História da IgrejaSérie 2 · Aula 5

O movimento de santidade e B. T. Roberts

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres.”Lucas 4.18 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Lc 4.16-21; Tg 2.1-9; 1Ts 5.16-24

Para começar

A história da nossa casa

Por que existe uma Igreja Metodista Livre? Livre de quê, exatamente? Quem foi Benjamin Titus Roberts, e por que um pastor fiel foi expulso da sua denominação por escrever um artigo? Esta é a aula em que a série chega à porta da nossa própria casa.

O que esta aula cobre. De 1830 a 1900: o movimento de santidade que reacendeu a chama wesleyana na América, o esfriamento do metodismo enriquecido, o conflito na Conferência de Genesee, a fundação da Igreja Metodista Livre (1860) e o legado de B. T. Roberts, cujas obras este site publica em português.

Situando-se na história

Linha do tempo (1830-1900)

1835-1840

Phoebe Palmer

As “reuniões de terça-feira” em Nova York e a revista Guia para a Santidade recolocam a inteira santificação no centro da piedade metodista.

1843

Metodistas Wesleyanos

Orange Scott e outros deixam a Igreja Metodista Episcopal por causa da conivência dela com a escravidão: primeiro aviso de que algo adoecera.

1857-1858

Avivamento da oração

Das reuniões de oração de leigos em Nova York, um avivamento varre as cidades americanas, com um milhão de convertidos estimados.

1857

“Metodismo de Nova Escola”

Roberts publica o artigo que denuncia o metodismo mundano da sua conferência: bancos alugados, coros profissionais, maçonaria, silêncio sobre a escravidão. É julgado e expulso (1858).

23/08/1860

Pekin, Nova York

Leigos e pregadores expulsos ou indignados fundam a Igreja Metodista Livre. Roberts é eleito superintendente geral. No mesmo ano, ele lança a revista O Cristão Sincero.

1865

Exército de Salvação

Em Londres, William e Catherine Booth levam a santidade wesleyana aos becos: “sopa, sabão e salvação”.

1867

Acampamentos de santidade

Em Vineland, começa a associação nacional de acampamentos para a promoção da santidade: o movimento vira força nacional e, depois, mundial.

1891-1893

Ordenando Mulheres

Vencido na conferência geral de 1890, Roberts publica em livro sua defesa da ordenação feminina. Morre em 1893, pregando até o fim.

Parte 1

O movimento de santidade

Wesley ensinara que Deus levantou o metodismo para espalhar a santidade bíblica. Duas gerações depois, na América próspera, essa ênfase esmaecia; e Deus a reacendeu, como tantas vezes, começando por reuniões de oração em salas de estar.

Phoebe Palmer (1807-1874), leiga metodista de Nova York, abriu sua casa para as “reuniões de terça-feira em prol da santidade”, ensinou milhares a buscar a inteira santificação como consagração presente (“ponha tudo sobre o altar”, dizia, a partir de Mt 23.19), escreveu livros, editou a revista Guia para a Santidade e pregou (com o marido) em centenas de igrejas e acampamentos. Palmer permaneceu profundamente wesleyana, mas também desenvolveu a doutrina: sistematizou a busca da inteira santificação num caminho mais imediato e simples do que o de Wesley, por meio da chamada “teologia do altar”, formulação que marcaria todo o movimento. O avivamento leigo de oração de 1857-58, que encheu ao meio-dia as salas de Nova York e varreu o país, tinha essa mesma marca: santidade prática, buscada por gente comum.

O movimento de santidade foi a corrente que gerou os acampamentos nacionais (1867), o Exército de Salvação (1865), dezenas de denominações wesleyanas pelo mundo, e a atmosfera espiritual da qual, na próxima aula, nascerá também o pentecostalismo. A Igreja Metodista Livre é filha legítima dessa corrente: santidade wesleyana levada a sério, com organização metodista.

