SERMÃO 110

Sobre as descobertas da fé

“A fé é a certeza de coisas que se esperam” — como a fé torna reais e presentes as realidades invisíveis e eternas.

Hb 11.1, NAA ⏱ 13 min de leituraEspírito Santo e certeza

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem.”

(Hb 11.1, NAA)

Antes de ler

Por “descobertas da fé”, Wesley entende as realidades que a fé torna conhecidas ou perceptíveis. Assim como os sentidos nos colocam em contato com o mundo material, a fé nos permite reconhecer aquilo que não pode ser alcançado pela visão, audição, tato ou pelos demais sentidos.

O sermão percorre três campos: o mundo invisível, o mundo eterno e o Reino espiritual de Deus no coração humano. Inclui a existência da alma, dos anjos, de Deus, da Trindade, da vida depois da morte, do juízo, da salvação, do novo nascimento e da santificação.

As descrições do estado intermediário, dos anjos maus e do castigo final refletem a compreensão escatológica e antropológica de Wesley. São preservadas por fidelidade histórica, sem constituírem necessariamente a posição editorial desta tradução.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Durante muitas épocas, homens sensatos aceitaram esta máxima: Nihil est in intellectu quod non fuit prius in sensu, isto é: “Nada existe no entendimento que não tenha sido primeiramente percebido por algum dos sentidos.” Todo conhecimento que possuímos naturalmente procede originalmente dos sentidos. Por isso, aqueles que não possuem determinado sentido não podem ter qualquer conhecimento ou ideia dos objetos ligados a ele. Pessoas que nunca enxergaram, por exemplo, não possuem conhecimento ou concepção natural da luz ou das cores. Alguns, nos anos anteriores ao sermão, procuraram provar que possuímos ideias inatas, não derivadas de qualquer sentido, mas nascidas juntamente com o entendimento. Essa questão, porém, já havia sido amplamente discutida por homens de elevado entendimento e conhecimento. Pessoas imparciais concordavam que, embora algumas coisas sejam tão claras e evidentes que dificilmente deixamos de conhecê-las assim que começamos a utilizar o entendimento, até mesmo o conhecimento delas não é inato, mas procede de algum de nossos sentidos.

2. Existe, porém, grande diferença entre nossos sentidos considerados como caminhos pelos quais o conhecimento chega até nós. Alguns possuem área de atuação muito pequena; outros, área muito mais extensa. Pelo tato, distinguimos somente objetos que entram em contato com alguma parte de nosso corpo. Consequentemente, esse sentido alcança apenas pequeno número de objetos. O paladar e o olfato — que alguns consideram espécies do tato — alcançam número ainda menor. Por outro lado, o sentido mais elevado da audição possui área de atuação muito ampla, especialmente no caso de sons fortes, como o trovão, o rugido do mar ou o disparo de canhões, que, segundo relatos conhecidos por Wesley, algumas vezes era ouvido a quase cento e sessenta quilômetros de distância. Mesmo assim, o espaço alcançado pela audição é pequeno quando comparado àquele alcançado pela visão. A visão contempla de uma única vez não somente as mais vastas paisagens da terra, mas também a Lua, os demais planetas, o Sol e até as estrelas fixas, embora estejam a distância tão imensa que, mesmo através dos melhores telescópios da época, não pareciam maiores do que a olho nu.

3. Apesar disso, nenhum de nossos sentidos — nem mesmo a visão — consegue ultrapassar os limites deste mundo visível. Eles nos fornecem conhecimento suficiente do mundo material para todas as finalidades da vida. Como essa foi a finalidade para a qual foram concedidos, não podem avançar além dela. Não nos oferecem informação alguma a respeito do mundo invisível.

4. O sábio e bondoso Governador dos mundos visível e invisível, porém, preparou um remédio para essa limitação. Estabeleceu a fé para suprir a deficiência dos sentidos; para receber-nos onde os sentidos nos deixam e ajudar-nos a atravessar o grande abismo. A função da fé começa onde termina a função dos sentidos. Os sentidos são evidência das coisas visíveis, do mundo material e de suas diversas partes. A fé, por outro lado, é “a convicção de fatos que não se veem”: do mundo invisível e de todas as coisas invisíveis reveladas nos oráculos de Deus. Na realidade, esses oráculos nada revelam e permanecem letra morta quando não são “acompanhados pela fé naqueles que os ouvem”.

