SERMÃO 33
Os dois fundamentos
Último dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.
“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus… Todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia.”
(Mt 7.21–27, NAA)Antes de ler
Chegamos ao fecho da maior série da coletânea. Depois de treze discursos, Wesley encerra o Sermão do Monte com a própria conclusão de Jesus: os dois fundamentos. E ele a aplica com uma franqueza que atravessa camada após camada da falsa segurança religiosa — as boas palavras, o não fazer mal, as boas obras, até o pregar e operar maravilhas em nome de Cristo. Nada disso, mostra ele, é a rocha. A rocha é Cristo, recebido pela fé que produz a religião do coração descrita em toda a série. A aplicação final é um resumo comovente de tudo: seja pobre de espírito, chore, seja manso, tenha fome de justiça, seja misericordioso, puro de coração, e ame a Deus e a todos.
— Bispo Ildo Mello
1. O nosso divino Mestre, tendo declarado todo o desígnio de Deus quanto ao caminho da salvação, e observado os principais estorvos dos que desejam andar nele, encerra agora tudo com estas palavras de peso; pondo, por assim dizer, o seu selo sobre a sua profecia e imprimindo toda a sua autoridade sobre o que havia dito, para que permanecesse firme por todas as gerações. Pois assim diz o Senhor, para que ninguém jamais conceba haver outro caminho senão este: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele Dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.”
2. Pretendo, no discurso que se segue, primeiro, considerar o caso daquele que assim edifica a sua casa sobre a areia; segundo, mostrar a sabedoria daquele que edifica sobre a rocha; e, terceiro, concluir com uma aplicação prática.
I. A casa sobre a areia
1. É a respeito dele que o nosso Senhor diz: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus.” E este é um decreto que não pode passar, que permanece firme para todo o sempre. Importa-nos, portanto, no mais alto grau, entender a fundo a força destas palavras. Ora, o que devemos entender por aquela expressão “que me diz: Senhor, Senhor”? Sem dúvida significa: “que pensa ir para o céu por qualquer outro caminho que não o que acabei de descrever”. Implica, portanto (para começar pelo ponto mais baixo), todas as boas palavras, toda religião verbal. Inclui quaisquer credos que recitemos, quaisquer profissões de fé que façamos, qualquer número de orações que repitamos, quaisquer ações de graças que leiamos ou digamos a Deus. Podemos falar bem do seu nome e declarar a sua benignidade aos filhos dos homens. Podemos falar de todos os seus feitos poderosos e anunciar a sua salvação dia após dia. Podemos explicar os mistérios do seu Reino, ocultos desde o princípio do mundo. Podemos proclamar aos pecadores: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” Sim, podemos fazer isto com tal medida do poder de Deus, e tal demonstração do seu Espírito, que salvemos muitas almas da morte e cubramos uma multidão de pecados. E, contudo, é bem possível que tudo isto não seja mais do que dizer “Senhor, Senhor”. Depois de haver assim pregado com êxito aos outros, eu mesmo posso vir a ser reprovado. Posso, na mão de Deus, arrancar muitas almas do inferno e, contudo, cair nele quando tiver terminado. Leitor, se alguma vez Deus abençoou a minha palavra à tua alma, ora para que ele seja misericordioso comigo, pecador!
2. O dizer “Senhor, Senhor” pode, segundo, implicar o não fazer mal. Podemos abster-nos de todo pecado presunçoso, de todo tipo de maldade exterior. Podemos ser capazes de dizer a todos entre os quais vivemos: “Qual de vocês me convence de pecado?” Podemos ter uma consciência sem ofensa exterior, para com Deus e para com os homens; podemos ser, “quanto à justiça que há na lei”, isto é, à justiça exterior, “irrepreensíveis” (Fp 3.6). E, contudo, não somos por isso justificados. Ainda assim, isto não é mais do que dizer “Senhor, Senhor”; e, se não formos além disto, nunca “entraremos no Reino dos céus”.
