SERMÃO 103
O que é o ser humano?
“Que é o ser humano, para que dele te lembres?” — a pequenez e a dignidade do homem diante da imensidão da criação de Deus.
“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, para que dele te lembres? E o filho do homem, para que o visites?”
(Sl 8.3-4, NAA)Antes de ler
Neste sermão, John Wesley contempla a pequenez do ser humano diante da imensidão do universo e da eternidade. Seu objetivo não é diminuir o valor da humanidade, mas despertar admiração diante do amor de Deus, que se importa com criaturas tão pequenas e passageiras.
As afirmações astronômicas refletem o conhecimento científico disponível no século XVIII. Wesley discute o tamanho do sistema solar, os cometas, a possibilidade de vida na Lua e em outros planetas e as observações do astrônomo Christiaan Huygens. Várias conclusões científicas apresentadas no sermão foram posteriormente superadas. Elas são preservadas como parte do contexto histórico e do raciocínio original.
Wesley também afirma explicitamente que o ser humano possui um espírito naturalmente imortal, que não está sujeito à dissolução. Essa concepção antropológica é mantida por fidelidade ao texto, ainda que o leitor ou o editor adotem outra compreensão teológica sobre a mortalidade humana.
— Bispo Ildo Mello
Como se tem observado muitas vezes, o Livro dos Salmos é um rico tesouro de devoção, preparado pela sabedoria de Deus para suprir as necessidades de seus filhos em todas as gerações! Em todas as épocas, os Salmos foram especialmente úteis àqueles que amavam ou temiam a Deus: não apenas aos israelitas piedosos, mas aos filhos de Deus de todas as nações. Esse livro foi extremamente útil à Igreja de Deus, não somente enquanto ela se encontrava em sua infância — tão belamente descrita por Paulo na primeira parte do quarto capítulo de Gálatas —, mas também depois que, na plenitude do tempo, “a vida e a imortalidade foram trazidas à luz por meio do evangelho”. Os cristãos de todas as épocas e nações têm utilizado esse tesouro divino, que supriu abundantemente as necessidades não apenas dos “bebês em Cristo”, daqueles que estavam começando a andar nos caminhos de Deus, mas também daqueles que já haviam avançado bastante; sim, daqueles que caminhavam rapidamente para “a medida da estatura da plenitude de Cristo”.
O tema deste salmo é belamente apresentado no início: “Ó Senhor, Senhor nosso, como é magnífico o teu nome em toda a terra! Pois puseste nos céus a tua majestade” (Salmos 8.1). O salmo celebra a gloriosa sabedoria e o amor de Deus como Criador e Governador de todas as coisas. Não é improvável que Davi tenha escrito este salmo durante uma noite clara e estrelada, enquanto observava também a Lua “caminhando em seu esplendor”; e que, ao contemplar:
Esta bela meia esfera, o vasto céu azul, Terrivelmente imenso e belamente brilhante, Com estrelas incontáveis e luz sem medida,
tenha exclamado, da plenitude do coração, com natural admiração: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem?” Como é possível que o Criador dessas coisas, dos incontáveis exércitos dos céus e da terra, demonstre alguma consideração por este pequeno ponto da criação, cujo tempo “passa como uma sombra”?
Teu corpo é apenas pó, tua altura, um palmo; Tua duração, um momento, ser humano insensato!
“O que é o ser humano?” Desejo considerar essa pergunta, primeiramente, em relação à sua grandeza; e, em segundo lugar, em relação à duração de sua vida.
1. Consideremos, primeiramente, o que é o ser humano em relação à sua grandeza. Nesse aspecto, o que é um único indivíduo em comparação com todos os habitantes da Grã-Bretanha? Ele praticamente desaparece na comparação. Como é inconcebivelmente pequena uma pessoa diante de oito ou dez milhões de habitantes! Ela não está:
Perdida como uma gota no oceano sem limites?
2. Mas o que são todos os habitantes da Grã-Bretanha em comparação com todos os habitantes da Terra? Frequentemente, calculou-se que estes fossem aproximadamente quatrocentos milhões. Essa estimativa, porém, será considerada justa por aqueles que afirmam que somente a China possui cinquenta e oito milhões de habitantes? Caso seja verdade que esse único império contém quase sessenta milhões, podemos facilmente supor que os habitantes de todo o globo terrestre sejam quatro bilhões, e não quatrocentos milhões. O que é um único indivíduo em comparação com esse número?
