Curso de RomanosAula 16

Saudações, as mulheres na obra e a glória de Deus

“…ao único Deus, sábio, seja dada glória, mediante Jesus Cristo, para todo o sempre. Amém!”Romanos 16.27 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 16 (leia o capítulo; repare em quantas mulheres Paulo saúda e elogia pelo nome)

Para começar

As perguntas que nos guiam

Chegamos ao fim da maior carta de Paulo. E ela termina de um jeito surpreendente: não com uma tese, mas com uma lista de nomes — muitos deles de mulheres — e um hino.

1

Uma lista de nomes ensina algo?

O que dezenas de saudações revelam sobre o que a igreja é?

2

Qual era o lugar das mulheres na obra?

Quem eram Priscila, Júnia e Febe — e o que fizeram ao lado de Paulo?

3

Como termina uma carta tão doutrinária?

Onde desemboca toda essa teologia?

Tese da aula: Romanos termina no concreto. Paulo recomenda Febe (16.1-2), saúda dezenas de cooperadores — dez deles mulheres (16.3-16) —, adverte contra os que dividem (16.17-20), registra as últimas saudações (16.21-24) e coroa tudo com uma doxologia ao único Deus sábio (16.25-27). A igreja é gente com nome; e, entre esses nomes, o serviço das mulheres brilha de modo que merece a nossa atenção.

Rm 16.1-2

Febe, a diaconisa que levou a carta

“Recomendo-lhes a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencreia… porque ela tem sido protetora de muitos e de mim também.” (Rm 16.1-2)

Prostátis

Ela é ainda prostátis (protetora, patrona): “mulher colocada sobre outras, que cuida dos assuntos de outros”. Como as mulheres que sustentavam Jesus (Lc 8.1-3), Febe sustentava a obra de Paulo. Serviço reconhecido, não figuração.

Rm 16.2

Rm 16.3-16

O rosto da igreja: dez das vinte e sete são mulheres

Depois das maiores alturas teológicas, Paulo desce ao chão e saúda gente, um a um.

Das vinte e sete pessoas nomeadas no capítulo 16, dez são mulheres ativas na obra: Febe, Priscila, Maria, Júnia, Trifena, Trifosa, Pérside, a mãe de Rufo, Júlia e a irmã de Nereu. Não são meras conhecidas: Paulo diz que Maria “trabalhou muito” por eles (16.6) e que Trifena, Trifosa e Pérside “trabalharam muito no Senhor” (16.12).

Rm 16.3-4 · At 18.26

Priscila: a mestra que instruiu um pregador

“Saúdem Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida expuseram a própria cabeça…” (Rm 16.3-4)

Ensinou Apolo

Quando o eloquente pregador Apolo precisou de correção doutrinária, foram Priscila e Áquila que “lhe expuseram com mais precisão o caminho de Deus” (At 18.26). Uma mulher, ao lado do marido, instruindo um mestre da Palavra.

At 18.24-26

Rm 16.7

Júnia: “notável entre os apóstolos”

“Saúdem Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos e que estavam em Cristo antes de mim.” (Rm 16.7)

Poucos versículos geraram tanta “nuvem de fumaça”. Alguns tentaram masculinizar o nome — Júnia viraria Júnias —, mas essa forma masculina é desconhecida em qualquer fonte greco-romana, enquanto o nome feminino Júnia aparece centenas de vezes. A contração de “Junianus” para “Junias” simplesmente não existe e é tida como gramaticalmente impossível.

1

O testemunho antigo

Os pais da igreja a leram como mulher — Orígenes, Jerônimo e outros. João Crisóstomo exclamou: “quão grande a sabedoria desta mulher, digna do título de apóstolo!”. Pelo que se sabe, nenhum comentarista tomou o nome como masculino até o século XIII.

2

O motivo da mudança

Como observa Craig Keener, a leitura masculina “não se baseia no texto, mas inteiramente no pressuposto de que uma mulher não poderia ser apóstola”. A troca não veio da gramática, veio do preconceito.

