SERMÃO 120
Sobre a veste nupcial
“Amigo, como você entrou aqui sem veste nupcial?” — a santidade sem a qual ninguém verá o Senhor, e a veste que só a graça oferece.
“E perguntou-lhe: ‘Amigo, como você entrou aqui sem veste nupcial?’ E ele emudeceu.”
(Mt 22.12, NAA)Antes de ler
Neste sermão, John Wesley rejeita duas interpretações da “veste nupcial”. A primeira a relacionava diretamente à preparação para participar da Ceia do Senhor. A segunda afirmava que ela representava exclusivamente a justiça de Cristo atribuída ao pecador.
Para Wesley, somos salvos somente pelos méritos de Cristo, mas essa salvação produz uma transformação real. A veste nupcial representa a santidade pessoal, a renovação da alma à imagem de Deus e a fé que atua pelo amor. A justiça de Cristo concede ao pecador o direito de entrar no Reino; a santidade torna-o moralmente preparado para desfrutá-lo.
As críticas à veneração de santos, ao catolicismo romano e às perseguições religiosas refletem os conflitos confessionais do século XVIII. Wesley também aplica sua denúncia aos protestantes que maltratavam familiares, empregados ou outras pessoas por motivo de consciência religiosa.
— Bispo Ildo Mello
1. Nos versículos anteriores ao texto, lemos: “Depois dessas coisas, Jesus voltou a falar-lhes por meio de parábolas e disse: Certo rei preparou uma festa de casamento para seu filho. Quando o rei entrou para ver os convidados, encontrou ali um homem que não vestia roupa apropriada para o casamento. E perguntou-lhe: ‘Amigo, como você entrou aqui sem veste nupcial?’ Ele, porém, ficou sem palavras. Então o rei disse aos servos: ‘Amarrem-lhe os pés e as mãos e lancem-no nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’”
2. A respeito dessa parábola, um de nossos mais conhecidos comentaristas escreveu: “O propósito desta parábola é mostrar a provisão graciosa que Deus ofereceu aos seres humanos por meio da pregação do evangelho. Para convidá-los, Deus enviou seus servos, os profetas e os apóstolos.” Depois, comentando as palavras: “Como você entrou aqui sem veste nupcial?”, prossegue: “A punição desse homem não deve desanimar-nos nem fazer-nos voltar as costas às santas ordenanças.” Certamente não deve. Nada disso, porém, pode ser deduzido dessa parábola, que não possui relação maior com as ordenanças do que com o batismo ou o casamento. Provavelmente, ninguém teria imaginado semelhante interpretação se a palavra “festa” não aparecesse no texto.
3. Apesar disso, a maioria dos comentaristas ingleses caiu no mesmo erro do senhor Burkitt, assim como milhares de seus leitores. Trata-se realmente de erro, sem qualquer fundamento no texto. É verdade que ninguém deve aproximar-se da mesa do Senhor sem possuir pelo menos uma preparação habitual, ainda que não possua preparação específica naquele momento. Essa preparação consiste no firme propósito de guardar todos os mandamentos de Deus e no desejo sincero de receber todas as suas promessas. Essa obrigação, porém, não pode ser deduzida deste texto, ainda que possa ser demonstrada por diversas outras passagens das Escrituras. Não é necessário multiplicar textos; um é tão suficiente quanto mil. Para levar uma pessoa de consciência sensível a participar da Ceia em todas as oportunidades, basta este único mandamento de nosso Senhor: “Façam isto em memória de mim.”
4. Qualquer que seja a preparação necessária para participarmos dignamente da Ceia do Senhor, ela não possui relação alguma com a “veste nupcial” mencionada nesta parábola. Não poderia possuir, pois a celebração em memória da morte de Cristo ainda não havia sido instituída. A parábola se refere inteiramente aos procedimentos de nosso Senhor quando vier nas nuvens do céu para julgar os vivos e os mortos e às qualificações que serão necessárias para que as pessoas herdem “o Reino preparado para elas desde a fundação do mundo”.
5. Muitos homens excelentes, plenamente conscientes de que a veste nupcial não representa uma qualificação para a Ceia, mas a qualificação para a glória, interpretam-na como a justiça de Cristo. Dizem que ela constitui a única qualificação para o céu, pois seria a única justiça na qual alguém poderia permanecer em pé no Dia do Senhor. Perguntam: “Quem ousará comparecer diante do grande Deus a não ser revestido da justiça de seu Filho amado? Não perceberemos então, caso não tenhamos percebido anteriormente, que necessitamos de uma justiça melhor do que a nossa? E qual poderia ser essa justiça, a não ser a justiça de Deus, nosso Salvador?” O falecido, piedoso e inteligente senhor Hervey desenvolveu longamente esse pensamento, especialmente em seus elaborados Diálogos entre Theron e Aspasio.
6. Outro escritor elegante, que atualmente, segundo espero, encontra-se com Deus, falou vigorosamente no mesmo sentido no prefácio de seu comentário à Carta de Paulo aos Romanos: “Certamente, necessitaremos de uma justiça melhor do que a nossa, na qual possamos permanecer diante do tribunal de Deus no dia do julgamento.” Não compreendo essa expressão. Ela é bíblica? Encontramo-la em alguma parte do Antigo ou do Novo Testamento? Receio que seja uma expressão estranha, não bíblica e sem significado determinado. Caso a pergunta incomum “Em qual justiça você permanecerá no último dia?” signifique “Por causa de quem ou por mérito de quem você espera entrar na glória de Deus?”, respondo sem hesitação: por causa de Jesus Cristo, o Justo. Somente por seus méritos todos os crentes são salvos: justificados, isto é, salvos da culpa do pecado; santificados, isto é, salvos da natureza do pecado; e glorificados, isto é, recebidos no céu.
7. Poderá ser proveitoso acrescentar algumas palavras sobre esse ponto importante. Seria possível imaginar expressão mais difícil de compreender do que esta: “Em qual justiça permaneceremos diante de Deus no último dia?” Por que não falar claramente e perguntar: “Por causa de quem você espera ser salvo?” Qualquer trabalhador simples responderia imediatamente: “Por causa de Jesus Cristo.” Todas essas expressões obscuras e ambíguas somente confundem a questão e abrem caminho para que ouvintes desprevenidos caiam no antinomianismo.
8. Existe nas Escrituras alguma expressão semelhante à “veste nupcial”? No Apocalipse, menciona-se o “linho finíssimo, resplandecente e puro, que são os atos de justiça dos santos”. Muitos sustentam vigorosamente que isso também significa a justiça de Cristo. Como, porém, conciliaremos essa afirmação com a passagem do sétimo capítulo: “Lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro”? Dirão que a justiça de Cristo foi lavada e alvejada no sangue de Cristo? Abandonemos semelhante linguagem antinomiana! O significado evidente não seria este: a própria justiça dos santos recebe do sangue expiatório de Cristo todo o seu valor e sua aceitação diante de Deus?
9. No capítulo 19 do Apocalipse, versículo 9, encontramos expressão muito mais próxima desta: “a ceia das bodas do Cordeiro”. Existe grande semelhança entre ela e a festa de casamento mencionada na parábola. Não são, porém, exatamente a mesma coisa; existe clara diferença. A festa mencionada na parábola pertence à Igreja militante; aquela mencionada no Apocalipse, à Igreja triunfante. A primeira pertence ao Reino de Deus na terra; a segunda, ao Reino de Deus no céu. Por isso, na primeira poderão ser encontradas pessoas que não possuem “veste nupcial”. Na segunda, nenhuma pessoa estará sem ela. Naquela “grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas”, todos serão reis e sacerdotes para Deus e reinarão com ele para todo o sempre.
10. A expressão “os atos de justiça dos santos” não indica aquilo que constitui a “veste nupcial” da parábola? É “a santidade sem a qual ninguém verá o Senhor”. A justiça de Cristo é, sem dúvida, necessária para toda pessoa que entra na glória, mas a santidade pessoal também é necessária para todo filho dos seres humanos. É extremamente importante observar que são necessárias em sentidos diferentes. A justiça de Cristo é necessária para conceder-nos o direito ao céu; a santidade, para preparar-nos para ele. Sem a justiça de Cristo, não possuiríamos reivindicação alguma à glória; sem santidade, não estaríamos preparados para desfrutá-la. Pela primeira, tornamo-nos membros de Cristo, filhos de Deus e herdeiros do Reino dos Céus. Pela segunda, somos “habilitados para participar da herança dos santos na luz”.
11. Desde o momento em que o Filho de Deus transmitiu aos seres humanos esta verdade importante — que todos aqueles que não possuíssem a “veste nupcial” seriam lançados nas trevas exteriores, onde haveria choro e ranger de dentes —, o inimigo das almas trabalha para obscurecê-la, a fim de que continuem procurando a morte no erro de sua vida. De muitas maneiras, procurou disfarçar a santidade sem a qual não podemos ser salvos. Quantas coisas foram impostas até mesmo ao mundo cristão no lugar dela! Algumas são completamente contrárias à santidade e a destroem. Outras não possuem relação alguma com ela e são apenas insignificâncias inúteis. Outras poderão ser consideradas parte da santidade, mas de modo algum constituem sua totalidade. Será proveitoso enumerar algumas delas, para que não ignoremos os artifícios de Satanás.
12. Entre as coisas apresentadas como santidade cristã, embora sejam diretamente contrárias a ela, encontra-se a idolatria. De quantas formas ela foi ensinada, e ainda é, como se fosse essencial à santidade! Como é promovida diligentemente numa grande parte da Igreja cristã! Alguns de seus ídolos são de prata, ouro, madeira ou pedra, “produzidos pela arte e imaginação humana”. Outros são seres humanos sujeitos às mesmas fraquezas que nós, especialmente os apóstolos de nosso Senhor e a Virgem Maria. A estes, acrescentam incontáveis santos criados por eles mesmos e numerosa companhia de anjos.
13. Outra coisa diretamente contrária a toda a natureza da verdadeira religião, mas ensinada diligentemente em muitas partes da Igreja cristã, é o espírito de perseguição: perseguir irmãos até a morte, de modo que a terra foi muitas vezes coberta de sangue por pessoas chamadas cristãs, como se por esse meio pudessem “confirmar sua vocação e eleição”. É verdade que muitos, até mesmo na Igreja de Roma, que receberam esse terrível ensino, atualmente parecem envergonhar-se dele. Os dirigentes daquela comunidade, porém, renunciaram pública e explicitamente àquela doutrina, como publicamente a afirmaram no Concílio de Constança e a praticaram durante muitos séculos? Enquanto não fizerem isso, continuarão responsáveis, diante de Deus e das pessoas, pela morte de Jerônimo de Praga e de muitos milhares de outras pessoas.
14. Não se diga: “Isso não diz respeito a nós, protestantes. Permitimos que as pessoas pensem livremente. Detestamos o espírito de perseguição e sustentamos como verdade indiscutível que toda criatura racional possui o direito de adorar a Deus segundo sua própria consciência.” Somos, porém, fiéis aos nossos princípios? É verdade que não utilizamos fogueiras nem perseguimos até a morte aqueles que não aceitam nossas opiniões. Bendito seja Deus, pois as leis de nosso país não permitem isso. Não existe, porém, perseguição dentro das próprias casas na Inglaterra? Dizer ou fazer alguma coisa cruel a outra pessoa por ela seguir a própria consciência constitui espécie de perseguição. Estamos todos livres disso? Não existe marido que, nesse sentido, persiga a esposa, tratando-a com crueldade em palavras ou ações porque ela adora a Deus segundo sua consciência? Não existem pais que perseguem assim os filhos, ou patrões e patroas que perseguem os empregados? Caso façam isso e ainda imaginem estar servindo a Deus, não devem lançar a primeira pedra contra os católicos romanos.
15. Quando coisas indiferentes são apresentadas como necessárias à salvação, encontramos insensatez da mesma espécie, embora não da mesma gravidade. Não é pecado pequeno representar insignificâncias como necessárias à salvação, como peregrinações ou qualquer coisa não ordenada expressamente nas Escrituras. Entre elas, podemos incluir sem dúvida a ortodoxia, isto é, as opiniões corretas. Sabemos realmente que opiniões religiosas erradas conduzem naturalmente a disposições e práticas erradas. Por isso, temos o dever de orar para possuir julgamento correto em todas as coisas. Apesar disso, alguém poderá julgar as questões com a mesma exatidão do diabo e continuar tão perverso quanto ele.
