SERMÃO 111
Sobre a onipresença de Deus
“Não encho eu os céus e a terra?” — a onipresença de Deus e o que essa verdade exige de nós.
“Não encho eu os céus e a terra? — diz o Senhor.”
(Jr 23.24, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley explica a onipresença de Deus: Deus está presente em todos os lugares, dentro e além dos limites da criação. Sua presença não significa que Deus se confunda com o universo. O Criador permanece distinto das coisas criadas, mas sustenta, governa e conhece todas elas.
Wesley relaciona a onipresença à onipotência. Deus pode atuar em toda parte porque está presente em toda parte. Sua providência alcança tanto os grandes movimentos do universo quanto os menores acontecimentos da vida.
A aplicação é profundamente pastoral. Viver diante da presença de Deus deve produzir reverência, vigilância sobre pensamentos, palavras e ações, coragem para servir, confiança na providência e alegria. Deus não está presente apenas como Juiz que tudo vê, mas como Pai que guia, sustenta e aperfeiçoa seus filhos.
— Bispo Ildo Mello
1. Como estas palavras expressam de maneira forte e bela a onipresença de Deus! Poderia existir, em toda a natureza, assunto mais sublime? Poderia existir algum mais digno da consideração de toda criatura racional? Existe assunto mais necessário para ser considerado e compreendido, na medida em que nossas limitadas capacidades permitem? Quantas finalidades excelentes ele poderá alcançar! Que instrução profunda poderá transmitir a todos os filhos dos seres humanos e, mais diretamente, aos filhos de Deus!
2. Como, então, tão pouco foi escrito sobre tema tão sublime e proveitoso? É verdade que alguns de nossos escritores mais importantes tocaram ocasionalmente no assunto e apresentaram diversas reflexões fortes e belas naturalmente sugeridas por ele. Qual deles, porém, publicou um tratado organizado ou até mesmo um sermão sobre o tema? Talvez muitos tivessem consciência de sua incapacidade de fazer justiça a assunto tão vasto.
3. É possível que exista algum texto semelhante escondido nos escritos volumosos do século anterior. Caso esteja escondido até mesmo no próprio país e já sepultado no esquecimento, para todos os efeitos práticos é como se nunca tivesse sido escrito. Aquilo que ainda parece necessário para uso geral é um discurso simples sobre a onipresença ou ubiquidade de Deus: primeiramente explicando e demonstrando, em alguma medida, esta verdade gloriosa — “Deus está neste e em todos os lugares” — e, depois, aplicando-a à consciência de todas as pessoas que pensam, por meio de algumas conclusões práticas.
1. Procurarei, então, com a ajuda do Espírito de Deus, explicar primeiramente a onipresença divina e demonstrar como devemos compreender esta verdade gloriosa: “Deus está neste e em todos os lugares.” Como vocês devem recordar, o salmista fala sobre isso de maneira forte e bela no Salmo 139, observando, na ordem mais exata, primeiramente que Deus está neste lugar e, depois, que Deus está em todos os lugares. Ele observa, primeiro: “Observas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos”; “Tu me cercas por todos os lados e pões a mão sobre mim”. O salmista, porém, não consegue explicar a maneira pela qual isso acontece: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; é tão elevado, que não o posso atingir”. Depois, observa da maneira mais viva e comovente que Deus está em todos os lugares: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua presença? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também”. Caso eu pudesse subir, falando segundo a maneira humana, até a região mais elevada do universo ou descer ao ponto mais baixo, estarias igualmente presente num lugar e no outro. “Se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda ali a tua mão me guiará” — teu poder e tua presença estarão diante de mim — “e a tua mão direita me sustentará”, pois estás igualmente presente na largura, no comprimento, na altura e na profundidade do universo. Na realidade, tua presença e teu conhecimento não alcançam somente os limites extremos da criação, mas tua visão onipresente se estende até as regiões desconhecidas da realidade não criada. Em resumo, não existe ponto algum do espaço, dentro ou fora dos limites da criação, no qual Deus não esteja presente.
2. Esse assunto é vasto demais para ser compreendido pelos limites estreitos do entendimento humano. Podemos apenas afirmar que o grande Deus, Espírito eterno e todo-poderoso, é tão ilimitado em sua presença quanto em sua duração e em seu poder. Em condescendência ao nosso fraco entendimento, afirma-se que ele habita no céu. Estritamente falando, porém, nem mesmo o céu dos céus pode contê-lo. Ele está em todas as partes de seu domínio. O Deus universal habita no espaço universal. Podemos, portanto, dizer:
Salve, Pai! Ao teu chamado criador Mundos incontáveis surgiram! Jeová, que tudo compreende E não pode ser compreendido!
3. Caso nos atrevamos a tentar ilustrar um pouco mais essa realidade, o que é o espaço ocupado por um grão de areia diante do espaço ocupado pelos céus estrelados? É como um zero; não é coisa alguma; desaparece completamente na comparação. O que é, então, o espaço de toda a criação diante da totalidade do espaço, em comparação com o qual toda a criação é infinitamente menor do que um grão de areia? Apesar disso, esse espaço, diante do qual a criação não possui proporção alguma, é infinitamente menor em comparação com o grande Deus do que um grão de areia — ou a milionésima parte dele — diante de todo aquele espaço.
1. Esse parece ser o sentido simples das solenes palavras que Deus declara a respeito de si mesmo: “Não encho eu os céus e a terra?”. Elas demonstram suficientemente sua onipresença, que poderá ser provada ainda por esta consideração: Deus atua em todos os lugares e, portanto, está em todos os lugares, pois é absolutamente impossível que algum ser, criado ou não criado, atue onde não se encontra. Deus atua no céu, na terra e debaixo da terra, por toda a extensão de sua criação: sustentando todas as coisas, sem o que tudo voltaria imediatamente ao nada original; governando todas as coisas, supervisionando a cada momento tudo aquilo que criou; influenciando tudo poderosa e suavemente, sem destruir a liberdade de suas criaturas racionais. Até mesmo os pagãos reconheciam que o grande Deus governa as partes mais grandiosas e visíveis do universo e regula os movimentos dos corpos celestes, do Sol, da Lua e das estrelas; que é a mente que anima toda a estrutura, preenchendo, penetrando e movimentando o conjunto. Não possuíam, porém, a concepção de que ele cuidasse das menores coisas assim como das maiores; que presidisse sobre tudo aquilo que criou e governasse os átomos assim como os mundos. Não poderíamos conhecer isso caso Deus não tivesse se agradado em revelar-nos. Se ele próprio não tivesse dito, não ousaríamos imaginar que “nenhum pardal cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês, que está nos céus”, muito menos afirmar que “até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados”.
2. Essa verdade consoladora, de que “Deus enche os céus e a terra”, também aprendemos no salmo já mencionado: “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também. Se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda ali a tua mão me guiará”. O sentido claro é este: caso eu me afaste para qualquer distância, tu estás ali; continuas cercando-me e colocando tua mão sobre mim. Que eu fuja para qualquer distância imaginável ou inimaginável, para cima, para baixo ou para qualquer lado; isso não faz diferença. Tu estás igualmente ali. Em ti continuo vivendo, movendo-me e existindo.
3. Mesmo onde não existe criatura alguma, Deus permanece presente. A presença ou ausência de qualquer criatura ou de todas elas não produz diferença em relação a ele. Está igualmente em todas elas ou sem qualquer uma delas. Muitas discussões existiram entre os filósofos sobre a existência de espaço vazio no universo, e nos dias de Wesley geralmente se supunha que todo o espaço estivesse preenchido. Talvez não possa ser provado que todo o espaço esteja ocupado pela matéria. Até mesmo o pagão, porém, testemunharia: Jovis omnia plena — “Todas as coisas estão cheias de Deus”. Sim, existe espaço além dos limites da criação — pois a criação necessariamente possui limites, visto que coisa alguma além do grande Criador pode ser ilimitada —, e nem mesmo esse espaço poderá excluir aquele que enche os céus e a terra.
4. Exatamente equivalente a isso é a expressão do apóstolo em Efésios 1.23 — não, como alguns imaginaram estranhamente, referindo-se à Igreja, mas àquele que é sua Cabeça: “A plenitude daquele que enche todas as coisas em todos”. A expressão grega, traduzida literalmente por “todas as coisas em todas as coisas”, constitui a mais forte declaração de universalidade que se poderia imaginar. Inclui necessariamente a última e a maior de todas as coisas existentes. Caso alguma expressão pudesse ser mais forte, seria ainda mais forte do que “encher os céus e a terra”.
5. Na realidade, a própria expressão “Não encho eu os céus e a terra?” — sendo a pergunta equivalente à mais forte afirmação — implica a declaração mais clara de que Deus está presente em todos os lugares e enche todo o espaço. É bem conhecido que a expressão hebraica “céus e terra” inclui todo o universo, toda a extensão do espaço, criado ou não criado, e todas as coisas que nele existem.
6. Não podemos crer na onipotência de Deus sem crer também em sua onipresença. Como foi observado anteriormente, nada pode atuar onde não está presente. Caso existisse algum espaço no qual Deus não estivesse, ele não poderia realizar coisa alguma ali. Portanto, negar a onipresença divina implica também negar sua onipotência. Colocar limites numa significa, sem dúvida, colocar limites na outra.
7. Onde quer que suponhamos que Deus não esteja, também supomos que todos os seus atributos sejam inúteis. Ali, não poderia exercer sua justiça nem sua misericórdia, seu poder nem sua sabedoria. No espaço exterior ao mundo, caso imaginemos que Deus não esteja presente, precisaríamos naturalmente supor que não possui duração naquele lugar. Como esse espaço seria considerado além dos limites da criação, também estaria além dos limites do poder do Criador. Tal é o absurdo contrário à glória de Deus incluído nessa suposição.