3

“Apóstolo” em sentido amplo

Além dos Doze, o Novo Testamento chama de apóstolos também Barnabé, Apolo, Timóteo e Epafrodito (At 14.14; 1Co 4.6,9; Fp 2.25). No sentido amplo, apóstolo é o missionário enviado a plantar igrejas — e Andrônico e Júnia, provável casal missionário, eram “notáveis” nesse grupo.

É justo reconhecer que a expressão “notáveis entre os apóstolos” já foi lida como “bem conhecidos dos apóstolos”. Mas o estudo do grego da época (Epp) mostra que o sentido natural é inclusivo: Júnia estava dentro do grupo, não apenas era admirada de fora.

Da exegese à convicção · nossa herança

O ministério feminino e a herança metodista livre

Esses nomes não são curiosidade histórica; são o solo bíblico de uma convicção que é a nossa.

Em 1891, dois anos antes de morrer, B. T. Roberts — fundador da Igreja Metodista Livre — publicou Ordenando Mulheres, a defesa bíblica da ordenação feminina que se tornou um marco da nossa tradição. Hoje, a ordenação de mulheres é convicção assumida da Igreja Metodista Livre em todo o mundo — e aquele livro é uma das razões.

Vencer o preconceito

Ele adverte: assim como a Igreja leu mal a Bíblia sobre a escravidão por séculos, pode estar falhando quanto à mulher. Cabe-nos “vencer os nossos preconceitos”. E conclui: se Deus chama uma mulher e a igreja discerne o seu dom, nada na natureza da ordenação a impede.

Ordenando Mulheres, 1891

Com equilíbrio. Esta é a nossa convicção, e a apresentamos com firmeza bíblica. Mas reconhecemos que irmãos sinceros leem alguns textos de outro modo, e o nosso tom não é de disputa, e sim de serviço à verdade com mansidão. O propósito de Romanos 16 não é abrir uma polêmica; é honrar quem serviu — e, ao honrar Priscila, Júnia e Febe, a própria Escritura nos ensina a reconhecer o dom de Deus onde quer que ele o conceda.

Rm 16.17-24

Vigilância contra os que dividem

“Rogo-lhes, irmãos, que estejam atentos aos que provocam divisões e escândalos, contra a doutrina que aprenderam. Afastem-se deles.” (Rm 16.17)

Entre tantas saudações afetuosas, um alerta firme: cuidado com os que dividem. O critério é claro — eles agem “contra a doutrina que aprenderam” e servem “ao próprio ventre”, enganando os incautos com palavras suaves (Rm 16.18). A unidade que a carta inteira defende não é ingenuidade: sabe se proteger de quem semeia discórdia. E vem a promessa: “o Deus da paz, em breve, esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês” (Rm 16.20) — eco de Gênesis 3.15.

Fechando um círculo aberto na primeira lição: aqui aparece, pelo nome, o secretário que escreveu a carta — “eu, Tércio, que escrevi esta carta, saúdo vocês no Senhor” (Rm 16.22). Até o escriba tem voz no corpo de Cristo. Nenhum serviço é anônimo diante de Deus.

Rm 16.25-27

A doxologia: ao único Deus sábio

“Ora, àquele que é poderoso para confirmá-los… ao único Deus, sábio, seja dada glória, mediante Jesus Cristo, para todo o sempre. Amém!” (Rm 16.25-27)

Fim do curso

De Romanos 1 a 16, percorremos a estrada inteira: o evangelho como poder (1), o diagnóstico da humanidade (1–3), a justificação pela fé (3–5), a santificação e a vida no Espírito (6–8), o lugar de Israel (9–11) e a vida prática do povo transformado (12–16). Que este estudo termine onde Paulo terminou — em adoração ao único Deus sábio.

Da exegese à vida

Aplicações pastorais

1

Aprenda e honre os nomes

Valorize quem serve nos bastidores. Agradeça em público, lembre o trabalho escondido (Rm 16.6,12). A igreja é gente com nome.

2

Reconheça o dom, vença o preconceito

Onde Deus capacita — homem ou mulher —, a igreja deve reconhecer, formar e enviar (Rm 16.1-7; Gl 3.28). Como dizia Roberts, cabe-nos vencer os nossos preconceitos.