3. O dizer “Senhor, Senhor” pode implicar, terceiro, muitas das que costumam ser chamadas boas obras. O homem pode participar da Ceia do Senhor, ouvir abundância de excelentes sermões e não omitir ocasião alguma de participar de todas as demais ordenanças de Deus. Posso fazer o bem ao próximo, repartir o meu pão com o faminto e cobrir o nu com uma veste. Posso ser tão zeloso de boas obras que até “distribua todos os meus bens para sustento dos pobres”. Sim, e posso fazer tudo isto com o desejo de agradar a Deus, e na crença real de que assim o agrado (o que é inegavelmente o caso daqueles que o nosso Senhor apresenta, dizendo-lhe “Senhor, Senhor”); e, ainda assim, posso não ter parte alguma na glória que há de ser revelada.
4. Se alguém se admira disto, reconheça que é estranho a toda a religião de Jesus Cristo e, em particular, àquele retrato perfeito dela que ele nos pôs diante neste discurso. Pois quão longe fica tudo isto daquela justiça e verdadeira santidade que ele ali descreveu! Quão distante daquele reino interior dos céus que agora se abre na alma crente — que primeiro é semeado no coração como um grão de mostarda, mas depois lança grandes ramos, sobre os quais crescem todos os frutos da justiça, toda boa disposição, palavra e obra.
5. Contudo, por mais claramente que ele tenha declarado isto, por mais frequentemente que tenha repetido que nenhum dos que não têm este reino de Deus dentro de si entrará no Reino dos céus, o nosso Senhor bem sabia que muitos não receberiam esta palavra, e por isso a confirma ainda uma vez: “Muitos” (diz ele: não um; não só uns poucos; não é caso raro ou incomum) “hão de dizer-me naquele Dia”, não só “fizemos muitas orações; falamos o teu louvor; abstivemo-nos do mal; exercitamo-nos em fazer o bem” — mas, o que é muito mais do que isto: “profetizamos em teu nome; em teu nome expelimos demônios; em teu nome fizemos muitos milagres”. “Profetizamos”: declaramos a tua vontade à humanidade; mostramos aos pecadores o caminho da paz e da glória. E fizemos isto “em teu nome”, segundo a verdade do teu evangelho; sim, e pela tua autoridade, tu que confirmaste a palavra com o Espírito Santo enviado do céu. Pois, em teu nome, pelo poder da tua palavra e do teu Espírito, “expelimos demônios” das almas que eles há muito reclamavam como suas. “E em teu nome”, pelo teu poder, não pelo nosso, “fizemos muitos milagres”. “Então, lhes direi” até “a eles: nunca vos conheci”; não, nem sequer então, quando “expelíeis demônios em meu nome”. Mesmo então, eu não vos conhecia como meus, pois o vosso coração não era reto para com Deus. Vós mesmos não éreis mansos e humildes; não éreis amantes de Deus e de toda a humanidade; não éreis renovados à imagem de Deus; não éreis santos como eu sou santo. “Apartai-vos de mim, vós” que, apesar de tudo isto, “praticais a iniquidade” — sois transgressores da minha lei, a minha lei de santo e perfeito amor.
6. É para pôr isto além de toda possibilidade de contradição que o nosso Senhor o confirma com aquela apropriada comparação: “Todo aquele”, diz ele, “que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. E caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa” — como certamente farão, mais cedo ou mais tarde, contra toda alma humana; sim, as torrentes da aflição exterior, ou da tentação interior; as tempestades do orgulho, da ira, do medo ou do desejo — “e ela caiu, sendo grande a sua ruína”. De modo que pereceu para todo o sempre. Tal há de ser a porção de todos os que descansam em algo aquém daquela religião acima descrita. E tanto maior será a sua queda, porque “ouviram estas palavras e”, contudo, “não as praticaram”.