Parte 2

O conflito: quando a igreja enriquece e esfria

Benjamin Titus Roberts (1823-1893) era um dos pastores mais promissores da Conferência de Genesee, no oeste de Nova York: formado com honras, pastor de igrejas importantes, pregador fervoroso da santidade. E foi exatamente isso que o pôs em rota de colisão com a máquina.

O metodismo urbano enriquecera e queria respeitabilidade. Os sinais eram concretos, e Roberts os nomeou um a um: os bancos alugados (as melhores filas do templo vendidas às famílias ricas, empurrando os pobres para os fundos ou para fora, contra Tg 2.1-6); os coros profissionais substituindo o canto do povo; a maçonaria e as sociedades secretas dominando por dentro os conselhos da igreja; o silêncio acomodado diante da escravidão; e a pregação polida que já não chamava ninguém ao arrependimento.

Em 1857, Roberts publicou o artigo “Metodismo de Nova Escola”, contrastando essa nova religiosidade com a fé dos pais. Foi julgado por “conduta não cristã e imoral” (o crime era o artigo), censurado e, em 1858, expulso da denominação que amava. Apelou à Conferência Geral de 1860; o apelo nem foi ouvido. Leigos indignados, expulsos por apoiá-lo, convocaram então uma convenção.

Parte 3

Pekin, 1860: nasce a Igreja Metodista Livre

Em 23 de agosto de 1860, em Pekin, Nova York, pregadores e leigos fundaram a Igreja Metodista Livre e elegeram Roberts superintendente geral. O nome não era marketing; era programa. “Livre” significava, e significa:

Bancos livres

Assentos gratuitos para todos, para sempre: o evangelho pregado aos pobres é a marca do Messias (Lc 4.18; Tg 2.1-6), e uma igreja onde o pobre não pode sentar não é igreja de Cristo.

Livres da escravidão

Abolicionismo sem meias palavras, quando ainda custava caro: nenhum ser humano é propriedade de outro.

Liberdade do Espírito no culto

Culto simples e fervoroso, do povo, sem a frieza ensaiada da respeitabilidade.

Livres das sociedades secretas

O crente não serve a dois senhores nem presta juramentos ocultos (Mt 5.34-37; 2Co 6.14): a lealdade a Cristo é pública e indivisa.

No mesmo ano, Roberts fundou a revista O Cristão Sincero (The Earnest Christian), e por 33 anos escreveu ali sobre santidade, dinheiro, missões e justiça. Defendeu os pequenos agricultores contra os monopólios, escreveu Primeiras Lições sobre o Dinheiro, pescou homens (seu manual de evangelismo, Pescadores de Homens, está neste site) e, ao final da vida, travou sua última batalha: em 1890, a conferência geral rejeitou a ordenação de mulheres; em 1891, Roberts respondeu com o livro Ordenando Mulheres, argumentando de Gl 3.28 que a igreja de Cristo não pode negar às mulheres o que Deus lhes deu. A Igreja Metodista Livre adotaria plenamente essa posição décadas depois, dando razão ao fundador; o livro completo, traduzido, está publicado neste site.

Fontes primárias

Roberts por ele mesmo

A ponte wesleyana

De Wesley a Roberts: o mesmo fogo, um século depois

Ponha as duas histórias lado a lado e a repetição salta aos olhos. Wesley pregou a santidade a uma igreja formal e foi expulso dos púlpitos para os campos; Roberts pregou a mesma santidade a uma igreja enriquecida e foi expulso da conferência para os acampamentos. Wesley organizou sociedades; Roberts, uma igreja. Wesley combateu o tráfico de escravos; Roberts, a escravidão americana. Wesley abriu espaço para as pregadoras; Roberts escreveu o livro pela ordenação delas.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

O teste do pobre

Roberts media a fidelidade de uma igreja por quem cabia nela. O teste continua: o pobre, o mal-vestido, o que não contribui com nada, sente-se em casa na sua igreja, ou nossos “bancos alugados” apenas mudaram de forma (Tg 2.1-6)?

