Estudos do Bispo Ildo · Romanos 9–11

O que Romanos 9 realmente ensina?

Eleição, misericórdia e a fidelidade de Deus às suas promessas — lendo Romanos 9 à luz dos capítulos 10 e 11.

Bispo Ildo Mello

Para começar

As perguntas que nos guiam

Antes de discutir predestinação, é preciso ouvir a pergunta que Paulo de fato está respondendo. Quatro inquietações movem todo o bloco.

1

Se Jesus é o Messias…

…por que a maior parte de Israel não creu nele? Teria Deus voltado atrás em suas promessas?

2

Por que a Igreja é gentílica?

Em pouco tempo a Igreja passou a ser majoritariamente formada por gentios. Como explicar isso à luz do Antigo Testamento?

3

Rm 9 ensina predestinação?

O capítulo trata da eleição incondicional de indivíduos para a salvação ou a perdição — ou de outra coisa?

4

Há esperança para Israel?

O que acontecerá com o grande número de israelitas que hoje não creem em Cristo?

“Nas cartas de Paulo há alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam.”
2Pe 3.16 · NAA

Um dado histórico

Como a igreja leu Romanos 9

Séculos I–IV

Nenhum pai da igreja leu Rm 9 como eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição.

Agostinho jovem (c. 394)

Em seus primeiros escritos sobre Romanos, o próprio Agostinho entendia a eleição com base na fé prevista por Deus.

Agostinho maduro (396)

A virada ocorre em Ad Simplicianum: eleição incondicional individual — uma leitura nova, não a herança da igreja.

Gottschalk e Calvino

A dupla predestinação explícita só aparece com Gottschalk (séc. IX) e é sistematizada por Calvino (séc. XVI).

Método

Seis chaves para ler Romanos 9

Um texto difícil pede um método claro. Estas seis chaves acompanham toda a exposição.

1

A questão real

Identificar a pergunta que Paulo está de fato respondendo.

2

Bloco 9–11

Os capítulos 10 e 11 completam o argumento do capítulo 9.

3

A carta toda

Ler dentro da mensagem central de Romanos (1–4): a justiça pela fé.

4

Contexto do AT

Examinar o contexto original de cada citação que Paulo faz.

5

O claro ilumina o obscuro

Textos difíceis não podem contradizer o ensino dos textos claros.

6

O caráter de Deus

Nenhuma leitura pode transformar o Pai de Jesus num condenador arbitrário.

Parte 1 · A questão real

A palavra de Deus não falhou

“E não pensemos que a palavra de Deus falhou. Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas.”
Rm 9.6 · NAA

O problema do capítulo não é “por que uns creem e outros não”, mas: se Israel rejeita o Messias, a promessa de Deus falhou? O ponto de partida decide tudo.

A pergunta que o calvinismo faz

“Por que alguns indivíduos creem e outros não?” A resposta inevitável é um decreto eterno e secreto que separou eleitos e réprobos — e desemboca no determinismo.

A pergunta que Paulo responde

“Se Israel não creu, a palavra de Deus falhou?” (Rm 9.6). Resposta: não — a salvação nunca foi por etnia nem por obras, mas pela fé (Rm 9.30-32).

A tese é a eleição corporativa e vocacional da nação de Israel para um papel na história (Rm 9.4-5) — não a eleição incondicional de indivíduos. E a promessa sempre passou por um afunilamento, sempre pela linha da fé:

AbraãoSó Isaque herda — não Ismael (Rm 9.7)
IsaqueSó Jacó é escolhido — não Esaú (Rm 9.10-13)
IsraelNem todos os de Israel são israelitas (Rm 9.6)
RemanescenteSó o remanescente será salvo (Rm 9.27)

Parte 2 · O coração da controvérsia

Os quatro textos difíceis

A leitura calvinista se apoia em quatro versículos. Toque em cada um para ver a leitura determinista e a resposta no contexto.

A leitura calvinista

Lido como ódio eterno a um bebê ainda não nascido, prova de reprovação individual incondicional.

A resposta no contexto

  • Paulo cita Malaquias 1.2-3, escrito séculos após a morte dos dois irmãos: ali “Jacó” e “Esaú” são as nações de Israel e Edom, não indivíduos.
  • O oráculo original já falava de povos: “Duas nações há no seu ventre… e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23). O indivíduo Esaú jamais serviu ao indivíduo Jacó.
  • “Desprezei” é o idiomatismo semítico de amar menos, preterir — o mesmo de Jesus em Lc 14.26. Foi Esaú quem desprezou a primogenitura (Gn 25.34; Hb 12.16).
  • A base da eleição é a presciência: “aos que de antemão conheceu, também os predestinou” (Rm 8.29; 1Pe 1.2).

A leitura calvinista

Lido como misericórdia restrita a poucos eleitos, escolhidos sem condição.