3. Mas o que é o tamanho da própria Terra em comparação com o sistema solar? Além daquele imenso corpo, o Sol — incomparavelmente maior do que a Terra —, o sistema inclui todo o conjunto de planetas principais e secundários. Vários destes últimos — refiro-me aos satélites ou luas de Júpiter e Saturno — são muito maiores do que toda a Terra.
4. E, apesar disso, o que é toda a matéria contida no Sol, em todos os planetas principais e secundários e em todos os espaços compreendidos no sistema solar, em comparação com o espaço atravessado por aqueles corpos extraordinários, os cometas? Quem, além do próprio Criador, pode “contar o número deles e chamar todos pelo nome”? E o que é até mesmo a órbita de um cometa e o espaço contido nela em comparação com o espaço ocupado pelas estrelas fixas, que se encontram a uma distância tão imensa da Terra que, vistas pelo maior telescópio, parecem exatamente como quando são contempladas a olho nu?
5. Quem pode dizer se os limites da criação se estendem ou não além da região das estrelas fixas? Somente as estrelas da manhã, que juntas cantavam quando seus fundamentos foram lançados. Não temos, porém, razão para duvidar de que a criação seja finita e possua limites estabelecidos. Não podemos duvidar de que, quando o Filho de Deus terminou toda a obra que criou e realizou, tenha dito:
Estes são os teus limites; Esta é a tua justa circunferência, ó mundo!
Mas o que é o ser humano diante disso?
6. Podemos avançar ainda um passo, e apenas um. O que é o espaço de toda a criação? O que é todo espaço finito existente ou imaginável em comparação com o infinito? Não é apenas um ponto, um zero, diante daquele espaço preenchido por aquele que é tudo em todos? Pense nisso e depois pergunte: “O que é o ser humano?”
7. O que é o ser humano, para que o grande Deus, que enche o céu e a terra, “o Alto e Sublime, que habita a eternidade”, desça de maneira tão incompreensível e “se lembre dele”? A razão não sugeriria que uma criatura tão pequena seria ignorada por Deus em meio à imensidão de suas obras? Especialmente quando consideramos:
1. Em segundo lugar, o que é o ser humano em relação à duração de sua vida? Os dias do ser humano, desde a última redução da duração da vida humana — que parece ter acontecido no tempo de Moisés e provavelmente foi revelada ao homem de Deus quando fez essa declaração —, são “setenta anos”. Esse é o padrão geral que Deus estabeleceu atualmente. “Se, porém, alguns, pela sua robustez, chegam aos oitenta anos” — talvez um em cada cem —, “o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente, e nós voamos” (Salmos 90.10).
2. Que porção insignificante de duração é essa em comparação com a vida de Matusalém! “Todos os dias de Matusalém foram novecentos e sessenta e nove anos” (Gênesis 5.27). Mas o que são esses novecentos e sessenta e nove anos diante da duração da vida de um anjo, iniciada antes que os montes fossem formados ou os fundamentos da terra fossem lançados? E o que é o tempo transcorrido desde a criação dos anjos diante daquilo que passou antes que fossem criados, diante da eternidade sem princípio — daquela metade da eternidade, caso se possa falar assim, que já havia transcorrido? O que são setenta anos diante disso?
3. Na verdade, que proporção pode existir entre qualquer duração finita e a duração infinita? Que proporção existe entre mil ou dez mil anos, ou dez mil vezes dez mil eras, e a eternidade? Não conheço ilustração mais impressionante da indescritível desproporção existente entre qualquer período imaginável e a eternidade do que a conhecida passagem de Cipriano: “Suponha que existisse uma esfera de areia tão grande quanto o globo terrestre e que um único grão dessa areia fosse destruído a cada mil anos. Todo o tempo necessário para que essa esfera fosse destruída, à proporção de um grão a cada mil anos, teria uma proporção menor — sim, indescritivelmente e infinitamente menor — com a eternidade do que um único grão de areia possui com toda aquela massa.” O que são, então, os setenta anos da vida humana em comparação com a eternidade? Com quais palavras poderíamos expressar a proporção entre eles? Não representam nada; sim, são infinitamente menores do que nada!