2

Fidelidade custa posição

Roberts perdeu credencial, salário e reputação por um artigo fiel. A pergunta dele à nossa geração de influência e curtidas: o que você está disposto a perder para não trair o que prega?

3

Tirar o inferno do homem

“Não apenas tirar o homem do inferno; tirar o inferno do homem.” A santidade não é etiqueta de subcultura, é transformação real do coração e da vida, agora (1Ts 5.23-24). É para isso que a nossa igreja existe.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Os “bancos alugados” acabaram, mas Roberts perguntaria se apenas mudaram de forma. Que práticas, estruturas ou climas da igreja evangélica brasileira de hoje fazem o pobre não se sentir em casa, e o que a sua igreja local pode mudar neste ano?Ver resposta sugerida
Faça o inventário sem defensividade, porque as formas modernas são sutis: cultos e eventos pagos que excluem quem não pode; “dress code” implícito que envergonha o mal-vestido; câmeras e telões que valorizam o palco e apagam o povo; dízimo tratado como catraca de bênção; liderança escolhida por posses e diplomas; linguagem de classe média universitária que o trabalhador não entende; e a geografia eclesiástica que abandona a periferia e disputa os bairros nobres. O teste de Roberts é observável num domingo: quem senta na frente? quem recebe visita pastoral? quem tem voz nas decisões? Lc 14.12-14 manda convidar exatamente quem não pode retribuir. Três mudanças ao alcance de um ano: eliminar toda cobrança que exclua (quem pode, oferta; quem não pode, participa igual); criar um ministério de presença real no território mais pobre do entorno, liderado por gente de lá; e auditar a comunicação da igreja perguntando “um servente de pedreiro entenderia e se sentiria convidado?”. Igreja onde o pobre não cabe pode ter tudo certo no papel; no ponto que mais importava para Jesus (Lc 4.18), afastou-se do evangelho.
Roberts perdeu credencial e reputação por um artigo fiel, e a reparação só veio 52 anos depois, quando ele já havia morrido. Como perseverar quando a fidelidade custa caro e a justificação não chega em vida?Ver resposta sugerida
Primeiro, ajuste a expectativa bíblica: a Escritura não promete reparação em vida; promete que o Juiz é justo e que “a seu tempo ceifaremos, se não desanimarmos” (Gl 6.9; 1Pe 2.23). Hebreus 11 lista tanto os que fecharam bocas de leões quanto os que morreram sem receber a promessa, e chama todos de aprovados. Segundo, aprenda com o modo de Roberts perseverar: ele não gastou 35 anos processando mágoa; construiu. Fundou igreja, revista, escola, pescou homens, defendeu agricultores e mulheres; a melhor resposta à injustiça foi uma vida útil demais para ficar amarga (Rm 12.21). Terceiro, cuide das âncoras práticas que ele tinha: consciência limpa diante de Deus (a pergunta não é “fui aprovado?”, é “fui fiel?”), comunidade que sustenta (os leigos de 1860 cercaram a família Roberts), e horizonte longo: quem planta carvalhos não exige colher no verão seguinte. E guarde a ironia santa de 1910 como consolo sóbrio: instituições podem demorar meio século para reconhecer a verdade; Deus não se atrasa nunca (2Tm 4.8).

Para casa e próxima aula

Para aprofundar: as obras de Roberts, em português, neste site. Leia o portal das obras de B. T. Roberts: Por Que Outra Denominação?, Ordenando Mulheres, Ensinos de Santidade, Pescadores de Homens, Primeiras Lições sobre o Dinheiro e Verdades Contundentes.

Na próxima aula: “O século 20: pentecostalismo, guerras e o evangelho global (1900-2000)”: a Rua Azusa, a igreja sob os totalitarismos e o deslocamento do cristianismo para o sul do mundo.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.