A graça salva
“Manifestou-se salvadora”. Este é o evangelho, e nada do que vem depois o substitui.
“Mas, assim como é santo aquele que os chamou, tornem-se santos também vocês mesmos em todo o procedimento de vocês.”1 Pedro 1.15 · NAA
Antigo Testamento
A legislação do Antigo Testamento trabalha com duas dimensões da santidade, e é preciso distinguí-las para não fazer confusão.
Dimensão 1
Separação ritual: pessoas, objetos, tempos e lugares postos à parte para o serviço de Deus. A consagração dos sacerdotes (Êx 29.21) e o voto de nazireu, cuja palavra significa separado (Nm 6.1-5). Nada disso tem a ver com moralidade: um nazireu não era mais honesto por não cortar o cabelo.
Êx 29.21; Nm 6.1-5
Dimensão 2
O chamado a cultivar em si o próprio caráter de Deus. O contexto de Levítico 19 não é ritual: ali estão os mandamentos sobre honrar os pais, não roubar, não mentir, não explorar o trabalhador, não ser parcial no julgamento e amar o próximo.
Lv 19.2,9-18
O Salmo 15 formula a mesma exigência em forma de pergunta litúrgica: “Senhor, quem habitará no teu tabernáculo?” A resposta não fala de sacrifícios, mas de conduta. E o Salmo 24 acrescenta a imagem que ficou clássica: “aquele que tem mãos limpas e coração puro” (Sl 24.4). Conduta e caráter. A Bíblia nunca separa as duas coisas.
Novo Testamento
“Assim como é santo aquele que os chamou, tornem-se santos também vocês mesmos em todo o procedimento de vocês, porque está escrito: Sejam santos, porque eu sou santo.”1 Pedro 1.15-16
Repare no que Pedro faz. Ele escreve a cristãos gentios, na Ásia Menor, décadas depois da cruz. Poderia ter dito que a ordem de Levítico era típica, provisória, superada. Não disse. Aplicou-a diretamente, e ampliou o alcance: em todo o procedimento de vocês. Não uma área da vida; todas.
O texto não diz que a santificação nos torna dignos de ver a Deus; diz que sem ela não o veremos. É uma afirmação sobre capacidade, e não sobre mérito. Assim como olhos doentes não suportam a luz forte, um coração não santificado não suporta a presença de Deus. Jesus diz a mesma coisa pelo lado positivo: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8).
Prioridade
“Pois esta é a vontade de Deus: a santificação de vocês.”1 Tessalonicenses 4.3
Quantos cristãos passam anos perguntando qual é a vontade de Deus para a sua vida, que profissão seguir, com quem casar, para onde se mudar, sem nunca reparar que a Escritura já respondeu a essa pergunta no nível que mais importa.
E Paulo continua, descendo imediatamente ao concreto: “que vocês se abstenham da imoralidade sexual; que cada um de vocês saiba possuir o próprio corpo em santidade e honra” (1Ts 4.3-4). A santidade bíblica nunca fica no abstrato.
Texto-síntese
“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todas as pessoas. Ela nos educa para que, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivamos no presente século de modo sensato, justo e piedoso… Cristo deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu.”Tito 2.11-14
“Manifestou-se salvadora”. Este é o evangelho, e nada do que vem depois o substitui.
O verbo grego é o que se usa para a formação disciplinada de uma criança. A graça não apenas perdoa; ela forma. E o alvo é uma vida sensata, justa e piedosa neste século presente, não apenas no futuro.
Remir de toda iniquidade e purificar um povo. Cristo não morreu apenas para perdoar um povo; morreu para purificar um povo. Se a cruz tivesse apenas o primeiro objetivo, teríamos uma igreja de perdoados que continuam iguais.
Objeção comum
Ouço com frequência que a santidade seria uma vocação para monges, missionários e pastores dedicados, e não a expectativa normal para o cristão comum.
“Chamados para serem santos”, escrito a toda a igreja de Roma.
Rm 1.7
“Sejam santos em todo o procedimento”, a comunidades de cinco províncias.
1Pe 1.15
“Sejam vocês perfeitos”, dito à multidão no monte, e não a um grupo seleto.
Mt 5.48
“Esta é a vontade de Deus: a santificação de vocês.”
1Ts 4.3
A santidade é o chamado batismal de todo cristão. Quando a tratamos como especialização, esvaziamos o próprio conceito de discipulado.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
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A pergunta costuma produzir silêncio nas classes, e por bom motivo. Oramos por saúde, trabalho, família e direção, todas coisas legítimas. Mas as orações de Paulo registradas nas cartas são quase todas por transformação interior: que o amor cresça, que o coração seja confirmado em santidade, que sejam cheios de toda a plenitude de Deus (1Ts 3.12-13; Ef 3.19). Talvez o primeiro passo prático deste curso seja simples assim: começar a pedir o que Deus já disse que quer dar.
Com gentileza, mostrando a quem os textos foram endereçados. “Chamados para serem santos” foi escrito à igreja de Roma inteira (Rm 1.7). “Sejam santos em todo o procedimento” foi escrito a comunidades de cinco províncias (1Pe 1.15). “Sejam vocês perfeitos” foi dito à multidão no monte (Mt 5.48). E vale acrescentar a origem histórica do engano: a divisão medieval entre dois níveis de vida cristã, que a Reforma e o metodismo rejeitaram.
Tarefas
Ler Levítico 19.1-18 e listar quantos mandamentos ali são de conduta social, e não de ritual. Depois ler o Salmo 15 e comparar as duas listas.
Próxima aula
Aula 4 — Santidade relacional, posicional e prática. Três distinções que evitam boa parte das confusões sobre o assunto, e que explicam por que Paulo chama de santos pessoas que ele repreende.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).