe a liberdade do Evangelho.

Capítulo 7 — Objeções: a natureza+

“No ar parado a música jaz inaudível; no mármore bruto a beleza se esconde; para despertar a música e a beleza é preciso o toque do mestre, o cinzel agudo do escultor.” — Bonar

Objeta-se que a mulher no púlpito está fora do seu lugar; que a natureza nunca a destinou a ser ministra do Evangelho. Com a literatura clássica, desceram até nós as velhas ideias pagãs sobre a verdadeira posição da mulher. Aristóteles dizia: “A relação do homem com a mulher é a do governante com o súdito.”

Alega-se que a mulher é naturalmente inapta para os deveres de um ministro do Evangelho; que a natureza, pelas suas leis inexoráveis, impede a sua ordenação; que ela é fisicamente desqualificada para o ofício ministerial.

Se assim é, não há a menor necessidade de fechar-lhe o púlpito. Não é preciso legislação para impedir que ovelhas mergulhem no rio ou que peixes invadam a terra. “De uma coisa podemos estar certos”, diz John Stuart Mill: “aquilo que é contrário à natureza das mulheres fazer, jamais serão levadas a fazê-lo pelo simples fato de se dar à sua natureza livre curso. A ansiedade da humanidade em intervir em favor da natureza, com medo de que a natureza não consiga realizar o seu propósito, é uma solicitude inteiramente desnecessária. O que as mulheres por natureza não podem fazer, é totalmente supérfluo proibi-las de fazer. […] Deixem-nas tão livres quanto os homens, e elas encontrarão instintivamente o seu verdadeiro lugar.”

Nenhuma legislação especial, da igreja ou do Estado, é necessária para dar às mulheres o seu devido lugar. Se a verdadeira posição de uma mulher é a de esposa, ela não hesitará em aceitá-la, se o homem certo lhe fizer a proposta. Mas há mais mulheres do que homens nos Estados Unidos. Por que algumas delas não poderiam tornar-se ministras do Evangelho, se Deus as chama para essa posição e estão devidamente qualificadas?

Que algumas mulheres possuem capacidade física para pregar já não é questão: é fato demonstrado, pois algumas mulheres pregam — e realizam com êxito os trabalhos mais exaustivos de um pregador: dirigem séries prolongadas de reuniões. O que faz um pregador ordenado que exija mais das forças físicas do que pregar, especialmente em cultos de avivamento? Algumas mulheres exercem ocupações que oneram as forças físicas mais do que pregar e administrar os sacramentos: são médicas e advogadas bem-sucedidas. Lowell, um dos nossos poetas populares, escreve: “Falam da esfera da mulher como se tivesse limite; não há lugar na terra ou no céu, não há tarefa dada à humanidade, sem uma mulher nela.”

A vocação de soldado pareceria ser aquela para a qual as mulheres estão especialmente inaptas por natureza. Contudo, sempre que a empreenderam, alcançaram pelo menos o êxito médio dos homens. Débora ganhou mais honra do que Baraque na batalha travada sob a sua direção. Na batalha de Xerxes contra os gregos, que decidiu o destino da Europa, o único corpo do seu exército que fez recuar o inimigo foi o comandado por Artemísia, rainha de Halicarnasso. Heródoto, chamado pai da História, fala de um exército de guerreiras, as “amazonas”, a quem não faltavam as qualidades de bons soldados. E Stanley fala das amazonas do rei de Uganda: “O que mais nos impressiona é o efeito da disciplina.”

Durante a Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, chegou um momento em que parecia que a França pereceria dentre as nações. Os ingleses ocupavam a maior parte das grandes cidades; o que restava do exército francês estava desanimado e desmoralizado; Orleans, a principal cidade ainda em mãos francesas, sofria cerco apertado de um exército poderoso.

Nessa conjuntura, uma camponesa de dezesseis anos anunciou que era chamada por Deus para libertar o reino. Era iletrada, modesta, trabalhadora e profundamente piedosa. Os vizinhos criam nela e a respeitavam. A um cavaleiro francês que foi vê-la, disse: “Certamente eu preferiria estar fiando ao lado da minha pobre mãe, pois isto não é a minha condição; mas preciso ir e fazer a obra, porque o meu Senhor quer que eu a faça.” “Quem é o seu Senhor?”, perguntou o cavaleiro. “O Senhor Deus”, respondeu a donzela. “Pela minha fé”, disse o cavaleiro, “eu a levarei ao rei, com a ajuda de Deus.”

Ela foi examinada pelo chanceler da França, pelo arcebispo de Reims, por cinco bispos, pelos conselheiros do rei e por vários doutores. O exame durou quinze dias. A um deles, doutor erudito, ela disse: “Não conheço A nem B; mas no Livro do nosso Senhor há mais do que nos vossos livros; venho da parte do Rei do Céu para fazer levantar o cerco de Orleans e levar o rei a Reims, para que ali seja coroado e ungido.” Os doutores decidiram em favor de Joana: “Após grave inquirição, nada se descobriu nela senão bondade, humildade, devoção, honestidade, simplicidade.” Também as maiores damas do reino, examinando a sua vida de mulher, nada acharam “senão verdade, virtude e modéstia”.

Ela foi a Orleans à frente de uma tropa pequena, mas entusiasmada. A população a recebeu “com alegria tão grande como se vissem Deus descer no meio deles”. Travou-se batalha feroz; Joana encostou uma escada de assalto na muralha e foi a primeira a subir; ferida entre o pescoço e o ombro, orou e arrancou a flecha com a própria mão. Quando os franceses davam sinais de recuar, ela retomou as armas, montou o cavalo, agitou o estandarte e lançou-se à batalha. Os franceses tomaram coragem; os ingleses, tomados de consternação, fugiram; no dia seguinte retiraram-se, e o cerco de Orleans foi levantado. Por fim, o rei Carlos VII foi coroado em Reims.

“A ira é cruel, e o furor é impetuoso; mas quem pode resistir à inveja?” Muitos em autoridade, que deviam ser seus amigos, conspiraram secretamente contra ela, até que foi entregue às mãos dos ingleses, que a queimaram viva. Ela enfrentou a morte com a mesma devoção heroica que marcou a sua vida. Dois dos juízes que a condenaram àquela morte cruel exclamaram, ao vê-la expirar: “Quisera que a minha alma estivesse onde creio que está a alma daquela mulher.” E o secretário do rei da Inglaterra, voltando da execução, disse: “Estamos todos perdidos: queimamos uma santa.”

É verdade que este é um caso extraordinário. Mas quem dirá que, nestes dias em que o mundo quase levou a igreja ao cativeiro, Deus não levantaria — se o seu Espírito tivesse livre curso — matronas e donzelas para fazer recuar as hostes do inferno e conduzir o exército dos crentes a vitórias gloriosas? Sobre os ombros em que aprouver a Deus pôr as dragonas, o homem não deve ousar arrancá-las.

Todos esses exemplos provam, certamente, que algumas mulheres podem possuir a força física, a resistência e a coragem para desempenhar todos os deveres de um ministro ordenado do Evangelho.

Capítulo 8 — Mulheres apóstolas+

“Quão pronto está para ir o homem que Deus nunca enviou! Quão tímido, hesitante e lento o Seu instrumento escolhido.” — Charles Wesley
“Assim vocês invalidaram a palavra de Deus por causa da tradição de vocês.” — Jesus (Mt 15.6)

Supõe-se que houve apenas doze apóstolos e que o ofício apostólico expirou com eles. Nada pode ser mais claro do que o Novo Testamento ensina o contrário. “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas” (1Co 12.28). Essa linguagem implica, não uma providência temporária, mas um arranjo permanente.

Embora os Doze sejam chamados nos Evangelhos, por preeminência, “os apóstolos”, outros apóstolos são mencionados no Novo Testamento. Matias, escolhido para suceder a Judas, é chamado apóstolo (At 1.26); também Paulo e Barnabé (At 14.14); também Epafrodito (Fp 2.25 — “mensageiro” na nossa versão, mas “apóstolo” no original); os irmãos a que Paulo se refere em 2Co 8.23; e Andrônico e Júnia (Rm 16.7). Todos esses, no original, são chamados apóstolos.

Tão fortes são os preconceitos até dos nossos comentaristas mais honestos, que recorrem a todos os expedientes conhecidos da crítica para explicar Rm 16.7 de modo que não prove que uma mulher foi apóstola. Parece-lhes impossível que houvesse uma apóstola na igreja apostólica; e por isso se sentem obrigados a explicar de outro modo a declaração clara de Paulo de que Júnia era apóstola.