II. A casa sobre a rocha
1. Passo, segundo, a mostrar a sabedoria daquele que as pratica, que edifica a sua casa sobre a rocha. Sábio é, de fato, aquele “que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”. É verdadeiramente sábio aquele cuja “justiça excede a justiça dos escribas e fariseus”. É pobre de espírito, conhecendo-se a si mesmo tal como também é conhecido. Vê e sente todo o seu pecado e toda a sua culpa, até serem lavados pelo sangue expiatório. É manso e gentil, paciente para com todos os homens, nunca “retribuindo mal por mal, ou injúria por injúria, mas, pelo contrário, bendizendo”, até vencer o mal com o bem. A sua alma nada tem sede na terra senão de Deus, o Deus vivo. Tem entranhas de amor por toda a humanidade e está pronto a dar a vida pelos seus inimigos. Ama o Senhor, seu Deus, de todo o coração, de todo o entendimento, de toda a alma e força. Só ele entrará no Reino dos céus — aquele que, nesse espírito, faz o bem a todos; e que, sendo por essa causa desprezado e rejeitado dos homens, sendo odiado, injuriado e perseguido, se alegra e “exulta”, sabendo em quem tem crido e estando certo de que estas leves e momentâneas aflições “lhe produzirão um eterno peso de glória”.
2. Quão verdadeiramente sábio é este homem! Conhece a si mesmo — um espírito imortal, que saiu de Deus e foi enviado a uma casa de barro, não para fazer a própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou. Conhece o mundo — o lugar em que há de passar alguns dias ou anos, não como habitante, mas como estrangeiro e peregrino, a caminho das moradas eternas; e, por isso, usa o mundo como quem dele não abusa, e como quem sabe que a sua aparência passa. Conhece a Deus — seu Pai e seu Amigo, o autor de todo bem, o único bem-aventurança de todos os seres inteligentes. Vê, mais claramente do que a luz do sol do meio-dia, que este é o fim do homem: glorificar aquele que o fez para si mesmo, e amá-lo e desfrutá-lo para sempre. E com igual clareza vê o meio para esse fim — para o desfrutar de Deus na glória: conhecer, amar e imitar a Deus, e crer em Jesus Cristo, a quem ele enviou.
3. É um homem sábio, mesmo na conta de Deus, pois “edifica a sua casa sobre a rocha” — sobre a Rocha das eras, a Rocha eterna, o Senhor Jesus Cristo. Com propriedade é assim chamado, pois ele não muda: é “o mesmo ontem, hoje e para sempre”. Dele testemunham tanto o homem de Deus de outrora quanto o apóstolo que cita as suas palavras: “Tu, Senhor, no princípio, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces; envelhecerão todos como uma veste; como um manto os enrolarás, e, como vestes, serão igualmente mudados. Tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim” (Hb 1.10–12). Sábio, portanto, é o homem que edifica sobre ele; que o toma por seu único fundamento; que edifica somente sobre o seu sangue e a sua justiça, sobre o que ele fez e sofreu por nós. Nessa pedra angular ele firma a sua fé e repousa todo o peso da sua alma. É ensinado por Deus a dizer: “Senhor, eu pequei; mereço o mais fundo inferno; mas sou justificado gratuitamente pela tua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; e a vida que agora vivo, vivo-a pela fé naquele que me amou e se entregou por mim — a vida que agora vivo, a saber, uma vida divina e celestial, uma vida que está escondida com Cristo em Deus. Vivo agora, mesmo na carne, uma vida de amor; de puro amor tanto a Deus quanto ao homem; uma vida de santidade e felicidade; louvando a Deus e fazendo tudo para a sua glória.”