4. Caso acrescentemos à pequenez do ser humano a indescritível brevidade de sua vida, seria surpreendente que uma pessoa reflexiva experimentasse algumas vezes certo temor de que o grande, eterno e infinito Governador do universo pudesse ignorar uma criatura tão pequena — uma criatura tão insignificante em todos os sentidos, quando comparada tanto à imensidão quanto à eternidade? Essas duas reflexões não passaram, ainda que brevemente, pela mente do salmista real? Contemplando a primeira, ele exclama nas fortes palavras do texto: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, para que dele te lembres? E o filho do homem, para que o visites?” O ser humano é, de fato — utilizando as palavras de Agostinho —, aliqua portio creaturae tuae, “uma parte de tua criação”. Mas quantula portio, “uma parte extraordinariamente pequena”! Como parece inteiramente indigno de tua atenção! Parece ser contemplando a segunda realidade que Davi clama no Salmo 144: “Ó Senhor, que é o homem, para que dele tomes conhecimento? E o filho do homem, para que o estimes?” O ser humano é “como um sopro”. Por quê? Porque “os seus dias são como a sombra que passa” (Salmos 144.3-4). Nesse caso — embora em pouquíssimas passagens —, a nova tradução dos Salmos, aquela publicada em nossas Bíblias, talvez seja mais apropriada do que a antiga, utilizada no Livro de Oração Comum.
5. A nova tradução diz: “Senhor, que é o homem, para que dele tomes conhecimento? E o filho do homem, para que o estimes?” Segundo a antiga tradução, Davi parece admirado pelo fato de o Deus eterno, considerando a pequenez do ser humano, demonstrar tanta consideração e cuidado por ele. Na nova, parece maravilhar-se pelo fato de Deus, vendo que a vida humana “passa como uma sombra”, tomar qualquer conhecimento do ser humano ou atribuir-lhe alguma importância.
6. É natural fazermos a mesma reflexão e experimentarmos o mesmo temor. Como poderemos impedir essa reflexão inquietante e curar completamente esse medo? Primeiramente, considerando aquilo que Davi aparentemente não levou em conta: o corpo não é o ser humano inteiro. O ser humano não é apenas uma casa de barro, mas um espírito imortal; um espírito criado à imagem de Deus; uma imagem incorruptível do Deus da glória; um espírito de valor infinitamente maior do que toda a Terra, maior do que o Sol, a Lua e as estrelas reunidos; sim, maior do que toda a criação material. Considere que o espírito humano não apenas pertence a uma ordem mais elevada e possui natureza mais excelente do que qualquer parte do mundo visível, mas também é mais duradouro, não estando sujeito à dissolução nem à decadência. Sabemos que todas as coisas “que se veem são temporais”, possuem natureza mutável e passageira, mas “as que não se veem” — como, particularmente, a alma humana — “são eternas” (2 Coríntios 4.18). “Elas perecerão”, mas a alma permanecerá. “Todas envelhecerão como uma roupa”, mas, quando o céu e a terra passarem, a alma não passará.
7. Considere, em segundo lugar, a declaração que o Pai dos espíritos nos apresentou por meio do profeta Oseias: “Eu sou Deus e não homem”; por isso, minhas misericórdias não se acabam. É como se dissesse: “Caso eu fosse apenas um ser humano, um anjo ou qualquer ser finito, meu conhecimento poderia possuir limites e minha misericórdia poderia ser limitada. Mas ‘os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês’, e minha misericórdia não é como a misericórdia humana. ‘Assim como os céus são mais altos do que a terra, assim os meus pensamentos são mais altos do que os pensamentos de vocês’; e minha misericórdia, minha compaixão e minhas maneiras de demonstrá-la são mais elevadas do que os caminhos de vocês.”
8. Para que não permanecesse sombra alguma de medo nem possibilidade de dúvida; para demonstrar a consideração que o grande e eterno Deus possui pelo pequeno e passageiro ser humano, especialmente por sua parte imortal, Deus entregou seu Filho, “seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Vejam como Deus amou o mundo! O Filho de Deus, que era “Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus”, igual ao Pai em glória e coeterno em majestade, “esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo” e, reconhecido em figura humana, “foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Filipenses 2.7-8). Sofreu tudo isso não por si mesmo, mas “por nós e pela nossa salvação”. “Carregou em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados”, para que “por suas feridas” fôssemos “sarados” (1 Pedro 2.24). Depois dessa demonstração de amor, ainda é possível duvidar da terna consideração de Deus pelo ser humano, mesmo quando estava “morto em suas transgressões e pecados”? Quando nos viu em nossos pecados, disse-nos: “Vivam!” Portanto, não temamos mais! Não duvidemos mais! “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou, será que não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Romanos 8.32).