A resposta no contexto

  • O ponto não é restringir a misericórdia, mas ampliá-la, para abranger também os gentios, afirmando a liberdade de Deus para definir o modo de concedê-la: pela fé, não pela etnia ou pelas obras.
  • O próprio bloco termina dizendo que Deus quer “mostrar a sua misericórdia a todos” (Rm 11.32) e é “rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12).
  • Em 9.16, “querer e correr” é o esforço e o privilégio humanos (as obras, a etnia). O texto exclui o mérito — não a fé, que é o modo não meritório que a graça estabeleceu (Rm 4.16).
  • A cruz é universal: “em resgate por todos” (1Tm 2.6); “pelos pecados de todo o mundo” (1Jo 2.2); “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3.9).

A leitura calvinista

Lido como endurecimento decretado desde a eternidade, unilateral e irresistível.

A resposta no contexto

  • O texto não diz que Deus endureceu Faraó desde sempre. Nas primeiras pragas, Faraó endurece o próprio coração (Êx 8.15, 32); só depois se diz que Deus o endureceu (Êx 9.12).
  • O anúncio prévio (Êx 4.21) não é causa: Deus, que conhece o coração, declara de antemão como Faraó reagiria — como fez com a negação de Pedro (Mc 14.30).
  • O endurecimento é entrega judicial (Rm 1.24, 26, 28). O mesmo sol que derrete a cera endurece o barro.
  • A ironia de Paulo: Israel repetia Faraó — “vós sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51).

A leitura calvinista

Lido como criaturas feitas por Deus para a perdição, sem escolha.

A resposta no contexto

  • Na Escritura, o barro nas mãos do oleiro é Israel, não cada alma individual (Is 29.16; 64.8; Jr 18.6).
  • Em Jeremias 18“Não poderei eu proceder com vocês como fez este oleiro, ó casa de Israel? Como o barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos. No momento em que eu falar contra uma nação, para arrancar, derrubar e destruir, se essa nação se converter da sua maldade, eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, quando eu falar para edificar e plantar, se ela fizer o que é mau diante de mim, não obedecendo à minha voz, também eu me arrependerei do bem que havia falado.”Jr 18.6–10 · NAA, o destino do vaso muda conforme a resposta da nação: “se essa nação se converter… eu me arrependerei do mal” (Jr 18.7-8). Nínive comprova (Jn 3.10).
  • Há aqui uma diferença fina, e é o próprio Paulo quem a faz. Sobre os “vasos de ira”, ele diz apenas que estão “prontos” para a destruição, sem dizer quem os deixou assim — no grego, a frase até permite entender que eles mesmos se prepararam. Já sobre os “vasos de misericórdia”, ele afirma com todas as letras que foi Deus quem os preparou de antemão para a glória. A conclusão salta aos olhos: Deus prepara pessoas para a glória; para a perdição, ninguém é preparado por Ele — é o próprio pecador que se endurece.
  • As categorias se abrem: os de Éfeso eram “por natureza, filhos da ira” e foram vivificados (Ef 2.3-5). “Chamarei de meu povo ao que não era meu povo” (Rm 9.25).
Partes 3 e 4 · A prova do contexto

Romanos 10 e 11 confirmam

Se o capítulo 9 ensinasse eleição incondicional, os capítulos 10 e 11 seriam incompreensíveis.

Romanos 10 — a fé vem pela pregação

  • Paulo ora pela salvação de Israel (Rm 10.1) — ora-se pelos que podem ser salvos.
  • O problema é “zelo sem entendimento” (Rm 10.2), não um decreto.
  • A porta se escancara: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13).
  • A fé vem pela pregação, não por decreto secreto: “a fé vem pelo ouvir” (Rm 10.17).
  • A imagem final: “Todo o dia estendi as mãos a um povo desobediente” (Rm 10.21) — braços abertos, não decretos fechados.

Romanos 11 — nem total, nem definitiva

  • A rejeição não é total: sobrevive um remanescente segundo a graça (Rm 11.5).
  • A rejeição não é definitiva: “Será que tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum!” (Rm 11.11).
  • Na oliveira, a causa do corte é nomeada — e não é um decreto: “foram quebrados por causa da incredulidade” (Rm 11.20).
  • A condição é explícita, dirigida aos vasos de misericórdia: “desde que você permaneça… do contrário, também você será cortado” (Rm 11.22).
  • O desfecho: endurecimento “em parte” e “até que” (Rm 11.25); a misericórdia alcança a todos (Rm 11.32).
“Considere, pois, a bondade e a severidade de Deus… desde que você permaneça nessa bondade. Do contrário, também você será cortado.”
Rm 11.22 · NAA — a condicionalidade explícita

Visão panorâmica

Um só argumento em três tempos

Rm 9 — o passado

A palavra de Deus não falhou: a promessa sempre correu pela linha da fé, não da carne. Eleição corporativa e vocacional.

Rm 10 — o presente

Israel tropeçou por incredulidade; a fé vem pela pregação, e “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

Rm 11 — o futuro

Rejeição parcial, temporária e reversível. Advertência aos enxertados, esperança aos cortados, misericórdia para todos.

Parte 5 · A mesma história

Romanos 9 e a Parábola das Bodas

Jesus contou em parábola (Mt 22.1-14) o mesmo drama que Paulo explicou em doutrina. Os paralelos são ponto a ponto.

