Onisciência
O cristão inteiramente santificado não sabe mais do que sabia. Wesley: “Não são perfeitos em conhecimento. Não estão livres da ignorância.”
“Todos nós, pois, que somos maduros, tenhamos este modo de pensar.”Filipenses 3.15 · NAA
História
A perfeição cristã, como Wesley a ensinou, não nasceu pronta. Conhecer essa história ajuda a entender a doutrina e, sobretudo, ajuda a não repetir os erros que ele já cometeu e reconheceu.
Método teológico
Aqui está um dos aspectos mais admiráveis da história, e um dos mais úteis para nós.
Na primavera de 1741 saiu um prefácio que Wesley considerava “o relato mais forte que jamais demos” sobre a perfeição. Anos depois, ao reeditar a obra, ele acrescentou notas corrigindo os próprios excessos.
Onde havia escrito que o cristão perfeito não deseja alívio na dor, anotou que isso era ir longe demais. Onde havia sugerido isenção de pensamentos errantes, corrigiu. Onde havia insinuado liberdade de toda tentação, retificou.
Documento-chave
Em 1764, depois de quarenta anos de reflexão e de todas as controvérsias, Wesley resumiu o assunto em onze proposições. Quase todas as objeções que se levantam contra a doutrina já estão respondidas ali, por ele mesmo.
Fronteiras
Nenhuma doutrina foi mais caricaturada do que esta, e boa parte da culpa cabe a quem a defende sem cuidado. Esta seção é a mais importante para quem pretende ensinar o assunto.
O cristão inteiramente santificado não sabe mais do que sabia. Wesley: “Não são perfeitos em conhecimento. Não estão livres da ignorância.”
O amor não confere juízo infalível, nem sobre a Escritura, nem sobre pessoas, nem sobre decisões práticas. Nem o amor nem a unção do Espírito nos tornam infalíveis.
Doenças, cansaço, depressão, limitações de temperamento, lentidão de raciocínio, esquecimento. Nada disso é abolido pela santificação.
Erros de juízo produzem, muitas vezes necessariamente, palavras e ações inadequadas. Uma pessoa pode agir com amor puro e ainda assim agir mal, por avaliar mal os fatos.
Não existe nenhum nível de perfeição que não admita um contínuo crescimento. Ao contrário: quem foi aperfeiçoado no amor cresce mais depressa do que antes.
Só Deus é santo em sentido absoluto (Ap 15.4). A santidade que recebemos é participação, e não igualdade.
A nona proposição é explícita: a perfeição é passível de ser perdida. Wesley acrescentou, com honestidade rara, que só se convencera plenamente disso alguns anos antes.
Texto difícil
O texto que sempre se levanta contra a doutrina é Filipenses 3.12, e ele merece tratamento cuidadoso.
“Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição, mas prossigo…”
Fp 3.12
“Todos nós, pois, que somos maduros [teleioi], tenhamos este modo de pensar.”
Fp 3.15
O mesmo apóstolo, no mesmo parágrafo, diz que não é perfeito e se inclui entre os perfeitos. Não há contradição, porque as palavras estão sendo usadas em sentidos diferentes.
E há um dado do contexto que resolve a questão. O que Paulo diz não ter alcançado é definido nos versículos anteriores: “para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição, e a participação nos seus sofrimentos… para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos” (Fp 3.10-11). O alvo que ele ainda não alcançou é a ressurreição e a plena conformidade com Cristo na glória, coisa que ninguém alcança antes da morte.
1763
Cada uma destas advertências nasceu de um problema real que Wesley viu acontecer no avivamento de 1762.
Há ainda um desvio que Wesley combateu com energia particular. Comentando 2 Pedro 1.7, escreveu: “Nada de carranca, severidade ou mau humor: a chamada piedade azeda é do diabo.” A santidade bíblica é firme sem ser amarga, fiel sem ser sectária, zelosa sem perder o amor. Quando o zelo pela verdade produz uma pessoa desagradável, alguma coisa deu errado, por mais ortodoxa que seja a doutrina professada.
Discernimento
Reconhecer as falsificações é parte de entender a doutrina verdadeira.
Tipo 1
Limpa o exterior e deixa o interior sujo. Vive de reputação religiosa e mede-se por comparação com os outros.
Mt 23.25; Lc 18.11-13
Tipo 2
“Não manuseie, não prove, não toque.” Parece rigorosa, mas “não tem valor algum contra a sensualidade”. A santidade bíblica não despreza corpo, casamento ou criação.
Cl 2.21-23; 1Tm 4.1-4
Tipo 3
Preserva as formas e sacrifica pessoas. Contra ela, a palavra que Jesus citou duas vezes: “Misericórdia quero e não sacrifício.”
Os 6.6; Mt 9.13; 12.7
Tipo 4
A tribo política acima do senhorio de Cristo; Deus como meio para o meu bem-estar; talento confundido com fruto; pureza enclausurada sem compaixão pelos perdidos.
Mt 7.16; Tg 1.27
Séculos XIX e XX
A maneira como recebemos hoje a doutrina foi moldada por dois séculos de desenvolvimentos que nem sempre foram fiéis à formulação original.
Phoebe Palmer tornou a experiência acessível e desfez a expectativa de emoções extraordinárias. O elemento problemático é que, reduzida a um silogismo, a inteira santificação corre o risco de virar conclusão lógica, e não obra do Espírito.
Falou-se em erradicação da natureza pecaminosa, algo que Wesley nunca afirmou. Exigiu-se que todos datassem uma segunda experiência. Multiplicaram-se regras exteriores como marcas de santidade.
A linguagem do batismo com o Espírito foi reinterpretada como capacitação para o serviço. As duas coisas são bíblicas (At 15.9 e At 1.8); o problema é quando uma substitui a outra. Poder sem purificação produz ministérios fortes conduzidos por caráter frágil.
Reação aos excessos, influência da teologia liberal e da reformada, acomodação institucional e troca do conteúdo pela técnica. Wesley previu: “temo que existam apenas como uma seita morta, com a forma de religião sem o poder”.
Quatro lições dessa trajetória: ater-se à formulação bíblica, sem pôr a perfeição alto demais nem baixo demais; não confundir a experiência com a sua descrição; manter unidas a purificação e a capacitação; e manter a doutrina ligada à misericórdia, porque toda vez que a santidade se separou do cuidado com os pobres, ela azedou.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
0 de 5
Vale escolher uma só e examinar de onde veio a expectativa equivocada. A mais necessária costuma ser a terceira ou a quarta, porque muita gente confunde santificação com cura de temperamento, de feridas ou de limitações intelectuais, e depois conclui que a doutrina é falsa quando essas coisas permanecem. Wesley repetia à exaustão que a perfeição não elimina ignorância, erro de juízo, cansaço nem fraqueza.
O sintoma é simples de reconhecer: o zelo pela verdade produzindo uma pessoa desagradável. Dureza no trato, ironia com quem erra, prazer discreto em apontar o desvio alheio, incapacidade de rir. Wesley chamava isso de coisa do diabo, e a expressão é dele, não minha. O antídoto não é afrouxar a doutrina, e sim lembrar que a santidade bíblica é firme sem ser amarga, e que o critério final é a pergunta: isto se parece com Jesus?
Tarefas
Reler as onze proposições de 1764 e escrever, ao lado de cada uma, a objeção que ela responde. Trazer a lista para a próxima aula.
Próxima aula
Aula 13 — B. T. Roberts e a santidade bíblica. O que a nossa própria história acrescenta a Wesley: realismo pastoral, crítica às falsificações e santidade inseparável da justiça.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).