9. “Mas”, diz o filósofo, “se Deus amou tanto este mundo, não amaria igualmente milhares de outros mundos? Atualmente, admite-se que existam milhares, talvez milhões, de mundos além deste em que vivemos. Poderia uma pessoa racional acreditar que o Criador de todos eles — muitos dos quais provavelmente são tão grandes, ou muito maiores do que o nosso — demonstraria uma consideração tão extraordinariamente maior por um do que por todos os outros?” Respondo: suponha que existam milhões de mundos. Ainda assim, Deus pode enxergar, no abismo de sua sabedoria infinita, razões que não aparecem a nós para ter considerado bom demonstrar essa misericórdia ao nosso mundo, em preferência a milhares ou milhões de outros.
10. Digo isso mesmo aceitando a suposição comum da pluralidade dos mundos, uma ideia muito apreciada por todos aqueles que negam a revelação cristã, justamente porque lhes oferece fundamento para uma objeção tão aparentemente convincente contra ela. Quanto mais considero essa suposição, porém, mais duvido dela. Ainda que fosse aceita por todos os filósofos da Europa, eu não a aceitaria sem provas mais fortes do que todas aquelas que encontrei até agora.
11. “Mas o argumento do idoso Huygens não é suficiente para colocar a questão acima de toda dúvida? ‘Quando observamos’, diz aquele competente astrônomo, ‘a Lua por um bom telescópio, distinguimos claramente rios e montanhas em sua superfície manchada. Onde existem rios, certamente existem plantas e vegetais de diversas espécies. Onde existem vegetais, sem dúvida existem animais; sim, seres racionais, assim como na Terra. Segue-se, então, que a Lua possui habitantes. Podemos facilmente supor o mesmo a respeito de todos os planetas secundários, especialmente de todos os satélites ou luas de Júpiter e Saturno. E, caso os planetas secundários sejam habitados, por que os principais não seriam? Por que duvidaríamos disso a respeito do próprio Júpiter e de Saturno, assim como de Marte, Vênus e Mercúrio?’”
12. Você não sabe, porém, que o próprio Huygens, antes de morrer, passou a duvidar de toda essa hipótese? Por meio de observações posteriores, encontrou razões para acreditar que a Lua não possuía atmosfera. Observou que, num eclipse total do Sol, assim que a sombra se afasta de determinada parte da Terra, a luz solar imediatamente brilha com intensidade sobre ela. Caso a Lua possuísse atmosfera, a luz apareceria fraca e escurecida. De maneira semelhante, depois de um eclipse lunar, uma luz fraca aparece primeiramente na parte da Lua da qual a sombra da Terra está se afastando, enquanto essa luz atravessa a atmosfera lunar. Wesley conclui dessa observação que a Lua não possui atmosfera e, consequentemente, não possui nuvens, chuva, fontes ou rios e, portanto, nem plantas nem animais. Não existe, assim, prova ou probabilidade de que a Lua seja habitada; também não possuímos prova de que os outros planetas sejam. Retirado o fundamento, todo o edifício desaba.
13. Você dirá: “Supondo que esse argumento fracasse, podemos deduzir a mesma conclusão — a pluralidade dos mundos — da sabedoria, do poder e da bondade ilimitados do Criador. Seria tão fácil para ele criar milhares ou milhões de mundos quanto criar um único. Alguém poderia acreditar que ele empregaria todo seu poder e sabedoria na criação de um único mundo? Que proporção existe entre este pequeno ponto da criação e o grande Deus que enche o céu e a terra, quando:
Sabemos que o poder de sua mão onipotente Poderia formar outro mundo de cada grão de areia?”
14. A esse argumento tão celebrado, esse argumentum palmarium dos incrédulos instruídos, respondo: você espera encontrar alguma proporção entre o finito e o infinito? Suponha que Deus tivesse criado mil mundos a mais do que o número de grãos de areia existentes no universo. Que proporção todos eles reunidos teriam com o Criador infinito? Em comparação com ele, seriam não mil vezes, mas infinitamente menores do que um minúsculo inseto comparado ao universo. Abandone, então, essa conversa infantil sobre a proporção entre as criaturas e o Criador. Deixe que o Deus infinitamente sábio crie aquilo que desejar e quando desejar. Pois quem, além dele, “conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?” (Romanos 11.34). Seja suficiente para nós conhecer esta verdade clara e consoladora: o Criador onipotente demonstrou por esta pobre e pequena criatura de um dia uma consideração que não demonstrou nem mesmo pelos habitantes do céu “que não guardaram o seu estado original” (Judas 6). Ele nos entregou seu Filho, seu Filho unigênito, para viver e morrer por nós! Vivamos, então, para ele, para que possamos morrer para ele e viver com ele eternamente!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.