4. Contudo, não pense esse tal que não verá mais guerra; que está agora fora do alcance da tentação. Ainda resta a Deus provar a graça que lhe deu: será provado como ouro no fogo. Será tentado não menos do que os que não conhecem a Deus; talvez muito mais, pois Satanás não deixará de provar até o limite aqueles que não é capaz de destruir. Assim, “a chuva” descerá com ímpeto; só que em tais tempos e de tal maneira que pareça bom, não ao príncipe da potestade do ar, mas àquele “cujo reino domina sobre tudo”. “Os rios”, ou torrentes, virão; levantarão as suas ondas e bramirão horrivelmente. Mas também a eles o Senhor, que se assenta acima das águas, que permanece Rei para sempre, dirá: “Até aqui virás e não mais adiante; aqui se quebrarão as tuas ondas soberbas.” “Os ventos soprarão e darão contra aquela casa”, como se a quisessem arrancar do fundamento; mas não prevalecerão: ela não cai, pois está fundada sobre a rocha. Ele edifica sobre Cristo pela fé e pelo amor; por isso, não será abatido. “Não temerá, ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares.” Ainda que “as águas rujam e espumem, e os montes se estremeçam ao seu ímpeto”, ele ainda “habita no esconderijo do Altíssimo e está seguro à sombra do Todo-Poderoso”.
III. Aplicação
1. Quão de perto, então, diz respeito a cada filho de homem aplicar praticamente estas coisas a si mesmo! Examinar diligentemente sobre que fundamento edifica, se sobre a rocha ou sobre a areia! Quão profundamente lhe interessa perguntar: “Qual é o fundamento da minha esperança? Sobre o que edifico a minha expectativa de entrar no Reino dos céus? Não estará ela edificada sobre a areia — sobre a minha ortodoxia, as minhas opiniões corretas, que, por um grosseiro abuso de palavras, chamei de fé? Sobre o fato de eu ter um conjunto de noções, digamos, mais racionais ou bíblicas do que as dos outros?” Ai! que loucura é esta! Certamente isto é edificar sobre a areia, ou antes, sobre a espuma do mar! Diga: “Estou convencido disto. Mas não estarei, de novo, edificando a minha esperança sobre algo igualmente incapaz de sustentá-la? Talvez sobre o meu pertencer a uma igreja tão excelente, reformada segundo o verdadeiro modelo bíblico, abençoada com a mais pura doutrina, a mais primitiva liturgia, a mais apostólica forma de governo!” Estas são, sem dúvida, outras tantas razões para louvar a Deus, na medida em que podem ser outras tantas ajudas à santidade; mas não são a santidade em si; e, se estiverem separadas dela, de nada me aproveitarão. Portanto, se edifico a minha esperança sobre este fundamento, ainda estou edificando sobre a areia.
2. Você não pode, você não ousa parar aqui. Sobre o que edificará em seguida a sua esperança de salvação? Sobre a sua inocência? Sobre o seu não fazer mal, o seu não lesar nem ferir ninguém? Pois bem; admita-se que esse argumento seja verdadeiro. Você é justo em todas as suas transações; é um homem francamente honesto; paga a cada um o que lhe é devido; nem engana, nem extorque; age com retidão para com todos; e tem uma consciência para com Deus; não vive em nenhum pecado conhecido. Até aí, muito bem: mas ainda não é o essencial. Você pode ir tão longe e, contudo, nunca chegar ao céu. Quando toda essa inocuidade flui de um princípio reto, ela é a menor parte da religião de Cristo. Mas em você ela não flui de um princípio reto e, portanto, não é parte alguma da religião. De modo que, fundando nisto a sua esperança de salvação, você ainda edifica sobre a areia.
3. Você vai mais longe ainda? Acrescenta, ao não fazer mal, a assistência a todas as ordenanças de Deus? Participa, em toda oportunidade, da Ceia do Senhor? Usa a oração pública e particular? Jejua muitas vezes? Ouve e perscruta as Escrituras, e nelas medita? Estas coisas, também, você devia ter feito, desde o tempo em que primeiro voltou o rosto para o céu. Contudo, também estas coisas são nada, quando sozinhas. Nada são sem “as questões mais importantes da lei”. E dessas você se esqueceu; ao menos, não as experimenta: a fé, a misericórdia e o amor de Deus; a santidade do coração; o céu aberto na alma. Ainda, portanto, você edifica sobre a areia.