1. Levantam a dúvida de se Júnia era mulher. Adam Clarke diz: “Júnia pode provavelmente ser nome de mulher.” Dean Alford, geralmente tão equânime, sugere que o nome poderia ser masculino (contração de Junianus). É muito significativo que nem Alford nem Clarke apresentem razão alguma para a dúvida que sugerem — eles, que costumam abundar em razões para as suas opiniões. Mas de que Júnia era mulher não há a menor razão para duvidar: as quatro edições do Testamento Grego, inclusive o texto de que se fez a versão revisada, trazem Iounian, Júnia; se em algum manuscrito a palavra estivesse escrita com o acento circunflexo indicando contração, algum crítico de olho agudo o teria notado; e Crisóstomo afirma positivamente que Júnia era mulher.

2. O dr. Clarke exprime dúvida sobre se Júnia era apóstola — “notáveis entre os apóstolos” poderia significar apenas “muito respeitados pelos apóstolos”. Considerando os preconceitos da época em que viveu, essa dúvida já é grande concessão. Mas que Júnia era apóstola ficará evidente a quem pesar as seguintes razões. Dean Alford registra as duas traduções possíveis e conclui: se o sentido fosse “bem conhecidos dos apóstolos”, esperaríamos uma expressão como a de 2Co 8.18 (“por todas as igrejas”); além disso, “toda a questão parece ter surgido, nos tempos modernos, da ideia de que ‘os apóstolos’ só pode significar os Doze. Tomando-se o sentido mais largo, presente em At 14.4, 14; 2Co 8.23; 1Ts 2.6, não há por que duvidar do significado”. Alford, portanto, não tem dúvida de que Júnia era apóstola. Lutero, na sua Bíblia alemã, traduz: “welche sind berühmte Apostel” — “que são apóstolos renomados”.

Crisóstomo torna o sentido claro para além de qualquer sombra de dúvida. Homem de grande erudição, o grego era a sua língua nativa; nasceu em Antioquia no ano 347. Comentando este versículo, diz: “‘Notáveis entre os apóstolos.’ Já ser apóstolo é grande coisa; mas ser notável entre eles — considerai que grande encômio! Eram notáveis pelas suas obras, pelos seus feitos. Oh, quão grande é a devoção desta mulher, que foi julgada digna do título de apóstola! E nem aqui ele para: acrescenta ainda outro elogio — ‘os quais estavam em Cristo antes de mim’.” Assim, Crisóstomo declara claramente: que Júnia era mulher; e que era apóstola. Olshausen, no seu comentário, acrescenta: “Júnia parece ter sido a esposa de Andrônico. O título de apóstolo deve aqui ser tomado, é claro, no sentido mais amplo da palavra” — isto é, não confinado aos Doze.

É indiscutível que os apóstolos são a ordem mais alta do ministério: Deus os colocou no posto supremo. Em lugar nenhum o Novo Testamento diz que essa ordem se extinguiu com a primeira geração de cristãos. Deus os estabeleceu na sua igreja; e, sejam quais forem os arranjos dos homens, Deus levanta apóstolos de tempos em tempos. LUTERO foi um apóstolo, enviado por Deus para conduzir a grande Reforma. JOHN WESLEY foi um apóstolo. ELIZABETH FRY foi uma apóstola, enviada por Deus para oferecer salvação aos criminosos mais endurecidos e pôr em movimento influências reformadoras que jamais cessarão de operar. WILLIAM TAYLOR é tão verdadeiramente apóstolo quanto São Paulo o foi.

Visto, pois, que no próprio início da igreja cristã uma mulher foi apóstola, não devemos, por causa do sexo, excluir a mulher de nenhuma posição na igreja para a qual Deus a chame e para a qual possua, no juízo daqueles a quem cabe decidir nessas matérias, qualificações tão amplas quanto as exigidas dos homens que aspiram à mesma posição.

Já é tempo de derrubar a tirania do sexo. E a Igreja de Jesus Cristo deveria ir à frente, tratando todos os seres humanos com absoluta imparcialidade. Paulo diz que foi constituído pregador e apóstolo (1Tm 2.7); podemos concluir que Júnia foi ordenada. Só Deus pode fazer apóstolos. Mas, se ele envia uma mulher para fazer a obra de apóstolo, e ela a faz fielmente, por que hesitaríamos em dar o nome bíblico ao ofício que ela foi chamada e capacitada por Deus a exercer?

“Que podia eu fazer senão o que fiz? Poderia proibir um pássaro de cantar? Negar a folha que o vento agita? Repreender a música do riacho da floresta?” — Whittier. Deus acende luzes para que brilhem; e a igreja deveria cessar os seus esforços de apagar essas luzes, ou de murá-las de tal modo que iluminem apenas a poucos.

Capítulo 9 — Mulheres profetisas+

“Tu mesmo e o que possuis não são teus de modo tão próprio que gastes contigo as tuas virtudes, e elas contigo. O céu faz conosco o que nós fazemos com as tochas: não as acende para si mesmas; pois, se as nossas virtudes não saíssem de nós, seria como se não as tivéssemos.” — Shakespeare

Que as mulheres haveriam de tomar parte proeminente na evangelização do mundo foi predito nas profecias antigas com a mesma clareza com que o foi o próprio Evangelho. A primeira grande profecia declara que a semente da mulher “esmagará a cabeça da serpente” (Gn 3.15). Como diz Henry Melville, “esta é uma passagem maravilhosa, que se estende por todo o tempo e traça as linhas da história deste mundo, do princípio até a consumação final”. Foi pela “semente da mulher”, Cristo, que a nossa redenção foi comprada.

E não só isso: foi predito que a mulher teria parte distinta em tornar conhecidas as boas-novas da salvação. “O Senhor deu a palavra; grande era a companhia dos que a publicavam” (Sl 68.11). Tal como estão na nossa versão comum, essas palavras nada parecem ter fora do comum. Muito diferente é no original. Comentando este versículo, diz o dr. Adam Clarke: “‘Das pregadoras havia grande exército.’ Esta é a tradução literal da passagem; faça dela o leitor o que quiser.” Nós fazemos dela uma predição de que, nos dias de que fala este salmo — quando “a Etiópia estenderá as mãos para Deus” —, as mulheres haveriam de pregar o Evangelho. A versão revisada dá sentido semelhante: “O Senhor dá a palavra; as mulheres que anunciam as boas-novas são grande exército.” O bispo Horne considera este salmo messiânico, composto na ocasião festiva do transporte da arca ao monte Sião, na qual Davi, antevendo a exaltação do Messias, o descreve levantando-se e vencendo os seus inimigos.

Em harmonia com isso está a profecia de Joel, citada por São Pedro: “E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; os filhos e as filhas de vocês profetizarão… Até sobre os meus servos e as minhas servas derramarei o meu Espírito naqueles dias, e eles profetizarão” (At 2.17-18).

1. Toda a pregação aqui predita está incluída na palavra “profetizar”. 2. Nenhuma distinção se faz entre os “filhos e filhas”, entre os “servos e servas”. O que se afirma de uns, afirma-se dos outros. Não se dá aos filhos ministério mais alto do que às filhas. Se uns podem ser ordenados, as outras também.

Essa predição não se esgotou no dia de Pentecostes. Devia continuar a cumprir-se por toda a dispensação cristã — é o que implicam as palavras “nos últimos dias”. Se no Pentecostes já estavam nos “últimos dias”, certamente nós estamos agora nos “últimos dias”. Devemos, então, esperar o mesmo derramamento do Espírito sobre as mulheres e sobre os homens; e elas têm o mesmo direito divino de declarar, sob a influência do Espírito Santo, o maravilhoso poder e a grande disposição de Cristo para salvar.

Sob a antiga dispensação, como vimos, houve mulheres profetisas. Na vinda de Cristo, Ana era profetisa (Lc 2.36). Mas essas eram exceções. Sob o Evangelho, a regra é que sobre as mulheres, igualmente como sobre os homens, a influência profética seja derramada, e que elas profetizem. Nenhuma distinção de sexo se observa no poder e na liberdade dados por Deus para falar por Ele.

É preciso ter em mente que o sentido primário de profetizar é falar por outro — falar sob a influência direta do Espírito de Deus. O primeiro lugar da Bíblia onde ocorre a palavra profeta é quando Deus diz de Abraão: “porque ele é profeta e intercederá por você” (Gn 20.7). Não há aí alusão alguma à predição de eventos futuros. Diz Adam Clarke: “O sentido próprio e original da palavra é orar, rogar, suplicar.” Assim se diz que o Espírito de Deus veio sobre Saul, e ele profetizou (1Sm 10.10) — sem indicação de que predissesse o futuro. Mas, como Deus faz conhecer especialmente a sua vontade aos que vivem em íntima comunhão com Ele pela oração e pela fé, alguns desses homens foram inspirados a predizer eventos futuros; daí considerar-se geralmente o profeta como aquele que prediz. No sentido bíblico, porém, profeta é quem fala a verdade de Deus, inspirado pelo seu Espírito, quer essa verdade se refira ao presente, quer ao porvir. Grande parte dos escritos dos profetas do Antigo Testamento são exortações.

São Paulo declara: “Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando” (1Co 14.3). E, comentando “maior é o que profetiza”, diz Clarke: “Um pregador útil e zeloso, ainda que ignorante das línguas eruditas, é muito maior aos olhos de Deus, e aos olhos do bom senso, do que aquele que tem o dom dessas línguas, exceto se interpretar; e raramente encontramos grandes eruditos que sejam bons pregadores. Isto deveria humilhar o erudito, tão propenso a orgulhar-se dos seus dotes e a desprezar o irmão menos letrado, porém mais útil.”

Chegamos, então, a estas CONCLUSÕES:

1. Os profetas são uma ordem estabelecida de ministros na Igreja de Cristo — predita no Antigo Testamento e declarada no Novo. 2. Vêm logo depois dos apóstolos: “primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas” (1Co 12.28; cf. Ef 4.11-12) — dados por Deus para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo. 3. No sentido neotestamentário, profetas são os chamados por Deus e inspirados pelo seu Espírito para pregar o Evangelho. 4. No ofício profético não se faz a menor distinção entre mulheres e homens. 5. A inferência é inevitável: se homens que dão à igreja evidência satisfatória de que são chamados por Deus para profetizar — isto é, pregar — devem ser ordenados, então mulheres que dão evidência igualmente satisfatória de que são chamadas por Deus para pregar devem ser ordenadas. Não vemos como se possa evitar esta conclusão.

Se é evidente que Deus chamou uma mulher para a sua grande obra e a adornou eminentemente com dons e graças para realizá-la, então deve a igreja apressá-la na sua missão, endossando-a solenemente diante do mundo, ao separá-la para a obra para a qual Deus a chamou. Feita por homem ou por mulher, é obra digna de todo reconhecimento “guiar o povo no caminho da verdade pela doutrina que salva, e do erro desviá-lo, para conhecer e, conhecendo, adorar a Deus retamente”.

Capítulo 10 — Diáconos+

“Não é só ao coração do homem que a santa influência chega; aquecido por um arrebatamento que não é seu, o coração da MULHER a sente. Como aquela que, junto ao poço de Samaria, buscou a mensagem do Salvador — como as que trabalharam com o fervoroso Paulo e o manso Áquila.” — Whittier

Supõe-se geralmente que os sete, cuja designação como auxiliares dos apóstolos é descrita em Atos 6.1-6, eram diáconos. Provavelmente eram; não o poremos em dúvida. Mas merece nota o fato de que nunca são chamados diáconos. E deve-se ter em mente que o único registro que temos dos seus atos é o de realizarem a obra de um pregador do Evangelho: “Estêvão, cheio de graça e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo” (At 6.8); “e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava”. Filipe, o evangelista, era um dos sete (At 21.8). De modo que, embora “os sete” devessem cuidar das distribuições caritativas da igreja, em nenhum lugar aparece que o seu trabalho se limitasse a isso. Eram auxiliares dos apóstolos e, como tais, pregavam.

Nada pode ser mais claro do que isto: os diáconos do Novo Testamento eram pregadores. “Quem é Paulo? E quem é Apolo? Servos” — no original, diáconos — “por meio dos quais vocês creram” (1Co 3.5). “O qual nos habilitou para sermos ministros (diáconos) de uma nova aliança” (2Co 3.6). “Do qual fui constituído ministro (diácono)” (Ef 3.7). “A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos” (Fp 1.1) — aqui o apóstolo menciona apenas duas classes ou ordens de ministros, e uma delas é a dos diáconos. “Do qual eu, Paulo, fui constituído ministro (diácono)” (Cl 1.23). “Timóteo, nosso irmão e ministro (diácono) de Deus” (1Ts 3.2).

Em suma: não há uma única passagem em que a palavra diácono designe um oficial da igreja com qualquer indicação de que esse diácono não fosse pregador. A conclusão tem de ser que os diáconos do Novo Testamento eram pregadores — todos eles. Mosheim, escrevendo sobre a igreja do primeiro século, diz: “Tanto os presbíteros quanto os diáconos pregavam e administravam o sacramento do batismo, e os primeiros a Ceia do Senhor.”

A palavra diakonos, onde usada no Novo Testamento com referência a um oficial da igreja, é uniformemente traduzida por “ministro” nas nossas versões — exceto num único caso. E esse caso é justamente quando se refere a uma mulher: “Recomendo a vocês a nossa irmã Febe, que está servindo” — no original, diakonos, diácono — “à igreja de Cencreia” (Rm 16.1).

Vede aqui o poder do preconceito até em homens doutos e piedosos. Paulo, quando chamado diácono, os nossos tradutores chamam ministro; mas Febe, quando chamada diácono, fazem-na serva. Para que não houvesse disputa quanto ao seu sexo, Paulo a chama “nossa irmã”; para que não houvesse dúvida quanto à sua posição eclesiástica, chama-a diácono — ministra — da igreja em Cencreia. Nada pode ser mais claro; nada pode ser mais definido. As igrejas daquele tempo não tinham servos no sentido ordinário da palavra: eram pobres, reuniam-se em casas particulares, não possuíam templos. Temos aqui, portanto, o registro neotestamentário de uma mulher que foi ministra.

O apóstolo declara as qualificações que as mulheres diáconos devem possuir: “Da mesma forma, quanto às mulheres, é preciso que sejam respeitáveis, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo” (1Tm 3.11). Tínhamos lido essa passagem centenas de vezes sem suspeitar do seu sentido. Ultimamente, lendo-a no original, o significado nos feriu como por revelação: a palavra traduzida por “esposas” em algumas versões deve ser “mulheres”; o possessivo “suas” não está no original. O que o apóstolo escreve aqui não é sobre as esposas dos diáconos, mas sobre mulheres diáconos.

Crisóstomo diz deste versículo: “Alguns pensaram que isto foi dito das mulheres em geral; mas não é assim, pois por que introduziria ele algo sobre mulheres que interferisse no seu assunto? Ele fala das que têm o posto de diaconisas. Isto deve entender-se, portanto, como relativo às diaconisas; pois essa ordem é necessária, útil e honrosa na igreja.” Adam Clarke, embora inclinado a ver “as mulheres cristãs em geral”, admite: “se o apóstolo tinha em vista as chamadas diaconisas, o que é bem possível, as palavras lhes são peculiarmente adequadas. Que havia tal ordem na igreja apostólica e primitiva, e que eram designadas para o seu ofício pela imposição de mãos, já foi observado sobre Rm 16.1.” Considerando o tempo em que Clarke escreveu, isso é dizer muito.

Dean Alford, um dos mais eruditos comentaristas modernos, é ainda mais explícito. Examinando as quatro interpretações possíveis de 1Tm 3.11, descarta que se trate das mulheres em geral (pela razão de Crisóstomo), das esposas dos bispos e diáconos, ou das esposas dos diáconos — contra esta última pesam a omissão de “suas” no grego, o “da mesma forma” que introduz uma nova classe eclesiástica, e o caso de Febe, diácono da igreja de Cencreia. E conclui: “Decido, portanto, que estas mulheres são diaconisas” — ministrae, ministras, como Plínio as chama na sua carta a Trajano; visão em que os antigos, tanto quanto sei, são unânimes. O comentário de Olshausen diz sobre o mesmo versículo: “Dificilmente admite dúvida que gynaikas deve entender-se aqui como diaconisas.” O Comentário Americano, editado por Alvah Hovey: “Mulheres, da mesma forma — isto é, mulheres que ocupam o ofício de diácono, diaconisas.” E Jamieson, Fausset e Brown: “‘As mulheres’, isto é, ‘as diaconisas’ […]. Vê-se que ele exige das mulheres diáconos as mesmas qualificações que dos diáconos, apenas com as modificações que a diferença de sexo sugere.”

Assim vemos: 1. Que os oficiais da igreja neotestamentária chamados diáconos eram pregadores do Evangelho — faziam outras coisas, mas incidentais à pregação; eram uma ordem regularmente constituída e reconhecida do ministério. 2. Que, na igreja do Novo Testamento, alguns dos diáconos eram mulheres. 3. Que se fez provisão para que mulheres fossem diáconos na igreja de Cristo por todo o tempo vindouro, pois as qualificações que devem possuir são dadas, tal como as dos homens diáconos — e são essencialmente as mesmas.

O Novo Testamento, portanto, dá à Igreja ampla autoridade para ordenar mulheres para a obra do ministério.

Capítulo 11 — Diaconisas+

“A brecha, pequena a princípio, logo se alarga; a loucura entra de maré cheia; então são bem-vindos os erros de qualquer tamanho, para justificá-la com mil mentiras. Como a hera rasteira se agarra à madeira ou à pedra e esconde a ruína de que se alimenta, assim a sofística se apega ao tronco podre do pecado e lhe protege e oculta os defeitos.” — Cowper

Os diáconos do Novo Testamento, como vimos, eram pregadores. Eram auxiliares dos apóstolos; ajudavam-nos a espalhar o conhecimento do Evangelho, pois deviam “conservar o mistério da fé com a consciência limpa” (1Tm 3.9). Cuidavam da distribuição das caridades da igreja e auxiliavam na administração dos sacramentos.

Não há, no Novo Testamento, a mais leve indicação de que o trabalho das diaconisas fosse, em qualquer aspecto, diferente do dos diáconos. O ofício era um só — as funções, as mesmas. Uma agente de correio desempenha todos os deveres e goza de todos os privilégios de um agente de correio. Uma rainha que sucede ao trono por direito próprio possui todas as prerrogativas de um rei: Elizabeth da Inglaterra não foi soberana menor do que o seu pai, Henrique VIII, a quem sucedeu. Assim, uma diaconisa, no sentido neotestamentário do termo, é simplesmente uma mulher que possui as funções e desempenha os deveres de um diácono.

Mosheim, falando da igreja do primeiro século, diz: “A igreja sempre teve, desde o seu primeiro surgimento, uma classe de ministros composta de pessoas de ambos os sexos, que eram chamadas diáconos e diaconisas. O seu ofício era distribuir as esmolas aos necessitados, levar as ordens ou mensagens dos presbíteros onde fosse necessário e desempenhar vários outros deveres, alguns relativos às assembleias solenes realizadas a intervalos regulares, outros de natureza geral.” Essa opinião — de que diáconos e diaconisas eram essencialmente o mesmo e constituíam “uma classe de ministros” — é sem dúvida correta. Nas “assembleias solenes”, na ausência de um presbítero, cabia-lhes conduzir o culto e pregar a palavra. “Homens doutos”, diz o mesmo historiador, “foram levados a concluir, e aparentemente com muita razão, que aqueles que haviam dado prova inequívoca da sua fé e probidade na qualidade de diáconos eram, depois de algum tempo, eleitos para a ordem dos presbíteros.”

A prática de algumas das nossas igrejas modernas — colocar os diáconos onde pertencem, como ordem do ministério, elegíveis à promoção, e classificar as diaconisas entre os obreiros leigos, sem possibilidade alguma de jamais ascender aos ministérios superiores da igreja — não tem em seu favor nem a razão nem a Escritura. É dar pedra a quem pede pão. É conferir a sombra e reter a substância; é outorgar um nome e negar o que o nome implica. Em suma, é uma farsa monumental, da qual qualquer grupo de homens que se pretenda minimamente honesto deveria envergonhar-se. É um insulto às mulheres, e como tal deveria ser repelido por elas. Toda mulher deveria recusar-se a aceitar o nome, a menos que com ele se lhe dê tudo o que o nome implica.

É presunção espantosa sobre a ignorância ou a servilidade dos seus membros que uma grande igreja diga no seu livro de disciplina: “O dever do diácono itinerante é: 1. Administrar o batismo e celebrar o matrimônio. 2. Auxiliar o presbítero na administração da Ceia do Senhor. 3. Cumprir todos os deveres de um pregador itinerante.” E logo adiante: “Os deveres das diaconisas são ministrar aos pobres, visitar os enfermos, orar com os moribundos, cuidar dos órfãos, buscar os desgarrados, consolar os aflitos, salvar os que pecam e, renunciando inteiramente a todas as outras ocupações, dedicar-se, de modo geral, às formas de trabalho cristão adequadas às suas capacidades.”

Tudo isso pode ser bom e importante — não é essa a questão. Mas por que tornar tão amplamente diferentes os deveres de diáconos e diaconisas? Por que revestir os homens diáconos de dignidade ministerial e enviá-los ao púlpito para pregar e ao altar para ajudar a administrar os sacramentos — e recusar essas prerrogativas às mulheres diáconos, mandando-as aos porões e às águas-furtadas à procura dos depravados, dos destituídos e dos moribundos? Por que dar aos diáconos a dignidade e às diaconisas o trabalho penoso? Que razão ou Escritura há para tal parcialidade?

O Estado não faz distinções tão odiosas. Quando Maria Teresa herdou o trono da Áustria e da Hungria, embora as leis húngaras reconhecessem apenas varões como sucessores do poder real, ela apresentou-se diante dos seus nobres com o filho nos braços, e os nobres, a uma só voz, bradaram: “Húngaros, eis o vosso Rei!” Nenhum monarca do seu tempo teve séquito mais leal, nem reinado mais vigoroso e glorioso. Embora rainha, teve todas as prerrogativas de um rei.

Que se pensaria de um conselho de educação que, nos seus editais para professores, dissesse: “Será dever do professor instruir os alunos, manter a ordem e desempenhar as funções de docente. Será dever da professora procurar crianças pobres, prover para elas, curar os ferimentos das que se machucarem e dedicar todo o seu tempo a trabalhos entre crianças necessitadas”? Tudo isso poderia ser necessário e útil; mas o número de professoras qualificadas que se candidatariam seria pequeno.

Não. O negócio vergonhoso de insultar a mulher — dando-lhe um ofício de nome honroso e despojando esse ofício das funções que lhe pertencem quando ocupado por um homem — está confinado às igrejas professas de Jesus Cristo. As mulheres deveriam pôr-lhe fim, recusando-se a submeter-se a tão flagrante impostura.

Aliviar o sofrimento é obra semelhante à de Cristo; dela devem participar todos os cristãos, e especialmente os ministros cristãos. Se a igreja a delega a algumas das suas mais devotadas mulheres, não nos queixaremos; mas a igreja não deve dignificar essas dispenseiras da sua beneficência com um título ministerial e, ao mesmo tempo, proibi-las de exercer as funções pertencentes à ordem do ministério que traz o mesmo título.

“E o pastor fez disso o seu texto naquela semana, e disse também: que a mentira que é meia verdade é sempre a mais negra das mentiras; que a mentira que é toda mentira pode ser enfrentada e combatida abertamente; mas a mentira que é parte verdade é assunto mais difícil de combater.” — Tennyson

Que uma igreja cristã possa ter mulheres diáconos é verdade; mas essa verdade perde a essência quando se recusa a dar a esse ofício as funções que lhe pertencem quando ocupado por homens.

Capítulo 12 — A evangelização do mundo+

“Eis que nas nuvens do céu aparece o Filho bem-amado de Deus; ele traz um cortejo de anos mais brilhantes; o seu Reino começou. Ele vem abençoar um mundo culpado com misericórdia, verdade e justiça.” — Bryant

O progresso do Evangelho é lento. Grande parte da raça humana jamais ouviu falar de Cristo. As trevas da idolatria repousam sobre a grande maioria das famílias da terra. O número de pagãos e maometanos é vastamente maior do que o número até de cristãos nominais.

Nas terras cristãs mais favorecidas, quão poucos cristãos verdadeiros se encontram! Quão pequeno o número dos que sequer professam ser nascidos de Deus! E, destes, quão pequena a proporção dos que dão evidência bíblica dessa mudança sobrenatural! “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; mas o que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” (1Jo 5.18). “Quão monstruoso”, diz Finney, “e quão melancólico é o fato de que a grande massa dos cristãos professos reconheça até hoje como sua experiência o capítulo 7 de Romanos, e não o 8! […] Confundem convicção com regeneração. Apenas lutam com a carne, mas são continuamente vencidos e reduzidos à servidão — e a isso chamam estado regenerado. Ó tristeza! Quantos milhares de almas foram cegadas por essa ilusão e desceram ao inferno!”

Qual é a causa desse relativo fracasso do cristianismo? O Evangelho é destinado por Deus a todas as nações; está adaptado a elas; é para cada indivíduo. Dá uma felicidade que nada mais pode oferecer. Toda nação que abraça o cristianismo é elevada por ele; a prosperidade acompanha o seu progresso; na sua marcha triunfal, espalha bênçãos a mãos largas. Aonde vai, estabelece escolas e igrejas, constrói lares e hospitais, traz paz e conforto. E, contudo, essa prosperidade exterior é apenas “o pó daquele diamante que constitui o seu dom supremo — as pétalas caídas daquela árvore da vida cujo fruto imortal cabe a Cristo dispensar”. Até os opositores do Evangelho admitem os seus efeitos benéficos.

Por que, então, o Evangelho não é levado até os confins da terra? Por que não é pregado a toda criatura? Não é por falta de meios. Derrama-se dinheiro em profusão para empreendimentos que trazem o nome cristão, mas servem principalmente de monumentos ao orgulho. O que se gasta para construir e manter uma igreja da moda construiria e manteria uma dúzia igualmente cômodas e mais bem adaptadas à difusão do cristianismo. Mas o Evangelho não depende de edifícios; pode usar dinheiro, mas não depende dele. Os apóstolos saíram sem bolsa nem alforje. Os primeiros evangelistas não tinham salários. Converte-se alguém numa tenda mais facilmente do que numa catedral, tal como as catedrais são administradas. Uma multidão reunida sob o grande dossel de Deus é tão acessível à verdade divina como se estivesse na Abadia de Westminster. Foi o trabalho ao ar livre que fez de Wesley e Whitefield os grandes apóstolos do seu tempo.

