Perfeitos no AmorAula 6

O coração indiviso

“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.”Mateus 22.37 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Mateus 22.34-40; Deuteronômio 6.4-9; Deuteronômio 30.6; Gálatas 5.16-24; Tiago 4.1-10

Definição

A palavra que muda tudo

Quando perguntaram a Jesus qual era o maior mandamento, ele respondeu com uma palavra repetida quatro vezes.

“Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento… Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.”Mateus 22.37,39

Observe a palavra todo. Todo o coração. Toda a alma. Todo o entendimento. Marcos acrescenta “e de todas as suas forças” (Mc 12.30).

A perfeição cristã é exatamente isso: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos. Não mais do que isso, e não menos.

Confirmação

Paulo e João dizem o mesmo

“O cumprimento da lei é o amor.”

Rm 13.10

“Nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.”

Gl 5.6

“Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição.”

Cl 3.14

“Nisto o amor é aperfeiçoado em nós… O perfeito amor lança fora o medo.”

1Jo 4.17-18

Wesley descreveu a fé que opera pelo amor com uma expressão memorável: “A fé que atua pelo amor é o comprimento, a largura, a profundidade e a altura da perfeição cristã.” E note que a expressão amor perfeito não é invenção dele. É linguagem bíblica, tirada de 1 João 4.

Raiz veterotestamentária

O coração inteiro já estava na Torá

A promessa

Deuteronômio 30.6

“O Senhor, seu Deus, circuncidará o coração de vocês… para que vocês amem o Senhor, seu Deus, de todo o coração.” Deus não apenas manda; promete agir no coração para torná-lo capaz.

É isto que chamamos de inteira santificação

Entre a ordem e a promessa há ainda um desejo, que soa quase como um suspiro: “Quem dera eles sempre tivessem tal coração, para me temerem e guardarem todos os meus mandamentos” (Dt 5.29).

O conceito

O que significa coração indiviso

Pense em como o oposto se manifesta. Um coração dividido não é necessariamente um coração ímpio. É um coração que ama a Deus e ama outra coisa em concorrência com ele.

1

O caso do jovem rico

Ele não era um pecador escandaloso; era um homem sério, moral, religioso. O problema era que havia uma área da vida onde ele não estava disposto a obedecer, e essa área revelou o restante (Mt 19.16-22).

2

O diagnóstico de Tiago

“Homem de coração dividido, inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.8). E a exortação correspondente: “Purifiquem o coração, vocês que têm a alma dividida” (Tg 4.8).

3

A cura da divisão

Wesley descrevia a inteira santificação como “uma obra do Espírito onde o coração seria totalmente liberto da rebelião para amar a Deus e aos outros”.

A objeção mais forte

Tentação, fraqueza, carne e pecado interior

Se a sarx de Gálatas 5.17 é uma inclinação pecaminosa interior presente em todo cristão enquanto viver, então sobrevive dentro dele justamente aquilo que a inteira santificação diz purificar. Quem não enfrenta essa pergunta não entendeu o problema.

“A carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro.”Gálatas 5.17

A resposta depende de distinguir cinco realidades que a linguagem popular sobre santidade quase sempre atropela sob o rótulo genérico de “pecado que continua no crente”.

1. A tentabilidade. A simples possibilidade de ser tentado. Adão foi tentado antes de qualquer pecado, e Cristo “foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15). Ser tentável faz parte de ser criatura livre.
2. Os apetites e afetos involuntários. Fome, sono, medo, atração, dor, luto, irritação diante do que fere. Movimentos anteriores à escolha, que precisam ser governados, mas não são pecado. Jesus teve fome, chorou e sentiu indignação (Mc 3.5).
3. As limitações da condição caída. Ignorância, erro de juízo, esquecimento, doença, cansaço, temperamento difícil, feridas. É a lista que Wesley repetia à exaustão para dizer que a perfeição não as elimina.
4. Os hábitos e condicionamentos. Sulcos abertos por anos de prática. Aqui a graça age, mas normalmente age no tempo, e é este o terreno próprio da mortificação diária de Romanos 8.13.
5. As disposições, os afetos e os temperamentos moralmente contrários ao amor. É o que Wesley chama de pecado interior: orgulho, vontade própria, amor ao mundo, cobiça, ira, rancor cultivado, e aquela área reservada onde eu decidi de antemão não obedecer. Note que não são apenas os pecados deliberados: Wesley reconhecia que essas disposições podem mexer-se no coração antes mesmo de a pessoa consentir nelas. É desta quinta categoria que ele fala ao dizer que nenhuma disposição contrária ao amor permanece na alma.
E Gálatas 5.17, então?+