5. Particularmente, a fé constitui para mim evidência da existência daquela realidade invisível que é minha própria alma. Sem ela, eu permaneceria em completa incerteza e seria obrigado a apresentar a melancólica pergunta: seria a alma apenas uma realidade de origem inferior, formada por partículas separadas de uma matéria mais refinada? Pela fé, porém, sei que é espírito imortal, criado à imagem de Deus, tanto em sua imagem natural quanto moral; “imagem incorruptível do Deus da glória”. Pela mesma evidência, sei que atualmente estou distante da gloriosa imagem de Deus; sim, que eu e toda a humanidade estamos “mortos em delitos e pecados”, tão completamente mortos que “em mim não habita bem algum”; que sou inclinado para todo mal e inteiramente incapaz de conceder vida à própria alma.

6. Pela fé, sei que, além das almas humanas, existem outras ordens de espíritos. Creio que milhões de criaturas invisíveis caminham pela terra, quer estejamos acordados, quer dormindo. Chamo essas criaturas de anjos e creio que parte delas é santa e feliz, enquanto outra parte é perversa e infeliz. Creio que os primeiros, os bons anjos, são continuamente enviados por Deus “para servir aqueles que herdarão a salvação”, os quais, no futuro, serão “iguais aos anjos”, embora atualmente sejam um pouco inferiores a eles. Creio que os últimos, os anjos maus chamados demônios nas Escrituras, estão unidos debaixo de um único chefe, chamado Satanás — enfaticamente, o inimigo, adversário de Deus e dos seres humanos. Eles percorrem as regiões superiores, sendo chamados de “príncipes da potestade do ar”, ou andam pela terra procurando aqueles a quem possam destruir.

7. Pela fé, porém, sei que, acima de todos eles, encontra-se o Senhor Jeová, aquele que é, que era e que há de vir; Deus desde a eternidade e para todo o sempre; aquele que enche os céus e a terra; infinito em poder, sabedoria, justiça, misericórdia e santidade; aquele que criou todas as coisas, visíveis e invisíveis, pelo sopro de sua boca, que ainda sustenta e conserva todas elas “pela palavra de seu poder” e governa tudo aquilo que existe no céu, na terra e debaixo da terra. Pela fé, sei que “há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo”, e que “estes três são um”; que a Palavra, Deus Filho, “se fez carne”, viveu e morreu para nossa salvação, ressuscitou, subiu ao céu e atualmente está assentado à direita do Pai. Pela fé, sei que o Espírito Santo é o Doador de toda vida espiritual, de justiça, paz e alegria no Espírito Santo, de santidade e felicidade mediante a restauração daquela imagem de Deus na qual fomos criados. De todas essas coisas, a fé é a evidência, a única evidência concedida aos filhos dos seres humanos.

8. Assim como a informação recebida pelos sentidos não alcança o mundo invisível, também não alcança aquilo que está intimamente relacionado a ele: o mundo eterno. Apesar de todas as informações oferecidas pela visão ou por qualquer outro sentido, a vasta e ilimitada realidade permanece diante de nós, mas nuvens e escuridão repousam sobre ela. Os sentidos não permitem a entrada de um único raio de luz capaz de revelar “os segredos do abismo sem limites”. O mundo eterno começa com a morte de cada pessoa. No momento em que sua respiração termina, segundo Wesley, ela se torna habitante da eternidade. O tempo desaparece então “como um sonho quando alguém acorda”. Mais uma vez, a fé ocupa o lugar dos sentidos e apresenta-nos uma visão das coisas futuras, afastando imediatamente o véu existente entre o ser mortal e o imortal. A fé revela as almas dos justos recebidas pelos santos anjos e conduzidas por esses espíritos servidores ao seio de Abraão, às alegrias do paraíso, o jardim de Deus, onde a luz de seu rosto brilha continuamente; onde mantêm comunhão não apenas com antigos parentes, amigos e companheiros de luta, mas com os santos de todas as nações e épocas, com os gloriosos mortos dos dias antigos, a nobre multidão dos mártires, os apóstolos, profetas e patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó. Acima de tudo, estarão com Cristo de uma maneira que não era possível enquanto permaneciam no corpo.

