Ela começa por Deus
Antes de dizer qualquer coisa sobre a santidade humana, a Escritura diz muita coisa sobre a santidade divina. E a ordem importa.
“Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo.”Apocalipse 15.4 · NAA
Para começar
A tentação natural é começar por nós: pelo que devemos fazer, pelo que devemos deixar de fazer, pelos hábitos a corrigir. Mas esse é exatamente o caminho que produz farisaísmo. A Bíblia começa em outro lugar.
Antes de dizer qualquer coisa sobre a santidade humana, a Escritura diz muita coisa sobre a santidade divina. E a ordem importa.
Somos chamados a ser santos porque ele é santo. Não temos santidade própria para oferecer a Deus; temos apenas a que recebemos dele.
Guarde esta frase, porque ela organiza o curso inteiro: a santidade cristã é sempre resposta ao que Deus é e ao que Deus fez.
Vocabulário
As palavras santo e santidade e seus derivados aparecem cerca de novecentas vezes nas Escrituras. No sentido básico, santo quer dizer separado daquilo que é impuro e consagrado ao que é puro.
Primeiro sentido
Deus é separado de tudo o que criou, incomparável, de outra ordem de ser. “Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade?”
Êx 15.11; 1Sm 2.2
Segundo sentido
Deus não é apenas diferente; ele é bom, e bom de uma bondade sem falha. “Eis a Rocha! As suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são justos.”
Dt 32.4; Is 5.16
Essa dupla dimensão explica por que o encontro com Deus produz, ao mesmo tempo, temor e desejo. Diante da sarça, Moisés ouve: “Tire as sandálias dos pés, porque o lugar em que você está é terra santa” (Êx 3.5). O chão não era santo por natureza; ficou santo por presença.
Um limite necessário
“Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo.”Apocalipse 15.4
Guarde esta afirmação, porque ela vai reaparecer em todas as aulas. Nenhuma doutrina cristã da perfeição pode ignorá-la.
Isso não anula o chamado à santidade; apenas o coloca no lugar certo. A santidade que Deus nos concede é participação, não igualdade. Os serafins que clamam “Santo, santo, santo” (Is 6.3) não são santos como Deus é santo; eles participam de uma santidade que contemplam e adoram.
O ponto de virada
Se a santidade fosse apenas transcendência, nada haveria a dizer sobre santificação humana; restaria adorar de longe. Mas a Bíblia apresenta a santidade divina como algo que Deus decide comunicar.
“Também disse Deus: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.”
Gn 1.26
“Consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo.”
Lv 11.44
“Tu és santo” · “santo é o seu nome”
Sl 22.3; Lc 1.49
“Não entrará nada impuro” no Reino que é justiça, paz e alegria.
Rm 14.17; Ap 21.27
Repare no verbo. Deus não diz apenas “admirem a minha santidade”; ele diz “sejam santos”. A ordem pressupõe uma possibilidade. Deus não zomba das suas criaturas ordenando o impossível.
B. T. Roberts insistia nesse ponto contra os moralistas do seu tempo, e a crítica continua atual: há muito ensino que se esforça por fazer as pessoas agirem melhor sem lhes dizer como ser melhores. O resultado, dizia ele, é um esplêndido fracasso.
Aplicação pastoral
Quando alguém procura o pastor perguntando “como faço para vencer este pecado?”, a pergunta é legítima, mas está começando pelo meio.
Quem é o Deus com quem eu tenho a ver? Quem não teve nenhuma visão da santidade de Deus trata o pecado como problema de desempenho, e procura soluções de desempenho: mais disciplina, mais esforço, mais controle.
Quem viu alguma coisa da santidade de Deus trata o pecado como problema de relacionamento, e procura a solução onde ela está: em Deus mesmo.
Ele não saiu do templo com um plano de autoaperfeiçoamento. Saiu com os lábios tocados pela brasa do altar (Is 6.6-7). A iniciativa foi de Deus, e o resultado foi um profeta disponível.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
0 de 5
A maioria de nós herdou imagens de conduta (o que não se faz) ou de ambiente religioso (o que se faz no templo). A aula propõe substituí-las pela imagem que a Escritura oferece primeiro: a de Deus mesmo, transcendente e moralmente perfeito, que decide comunicar a sua santidade. Vale identificar de onde veio a sua imagem, porque quase sempre ela explica a sua expectativa a respeito do que Deus pode fazer em você.
Reconhecendo o que há de verdadeiro na objeção: existe de fato uma pregação de santidade que é legalismo disfarçado, e Roberts a chamava de esplêndido fracasso, porque manda agir melhor sem dizer como ser melhor. Em seguida, mostrando a diferença: o legalismo começa pelo esforço humano; a santidade bíblica começa pelo que Deus é e pelo que ele promete fazer (Lv 11.44; Ez 36.27). São caminhos opostos, ainda que produzam palavras parecidas.
Tarefas
Ler Isaías 6.1-8 e escrever meia página sobre o que muda na maneira de encarar o próprio pecado quando se começa pela visão da santidade de Deus. Trazer a resposta para a próxima aula.
Próxima aula
Aula 2 — A imagem quebrada e a promessa da restauração. Se fomos criados à imagem de Deus, por que a vida cristã é tão difícil? E o que exatamente Deus promete fazer no coração do seu povo?
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).