SERMÃO 105
Sobre a consciência
“A nossa glória é o testemunho da consciência” — o que é a consciência cristã e como a graça de Deus a desperta e guia.
“Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência de que, com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, especialmente em relação a vocês.”
(2Co 1.12, NAA)Antes de ler
Wesley define a consciência cristã como a capacidade, iluminada pela graça de Deus, de conhecer nossas disposições, pensamentos, palavras e ações, conhecer a regra revelada nas Escrituras e perceber se nossa conduta está ou não de acordo com essa regra.
O sermão possui forte relação com a doutrina wesleyana da graça preveniente. Aquilo que muitas pessoas chamam de “consciência natural” é entendido por Wesley como dom sobrenatural concedido por Cristo a todos os seres humanos. A consciência não é infalível e pode ser deformada pela educação, pelos preconceitos, pelas paixões e pelo pecado. Por isso, necessita da iluminação contínua do Espírito e da orientação da Palavra.
Wesley distingue a boa consciência, a consciência sensível, a consciência escrupulosa e a consciência endurecida. A consciência escrupulosa condena aquilo que as Escrituras não condenam. A consciência endurecida, muito mais perigosa, deixa de reagir até mesmo diante da desobediência consciente. O sermão termina com conselhos do avô materno de Wesley, o pastor Samuel Annesley.
— Bispo Ildo Mello
1. Como são poucas as palavras no mundo mais comuns do que esta: consciência! Ela está na boca de quase todas as pessoas. Por isso, alguém poderia concluir que dificilmente se encontraria palavra mais amplamente compreendida. Pode-se, porém, duvidar de que isso seja verdade, embora tenham sido escritos incontáveis tratados sobre ela. É certo que grande parte desses autores confundiu a questão em vez de esclarecê-la. Geralmente, “escureceram o conselho com palavras sem conhecimento” (Jó 38.2).
2. O melhor tratado sobre o assunto que me recordo de ter visto foi traduzido do francês do senhor Placette, que descreve de maneira clara e racional a natureza e as funções da consciência. Embora tenha sido publicado quase cem anos atrás, encontra-se nas mãos de poucas pessoas. Na realidade, grande parte daqueles que o leram reclama de sua extensão. Um volume de várias centenas de páginas sobre assunto tão claro provavelmente colocaria à prova a paciência da maioria das pessoas inteligentes.
3. Parece, portanto, que ainda falta uma exposição sobre o assunto que seja breve e clara. Com a ajuda de Deus, procurarei suprir essa necessidade, mostrando, primeiramente, a natureza da consciência; depois, suas diversas espécies; e concluindo com algumas orientações importantes.
1. Primeiramente, demonstrarei a natureza da consciência. Um homem muito piedoso do século anterior, em seu sermão sobre “A consciência universal”, descreve-a desta maneira: “A palavra, que significa literalmente ‘conhecer juntamente com outra pessoa’, apresenta de maneira excelente a compreensão bíblica da consciência. Assim diz Jó: ‘A minha testemunha está no céu’ (Jó 16.19). E o apóstolo declara: ‘Digo a verdade; minha consciência dá testemunho comigo no Espírito Santo’ (Romanos 9.1). Em ambos os lugares, é como se dissesse: ‘Deus testemunha juntamente com minha consciência.’ A consciência está colocada no meio: abaixo de Deus e acima do ser humano. É uma espécie de raciocínio silencioso da mente, por meio do qual aquilo que é considerado correto recebe aprovação acompanhada de satisfação, enquanto aquilo que é considerado mau recebe desaprovação acompanhada de inquietação.” Trata-se de um tribunal no interior do ser humano, que acusa os pecadores e justifica aqueles que praticam o bem.
2. Observando-a sob uma perspectiva um pouco diferente: tanto a palavra portuguesa “consciência” quanto a palavra latina da qual procede e a palavra grega syneídēsis implicam necessariamente o conhecimento conjunto de duas ou mais coisas. Suponhamos o conhecimento de nossas palavras e ações e, ao mesmo tempo, de sua bondade ou maldade. Talvez seja mais correto dizer que a consciência é a capacidade pela qual conhecemos simultaneamente nossas ações e sua qualidade.
3. A consciência é, portanto, a capacidade pela qual conhecemos ao mesmo tempo nossos pensamentos, palavras e ações e seu mérito ou demérito, isto é, se são bons ou maus e, consequentemente, dignos de aprovação ou censura. Geralmente, certa satisfação acompanha a primeira sentença e certa inquietação acompanha a segunda. Isso, porém, varia extraordinariamente segundo a educação e milhares de outras circunstâncias.
4. Poderia alguém negar que alguma coisa dessa natureza existe em todos os seres humanos que nascem no mundo? Ela não aparece assim que o entendimento começa a desenvolver-se e os primeiros raios da razão surgem? Cada pessoa não começa então a perceber que existe diferença entre o bem e o mal, por mais imperfeita que seja sua compreensão das diversas circunstâncias relacionadas a eles? Por exemplo, toda pessoa não sabe — a menos que tenha sido cegada pelos preconceitos da educação, como Wesley supunha acontecer com certos povos do Cabo da Boa Esperança — que é bom honrar os pais? Todos os seres humanos, por menos instruídos ou civilizados que sejam, não reconhecem que é correto fazer aos outros aquilo que desejariam que os outros fizessem a eles? Aqueles que conhecem essa regra não são condenados pela própria mente quando agem de maneira contrária a ela? Por outro lado, quando agem de acordo com ela, não recebem a aprovação da própria consciência?
5. Essa capacidade parece ser aquilo que geralmente se chama de consciência natural, expressão frequentemente encontrada em alguns de nossos melhores autores, mas que não é rigorosamente correta. Num sentido, a consciência pode ser chamada natural, pois se encontra em todos os seres humanos. Propriamente falando, porém, não é natural, mas dom sobrenatural de Deus, acrescentado aos seus dons naturais. Não é a natureza, mas o Filho de Deus quem é “a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina todo ser humano” (João 1.9). Podemos dizer a toda criatura humana: “Ele”, e não a natureza, “mostrou a você, ó ser humano, o que é bom”. É o Espírito de Deus que o repreende interiormente e o faz experimentar inquietação quando, em qualquer situação, caminha de maneira contrária à luz que recebeu.
6. A bela passagem adquire força especial quando consideramos quem pronunciou as palavras e em qual ocasião. As pessoas envolvidas eram Balaque, rei de Moabe, e Balaão, que naquele momento se encontrava debaixo de influências divinas — aparentemente “não longe do Reino de Deus”, embora mais tarde tenha se afastado de maneira vergonhosa. É provável que Balaque também experimentasse naquela ocasião alguma coisa da mesma influência. Por isso, consultou Balaão e apresentou-lhe a pergunta à qual este ofereceu resposta tão completa. “Meu povo”, diz o profeta em nome de Deus, “lembre-se daquilo que Balaque, rei de Moabe, consultou e daquilo que Balaão, filho de Beor, lhe respondeu.” Balaque perguntou: “Com que me apresentarei diante do Senhor e me inclinarei diante do Deus Altíssimo? Virei diante dele com bezerros de um ano? Será que o Senhor se agradará de milhares de carneiros, de dez mil rios de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo pelo pecado da minha alma?” Os reis de Moabe realmente haviam feito isso em ocasiões de grande aflição, como se registra no terceiro capítulo de 2 Reis. Balaão apresentou esta nobre resposta, sem dúvida ensinado naquele momento por Deus: “Ele já mostrou a você o que é bom; e o que o Senhor pede de você? Que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Miqueias 6.8).
7. Para observarmos a consciência de modo mais específico, ela parece possuir uma função tríplice. Primeiramente, é testemunha, declarando aquilo que fizemos em pensamento, palavra ou ação. Em segundo lugar, é juíza, pronunciando sentença sobre aquilo que fizemos e declarando se é bom ou mau. Em terceiro lugar, de certa maneira executa a sentença, produzindo alguma satisfação naquele que pratica o bem e alguma inquietação naquele que pratica o mal.