Nem é por falta de influência que o Evangelho não avança mais depressa. Grandes estadistas, soldados e homens de ciência confessam abertamente a sua fé. E, além de todas essas influências humanas, o Evangelho, onde quer que seja fielmente proclamado, leva consigo uma energia divina que só o livre-arbítrio do homem pode resistir. É “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”. A promessa “eis que estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” permanece válida. Nenhum advogado tem assistência como a daquele que, possuído do Espírito Santo, advoga o Evangelho. Pode faltar-lhe erudição humana; podem opor-se-lhe, persegui-lo, matá-lo — mas não podem “resistir à sabedoria e ao Espírito pelo qual ele fala”. Melâncton dizia que as palavras de Lutero “nasciam, não nos seus lábios, mas na sua alma”.

Por que, então — repetimos —, o cristianismo não desarraiga todas as falsas religiões? E por que não tem efeito mais marcado sobre a vida dos que reconhecem a sua verdade? Deve haver uma causa.

A razão é esta: a vasta maioria dos que abraçam o Evangelho não tem permissão de trabalhar segundo a sua capacidade pela difusão do Evangelho.

Diz-se que cerca de dois terços de todos os membros de todas as igrejas protestantes deste país são mulheres. E, contudo, nessas igrejas, a mulher — sejam quais forem a sua qualificação, a sua devoção e o seu zelo — não pode ocupar a mesma posição que um homem. O superior deve, às vezes, ceder lugar ao inferior. O inábil dá as ordens; o competente obedece. O covarde incompetente comanda, se não se encontra homem competente, enquanto a mulher competente é relegada à retaguarda. Pode levantar-se uma Débora — mas as igrejas, pelas suas leis, a proíbem de vir à frente. E essas leis são aplicadas com rigor, ainda que todas as outras sejam desprezadas.

Em algumas igrejas, a mulher é proibida de falar ou orar até numa reunião social, se houver homens presentes! Em nenhuma delas, exceto entre os Quacres, se dá à mulher a mesma posição, ou a mesma oportunidade de progresso, que ao homem. Ela é retida de propósito, enquanto se adotam engenhosos expedientes para fazê-la pensar que lhe é concedida toda a liberdade que deseja. Ela sofre com isso; mas quem mais sofre é a causa de Deus.

Que perda teria sofrido o mundo se John Wesley tivesse sido suprimido na infância! O trabalho que Frances Willard está realizando na causa da temperança e da reforma moral dá-nos alguma ideia do que a mulher é capaz de fazer quando deixada livre para exercer os dons e as graças que Deus lhe deu. É impossível estimar quanto a humanidade tem sofrido pelas restrições irracionais e antibíblicas impostas às mulheres nas igrejas de Jesus Cristo. Se lhes tivessem sido dados, desde os dias dos primeiros apóstolos, os mesmos direitos que aos homens, este seria outro mundo. Não só o Evangelho teria sido mais amplamente difundido entre a humanidade, como a sua influência, onde a sua verdade é reconhecida, teria sido incomparavelmente maior. As nossas assim chamadas nações cristãs estariam mais em harmonia com os ensinos de Cristo nas suas leis, nas suas instituições e nas suas práticas.

Capítulo 13 — O que a missão exige+

“No próprio poder de Deus nos cingimos para a luta que vem; e, fortes naquele cuja causa é a nossa, em conflito com poderes ímpios, empunhamos as armas que Ele deu: a Luz, a Verdade e o Amor do Céu.” — Whittier

“Por que ordenar mulheres, se o direito de pregar já lhes é geralmente concedido? Por que não haveriam de contentar-se com os privilégios de que agora gozam?” Leitor, quer considerar com honestidade as nossas respostas a essas perguntas?

A última grande ordem de Cristo exige que aqueles que fazem convertidos sejam investidos de autoridade para administrar o sacramento do batismo: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28.19-20).

Note-se a conexão estreita entre “fazer discípulos” e “batizar” neste texto importante. Isso certamente implica que aqueles que fazem discípulos para Cristo — que conduzem pecadores à conversão — devem, como regra, batizá-los. As mesmas pessoas a quem se ordena fazer discípulos recebem a ordem de batizá-los. Enquanto não o fizerem, a sua obra não está completa; uma coisa é parte da sua missão tanto quanto a outra. Quem apanha o peixe pode enfiá-lo no cordel. Esses evangelistas podem ser “primeiro provados” (1Tm 3.10); mas, achados dignos e confiáveis, devem ser revestidos de autoridade para administrar os sacramentos àqueles que conduzem à conversão.

Se a uma mulher, portanto, se permite realizar avivamentos — fazer a obra de um evangelista —, ela deve, depois de devidamente provada e achada qualificada, ser ordenada. As igrejas têm de escolher: ou impedem o trabalho dela, ou permitem que ela o complete. Ou se permite à mulher batizar, ou não se lhe deve permitir fazer convertidos. Pelo arranjo atual, as igrejas separam o que Deus uniu.

“Deve, então, todo aquele que leva um pecador à conversão batizá-lo?” Não afirmamos isso. Mas, se ele continua conduzindo pecadores à conversão e é evidentemente chamado por Deus para fazer disso o negócio da sua vida, então a igreja, quando disso se certificar, deve autorizá-lo a administrar os sacramentos. Quem dá plena prova de chamado ao ministério deve, no devido tempo, ser investido das plenas funções do ministério.

Nos países orientais, onde as mulheres vivem em grande reclusão, é necessário que mulheres sejam autorizadas a administrar o batismo às suas convertidas. Que esse direito não seja concedido é uma das razões por que o progresso do Evangelho é comparativamente tão lento naquelas terras.

A senhorita Fannie J. Sparkes, conhecida e capaz missionária na Índia, envia-nos o seguinte episódio: estava ela acampada em Bahere, no distrito de Bareilly, com o Rev. J. H. Gill e a esposa. Foram, certa tarde, à casa de um homem pobre, de casta baixa, numa aldeia próxima, onde três homens e uma mulher deviam ser batizados. Quando se fizeram as perguntas de costume, os homens responderam prontamente; a mulher permaneceu calada — até que o missionário pediu que a própria senhorita Sparkes as fizesse, e imediatamente vieram respostas prontas e satisfatórias. Os três homens foram batizados; mas, quando o Rev. Gill ia pôr a mão sobre a cabeça da mulher, ela, num movimento rápido e nervoso, puxou o véu sobre o rosto e encostou a cabeça no chão, fora do alcance da mão dele, e não consentiu no batismo naquela tarde. No dia seguinte, tudo se repetiu — até que a missionária pôs a própria mão sobre a cabeça dela. “Ela reconheceu o toque e permaneceu perfeitamente quieta até o fim da cerimônia.”

Para aquela mulher, como para cada uma das milhões de mulheres da Índia, o toque da mão de qualquer homem que não o marido significa contaminação. É o resultado necessário da educação de séculos. Direis que é um preconceito? Se é, é um preconceito digno de admiração — e que a Igreja de Cristo deve respeitar. É impossível que uma nação se torne cristã enquanto as suas mulheres não se tornarem cristãs. As mulheres da Índia precisam ser alcançadas principalmente por mulheres. Deve haver, portanto, missionárias revestidas de autoridade para administrar todas as ordenanças, bem como para oferecer todas as consolações da religião cristã. E o cristianismo destina-se a todas as terras: as igrejas da América deveriam adotar regulamentos que as habilitem a atender às necessidades dos povos da Ásia.

Além disso, é injusto convidar uma mulher a tornar-se obreira na igreja e depois — sejam quais forem as suas qualificações, capacidades e êxitos — excluí-la para sempre, por decretos arbitrários, dos seus ministérios superiores. Nem os mundanos honrados agem com tal injustiça. Permite-se a uma mulher ensinar uma classe primária nas nossas escolas? Então pode ela, quando qualificada, ensinar latim, grego e álgebra, tornar-se diretora e até superintendente escolar. As mais altas honras acadêmicas não lhe são negadas só por ser mulher: Dartmouth e Columbia, duas das nossas mais renomadas universidades, conferiram, cada uma, o título de doutora a Maria Mitchell, uma das maiores astrônomas da época.

Quando o capitão e proprietário de um barco do Mississippi morreu de repente, a esposa assumiu o comando; e as autoridades civis, após rigoroso exame, achando que ela possuía as qualificações necessárias, prontamente a licenciaram como capitã. O sexo não a impediu de promoção numa profissão para a qual os homens são especialmente talhados — e ninguém considerou o precedente perigoso. Permite-se a uma mulher atuar num juizado de primeira instância? Pode também ser admitida a advogar nos tribunais superiores; há um bom número de advogadas nos vários estados, e os homens do mundo não parecem temer ser expulsos da profissão.