8. Contra tudo aquilo que se diz ou pode ser dito sobre a onipresença divina, o mundo apresenta uma grande objeção: as pessoas não conseguem vê-lo. Essa é, na realidade, a raiz de todas as demais objeções. Nosso bendito Senhor observou isso havia muito tempo: “O mundo não pode receber o Espírito, porque não o vê”. Não seria fácil responder: “Vocês podem ver o vento?”. Não podem. Por essa razão, negam sua existência ou presença? Dizem: “Não, porque conseguimos percebê-lo mediante outros sentidos”. Por qual sentido, porém, percebem a própria alma? Certamente não negam sua existência ou presença! Apesar disso, ela não é objeto da visão nem de qualquer outro sentido exterior. Seja suficiente considerar que Deus é Espírito, assim como nossa alma também é espírito. Consequentemente, nenhum ser humano o viu ou pode vê-lo com olhos de carne e sangue.
1. Admitindo que Deus está aqui, assim como em todos os lugares; que está ao redor de nossa cama e de nosso caminho; que nos cerca por trás e pela frente e coloca sua mão sobre nós, qual conclusão devemos extrair? Que uso devemos fazer dessa consideração solene? Não é correto e apropriado que nos humilhemos diante dos olhos de sua Majestade? Não deveríamos procurar reconhecer continuamente sua presença “com reverência e santo temor”? Não com o temor dos demônios, que creem e tremem, mas com o temor dos anjos, semelhante àquele experimentado pelos habitantes do céu quando, diante do esplendor excessivo da glória divina, até os serafins mais brilhantes cobrem o rosto com as asas.
2. Em segundo lugar, caso creiam que Deus está ao redor de sua cama e de seu caminho e observa todos os seus passos, cuidem para não realizar a menor ação, pronunciar a menor palavra nem permitir o menor pensamento que, segundo sabem, possa ofendê-lo. Suponham que um mensageiro de Deus, um anjo, estivesse agora ao seu lado, mantendo os olhos fixos sobre vocês. Não cuidariam de evitar toda palavra ou ação que soubessem que o ofenderia? Sim, suponham que apenas um companheiro mortal, uma pessoa santa, permanecesse ao seu lado. Não seriam extremamente cuidadosos com sua conduta, tanto nas palavras quanto nas ações? Quanto maior deveria ser seu cuidado quando sabem que não uma pessoa santa nem um anjo, mas o próprio Deus, o Santo “que habita a eternidade”, examina seu coração, sua língua e suas mãos a cada momento e que certamente os levará a julgamento por tudo aquilo que pensarem, falarem e praticarem debaixo do Sol!
3. Particularmente, caso não exista palavra em sua língua nem sílaba que pronunciem sem que ele a conheça completamente, como deveriam ser cuidadosos em “pôr guarda à boca e vigiar a porta dos lábios”! Como devem permanecer atentos em todas as suas conversas, tendo sido advertidos pelo Juiz de que “pelas suas palavras vocês serão justificados e pelas suas palavras serão condenados”! Como devem cuidar para que nenhuma palavra imprópria, sem amor ou até mesmo inútil saia de sua boca, mas somente “a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e transmita graça aos que ouvem”!
4. Sim, caso Deus veja nosso coração assim como nossas mãos, em todos os lugares, e conheça nossos pensamentos muito antes que sejam revestidos de palavras, com quanta seriedade deveríamos apresentar esta oração: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”! Como é necessário cooperarmos com ele, guardando nosso coração com toda diligência, até que tenha destruído as imaginações e os maus raciocínios, toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levado cativo todo pensamento à obediência de Cristo!
5. Por outro lado, caso já tenham se alistado debaixo do grande Capitão de sua salvação e estejam continuamente diante dos olhos dele, como deveriam ser zelosos e ativos para “combater o bom combate da fé e tomar posse da vida eterna”; para “participar dos sofrimentos como bons soldados de Cristo Jesus”; utilizar toda diligência, lutar o bom combate e fazer tudo aquilo que é agradável aos seus olhos! Como deveriam procurar cuidadosamente apresentar todos os seus caminhos para sua visão que tudo enxerga, a fim de que ele diga ao coração de vocês aquilo que proclamará em voz alta na grande assembleia dos seres humanos e dos anjos: “Muito bem, servos bons e fiéis!”
6. Para alcançar essas finalidades gloriosas, não poupem esforços para conservar continuamente uma percepção profunda, viva e alegre da bondosa presença de Deus. Nunca se esqueçam da abrangente palavra dirigida ao grande pai da fé: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso” — ou, antes, “o Deus plenamente suficiente” —; “ande na minha presença e seja íntegro”. Esperem alegremente que aquele diante de quem permanecem sempre os guie com seus olhos, sustente-os com sua mão protetora, preserve-os de todo mal e, depois de terem sofrido por um pouco, aperfeiçoe, firme, fortaleça e estabeleça vocês; e então os conserve irrepreensíveis até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!
Portsmouth, 12 de agosto de 1788.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.