3

Vigie contra a divisão

Ame a unidade, mas não seja ingênuo: afaste-se de quem semeia discórdia contra a sã doutrina (Rm 16.17).

4

Termine em adoração

Que todo estudo, como Romanos, desemboque em glória a Deus (Rm 16.27). Teologia que não vira louvor parou no meio.

A pergunta com que Romanos nos deixa é de resposta: depois de tanto que recebi de graça, tenho reconhecido e honrado o serviço de todos os que Deus levantou — e dado glória a ele?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Romanos 16 é quase todo uma lista de nomes de cooperadores. O que essa “lista de saudações” nos ensina sobre a igreja e sobre como valorizamos quem serve nos bastidores?Ver resposta sugerida
Ensina que a igreja nunca é uma abstração; é gente com nome. Depois de dezesseis capítulos das maiores alturas teológicas, Paulo desce ao chão e saúda, um a um, cerca de vinte e sete nomes — homens e mulheres, judeus e gentios, livres e ex-escravos. A doutrina mais sublime desemboca numa comunidade concreta. E repare no cuidado: ele lembra quem “trabalhou muito” (Rm 16.6,12), quem arriscou a vida (16.4), quem hospedou a igreja em casa (16.5). Deus não esquece o serviço escondido, e nós também não deveríamos. Uma aplicação simples e poderosa: aprenda os nomes, agradeça em público, honre quem serve nos bastidores — porque, no corpo de Cristo, nenhum membro é dispensável (1Co 12.22).
A partir de Priscila, Júnia e Febe, como você defenderia o ministério pastoral feminino com fidelidade à Bíblia — usando também os argumentos de B. T. Roberts — sem transformar a conversa numa briga, mas com firmeza e mansidão?Ver resposta sugerida
Eu começaria pelos próprios nomes de Romanos 16. Priscila é citada antes do marido e chamada “cooperadora em Cristo” (Rm 16.3); foi ela, com Áquila, que “expôs com mais precisão o caminho de Deus” ao pregador Apolo (At 18.26) — uma mulher ensinando um mestre. Júnia é dita “notável entre os apóstolos” (Rm 16.7); o nome é feminino, atestado centenas de vezes, e nenhum comentarista antigo o leu como masculino até o século XIII — João Crisóstomo chegou a exaltar “quão grande é a sabedoria desta mulher, digna do título de apóstolo”. Febe é diákonos (diaconisa) e prostátis, protetora que sustentou a obra (Rm 16.1-2). A esses fatos, B. T. Roberts, em Ordenando Mulheres, acrescenta o fundamento do Evangelho: “não há homem nem mulher, porque todos vocês são um em Cristo Jesus” (Gl 3.28); lembra que a Igreja um dia leu mal a Bíblia sobre a escravidão e pode estar falhando também aqui; e conclui que, se Deus chama uma mulher e a igreja discerne o seu dom, nada há na natureza da ordenação que a impeça. Essa é a convicção assumida da Igreja Metodista Livre. Eu apresentaria tudo isso com firmeza bíblica e, ao mesmo tempo, com respeito por irmãos sinceros que leem diferente — porque a mesa da comunhão é maior que os nossos debates, e o objetivo é servir à verdade com mansidão, não vencer uma discussão.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Romanos 16 e listar as dez mulheres que Paulo saúda, anotando ao lado o que o texto (ou Atos) diz do serviço de cada uma; depois, escrever meia página respondendo: “Como a minha igreja pode reconhecer e formar melhor os dons que Deus tem levantado — inclusive entre as mulheres?”, à luz de Gl 3.28. Reler a doxologia (Rm 16.25-27) e transformá-la em oração de encerramento do curso.

Aula seguinte

Você concluiu o Curso de Romanos! De Romanos 1 a 16 — do evangelho como poder de Deus à glória do único Deus sábio. Aprofunde a defesa bíblica do ministério feminino em Ordenando Mulheres, de B. T. Roberts, ou reveja as demais lições no portal. Voltar às Lições →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello