Perfeitos no AmorAula 12

Wesley e as fronteiras da doutrina

“Todos nós, pois, que somos maduros, tenhamos este modo de pensar.”Filipenses 3.15 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Filipenses 3.7-16; Hebreus 6.1; 1 João 4.16-21; Colossenses 2.16-23

História

Uma doutrina que levou cinquenta anos para tomar forma

A perfeição cristã, como Wesley a ensinou, não nasceu pronta. Conhecer essa história ajuda a entender a doutrina e, sobretudo, ajuda a não repetir os erros que ele já cometeu e reconheceu.

1. 1725. Aos vinte e dois anos, lê Jeremy Taylor e resolve dedicar a Deus toda a vida, “plenamente convencido de que não há meio-termo”.
2. 1726. Lê Tomás de Kempis e descobre a religião do coração: simplicidade de intenção e pureza de afeto.
3. 1727-1728. Lê William Law e se convence “da absoluta impossibilidade de ser cristão pela metade”.
4. 1729. Passa a estudar a Bíblia como única norma de verdade. A partir de 1730 se descreveria como homo unius libri, o homem de um só livro.
5. 1733. Prega em Oxford “A circuncisão do coração”. A definição dada ali permaneceu inalterada por cinquenta anos.
6. 1735-1738. O fracasso da Geórgia. “Estava dando socos no ar.”
7. 1738. Aldersgate. Descobre a justificação pela fé, aos trinta e cinco anos.
8. 1742. Publica O Caráter de um Metodista: metodista é quem ama o Senhor de todo o coração.
9. 1759 e 1764. Sistematiza a doutrina e a resume nas onze proposições.

Método teológico

Wesley corrigindo Wesley

Aqui está um dos aspectos mais admiráveis da história, e um dos mais úteis para nós.

Na primavera de 1741 saiu um prefácio que Wesley considerava “o relato mais forte que jamais demos” sobre a perfeição. Anos depois, ao reeditar a obra, ele acrescentou notas corrigindo os próprios excessos.

Onde havia escrito que o cristão perfeito não deseja alívio na dor, anotou que isso era ir longe demais. Onde havia sugerido isenção de pensamentos errantes, corrigiu. Onde havia insinuado liberdade de toda tentação, retificou.

Documento-chave

As onze proposições de 1764

Em 1764, depois de quarenta anos de reflexão e de todas as controvérsias, Wesley resumiu o assunto em onze proposições. Quase todas as objeções que se levantam contra a doutrina já estão respondidas ali, por ele mesmo.

1. Existe algo como a perfeição, pois ela é mencionada repetidas vezes na Escritura.
2. Não é tão cedo quanto a justificação, pois os justificados devem avançar para a perfeição (Hb 6.1).
3. Não é tão tarde quanto a morte, pois Paulo fala de homens vivos que eram perfeitos (Fp 3.15).
4. Não é absoluta. A perfeição absoluta não pertence ao homem, nem aos anjos, mas só a Deus.
5. Não torna o homem infalível: ninguém é infalível enquanto permanece no corpo.
6. É “sem pecado”? Não vale a pena disputar por um termo. É salvação do pecado.
7. É o amor perfeito (1Jo 4.18). Os seus frutos inseparáveis: alegrar-se sempre, orar sem cessar e em tudo dar graças.
8. É suscetível de crescimento. Quem foi aperfeiçoado no amor pode crescer na graça muito mais depressa do que antes.
9. É passível de ser perdida, de que temos numerosos casos.
10. É constantemente precedida e seguida por uma obra gradual.
11. É, em si mesma, instantânea? Em alguns a mudança foi instantânea; em outros, não foi percebida assim. É difícil perceber o instante em que um homem morre, e contudo há um instante em que a vida cessa.

Fronteiras

Sete coisas que a perfeição cristã não é

Nenhuma doutrina foi mais caricaturada do que esta, e boa parte da culpa cabe a quem a defende sem cuidado. Esta seção é a mais importante para quem pretende ensinar o assunto.

1

Onisciência

O cristão inteiramente santificado não sabe mais do que sabia. Wesley: “Não são perfeitos em conhecimento. Não estão livres da ignorância.”

2

Infalibilidade

O amor não confere juízo infalível, nem sobre a Escritura, nem sobre pessoas, nem sobre decisões práticas. Nem o amor nem a unção do Espírito nos tornam infalíveis.

3

Ausência de fraquezas

Doenças, cansaço, depressão, limitações de temperamento, lentidão de raciocínio, esquecimento. Nada disso é abolido pela santificação.

4

Impossibilidade de erro de julgamento

Erros de juízo produzem, muitas vezes necessariamente, palavras e ações inadequadas. Uma pessoa pode agir com amor puro e ainda assim agir mal, por avaliar mal os fatos.

5

Incapacidade de crescimento

Não existe nenhum nível de perfeição que não admita um contínuo crescimento. Ao contrário: quem foi aperfeiçoado no amor cresce mais depressa do que antes.

6

Igualdade com Deus

Só Deus é santo em sentido absoluto (Ap 15.4). A santidade que recebemos é participação, e não igualdade.

7

Impossibilidade de cair

A nona proposição é explícita: a perfeição é passível de ser perdida. Wesley acrescentou, com honestidade rara, que só se convencera plenamente disso alguns anos antes.

Texto difícil

O caso de Filipenses 3

O texto que sempre se levanta contra a doutrina é Filipenses 3.12, e ele merece tratamento cuidadoso.

“Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição, mas prossigo…”

Fp 3.12

“Todos nós, pois, que somos maduros [teleioi], tenhamos este modo de pensar.”

Fp 3.15

O mesmo apóstolo, no mesmo parágrafo, diz que não é perfeito e se inclui entre os perfeitos. Não há contradição, porque as palavras estão sendo usadas em sentidos diferentes.

E há um dado do contexto que resolve a questão. O que Paulo diz não ter alcançado é definido nos versículos anteriores: “para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição, e a participação nos seus sofrimentos… para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos” (Fp 3.10-11). O alvo que ele ainda não alcançou é a ressurreição e a plena conformidade com Cristo na glória, coisa que ninguém alcança antes da morte.

1763

Os sete conselhos aos que professavam a experiência

Cada uma destas advertências nasceu de um problema real que Wesley viu acontecer no avivamento de 1762.

1. Contra o orgulho. “Se Deus o expulsou, veja que ele não entre mais… E você pode escorregar de volta a ele sem perceber, sobretudo se pensa que não há perigo disso.” Quem se julga imune ao orgulho já está sendo dominado por ele.
2. Contra o fanatismo. “Guarde-se daquela filha do orgulho, o fanatismo… Não suponha facilmente que sonhos, vozes, impressões, visões ou revelações venham de Deus.” Note o parentesco que ele estabelece.
3. Contra o antinomismo. “Guarde-se de anular a lei, ou qualquer parte dela, pela fé. O fanatismo leva naturalmente a isso.”
4. Contra os pecados de omissão. “Não perca oportunidade de fazer o bem de qualquer espécie.” Uma santidade que consiste apenas em não fazer o mal não é santidade cristã (Tg 4.17).
5. Contra os desejos concorrentes. “Guarde-se de desejar coisa alguma senão a Deus.”
6. Contra a divisão. “Guarde-se de fazer rasgo na Igreja de Cristo.” A advertência tem ironia histórica dolorosa, porque muitos movimentos de santidade dividiram igrejas em nome da santidade.
7. Sobre o exemplo. “Seja exemplar em tudo, particularmente nas coisas exteriores, nas pequenas coisas, no modo de gastar o seu dinheiro, evitando toda despesa desnecessária.”

Há ainda um desvio que Wesley combateu com energia particular. Comentando 2 Pedro 1.7, escreveu: “Nada de carranca, severidade ou mau humor: a chamada piedade azeda é do diabo.” A santidade bíblica é firme sem ser amarga, fiel sem ser sectária, zelosa sem perder o amor. Quando o zelo pela verdade produz uma pessoa desagradável, alguma coisa deu errado, por mais ortodoxa que seja a doutrina professada.

Discernimento

Nem toda santidade é bíblica

Reconhecer as falsificações é parte de entender a doutrina verdadeira.

Tipo 2

Legalista e ascética

“Não manuseie, não prove, não toque.” Parece rigorosa, mas “não tem valor algum contra a sensualidade”. A santidade bíblica não despreza corpo, casamento ou criação.

Cl 2.21-23; 1Tm 4.1-4

Tipo 4

Ideológica, terapêutica, de palco e sem missão

A tribo política acima do senhorio de Cristo; Deus como meio para o meu bem-estar; talento confundido com fruto; pureza enclausurada sem compaixão pelos perdidos.

Mt 7.16; Tg 1.27

Séculos XIX e XX

O que aconteceu depois de Wesley

A maneira como recebemos hoje a doutrina foi moldada por dois séculos de desenvolvimentos que nem sempre foram fiéis à formulação original.

1

O reavivamento e a teologia do altar

Phoebe Palmer tornou a experiência acessível e desfez a expectativa de emoções extraordinárias. O elemento problemático é que, reduzida a um silogismo, a inteira santificação corre o risco de virar conclusão lógica, e não obra do Espírito.

2

Os excessos do século XIX

Falou-se em erradicação da natureza pecaminosa, algo que Wesley nunca afirmou. Exigiu-se que todos datassem uma segunda experiência. Multiplicaram-se regras exteriores como marcas de santidade.

3

O deslocamento pentecostal

A linguagem do batismo com o Espírito foi reinterpretada como capacitação para o serviço. As duas coisas são bíblicas (At 15.9 e At 1.8); o problema é quando uma substitui a outra. Poder sem purificação produz ministérios fortes conduzidos por caráter frágil.

4

O declínio no século XX

Reação aos excessos, influência da teologia liberal e da reformada, acomodação institucional e troca do conteúdo pela técnica. Wesley previu: “temo que existam apenas como uma seita morta, com a forma de religião sem o poder”.

Quatro lições dessa trajetória: ater-se à formulação bíblica, sem pôr a perfeição alto demais nem baixo demais; não confundir a experiência com a sua descrição; manter unidas a purificação e a capacitação; e manter a doutrina ligada à misericórdia, porque toda vez que a santidade se separou do cuidado com os pobres, ela azedou.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

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Para refletir

Qual das sete negações você mais precisava ouvir, e por quê?ver resposta sugerida

Vale escolher uma só e examinar de onde veio a expectativa equivocada. A mais necessária costuma ser a terceira ou a quarta, porque muita gente confunde santificação com cura de temperamento, de feridas ou de limitações intelectuais, e depois conclui que a doutrina é falsa quando essas coisas permanecem. Wesley repetia à exaustão que a perfeição não elimina ignorância, erro de juízo, cansaço nem fraqueza.

Existe alguma piedade azeda em você, no sentido em que Wesley usou a expressão?ver resposta sugerida

O sintoma é simples de reconhecer: o zelo pela verdade produzindo uma pessoa desagradável. Dureza no trato, ironia com quem erra, prazer discreto em apontar o desvio alheio, incapacidade de rir. Wesley chamava isso de coisa do diabo, e a expressão é dele, não minha. O antídoto não é afrouxar a doutrina, e sim lembrar que a santidade bíblica é firme sem ser amarga, e que o critério final é a pergunta: isto se parece com Jesus?

Para casa e próxima aula

Tarefas

Reler as onze proposições de 1764 e escrever, ao lado de cada uma, a objeção que ela responde. Trazer a lista para a próxima aula.

Próxima aula

Aula 13 — B. T. Roberts e a santidade bíblica. O que a nossa própria história acrescenta a Wesley: realismo pastoral, crítica às falsificações e santidade inseparável da justiça.

Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).