16. Um pouco mais desculpáveis são aqueles que imaginam que a santidade consiste em coisas que constituem apenas parte dela — quando estão ligadas ao restante, pois, separadas dele, nem sequer são parte da santidade. Suponhamos que a reduzam a não praticar o mal. Como isso é comum! Quantas pessoas consideram santidade e ausência de maldade exatamente a mesma coisa! Ainda que alguém fosse tão inofensivo quanto um poste, poderia permanecer tão distante da santidade quanto o céu está distante da terra. Suponhamos, então, que uma pessoa seja rigorosamente honesta, pague tudo aquilo que deve, não engane nem prejudique pessoa alguma e seja justa em todos os negócios. Suponhamos que uma mulher seja sempre recatada e virtuosa em todas as palavras e ações. Suponhamos que ambos pratiquem firmemente a moralidade, isto é, a justiça, a misericórdia e a verdade. Tudo isso é bom na medida em que alcança, mas constitui somente parte da santidade cristã. Suponhamos ainda que essa pessoa de caráter amável pratique muito bem onde quer que esteja: alimente os famintos, vista aqueles que não possuem roupas, ajude os estrangeiros, os enfermos e os presos e até salve muitas almas da morte. Ainda assim, poderá estar muito distante daquela santidade sem a qual não poderá ver o Senhor.
17. Qual é, então, a santidade que constitui a verdadeira “veste nupcial”, a única qualificação para a glória? “Em Cristo Jesus” — isto é, segundo a instituição cristã, independentemente da situação do mundo pagão — “nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas o que importa é ser nova criação”: a renovação da alma “à imagem de Deus na qual foi criada”. “Em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” Mediante a ação de Deus, a fé produz primeiramente amor a Deus e a toda a humanidade; e, por meio desse amor, todas as disposições santas e celestiais, especialmente a humildade, a mansidão, a gentileza, o domínio próprio e a paciência. Não é a “circuncisão”, isto é, a participação em todas as ordenanças cristãs; nem a “incircuncisão”, isto é, o cumprimento de toda a moralidade pagã; mas “a observância dos mandamentos de Deus”, especialmente estes: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o coração” e “ame o próximo como a si mesmo”. Resumindo: santidade é possuir “a mesma atitude que houve também em Cristo Jesus” e “andar como ele andou”.
18. Esse tem sido meu julgamento durante sessenta anos, sem qualquer mudança importante. Somente cerca de cinquenta anos atrás recebi compreensão mais clara da justificação pela fé. Desde aquele momento, porém, não me afastei dela nem pela largura de um fio de cabelo. Apesar disso, um homem inteligente acusou-me publicamente de milhares de mudanças. Oro para que Deus não leve isso em conta contra ele! Atualmente, encontro-me à beira da sepultura, mas, pela graça de Deus, ainda apresento a mesma confissão. Algumas pessoas imaginaram que, quando comecei a anunciar: “Pela graça vocês são salvos, mediante a fé”, abandonei aquilo que havia ensinado anteriormente: “Sem santidade ninguém verá o Senhor.” Isso é completo engano. As duas passagens concordam perfeitamente. O significado da primeira é este: pela fé somos salvos do pecado e tornados santos. A ideia de que a fé substitui ou elimina a santidade constitui a própria essência do antinomianismo.
19. O resumo de tudo é este: o Deus de amor deseja salvar todas as almas que criou. Proclamou isso em sua Palavra, juntamente com as condições da salvação, reveladas pelo Filho de seu amor, que entregou a própria vida para que todos os que nele creem tenham a vida eterna. Para eles, preparou um Reino desde a fundação do mundo. Deus, porém, não os forçará a aceitá-lo. Deixa-os nas mãos da própria decisão e declara: “Eis que coloco diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolham, pois, a vida, para que vivam.” Escolham, por minha graça, a santidade, que é o caminho, o único caminho, para a vida eterna. Ele clama: “Sejam santos e sejam felizes; felizes neste mundo e felizes no mundo que virá.” “A santidade convém à tua casa para todo o sempre!” Essa é a veste nupcial de todos os chamados “às bodas do Cordeiro”. Revestidos dela, não serão encontrados nus. “Lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” A respeito daqueles que aparecerem no último dia sem a veste nupcial, o Juiz dirá: “Lancem-nos nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.”
Madeley, 26 de março de 1790.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.