9. A fé também revela, segundo a compreensão de Wesley, as almas daqueles que viveram sem santidade sendo imediatamente levadas ao lugar correspondente à condição que escolheram. Esse lugar ainda não seria o castigo final, pois não receberiam a recompensa definitiva “antes do tempo”, isto é, antes do fim do mundo, quando cada pessoa receberá segundo suas obras. Até então, provavelmente continuariam servindo ao seu mau senhor e promovendo seu reino, procurando causar todo o prejuízo possível aos frágeis filhos dos seres humanos. Entretanto, em lugar algum encontrariam descanso. Carregariam consigo o próprio sofrimento: a consciência da culpa, a percepção da justa indignação divina, as disposições espirituais corrompidas que constituem em si mesmas miséria e a terrível expectativa do juízo que virá sobre aqueles que persistem como adversários de Deus.

10. Além disso, a fé abre outra cena no mundo eterno: a vinda de nosso Senhor nas nuvens do céu para “julgar os vivos e os mortos”. Capacita-nos a contemplar o grande trono branco e aquele que está assentado sobre ele, diante de cuja face os céus e a terra desaparecem. Vemos os mortos, pequenos e grandes, diante de Deus. Vemos os livros abertos e os mortos julgados segundo aquilo que está escrito neles. Vemos a terra e o mar entregarem seus mortos e o mundo invisível entregar aqueles que nele se encontram, sendo cada pessoa julgada segundo suas obras.

11. Pela fé, também nos são apresentadas as consequências imediatas do juízo geral. Contemplamos a execução da feliz sentença pronunciada sobre aqueles que estiverem à direita: “Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino preparado para vocês desde a fundação do mundo.” Depois disso, os santos anjos entoam seu louvor, e os herdeiros da glória entram na alegria eterna da presença de Deus. Contemplamos também a execução da terrível sentença pronunciada sobre aqueles que estiverem à esquerda: “Afastem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” Os que persistiram no pecado entram então no castigo definitivo descrito nas Escrituras.

12. Além dos mundos invisível e eterno, que não são vistos e somente podem ser descobertos pela fé, existe todo um sistema de realidades que não pode ser discernido por qualquer sentido exterior. Refiro-me ao mundo espiritual, entendendo por isso o Reino de Deus na alma humana. “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram” essas coisas; também não podem entrar no coração humano para serem compreendidas, a menos que Deus as revele por meio de seu Espírito. O Espírito Santo prepara-nos para seu Reino interior removendo o véu de nosso coração e capacitando-nos a conhecer a nós mesmos como somos conhecidos por Deus. Convence-nos do pecado, da natureza corrompida, das disposições, palavras e ações más, que necessariamente participam da corrupção do coração do qual procedem. Depois, convence-nos daquilo que nossos pecados merecem, de modo que nossa boca se fecha e somos obrigados a declarar-nos culpados diante de Deus. Ao mesmo tempo, recebemos “o espírito de escravidão para novamente vivermos com medo”: medo da indignação de Deus, medo da punição merecida e, acima de tudo, medo da morte, para que ela não nos entregue à morte eterna. As almas convencidas dessa maneira sentem-se presas e incapazes de libertar a si mesmas. Percebem-se inteiramente pecaminosas, culpadas e incapazes. Toda essa convicção implica uma espécie de fé, pois constitui “convicção de fatos que não se veem”, que não poderiam ser vistos nem conhecidos até que Deus os revelasse.

13. Observe-se cuidadosamente, porém — pois esse ponto é muito importante —, que essa fé é apenas a fé de um servo, não a fé de um filho. Como muitos não compreendem claramente essa distinção, procurarei explicá-la um pouco mais. A fé de um servo implica evidência divina dos mundos invisível e eterno e até certa evidência do mundo espiritual, na medida em que esta pode existir sem experiência viva. Aquele que alcançou a fé de um servo “teme a Deus e afasta-se do mal” ou, como Pedro expressa, “teme a Deus e pratica a justiça”. Como consequência, é, em certa medida, “aceito por Deus”. Em outro lugar, é descrito como aquele que “teme a Deus e guarda seus mandamentos”. Uma pessoa que chegou até esse ponto na religião, obedecendo a Deus por medo, não deve ser desprezada de maneira alguma, pois “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Deve, porém, ser incentivada a não parar aí; a não descansar antes de alcançar a adoção de filhos e obedecer por amor, privilégio de todos os filhos de Deus.