Note o que Paulo faz. Ele não escreve o versículo 17 como diagnóstico resignado; escreve-o como razão do mandamento do versículo 16: “Vivam pelo Espírito e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne.” E o parágrafo termina em “os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (v. 24). Paulo descreve um conflito real, e promete vitória nele.

A precisão que Wesley faria.+

Wesley usava exatamente a linguagem de carne e Espírito para descrever o crente regenerado que ainda não recebeu a plena purificação. Em O Pecado nos Crentes ele fala de dois princípios contrários coexistindo na mesma pessoa: o pecado permanece, embora já não reine. Depois da inteira santificação continuam a tentação, a fraqueza e a possibilidade real de queda; o que cessa é a mente carnal como princípio interior concorrente, disputando o coração com o amor de Deus.

Reconhecendo o outro lado.+

Exegetas sérios entendem sarx, aqui, como a corrupção residual no crente, e não como a esfera do velho modo de existência a que o cristão já não pertence. É uma leitura defensável, e não a descarto com facilidade. O que sustento é que o parágrafo inteiro caminha para a vitória, e que a linguagem do versículo 24 é forte demais para descrever uma trégua permanente.

Guardo, portanto, esta formulação: o cristão inteiramente santificado é tentável, limitado, falível e ainda em obra; o que ele não é, pela graça, é dividido.

Aplicação

Um exame que vale fazer

Não pergunte “eu amo a Deus?”, porque quase todo cristão responde que sim e a pergunta não revela nada. Pergunte outra coisa.

Pode ser um relacionamento que eu sei que não deveria manter. Pode ser um hábito financeiro. Pode ser uma mágoa que eu escolhi guardar. Pode ser uma ambição profissional à qual eu subordinei tudo o mais, inclusive a família e a igreja.

Se existe uma área assim, o coração está dividido, e nenhuma quantidade de atividade religiosa vai resolver isso. A entrega dessa área específica é o que a Escritura chama de consagração, e é ali que a inteira santificação normalmente começa.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

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Para refletir

Responda por escrito, com nome e sobrenome: há alguma área em que você já decidiu, de antemão, não obedecer?ver resposta sugerida

Vale escrever, e não apenas pensar, porque o que fica na cabeça permanece vago o suficiente para não incomodar. As áreas mais frequentes são quatro: um relacionamento que não deveria ser mantido, um hábito financeiro, uma mágoa escolhida e uma ambição à qual tudo o mais foi subordinado. Wesley aconselhava, com sabedoria pastoral, que se examinasse a pessoa com franqueza e se a exortasse a orar com fervor, para que Deus lhe mostrasse tudo o que havia em seu coração. Somos péssimos juízes de nós mesmos.

Um irmão diz que a doutrina do coração indiviso ignora Gálatas 5.17. Como responder com precisão e mansidão?ver resposta sugerida

Concedendo primeiro que a objeção é a mais forte que existe contra esta doutrina, e que exegetas sérios leem sarx como corrupção residual no crente. Depois, oferecendo a distinção das cinco realidades, que mostra o que a doutrina promete e o que não promete. E, por fim, pedindo que se leia o parágrafo inteiro: o v. 17 fundamenta o mandamento do v. 16 e desemboca no v. 24, que fala de carne crucificada. Paulo descreve conflito real e promete vitória nele.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Escrever a resposta à pergunta de exame da última seção e entregá-la a Deus em oração, por nome. Se houver alguém a perdoar, escrever também o nome dessa pessoa.

Próxima aula

Aula 7 — A restauração da imagem de Deus. A melhor categoria bíblica para entender a santificação, e por que ela nunca produz santidade solitária.

Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).