8. O professor Hutcheson, que ensinava em Glasgow, apresenta a consciência sob uma perspectiva diferente. Em seu Ensaio sobre as paixões, observa que possuímos diversos sentidos ou caminhos naturais para o prazer e a dor além dos cinco sentidos exteriores. Chama um deles de “sentido público”, por meio do qual experimentamos naturalmente dor diante do sofrimento de outra criatura e satisfação quando ela é libertada. Afirma também que todo ser humano possui um “sentido moral”, mediante o qual aprova a benevolência e desaprova a crueldade. Da mesma maneira, sente-se inquieto quando pratica uma ação cruel e satisfeito quando pratica uma ação generosa.
9. Tudo isso é, em algum sentido, indiscutivelmente verdadeiro. Não é verdade, porém, que o sentido público ou o sentido moral — ambos incluídos na expressão “consciência” — seja atualmente natural ao ser humano. Independentemente daquilo que pudesse ter acontecido no princípio, enquanto a humanidade se encontrava em estado de inocência, os dois são atualmente ramos daquele dom sobrenatural de Deus que geralmente chamamos de graça preveniente. O professor, porém, não concorda com isso. Exclui Deus completamente da questão. Deus não possui participação alguma em seu sistema de virtude, do princípio ao fim. Para dizer a verdade, seu sistema de virtude é inteiramente ateísta. Que refinamento extraordinário! Muitos excluíram Deus do mundo; ele o exclui até mesmo da religião!
10. Mas não estaríamos compreendendo-o de maneira equivocada? Para tornar seu significado inteiramente claro e impedir que alguém o interprete incorretamente, ele apresenta esta pergunta: “O que acontece quando alguém, ao realizar uma ação virtuosa, isto é, generosa, ajudando outra pessoa, leva Deus em consideração, seja como aquele que ordena a ação, seja como aquele que promete recompensá-la?” Ele responde: “Na medida em que considera Deus, a virtude da ação é perdida. Todas as ações que procedem da consideração à recompensa não possuem virtude nem bondade moral.” Infelizmente! Esse homem era chamado cristão? Como foi injustamente acusado de semelhante coisa! Até mesmo o doutor Taylor, embora não reconheça Cristo como Deus, não hesita em chamá-lo de “uma pessoa de virtude perfeita”. O professor, porém, não poderia atribuir-lhe virtude alguma!
11. Voltando ao assunto: o que é a consciência no sentido cristão? É aquela capacidade da alma que, mediante a ajuda da graça de Deus, percebe ao mesmo tempo: primeiro, nossas disposições e nossa vida, a verdadeira natureza e qualidade de nossos pensamentos, palavras e ações; segundo, a regra pela qual devemos ser dirigidos; e, terceiro, sua concordância ou discordância com essa regra. Explicando de maneira mais ampla: a consciência implica, primeiramente, a capacidade que alguém possui de conhecer a si mesmo e discernir, de maneira geral e específica, as próprias disposições, pensamentos, palavras e ações. Isso, porém, não é possível sem a ajuda do Espírito de Deus. De outra maneira, o amor próprio e todas as demais paixões desordenadas nos disfarçariam e nos esconderiam completamente de nós mesmos. Em segundo lugar, implica o conhecimento da regra pela qual devemos ser dirigidos em cada situação. Essa regra não é outra senão a Palavra escrita de Deus. Em terceiro lugar, a consciência implica o conhecimento de que todos os nossos pensamentos, palavras e ações estão ou não de acordo com essa regra. Em todas as funções da consciência, a “unção que vem do Santo” é indispensavelmente necessária. Sem ela, não poderíamos discernir claramente nossa vida e nossas disposições, julgar a regra pela qual devemos caminhar nem perceber nossa conformidade ou desconformidade com ela.
12. Essa é propriamente a descrição da boa consciência, que pode ser expressa com outras palavras desta maneira: a consciência concedida por Deus de que caminhamos em todas as coisas de acordo com sua Palavra escrita. Parece realmente não poder existir consciência que não possua relação com Deus. Caso você diga: “Certamente alguém pode estar consciente de ter praticado o certo ou o errado sem qualquer referência a Deus”, respondo que não posso aceitar isso. Duvido de que as próprias palavras “certo” e “errado”, segundo o sistema cristão, não impliquem em sua própria definição concordância ou discordância com a vontade e a Palavra de Deus. Caso seja assim, não existe consciência cristã quando Deus é retirado da questão.
13. Para a própria existência da boa consciência, assim como para sua continuidade, é absolutamente necessária a influência constante do Espírito de Deus. Por isso, o apóstolo João declara aos crentes de todas as épocas: “Vocês têm a unção que vem do Santo e todos têm conhecimento” (1 João 2.20), isto é, conhecimento de todas as coisas necessárias para possuir “uma consciência sem ofensa diante de Deus e das pessoas”. Acrescenta: “Vocês não precisam que alguém os ensine”, exceto “como a unção os ensina a respeito de todas as coisas” (1 João 2.27). Essa unção nos ensina claramente estas três coisas: primeiramente, o verdadeiro significado da Palavra de Deus; em segundo lugar, traz nossas ações à lembrança; e, em terceiro lugar, mostra a concordância de todas elas com os mandamentos divinos.
14. Passemos agora, em segundo lugar, a considerar as diversas espécies de consciência. Já falamos sobre a boa consciência. Paulo a descreve de várias maneiras. Em determinada passagem, chama-a simplesmente de “boa consciência diante de Deus”. Em outra, de “consciência sem ofensa diante de Deus e das pessoas”. No texto, porém, fala de maneira mais ampla: “A nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência de que, com simplicidade” — com os olhos voltados para uma única finalidade — “e sinceridade de Deus, temos vivido no mundo”. Ao mesmo tempo, observa que isso foi realizado “não com sabedoria humana”, geralmente chamada prudência — que nunca produziu nem poderá produzir semelhante resultado —, “mas pela graça de Deus”, a única força suficiente para produzir isso em qualquer ser humano.
15. Intimamente relacionada com a boa consciência — quando não é a mesma coisa contemplada de outra perspectiva ou um de seus ramos particulares — encontra-se a consciência sensível. Aquele que possui consciência sensível observa com exatidão qualquer desvio da Palavra de Deus, seja em pensamento, palavra ou ação, e imediatamente experimenta remorso e condenação interior. O clamor constante de sua alma é:
Que minha alma sensível fuja Do primeiro avanço detestável do mal; Rápida como a pupila do olho, Sinta o menor toque do pecado!
16. Algumas vezes, porém, essa excelente qualidade, a sensibilidade da consciência, é levada ao extremo. Encontramos pessoas que sentem medo onde não existe razão para temer e estão continuamente condenando a si mesmas sem motivo; imaginando pecaminosas coisas que as Escrituras não condenam e considerando como dever coisas que as Escrituras não ordenam. Isso é propriamente chamado de consciência escrupulosa e constitui um mal doloroso. É profundamente recomendável ceder a ela o mínimo possível. Mais ainda: devemos orar fervorosamente para sermos libertos desse mal e recuperarmos uma mente equilibrada. Poucas coisas contribuiriam mais para isso do que a convivência e a conversa com um amigo piedoso e sensato.
17. O extremo oposto é muito mais perigoso. A consciência endurecida é mil vezes mais perigosa do que a consciência escrupulosa. Ela consegue violar um mandamento claro de Deus sem qualquer condenação interior, fazendo aquilo que ele proibiu expressamente ou deixando de fazer aquilo que ordenou expressamente, sem sentir remorso algum e talvez até se orgulhando dessa dureza de coração. Encontramos atualmente muitos exemplos dessa lamentável insensibilidade, até mesmo entre pessoas que imaginam possuir uma medida considerável de religião. Alguém pratica uma coisa claramente proibida pelas Escrituras. Você pergunta: “Como se atreve a fazer isso?” A pessoa responde com completa indiferença: “Meu coração não me condena.” Respondo: “Isso torna sua condição ainda pior. Gostaria que seu coração o condenasse! Você estaria então numa condição mais segura do que está agora. É terrível ser condenado pela Palavra de Deus e, apesar disso, não ser condenado pelo próprio coração!” Caso possamos quebrar o menor dos mandamentos conhecidos de Deus sem qualquer condenação interior, fica claro que o deus deste mundo endureceu nosso coração. Caso não sejamos rapidamente curados, perderemos toda a sensibilidade, e nossa consciência, como diz Paulo, ficará “cauterizada como por ferro quente” (1 Timóteo 4.2).
18. Resta-me acrescentar apenas algumas orientações importantes. O primeiro grande ponto é este: supondo que possuamos uma consciência sensível, como poderemos preservá-la? Creio que existe apenas um caminho possível: obedecer-lhe. Todo ato de desobediência tende a cegá-la e enfraquecê-la; a apagar seus olhos para que não enxergue a boa e agradável vontade de Deus; e a endurecer o coração para que não experimente condenação quando agimos em oposição a ela. Por outro lado, todo ato de obediência concede à consciência visão mais clara e forte e percepção mais rápida daquilo que ofende a gloriosa majestade de Deus. Portanto, caso deseje que sua consciência esteja sempre pronta para discernir e seja fiel para acusá-lo ou defendê-lo; caso queira conservá-la sempre sensível e delicada, obedeça-lhe em qualquer situação. Ouça continuamente suas advertências e siga-as firmemente. Faça tudo aquilo que ela lhe orientar a realizar segundo a Palavra de Deus, por mais doloroso que seja para a natureza humana. Não faça aquilo que ela proibir, caso a proibição esteja fundamentada na Palavra de Deus, por mais agradável que seja à natureza humana. Uma coisa ou outra poderá acontecer frequentemente. Aquilo que Deus proíbe poderá agradar nossa natureza corrompida. Nesse caso, você é chamado a negar a si mesmo; caso contrário, negará seu Mestre. Aquilo que Deus ordena poderá ser doloroso para a natureza. Nesse caso, tome sua cruz. É profundamente verdadeira a palavra de nosso Senhor: “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23).
19. Não poderia concluir este discurso de maneira melhor do que apresentando um trecho do sermão do doutor Annesley sobre “A consciência universal”. O doutor Annesley, meu avô materno, foi responsável pela paróquia de Cripplegate.
“Sejam convencidos a praticar as orientações seguintes, e sua consciência permanecerá correta:
1. Tenham cuidado com todo pecado. Não considerem pecado algum pequeno e obedeçam a todos os mandamentos com todas as forças. Vigiem contra os primeiros movimentos do pecado e tenham cuidado com suas fronteiras. Evitem até mesmo a aparência do mal. Não se coloquem voluntariamente diante de tentações ou de ocasiões para pecar.
2. Considerem que vivem debaixo dos olhos de Deus. Vivam conscientes da presença do Deus zeloso. Lembrem-se de que todas as coisas estão descobertas e expostas diante dele! Não podem enganá-lo, porque ele é a sabedoria infinita. Não podem fugir dele, porque está em todos os lugares. Não podem suborná-lo, porque é a própria justiça. Falem sabendo que Deus os ouve. Caminhem sabendo que Deus os cerca por todos os lados. O Senhor está com vocês enquanto vocês estão com ele, isto é, desfrutarão de sua presença favorável enquanto viverem reverentemente conscientes de sua presença.
3. Sejam sérios e frequentes no exame do coração e da vida. Existem deveres semelhantes a partes do corpo cuja ausência pode ser suprida por outras partes, mas a ausência desse exame não pode ser suprida por coisa alguma. Todas as noites, examinem a conduta do dia: aquilo que fizeram ou pensaram e que não correspondia ao caráter cristão; se o coração permaneceu atento à religião e indiferente ao mundo. Cuidem especialmente de dois períodos: a manhã e a noite. Pela manhã, considerem antecipadamente aquilo que precisarão fazer. À noite, examinem se fizeram aquilo que deveriam.