O convite é recusado
Mt 22“Não quiseram vir” (Mt 22.3)
Rm 9–11“Não a buscou pela fé” (Rm 9.32; 11.20)
O convite é insistente
Mt 22“Enviou ainda outros servos” (Mt 22.4)
Rm 9–11“Todo o dia estendi as mãos” (Rm 10.21)
A porta se abre aos de fora
Mt 22“Ide às saídas dos caminhos” (Mt 22.9)
Rm 9–11Os gentios alcançaram a justiça (Rm 9.30)
A condição da entrada
Mt 22A veste nupcial (Mt 22.11-12)
Rm 9–11A fé que responde à graça (Rm 11.22-23)
“Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mt 22.14): os escolhidos são os que responderam ao chamado com fé, capacitados pela graça preveniente (Tt 2.11; Jo 1.12).

Conclusão · Minha posição

Eleição condicional

O que o texto NÃO ensina

  • Eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição.
  • Endurecimento decretado desde a eternidade.
  • Vasos criados para a destruição.
  • Segurança incondicional dos “eleitos” — Rm 11.20-22 adverte o contrário.

O que o texto ensina

  • Deus foi fiel: a promessa sempre correu pela fé, e o remanescente a comprova.
  • A eleição do povo é vocacional e irrevogável (Rm 11.29).
  • A participação de cada indivíduo é condicionada à fé perseverante (Rm 11.22-23; Jo 15.1-6; Mt 24.13).
  • Deus tem misericórdia de todos os que o invocam (Rm 10.12-13) e quer a salvação de todos (1Tm 2.4).
“Seja lá o que essa Escritura prove, ela jamais poderá provar isso.”
John Wesley — sermão Free Grace (1739), sobre a leitura determinista de Rm 9

Pois tal doutrina faria de Deus um condenador arbitrário — em nada parecido com o Jesus que chorou sobre Jerusalém: “quantas vezes quis eu… e vocês não quiseram!” (Mt 23.37). A salvação é oferecida a todos e recebida pelos que creem (Jo 1.12).

Aplicações pastorais

O que essa leitura muda na prática

1

Pregue a todos, com esperança real

A fé vem pelo ouvir (Rm 10.17). Nenhum ouvinte é um caso perdido por decreto — cada pregação é porta aberta.

2

Ore pelos endurecidos

Paulo orou pelos que tropeçaram (Rm 10.1). O endurecimento de hoje não é a sentença de amanhã (Rm 11.23).

3

Persevere na fé

“Desde que você permaneça” (Rm 11.22). A graça que nos enxertou nos sustenta — mas não dispensa a fé fiel até o fim (Mt 24.13).

4

Cultive humildade, não orgulho

“Não se glorie contra os ramos” (Rm 11.18). Diante de todo incrédulo, nossa postura é gratidão e temor, nunca soberba.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida.

1. Qual é a verdadeira pergunta que Paulo responde em Romanos 9?

2. Em “Amei Jacó, porém desprezei Esaú” (Rm 9.13), Paulo cita Malaquias, onde “Jacó” e “Esaú” designam principalmente:

3. Sobre o endurecimento de Faraó (Rm 9.18), a leitura atenta de Êxodo mostra que:

4. A condicionalidade de Romanos 11.22 (“desde que você permaneça… do contrário, também você será cortado”) é dirigida a:

5. A eleição de Romanos 9 é:

Perguntas para reflexão

Com base em Romanos 10, explique por que a eleição de Romanos 9 não pode ser incondicional.

Romanos 10 pressupõe que os ouvintes podem responder: Paulo ora pela salvação de Israel (Rm 10.1) — ora-se por quem pode ser salvo; o diagnóstico é “zelo sem entendimento” (Rm 10.2), não um decreto; a oferta é universal, “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13); e “a fé vem pelo ouvir” (Rm 10.17). Sob eleição incondicional, orar, pregar e convidar seriam encenações — o que contradiz todo o capítulo.

Como você explicaria, a um irmão preocupado, que Romanos 9 não ensina que Deus criou pessoas para o inferno?

Mostrando que o “barro” nas mãos do oleiro é Israel, não cada alma (Jr 18.6); que em Jeremias 18 o destino do vaso muda conforme a resposta da nação (Jr 18.7-10), como Nínive comprova (Jn 3.10); que Paulo, sobre os vasos de ira, diz apenas que estão “prontos” para a destruição, sem afirmar que Deus os preparou, enquanto sobre os vasos de misericórdia afirma que foi Deus quem os preparou de antemão para a glória; que as categorias se abrem — “chamarei meu povo ao que não era meu povo” (Rm 9.25); e que a causa da queda é nomeada por Paulo: a incredulidade, não um decreto (Rm 9.32).

Aprofunde o estudo

Para aprofundar: Jacó Armínio, Análise de Romanos 9 · John Wesley, Free Grace (1739) e Predestination Calmly Considered (1752) · Brian J. Abasciano, Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9 · William W. Klein, The New Chosen People · Ben Witherington III, Romans: A Socio-Rhetorical Commentary.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil.