Derivada, não inata
“A santidade no homem é derivada. É a imagem da santidade de Deus: assemelha-se à santidade dele, embora fique infinitamente aquém dela.”
“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo.”1 João 4.18 · NAA
História
Se Wesley formulou a doutrina, Roberts a defendeu numa época em que o metodismo americano já a estava abandonando na prática.
Roberts foi levado a julgamento na Conferência de Genesee em 1857, recebendo censura, e expulso da Igreja Metodista Episcopal em 1858. A Igreja Metodista Livre foi organizada dois anos mais tarde, em agosto de 1860, em Pekin, no estado de Nova York.
Convém não simplificar as razões do conflito. A defesa da inteira santificação estava no centro da disputa, mas o choque envolvia também o embate entre o chamado New School Methodism e o metodismo antigo, os bancos alugados que separavam ricos e pobres nos templos, o favorecimento dos abastados, a posição sobre a escravidão, as sociedades secretas e o próprio funcionamento do poder eclesiástico.
Definição
“A santidade é a nossa completa renovação na imagem de Deus, o perfeito amor de Deus derramado no coração pelo Espírito Santo que nos foi dado, de modo que amamos a Deus de todo o coração, mente e força, e ao próximo como a nós mesmos.”B. T. Roberts, Ensinos de Santidade, cap. 22
“A santidade no homem é derivada. É a imagem da santidade de Deus: assemelha-se à santidade dele, embora fique infinitamente aquém dela.”
Ela não se confunde com autodomínio ou disciplina. Os pagãos tinham isso, e alguns em alto grau.
“Esforça-se por fazer os homens agirem melhor, sem lhes dizer como ser melhores. Põe grande ênfase em que façam coisas santas, sem insistir em que sejam santos.”
“Não consiste na repetição de boas ações, mas é a condição graciosa da alma que impele à prática de todas as boas ações. É a fonte pura da qual flui continuamente água pura.”
O capítulo decisivo
Roberts afirma, primeiro, que todo cristão é santificado na conversão, realmente tornado santo, com vitória sobre o pecado. Não é o caso de o justificado permanecer escravo. Mas ele não é inteiramente santificado.
“Alguns caem em perplexidade por confundir santificação com inteira santificação. Devemos ter cuidado de não fazê-lo.”Ensinos de Santidade, cap. 31
A erva cortada não aparece; a superfície está limpa. Mas a raiz continua ali, e volta a brotar à primeira chuva. Arrancar pela raiz é outra coisa.
O justificado, na formulação dele, trava uma guerra em duas frentes: a externa, contra o mundo e o tentador, e a interna, contra as inclinações remanescentes. O inteiramente santificado trava apenas a externa. A batalha não acaba; muda de natureza.
Precisão
O que ele quer dizer é o seguinte. A inteira santificação, como purificação do coração, é recebida pela fé. Mas a perfeição no sentido de maturidade comprovada vem pela fidelidade e pelo sofrimento ao longo do tempo. É o que Hebreus diz do próprio Cristo, que “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” e “tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o autor da salvação eterna” (Hb 5.8-9). Uma coisa é a purificação do coração; outra é o caráter provado.
Roteiro prático
Roberts apresenta quatro condições, e elas formam um roteiro que vale seguir.
Condição 1 e 2
Determinação independente e abnegada, que não depende da aprovação dos outros. E santificar-se a si mesmo: purificar-se daquilo de que se pode purificar, antes de pedir a Deus aquilo que só ele faz.
“O homem não é máquina”
Condição 3 e 4
Confessar os pecados inatos, o que Wesley chamou de arrependimento dos crentes. E confiar implicitamente em Cristo para que faça a obra agora. Enquanto se adia a obra para o futuro, ela fica adiada.
“Se como está, então espere-a agora”
“Devemos ir até o limite da nossa capacidade antes de ter direito a esperar auxílio sobrenatural. A santidade é estado voluntário: o ser humano não é máquina; só a sua liberdade de vontade o torna capaz de santidade.”
E no capítulo sobre buscar a santidade, um conselho de simplicidade desconcertante: “O modo de buscar a santidade é buscá-la.” Também: “Não espere que Deus faça o que ele lhe ordena que faça. Ele o ajudará, mas você deve ajudar a si mesmo. Nenhuma quantidade de oração toma o lugar da obediência.”
Realismo pastoral
Aqui está a contribuição mais valiosa de Roberts, e o assunto que a pregação popular mais confunde.
Ninguém precisa aprender a perder a saúde: a negligência basta. O mesmo vale para a santidade. “A Bíblia não nos ensina a perder a santidade; dá-nos direções bem explícitas de como conservá-la.”
Quem não cresce seca e se torna insensível, mantendo a profissão depois de perdida a bênção. O anjo da igreja em Éfeso era ortodoxo, zeloso e trabalhador incansável, e ainda assim foi declarado caído: “abandonou o seu primeiro amor” (Ap 2.4).
Por pecado atual, por dúvida e incredulidade, e por deixar de confessá-la. E ele distingue: quem cai em transgressão perde também a justificação e precisa voltar como pecador; quem perde a bênção por dúvidas ou por omissão do testemunho perde a santidade sem perder a justificação, e ainda é filho de Deus, santo apenas em parte.
Diagnóstico
Patologia 1
Verdadeira, mas incompleta. Falta-lhe espiritualidade e, sobretudo, lealdade suprema a Deus. Uma santidade que só reconhece a justiça quando ela é sancionada pela maioria, ou que faz da fidelidade à instituição o dever supremo, é traição a Deus, idolatria refinada.
Foi por esse princípio que Lutero e Wesley agiram
Patologia 2
Edificada sobre suposição falsa: dar por justificados os que apenas ocupam posição respeitável numa igreja respeitável. Quem está sob condenação precisa primeiro de perdão; construir santidade sobre esse fundamento é obra que não subsiste.
“Nem tudo o que reluz é ouro”
“A santidade do dia é tão ineficaz porque é, em tanta parte, defeituosa: a carga não se move porque muito do vapor se perde; o remédio não cura porque combinado com tantas substâncias neutralizantes; o ouro não circula porque misturado com tanta liga.”
Roberts diagnostica o problema dos que professam sem apresentar fruto e conclui que estão tentando santificar o que não é capaz de santificação permanente: a velha natureza. A Escritura manda despojar-se dela, e não reformá-la. E acrescenta sobre o processo: “A crucificação era morte demorada, não súbita, como a decapitação: a vítima podia agonizar por dias. Assim, ninguém morre para o mundo de uma só vez.”
No capítulo mais técnico da obra, Roberts conclui que o ser humano tem uma só mente. Na inteira santificação, a inclinação da mente é mudada, mas a mente não é destruída e a liberdade da vontade não é abolida. “A mente carnal nunca é destruída a ponto de abolir a liberdade da vontade.” Isso encerra as fantasias sobre uma santificação que tornaria o pecado metafisicamente impossível.
Balanço
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
0 de 5
O diagnóstico de Roberts é útil porque não acusa de hipocrisia: ele admite que a santidade pode ser verdadeira e ainda assim ineficaz por adulteração. Os pontos mais comuns são dois. O primeiro é a falta de lealdade suprema a Deus, quando só se reconhece a justiça sancionada pela maioria ou quando a fidelidade à instituição vira dever supremo. O segundo é a santidade que não alcança o dinheiro e as relações de trabalho.
Porque a prática negava o evangelho na prática, por mais ortodoxa que fosse a pregação feita do púlpito. Nas igrejas metodistas americanas do século XIX, as famílias abastadas alugavam os melhores bancos e os pobres ficavam nos fundos ou de pé. Para Roberts, uma santidade que convive com isso já passou do defeituoso para o falso. Vale perguntar qual é o banco alugado da nossa geração: que arranjo prático da nossa igreja separa pessoas por classe, sem que ninguém mais repare?
Tarefas
Ler Apocalipse 2.1-7 e escrever o que significaria, na prática, uma igreja ortodoxa e trabalhadora ter abandonado o primeiro amor.
Próxima aula
Aula 14 — O caminho: crise, processo e meios de graça. A última aula do curso reúne o que fazer com tudo o que estudamos, do instantâneo e do gradual à santidade que se espalha.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).