A mulher deve a sua elevação ao cristianismo. E mostra o seu apreço reunindo-se ao redor da cruz de Cristo. A justiça exige, portanto, que se removam todas as barreiras postas pelos homens no caminho da elevação da mulher a qualquer ofício que a igreja possa conferir. “Ainda que pudéssemos dispensá-las”, escreve John Stuart Mill, “seria compatível com a justiça recusar-lhes a sua justa parte de honra e distinção, ou negar-lhes o direito moral, igual ao de todos os seres humanos, de escolher a própria ocupação (salvo dano a terceiros) segundo as próprias preferências e por sua própria conta e risco? E a injustiça não se limita a elas: é partilhada por todos os que se beneficiariam dos seus serviços. Decretar que certa classe de pessoas não pode ser médica, nem advogada, nem membro do parlamento é prejudicar não só essas pessoas, mas todos os que empregam médicos e advogados ou elegem parlamentares.”

Capítulo 14 — Aptidão+

“É dela colher a flor amarantina da Fé, e cingir as têmporas do Sofredor com grinaldas que resistem à mais pesada tempestade da aflição, e não se encolhem diante do vento mais cortante da dor.” — Wordsworth

Por natureza, a mulher está, no mínimo, tão qualificada quanto o homem para o ministério do Evangelho.

Um cético célebre presta o seguinte testemunho ao caráter da mulher: “Digo-vos que as mulheres são mais prudentes do que os homens. Digo-vos que, em regra, as mulheres são mais verdadeiras do que os homens. Digo-vos que as mulheres são mais fiéis do que os homens — dez vezes mais fiéis. Nunca vi um homem seguir a esposa até a vala e o pó da degradação e tomá-la nos braços; nunca vi um homem parado à beira do mar onde ela naufragou moralmente, esperando que as ondas lhe trouxessem de volta ao menos o corpo — mas já vi mulher fazê-lo. Já vi mulher, com os seus braços brancos, erguer o homem do lamaçal da degradação e apertá-lo ao peito como se ele fosse um anjo.”

O dr. Lardner diz das mulheres de Jerusalém nos dias de Cristo: “Não foi pequeno o número de mulheres que creram em Jesus como o Cristo e professaram fé nele. Muitas houve com entendimento tão bom e virtude tão grande que venceram o preconceito comum e dominante; sem parcialidade, paixão ou interesse mundano, e contra os juízos e as ameaças dos homens no poder, julgaram acertadamente num ponto controvertido de tanta importância quanto qualquer outro já debatido na terra.” E um escritor grego do segundo século disse: “É admirável que mulheres têm esses cristãos!”

1. As mulheres compreendem e absorvem o Espírito do Evangelho mais prontamente do que os homens. Cristo disse claramente aos Doze que ressuscitaria ao terceiro dia — mas eles pareciam não entender. As mulheres, porém, pareceram entender: ao raiar do terceiro dia, “Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”. Estavam de vigília; e foi a elas que Cristo primeiro se mostrou depois da ressurreição. Foi a uma mulher que ele confiou a missão de ir aos seus discípulos anunciar a sua ascensão. A mulher entrou prontamente no espírito das suas palavras — e foi na igreja apostólica que a mulher começou a ensinar os mestres da religião cristã. Mesmo agrilhoada como esteve, o cristianismo lhe deve muito do progresso que já alcançou.

Clóvis, rei dos francos, era grande guerreiro e pagão; o seu povo, idólatra. Casou-se com Clotilde, princesa borgonhesa, cristã, dedicada a obras de piedade e caridade. Pela influência dela, tornou-se cristão. A Remígio, o piedoso bispo chamado para batizá-lo por volta do ano 496, disse: “Ouvir-te-ei de bom grado, santíssimo padre; mas há uma dificuldade: o povo que me segue não abandonará os seus deuses.” O rei convocou o povo — e a influência da esposa fora mais poderosa do que ele supunha. A grande multidão bradou: “Abjuramos os deuses mortais; estamos prontos a seguir o Deus imortal que Remígio prega.” Assim a França se tornou nação cristã. Por volta do ano 568, Etelberto, rei de Kent, na Inglaterra, casou-se com Berta, filha única do rei de Paris, descendente de Clóvis. Etelberto e os seus saxões eram guerreiros ferozes e idólatras convictos; mas a esposa, devota e de conduta irrepreensível, exerceu ao máximo a sua influência, e os anglo-saxões, com o seu rei, abraçaram o cristianismo.

Se a mulher fez tanto sob as restrições que lhe foram impostas nos dias da barbárie, sob o reinado da força — restrições perpetuadas até os nossos dias —, o que não teria feito se todas as restrições por causa do sexo tivessem sido removidas e ela estivesse livre para empregar ao máximo as suas capacidades na causa de Cristo? Fénelon, um dos ministros mais piedosos, doutos e úteis que já ensinaram na igreja católica romana, reconhecia livremente que recebeu instrução espiritual de Madame Guyon.

A obra iniciada por John Wesley foi levada avante principalmente por pregadores sem formação acadêmica. Não fosse o emprego desses pregadores leigos, não há razão para crer que a obra de Wesley teria tido permanência maior do que a de Whitefield. E, pela adoção desse poderoso recurso, Wesley ficou devendo à sua mãe. Wesley era um homem rigorosamente fiel à ordem da Igreja da Inglaterra. Thomas Maxfield foi o primeiro leigo entre os seus seguidores que se atreveu a pregar. “Foi na ausência do sr. Wesley”, conta Adam Clarke, “que Maxfield começou a pregar. Informado dessa coisa nova e extraordinária, ele voltou às pressas a Londres para pôr-lhe fim. Antes de qualquer passo decisivo, falou à sua mãe sobre o assunto e informou-lhe a sua intenção. Ela disse (tenho o relato do próprio sr. Wesley): ‘Meu filho, eu o conjuro diante de Deus: cuidado com o que vai fazer, porque Thomas Maxfield é tão chamado a pregar o Evangelho quanto você foi.’” Nisso, como em muitas outras coisas, Wesley seguiu o conselho da mãe. A sobrevivência do metodismo se deve em grande parte — eu penso que inteiramente — a isso.

Se, pois, as mulheres são mais rápidas que os homens em compreender o mistério da piedade, se têm percepções espirituais mais agudas e intuições mais profundas, não devem ser excluídas, por decretos arbitrários e por causa do sexo, de nenhuma posição que possa tornar a sua influência mais amplamente sentida.

2. A mulher tem aptidão especial para ensinar. Isso é reconhecido pela escolha generalizada de mulheres para ensinar nas nossas escolas públicas. E, na obra do ministério, até onde lhes foi permitido tentá-la, as mulheres se desincumbiram tão dignamente quanto os homens. Onde trabalharam, os preconceitos foram removidos. O biógrafo de Adam Clarke diz que ele tinha “considerável preconceito contra esse tipo de ministério”. Mas ele foi a um circuito onde a senhorita Mary Sewel havia pregado; indagou dos frutos, ouviu de numerosas pessoas despertadas sob o ministério dela, conversou com várias e achou a sua experiência bíblica e sólida. Pensou então: “Isto é obra de Deus; e, se ele escolhe converter homens empregando tais meios, quem sou eu para criticar os caminhos de Deus?” Depois de ouvi-la pregar, escreveu: “Eu não era amigo da pregação feminina, mas os meus sentimentos estão um pouco mudados. Se Deus dá a uma mulher santa o dom da exortação e da repreensão, não vejo razão para que não seja usado. […] Posso adotar o dito de um homem sagaz que, tendo-a ouvido pregar e sendo perguntado sobre a licitude disso, respondeu: ‘Uma jumenta repreendeu Balaão, e um galo repreendeu Pedro; por que não poderia uma mulher repreender o pecado?’” Esse testemunho é tanto mais valioso por vir de uma testemunha relutante, que confessa o próprio preconceito.

À objeção de que tais casos são exceções, respondemos com John Stuart Mill: não basta sustentar que as mulheres, em média, sejam menos dotadas; seria preciso sustentar que nenhuma mulher é apta, e que as mais eminentes mulheres são inferiores aos mais medíocres dos homens que hoje exercem essas funções. Se o desempenho é decidido por competição ou por escolha que atenda ao interesse público, não há por que temer que empregos importantes caiam nas mãos de mulheres inferiores à média dos homens. “As mulheres — e não poucas, mas muitas — provaram-se capazes de tudo, talvez sem uma única exceção, que é feito pelos homens, e de fazê-lo com êxito e crédito.”