14. Incentive-a a avançar por todos os meios possíveis, até passar “de fé em fé”; da fé de servo para a fé de filho; do espírito de escravidão e temor para o espírito de amor filial. Cristo será então revelado em seu coração, capacitando-a a testemunhar: “A vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”, a voz própria de um filho de Deus. Ela nascerá de Deus, transformada interiormente pelo poderoso poder divino, deixando uma mente “terrena, animal e demoníaca” e recebendo “a mente que houve em Cristo Jesus”. Experimentará aquilo que Paulo expressa nestas palavras aos gálatas: “Vocês são filhos de Deus mediante a fé; e, porque vocês são filhos, Deus enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: ‘Aba, Pai!’”. Aquele que crê como filho, observa João, “tem o testemunho em si mesmo”. “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.” “O amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.”

15. Muitas dúvidas e muitos temores, porém, ainda poderão permanecer num filho de Deus enquanto for fraco na fé e estiver entre aqueles que Paulo chama de “crianças em Cristo”. Quando sua fé é fortalecida, quando recebe a impressão permanente da fé, tornando reais as coisas futuras, e recebe o testemunho permanente do Espírito, as dúvidas e os temores desaparecem. Desfruta então da plerophoría, ou “plena certeza da fé”, que exclui toda dúvida e todo “medo que produz tormento”. Àqueles que chama de jovens, João declara: “Escrevi a vocês, jovens, porque são fortes, a Palavra de Deus permanece em vocês, e vocês já venceram o Maligno.” Como o apóstolo observa, eles possuem “a Palavra de Deus permanecendo neles”. Talvez isso signifique “a palavra do perdão”, a palavra que declarou perdoados todos os seus pecados. Como consequência, possuem consciência contínua do favor divino.

16. A esses, de maneira especial, podemos aplicar a exortação do apóstolo Paulo: “Deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo”, isto é, o arrependimento e a fé, “avancemos para a perfeição”. Em que sentido devemos deixar esses princípios? Não de maneira absoluta, pois precisamos conservar tanto um quanto o outro — o conhecimento de nós mesmos e o conhecimento de Deus — até o fim da vida. Devemos deixá-los apenas comparativamente, não concentrando sobre eles, como no princípio, toda a nossa atenção, nem pensando e falando continuamente sobre coisa alguma além do arrependimento ou da fé. Qual é, porém, a “perfeição” mencionada aqui? Não é apenas libertação das dúvidas e dos temores, mas do pecado; de todo pecado interior e exterior; dos maus desejos e das disposições pecaminosas, assim como das palavras e ações más. Não é somente bênção negativa, libertação de todas as disposições más incluídas na expressão “circuncidarei seu coração”, mas também bênção positiva: a implantação de todas as boas disposições no lugar delas, claramente incluída nesta outra expressão: “Amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma.”

17. Esses são aqueles aos quais João concede o venerável título de pais, que “conhecem aquele que existe desde o princípio”: o eterno Deus trino e uno. Um deles expressou-se desta maneira: “Carrego comigo a verdade experimentada e a plenitude da presença da sempre bendita Trindade.” Aqueles que são pais em Cristo geralmente, embora, creio, nem sempre, desfrutam da plerophoría, ou “plena certeza da esperança”, não possuindo maior dúvida de que reinarão com Cristo em glória do que se já o contemplassem vindo nas nuvens do céu. Isso, porém, não os impede de crescer continuamente no conhecimento e no amor de Deus. Enquanto “se alegram sempre, oram sem cessar e em tudo dão graças”, oram especialmente para nunca deixarem de vigiar, negar a si mesmos, tomar diariamente a cruz, combater o bom combate da fé e lutar contra o mundo, o diabo e suas numerosas fraquezas, até serem capazes de “compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento”; sim, até serem “cheios de toda a plenitude de Deus”.

Yarm, 11 de junho de 1788.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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