4. Relacionem cada ação com toda a sua vida, e não apenas com uma pequena parte dela. Que todas as suas finalidades secundárias estejam de acordo com a grande finalidade de sua existência. ‘Exercite-se pessoalmente na piedade’ (1 Timóteo 4.7). Seja tão dedicado à religião quanto desejaria que seus filhos em idade escolar fossem dedicados aos estudos. Que toda a sua vida seja uma preparação para o céu, como a preparação dos atletas para a competição.
5. Não se arrisque no pecado porque Cristo adquiriu o perdão. Isso constitui abuso terrível de Cristo. Por essa razão, não existia debaixo da Lei sacrifício para pecados deliberados: para que as pessoas não imaginassem conhecer o preço dos pecados, como fazem aqueles que negociam indulgências católicas.
6. Não sejam coisa alguma aos próprios olhos. Infelizmente, o que possuímos para alimentar o orgulho? Nossa concepção foi pecaminosa, nosso nascimento doloroso, nossa vida trabalhosa e não sabemos como será nossa morte! Tudo isso, porém, é pequeno diante da condição de nossa alma. Caso conheçamos essa realidade, que desculpa possuímos para o orgulho?
7. Considerem o dever, e não os acontecimentos. Não precisamos fazer outra coisa além de cumprir nosso dever. Todas as especulações que não conduzem à santidade estão entre as coisas supérfluas. Os temores a respeito daquilo que poderá acontecer pelo cumprimento do dever podem ser contados entre os pecados. Praticar o pecado para evitar o perigo é afundar o navio por medo dos piratas. Como nossa vida seria tranquila e santa caso aprendêssemos esta única lição: não ficar ansiosos por coisa alguma, cumprir nosso dever e deixar todas as consequências com Deus! Que loucura o simples pó tentar ensinar a sabedoria infinita! Abandonar nosso trabalho para interferir no trabalho de Deus! Durante mais de cinco mil anos, ele administrou as questões do mundo e de cada pessoa nele existente sem oferecer razão justa de queixa a ninguém. Necessita agora de seu conselho? Não. Sua responsabilidade é cuidar do próprio dever.
8. Aceite para você mesmo o conselho que ofereceria a outra pessoa. Até os piores seres humanos estão bastante dispostos a colocar sobre os outros pesos que, caso assumissem pessoalmente, os tornariam cristãos extraordinários.
9. Não faça coisa alguma sobre a qual não consiga pedir a bênção de Deus. Toda boa ação do cristão é santificada pela Palavra e pela oração. Não é apropriado ao cristão realizar coisa tão insignificante que não possa orar a respeito dela. Caso oferecesse uma breve e sincera oração diante de cada ação que surge, essa oração eliminaria todas as coisas pecaminosas e estimularia todas as coisas legítimas.
10. Pense, fale e faça aquilo que está convencido de que o próprio Cristo faria em sua situação caso estivesse na Terra. É apropriado ao cristão ser exemplo para todos, seguindo aquele que foi, é e sempre será nosso modelo absoluto. Ó cristãos, como Cristo orava e aproveitava o tempo para a oração! Como Cristo pregava, e de sua boca procediam somente palavras cheias de graça! Quanto tempo Cristo gastou em conversas inúteis? Como caminhou por toda parte fazendo o bem aos seres humanos e aquilo que era agradável a Deus! Amados, recomendo-lhes estas quatro lembranças: primeiro, cuidem de seu dever; segundo, aquilo que seria dever de outra pessoa em sua situação é também seu dever; terceiro, não se envolvam com coisa alguma sobre a qual não possam dizer: ‘Que a bênção do Senhor esteja sobre isso’; quarto e acima de tudo, esqueçam seu próprio nome antes de se esquecerem de olhar para Cristo! Qualquer que seja o tratamento recebido do mundo, lembrem-se dele e sigam seus passos: ‘Ele não cometeu pecado, nem dolo algum foi encontrado em sua boca. Quando insultado, não revidava com insultos, mas entregava-se àquele que julga retamente’” (1 Pedro 2.22-23).
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.