3. O senso prático da mulher a habilita especialmente para a obra do ministério do Evangelho. As mulheres, em geral, não se dão a abstrações: tiram o melhor das realidades ao seu redor. Há casos em que o pai de família, esmagado pelo infortúnio, morre em desespero — e a mãe, embora sem prática na administração, recolhe os fragmentos, recupera aos poucos a fortuna da casa e cria os filhos em respeitabilidade e honra. No ano de 1348, uma peste medonha visitou a Europa; estima-se que vinte e cinco milhões pereceram. Os sobreviventes, em pânico, tentaram deter a peste assassinando judeus; depois, com penitências dolorosas — os flagelantes marchavam de cidade em cidade lacerando o próprio corpo. As mulheres, mais sensatas, formaram grupos para cuidar dos doentes: as misérias que não podiam impedir, buscaram aliviar.

4. Não faltam às mulheres a coragem e a fortaleza essenciais ao ministro do Evangelho. O destemido Pedro negou a Cristo; mas o Novo Testamento não registra uma única mulher que tenha aberto a boca contra ele diante do perigo. Os anais da igreja, nos dias de perseguição, falam-nos de muitas mulheres nobres, ternas e gentis que enfrentaram a morte na sua forma mais terrível antes que negar a Cristo. Em Port Royal, nos dias de Luís XIV, reuniram-se mulheres de nascimento nobre e grandes talentos, inteiramente consagradas a Deus. O arcebispo de Paris, não conseguindo persuadi-las a renunciar à sua fé, disse com raiva ao sair: “São puras como anjos e orgulhosas como demônios.” Acendeu-se a perseguição. A madre Angélica disse a uma amiga: “Senhora, quando não houver Deus, perderei a coragem; mas, enquanto Deus for Deus, esperarei nele.” E Jacqueline Pascal escreveu: “Que temos a temer? […] Sei que não cabe às filhas defender a verdade — embora se pudesse dizer, infelizmente, que, já que os bispos têm a coragem de donzelas, as donzelas devem ter a coragem de bispos. Mas, se não nos cabe defender a verdade, cabe-nos morrer pela verdade e sofrer tudo antes que abandoná-la.”

Da capacidade mental da mulher para atender a todos os requisitos do ministério cristão, pouco mais é preciso dizer. Não faz muito, as universidades se fechavam às mulheres, por não as julgarem capazes de adquirir educação completa; mas a experiência demonstrou que há mulheres capazes de estar lado a lado com os homens nos mais altos domínios da erudição. A matemática superior é geralmente considerada o teste mais severo da força intelectual — e várias mulheres se destacaram como matemáticas. Caroline Herschel, falecida em 1848 aos 98 anos, foi uma das grandes astrônomas do mundo, eleita membro da Royal Society, que lhe conferiu a sua medalha de ouro.

Se, pois, a mulher tem o discernimento espiritual, a aptidão para ensinar, a prudência e a coragem necessários para qualificá-la para a obra do ministério em todos os seus departamentos, por que não ordená-la? Por que privar a igreja e o mundo, em qualquer medida, dos serviços de que precisam, e que ela é capaz e está disposta a prestar?

Capítulo 15 — Governar+

“Muito mais poderoso que a força de nervo ou músculo, ou que o domínio da magia potente sobre sol e estrela, é o amor — ainda que muitas vezes angustiado até a agonia, e ainda que o seu assento predileto seja o frágil peito da mulher.” — Wordsworth

“Se as mulheres forem ordenadas, abrir-se-á o caminho para que tomem parte proeminente no governo da Igreja.” E por que não haveriam de tomar? “Porque Paulo diz: ‘Não permito que a mulher usurpe autoridade sobre o homem’ (1Tm 2.12).”

Mas exercer a autoridade de que se está legitimamente investido não é usurpar autoridade. A rainha Vitória exerce autoridade sobre homens — e não é usurpadora. Dean Alford traduz a passagem por “nem dominar sobre”. No original, a palavra é authentein — agir como déspota. Também aos homens se proíbe o despotismo: “nem como dominadores dos que lhes foram confiados” (1Pe 5.3).

As mulheres tomaram parte proeminente no governo da igreja apostólica. Os apóstolos, inspirados como eram, não presumiram governar a Igreja: reconheciam que a autoridade de governar pertencia à própria igreja — aos homens e mulheres que a compunham.

A primeira igreja cristã reuniu-se em Jerusalém, num cenáculo. As mulheres são especialmente mencionadas como presentes (At 1.14). Pedro levantou-se no meio dos discípulos e dirigiu-se a eles; e disse que, dentre os homens que os haviam acompanhado desde o princípio, era necessário que um fosse constituído testemunha da ressurreição (At 1.22). “E indicaram dois.” O “indicaram” refere-se a todo o corpo dos discípulos, que “eram ao todo cerca de cento e vinte”. Foram os membros da Igreja, e não os apóstolos, que fizeram a seleção.

Do mesmo modo, quando os Doze precisaram de auxiliares para ministrar às necessidades dos crentes dependentes, não fizeram eles próprios a escolha: convocaram a multidão dos discípulos. Que essa multidão incluía mulheres, não pode haver dúvida. A eles disseram os apóstolos: “Irmãos, escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço” (At 6.3). “O parecer agradou a toda a comunidade.” Escolheram sete, “os quais apresentaram aos apóstolos; e estes, orando, lhes impuseram as mãos” (At 6.6). O todo não significa uma parte — muito menos a parte menor. Quem afirma que as mulheres não tiveram lugar nessa transação deve apresentar prova da afirmação; mas prova não há. A multidão inteira dos discípulos compreende as mulheres.

Não há Escritura que proíba a ordenação da mulher sob o fundamento de que, ordenada, ela terá parte no governo da igreja.

Os presbíteros eram governantes, tanto na igreja judaica quanto na cristã: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, especialmente os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Tm 5.17). A palavra “presbítero” ocorre sessenta e sete vezes no Novo Testamento; em sessenta e três passagens significa evidentemente um oficial da igreja. Só em algumas conserva o sentido primário de pessoa mais velha. Sobre uma passagem há dúvida: “Não repreenda um presbítero (ou: um homem idoso), mas exorte-o como a pai” (1Tm 5.1). Se, como parecem pensar os tradutores, a palavra denota ali um oficial da igreja, então sustentamos que o mesmo sentido deve ser dado no segundo versículo, que é parte da mesma sentença — e leríamos “as mulheres presbíteras, como a mães”, em vez de “as mulheres idosas”. Nenhum escritor que vise à clareza usaria, na mesma conexão e na mesma sentença, a palavra “rei” num sentido e a palavra “rainha” em outro. Não devemos mudar o sentido das palavras — como se faz quando presbyteros é traduzido “presbítero” numa cláusula deste versículo, e a mesma palavra, na forma feminina, é traduzida “mulheres idosas” em outra cláusula da mesma sentença. Isso parece ser feito para ajustar o texto à teoria de que as mulheres não devem ter no governo da igreja a mesma parte que os homens.

Que a mulher possui a capacidade administrativa para exercer devidamente todo o poder de governo usualmente confiado aos pregadores ordenados do Evangelho, a experiência o demonstra plenamente. Que algumas mulheres podem governar bem, sabemos — porque algumas mulheres governaram bem. Não é questão de teoria; é fato demonstrado. Ocasionalmente uma mulher foi posta à frente do governo de um país, e em todos esses casos a sua administração se compara favoravelmente à dos homens que a precederam e sucederam. O reinado da rainha Elizabeth não foi eclipsado pelo de nenhum monarca do seu tempo. Diz o historiador Hume: “Poucos soberanos da Inglaterra subiram ao trono em circunstâncias mais difíceis, e nenhum jamais conduziu o governo com êxito e felicidade tão uniformes. O seu vigor, a sua constância, a sua magnanimidade, a sua penetração, vigilância e habilidade merecem os mais altos louvores e não parecem ter sido superados por pessoa alguma que já tenha ocupado um trono.”

Catarina II da Rússia foi um dos mais capazes monarcas do seu tempo. O seu longo reinado muito contribuiu para elevar a Rússia à sua alta posição entre as nações. “Poucos soberanos”, diz Alison, “ocuparão lugar mais conspícuo nas páginas da história: prudente no conselho e intrépida na conduta, cautelosa ao formar resoluções, mas vigorosa ao executá-las, ela dignificou o trono de um déspota com a magnanimidade e o patriotismo de uma era mais virtuosa.”

Vitória, rainha da Inglaterra e imperatriz da Índia, fornece ilustração ainda melhor da capacidade da mulher para governar: não só se provou uma das primeiras governantes da época, como deu ao mundo exemplo ilustre de nobre feminilidade nas relações de filha, esposa e mãe. Quando, moça tímida de dezoito anos, foi acordada de madrugada pelo arcebispo da Cantuária e vários nobres que vinham saudá-la como rainha da Inglaterra, caiu de joelhos e pediu ao arcebispo que orasse por ela. Nenhum país do mundo foi mais bem governado do que a Grã-Bretanha durante o seu longo e pacífico reinado; e, na convulsão geral dos tronos da Europa há alguns anos, o dela permaneceu seguro, protegido pela lealdade amorosa do seu povo.