4. Além de tudo isto, você é zeloso de boas obras? Faz, conforme tem tempo, o bem a todos os homens? Alimenta o faminto, veste o nu, visita o órfão e a viúva na sua aflição? Amigo, sobe mais alto! Você “profetiza” em “nome” de Cristo? Prega a verdade como ela é em Jesus? E a influência do seu Espírito acompanha a sua palavra e a torna o poder de Deus para a salvação? Ele o capacita a trazer pecadores das trevas para a luz, do poder de Satanás para Deus? Então vá e aprenda o que tantas vezes ensinou: “Pela graça sois salvos, mediante a fé”; “não por obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou”. Aprenda a pender nu sobre a cruz de Cristo, tendo tudo o que fez por esterco e escória. Recorra a ele exatamente no espírito do ladrão moribundo, da meretriz com os seus sete demônios! Do contrário, você ainda está sobre a areia; e, depois de salvar outros, perderá a própria alma.
5. Senhor, aumenta a minha fé, se agora creio! Do contrário, dá-me fé, ainda que só como um grão de mostarda! Mas “que aproveita se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Pode, acaso, essa fé salvá-lo?” Ó não! Aquela fé que não tem obras, que não produz santidade interior e exterior, que não grava toda a imagem de Deus no coração e não nos purifica como ele é puro; aquela fé que não produz toda a religião descrita nos capítulos anteriores, não é a fé do evangelho, não é a fé cristã, não é a fé que conduz à glória. Ó, acautele-se disto, acima de todas as outras ciladas do diabo — de descansar numa fé sem santidade e que não salva! Se você der peso a isto, está perdido para sempre; ainda edifica a sua casa sobre a areia. Quando “a chuva descer e os rios transbordarem, certamente ela cairá, e grande será a sua ruína”.
6. Agora, portanto, edifique você sobre a rocha. Pela graça de Deus, conheça a si mesmo. Saiba e sinta que foi formado na iniquidade e que em pecado o concebeu sua mãe; e que você mesmo tem amontoado pecado sobre pecado, desde que soube discernir o bem do mal. Reconheça-se réu de morte eterna e renuncie a toda esperança de algum dia ser capaz de salvar-se. Seja toda a sua esperança a de ser lavado no sangue dele e purificado pelo seu Espírito — dele, “que levou” todos “os teus pecados no seu corpo, sobre o madeiro”. E, se você sabe que ele tirou os seus pecados, tanto mais se abata diante dele, num contínuo senso da sua total dependência dele para todo bom pensamento, palavra e obra, e da sua completa incapacidade para todo bem, a menos que ele o “regue a cada momento”.
7. Agora chore pelos seus pecados e pranteie por Deus, até que ele converta o seu abatimento em alegria. E, mesmo então, chore com os que choram, e por aqueles que não choram por si mesmos. Prantei pelos pecados e misérias da humanidade; e veja, mesmo diante dos seus olhos, o imenso oceano da eternidade, sem fundo nem margem, que já engoliu milhões de milhões de homens e se escancara para devorar os que ainda restam! Veja aqui a casa de Deus, eterna nos céus; ali, o inferno e a destruição a descoberto! E daí aprenda a importância de cada momento, que apenas surge e se vai para sempre!