“Sabemos”, diz Mill, “quão pequeno é o número de rainhas reinantes que a história apresenta, em comparação com o de reis. Desse número menor, proporção muito maior mostrou talento para governar, embora muitas tenham ocupado o trono em períodos difíceis. E é notável que se tenham distinguido, em grande número de casos, por méritos os mais opostos ao caráter imaginário e convencional das mulheres: foram tão notadas pela firmeza e pelo vigor do seu governo quanto pela sua inteligência.”

“Mas”, retruca-se, “as mulheres reinam com êxito porque colocam nos cargos importantes homens de eminente capacidade.” A objeção só prova a aptidão das mulheres para governar. A mais alta qualidade do talento de governar é a capacidade de selecionar as pessoas mais competentes para os vários cargos subordinados. Napoleão não só sabia planejar uma campanha: sabia quem escolher como oficiais para vencer as batalhas. Se a mulher possui percepção instintiva do caráter em grau maior que o homem, então é, nessa medida, naturalmente mais apta para posições de responsabilidade.

Se ela pode, como de fato pôde, ocupar com êxito os tronos da Rússia, da Áustria e da Grã-Bretanha, então pode, com segurança, ser deixada livre para ocupar qualquer posição na igreja para a qual seja chamada. A igreja não tem o direito de proibir o livre exercício das capacidades de fazer o bem que Deus deu; fazê-lo é usurpação e tirania. Melhor fariam os homens ocupando-se em edificar o templo de Deus, em vez de gastar o tempo empurrando do andaime as suas irmãs, que podem e querem trabalhar ao seu lado. Todas as restrições a posições na igreja baseadas em raça já foram abolidas; é tempo, pois, de abolir também as baseadas em sexo.

Capítulo 16 — O testemunho de um pagão+

“Oh, pequeno parecerá todo sacrifício, e dor, e perda, quando Deus enxugar os olhos que choram e der, pelo sofrimento, o prêmio do vencedor — a coroa pela cruz!” — Whittier

Plínio, o Jovem, nasceu na Itália no ano 62 d.C. Foi pretor sob o imperador Domiciano e cônsul sob Trajano, que o enviou como governador ao Ponto e à Bitínia. Por volta do ano 107, Plínio escreveu ao imperador Trajano a célebre carta sobre os cristãos, de que damos os trechos essenciais na tradução do dr. Nathaniel Lardner.

Plínio relata que nunca estivera presente a julgamentos de cristãos e não sabia bem o que punir nem como inquirir. O seu procedimento: perguntava aos acusados se eram cristãos; aos que confessavam, repetia a pergunta uma segunda e uma terceira vez, ameaçando-os de morte; os que persistiam, mandava executar. Descreve então o que a investigação apurou sobre aquela gente: “Afirmavam que toda a sua culpa, ou o seu erro, estava nisto: costumavam reunir-se num dia fixo, antes do amanhecer, e cantar entre si, alternadamente, um hino a Cristo, como a um Deus; e obrigar-se por juramento — não à prática de crime algum, mas — a não cometer furto, nem roubo, nem adultério, a jamais faltar à palavra, nem negar um depósito que lhes fosse confiado, quando chamados a devolvê-lo. Feito isso, era costume separarem-se e depois reunirem-se novamente para uma refeição, que tomavam em comum, sem desordem alguma.”

E então a frase que nos interessa em particular: “Depois de receber este relato, julguei tanto mais necessário examinar, e isso mediante tortura, duas servas, que eram chamadas ministras. Mas nada descobri além de uma superstição má e excessiva.” Suspendendo os processos, recorreu ao imperador, alarmado com “o grande número de pessoas em perigo: muitos, de todas as idades e de toda condição, e também de ambos os sexos”. E observa que os templos, quase desertos, começavam a ser de novo frequentados — donde se vê a força com que o Evangelho avançava. Na resposta, Trajano aprova o procedimento: os cristãos não deviam ser procurados, mas, se acusados e convictos, punidos; o que negasse ser cristão e o provasse suplicando aos deuses seria perdoado.

Há nesta carta de Plínio muitas coisas de grande importância.

1. Ela mostra a grande influência que o cristianismo já exercia sobre o espírito do povo. Os templos dos deuses estavam quase abandonados. O cristianismo espalhava-se tão depressa que era chamado de contágio — e alcançava por igual as cidades, as vilas e o campo aberto.

2. É um testemunho impressionante da pureza do caráter daqueles cristãos. Embora os inimigos, para justificar o tratamento que lhes davam, os acusassem de crimes grosseiros, uma investigação rigorosa concluiu que as suas vidas eram irrepreensíveis, e firme e inabalável a sua adesão às doutrinas e à moral do Evangelho.

3. Mostra que professavam a doutrina da divindade de Cristo: cantavam hinos a Cristo como a um Deus.

4. Mas o ponto para o qual desejo chamar particular atenção é o fato de que os ministros daquela igreja eram mulheres. Isso se vê, primeiro, na declaração expressa de Plínio: “que eram chamadas ministras”. Que se trata de mulheres é perfeitamente claro na palavra latina, ministrae, que está no gênero feminino. E que essa palavra não designa a sua condição social é evidente, pois esta é expressa pela palavra ancillae — servas. Segundo, era natural que ele examinasse os oficiais da igreja. Eis um governador investido de poder arbitrário; uma sociedade odiada e desprezada é acusada de sustentar secretamente doutrinas perniciosas e praticar ritos abomináveis; o governador está decidido a ir à raiz do assunto. Examina testemunhas pelo modo usual e nada apura em desabono. Resolve então adotar o último recurso conhecido dos déspotas antigos: o exame sob tortura. Mas quem examinar? Quem selecionaria ele, naturalmente, como conhecedor de todos os segredos da sociedade? Evidentemente, os que ocupavam a posição mais alta — os seus oficiais ou mestres. E, quando Plínio diz que aquelas duas mulheres “eram chamadas ministras”, usa o termo no sentido em que os cristãos o entendiam — no sentido eclesiástico. Não é ele quem as chama ministras: “eram chamadas”, isto é, pelos cristãos.

Nada se diz nesta carta sobre bispos, presbíteros, diáconos ou quaisquer outros oficiais da igreja. Não é de supor que um homem da capacidade, da erudição e do discernimento de Plínio desse ao seu imperador uma descrição cuidadosa de uma igreja cristã sem mencionar os seus oficiais ou mestres. E certamente não o faz — a menos que aquelas mulheres fossem os oficiais ou mestres, ou, como eram chamadas, as ministras.

As mulheres, ao que parece, podiam ser ministras da igreja naquela idade primitiva, enquanto ela era pobre e perseguida; depois, quando se tornou rica e popular, foram postas de lado.

Capítulo 17 — Conclusão+

“Que somos nós, que é a nossa raça, quão inúteis e vis, sem a boa mulher para ajudar-nos? Que faríamos, aonde iríamos, como vaguearíamos em noite e desgraça, não fora a mulher para conduzir-nos!” — Cristóvão de Castillejo (1590)

Nas páginas precedentes, as seguintes proposições foram claramente provadas:

1. O homem e a mulher foram criados iguais, possuindo cada um os mesmos direitos e privilégios que o outro.

2. Na queda, a mulher, por ter sido a primeira na transgressão, foi, como castigo, sujeitada ao seu marido.

3. Cristo repromulgou a lei primitiva e restaurou a relação original de igualdade entre os sexos.

4. As objeções à igualdade de homem e mulher na Igreja cristã baseadas na Bíblia repousam sobre a tradução errada de algumas passagens e a interpretação errada de outras. As objeções tiradas da natureza da mulher são plenamente derrubadas por fatos indiscutíveis.

5. Na igreja do Novo Testamento, a mulher, tanto quanto o homem, ocupou o ofício de apóstolo, de profeta, de diácono ou pregador, e de pastor. Não há a mais leve evidência de que as funções de qualquer desses ofícios, quando ocupados por uma mulher, fossem diferentes do que eram quando ocupados por um homem.

6. A mulher tomou parte no governo da igreja apostólica.

Chegamos, então, a esta conclusão final:

O EVANGELHO DE JESUS CRISTO, NAS PROVISÕES QUE FAZ E NOS AGENTES QUE EMPREGA PARA A SALVAÇÃO DA HUMANIDADE, NÃO CONHECE DISTINÇÃO DE RAÇA, CONDIÇÃO OU SEXO. PORTANTO, A NENHUMA PESSOA EVIDENTEMENTE CHAMADA POR DEUS PARA O MINISTÉRIO DO EVANGELHO, E DEVIDAMENTE QUALIFICADA PARA ELE, DEVE SER RECUSADA A ORDENAÇÃO POR CAUSA DE RAÇA, CONDIÇÃO OU SEXO.

Baixar o livro em Word (.zip) Conheça a vida de B. T. Roberts

Tradução e edição: Bispo Ildo Mello · Texto original de 1891, em domínio público. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).