8. Agora acrescente à sua seriedade a mansidão da sabedoria. Mantenha a balança certa quanto a todas as suas paixões, mas em particular quanto à ira, à tristeza e ao medo. Aquiesça calmamente a tudo o que é a vontade de Deus. Aprenda, em todo estado em que se ache, a estar contente. Seja brando com os bons; seja gentil para com todos os homens, mas especialmente para com os maus e ingratos. Acautele-se, não só das expressões exteriores de ira, como chamar o irmão de “Racá” ou “Tolo”, mas de toda emoção interior contrária ao amor, ainda que não vá além do coração. Ire-se contra o pecado, como afronta feita à Majestade do céu; mas ame ainda o pecador — como o nosso Senhor, que “olhou ao redor para os fariseus com indignação, condoído com a dureza dos seus corações”. Ele se entristecia pelos pecadores e se irava contra o pecado. Assim, “irai-vos e não pequeis!”
9. Agora tenha você fome e sede, não da “comida que perece, mas da que subsiste para a vida eterna”. Pise sob os pés o mundo e as coisas do mundo — todas essas riquezas, honras, prazeres. Que é o mundo para você? Deixe os mortos sepultarem os seus mortos; mas siga você em busca da imagem de Deus. E acautele-se de apagar essa bendita sede, se ela já foi despertada na sua alma, com o que vulgarmente se chama religião — uma pobre e insossa farsa, uma religião de forma, de aparência exterior, que deixa o coração ainda apegado ao pó, tão terreno e sensual como sempre. Nada o satisfaça senão o poder da piedade, senão uma religião que é espírito e vida; o habitar em Deus e Deus em você; o ser habitante da eternidade; o entrar, pelo sangue da aspersão, “para dentro do véu”, e o “assentar-se nos lugares celestiais em Cristo Jesus”!
10. Agora, visto que você pode todas as coisas em Cristo que o fortalece, seja misericordioso como o seu Pai celestial é misericordioso! Ame o próximo como a si mesmo! Ame os amigos e os inimigos como à sua própria alma! E seja o seu amor longânimo e paciente para com todos os homens. Seja bondoso, brando, benigno; inspirando você com a mais amável doçura e o mais fervoroso e terno afeto. Alegre-se com a verdade, onde quer que se ache; a verdade que é segundo a piedade. Desfrute de tudo o que traz glória a Deus e promove a paz e a boa vontade entre os homens. No amor, tudo desculpe — dos mortos e dos ausentes nada dizendo senão o bem; tudo creia, que de algum modo possa esclarecer o bom nome do próximo; tudo espere em seu favor; e tudo suporte, triunfando sobre toda oposição: pois o verdadeiro amor nunca acaba, nem no tempo, nem na eternidade.
11. Agora seja você puro de coração; purificado pela fé de toda afeição sem santidade; “purificando-se de toda impureza da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus”. Sendo, pelo poder da sua graça, purificado do orgulho, pela profunda pobreza de espírito; da ira, de toda paixão desamorosa ou turbulenta, pela mansidão e misericórdia; de todo desejo que não seja o de agradar a Deus e desfrutá-lo, pela fome e sede de justiça — agora ame o Senhor, seu Deus, de todo o coração e com toda a força!
12. Numa palavra: seja a sua religião a religião do coração. Que ela repouse fundo na sua alma mais íntima. Seja você pequeno, humilde, desprezível e vil (além do que as palavras podem exprimir) aos seus próprios olhos; maravilhado e humilhado até o pó pelo amor de Deus, que está em Cristo Jesus. Seja sério. Que toda a corrente dos seus pensamentos, palavras e ações flua da mais profunda convicção de que você está à beira do grande abismo — você e todos os filhos dos homens —, prestes a cair, ou na glória eterna, ou nas chamas eternas! Que a sua alma se encha de brandura, gentileza, paciência e longanimidade para com todos os homens — ao mesmo tempo que tudo o que há em você tem sede de Deus, do Deus vivo, anelando por despertar à sua semelhança e ficar satisfeito com ela! Seja você um amante de Deus e de toda a humanidade! Nesse espírito, faça e sofra todas as coisas! Assim mostre a sua fé pelas suas obras; assim “faça a vontade do seu Pai, que está nos céus!” E, tão certo como agora você anda com Deus na terra, também reinará com ele na glória!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.