SERMÃO 40

A perfeição cristã

Em que sentido os cristãos não são perfeitos — e em que sentido podem ser.

Fp 3.12, NAA ⏱ 22 min de leituraSantidade e perfeição

“Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição.”

(Fp 3.12, NAA)

Antes de ler

Poucas expressões da teologia de Wesley foram tão mal compreendidas quanto “perfeição cristã”. Para alguns, ela significaria infalibilidade, ausência de fraquezas, conhecimento completo ou impossibilidade de sofrer tentações. Wesley rejeita claramente todas essas ideias.

A perfeição cristã é outro nome para a santidade ou para o amor perfeito. Não significa que o cristão deixe de ser limitado, mas que seu coração pode ser purificado do pecado e inteiramente voltado para Deus e para o próximo.

Neste sermão, Wesley começa explicando em que sentido os cristãos não são perfeitos. Depois, mostra em que sentido as Escrituras afirmam que eles podem ser perfeitos. Seu argumento deve ser lido no contexto de sua compreensão do pecado como transgressão consciente da vontade conhecida de Deus e de sua convicção de que a graça de Cristo é suficiente para libertar o crente do domínio do pecado.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Poucas expressões das Escrituras têm provocado tanta rejeição quanto esta. Muitas pessoas não suportam a palavra “perfeito”. O simples som da palavra lhes parece repugnante.

Quem prega a perfeição — isto é, quem afirma que ela pode ser alcançada nesta vida — corre o risco de ser considerado pior do que um pagão ou um cobrador de impostos.

2. Por isso, alguns aconselharam que abandonássemos completamente essas expressões, porque elas ofendem muitas pessoas.

Mas essas palavras não se encontram nas Escrituras? Se são palavras de Deus, com que autoridade um mensageiro de Deus poderia deixá-las de lado, mesmo que todos se escandalizassem?

Não foi assim que aprendemos de Cristo. Não podemos ceder lugar ao diabo.

Aquilo que Deus falou, nós também falaremos, quer as pessoas ouçam, quer deixem de ouvir. Somente poderá declarar-se inocente do sangue de todos aquele ministro de Cristo que não deixou de anunciar todo o propósito de Deus (At 20.26–27).

3. Não podemos abandonar essas expressões, pois são palavras de Deus, e não invenções humanas.

Podemos e devemos explicar o que significam, para que as pessoas sinceras não se desviem nem para a direita nem para a esquerda do alvo de sua elevada vocação.

Isso se torna ainda mais necessário porque, no texto que acabamos de ler, Paulo afirma que ainda não era perfeito:

“Não que eu […] já tenha obtido a perfeição.”

(Fp 3.12, NAA)

Pouco depois, porém, fala de si mesmo e de outros como perfeitos:

“Todos, pois, que somos maduros tenhamos este modo de pensar.”

(Fp 3.15, NAA)

4. Para remover a dificuldade produzida por essa aparente contradição, esclarecer aqueles que avançam para o alvo e impedir que os fracos se desviem do caminho, procurarei mostrar:

I. Em que sentido os cristãos não são perfeitos.

II. Em que sentido os cristãos são perfeitos.

I. Em que sentido os cristãos não são perfeitos

1. Em primeiro lugar, os cristãos não são perfeitos em conhecimento. Nesta vida, não estão completamente livres da ignorância.

Podem conhecer, assim como outras pessoas, muitas coisas relacionadas ao mundo presente. Quanto ao mundo futuro, conhecem as verdades gerais que Deus revelou.

Também conhecem aquilo que a pessoa natural não consegue receber, porque é discernido espiritualmente: conhecem o grande amor do Pai, que os chamou filhos de Deus (1Jo 3.1).

Conhecem a poderosa atuação do Espírito em seu coração, a sabedoria da providência divina dirigindo seus caminhos e fazendo com que todas as coisas cooperem para o seu bem (Rm 8.28).

Em cada situação da vida, podem reconhecer o que o Senhor exige e como conservar uma consciência limpa diante de Deus e das pessoas.

2. Entretanto, são incontáveis as coisas que desconhecem.

Não conseguem compreender completamente o Todo-Poderoso. Aquilo que conhecemos são apenas partes de seus caminhos. Quem poderia compreender o poder de Deus em sua plenitude? (Jó 26.14).

Não compreendem como o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um, nem como o Filho eterno assumiu a condição de servo.

Na verdade, não conhecem perfeitamente nenhum atributo de Deus nem qualquer aspecto da natureza divina.

Também não lhes pertence conhecer os tempos e as épocas em que Deus realizará suas grandes obras sobre a terra.

Nem mesmo compreendem plenamente aquilo que foi revelado em parte pelos profetas: quando Deus completará seus propósitos, quando os céus passarão e os elementos serão transformados (2Pe 3.10).

3. Os cristãos não conhecem as razões de muitas ações presentes da providência de Deus.

Precisam descansar na convicção de que, embora nuvens e escuridão estejam ao redor dele, justiça e juízo são a base de seu trono (Sl 97.2).

Muitas vezes, quanto ao tratamento de Deus para com eles mesmos, precisam ouvir:

“O que eu faço você não compreende agora, mas compreenderá depois.”

(Jo 13.7, NAA)

Como conhecem pouco até mesmo das obras visíveis das mãos de Deus!

Não compreendem plenamente como ele estende o norte sobre o vazio, sustenta a terra sobre o nada e une todas as partes da imensa criação.

Assim, até o melhor dos seres humanos possui grande ignorância e conhecimento muito limitado.

4. Ninguém é tão perfeito nesta vida que esteja completamente livre da ignorância.

Em segundo lugar, ninguém está completamente livre de erros. O erro é uma consequência quase inevitável da limitação do conhecimento.

Aqueles que conhecem apenas em parte podem equivocar-se a respeito de muitas coisas que não compreendem.

É verdade que os filhos de Deus não erram em relação às verdades essenciais da salvação. Não chamam a luz de trevas nem as trevas de luz. Foram ensinados por Deus, e o caminho da santidade é tão claro que até uma pessoa simples pode andar nele.

Contudo, erram frequentemente em questões que não são essenciais à salvação.

Até as pessoas mais sábias e santas se enganam a respeito de fatos. Acreditam que algo não aconteceu quando realmente aconteceu, ou que alguma coisa aconteceu quando, na verdade, não aconteceu.

5. Mesmo quando não erram a respeito do fato principal, podem equivocar-se sobre suas circunstâncias.

Como resultado, podem julgar boa uma ação que era má ou considerar má uma ação que era boa.

Podem também avaliar incorretamente o caráter das pessoas: imaginar que alguém bom é melhor do que realmente é ou que alguém mau é pior do que realmente é.

Podem até considerar piedosa uma pessoa profundamente má ou considerar má uma pessoa santa e irrepreensível.

6. Mesmo em relação às Escrituras, por mais cuidadosas que sejam, as melhores pessoas podem equivocar-se, especialmente quanto às passagens menos diretamente relacionadas à vida prática.

Por isso, os filhos de Deus discordam a respeito da interpretação de muitos textos bíblicos.

Essa diferença não prova que uma das partes deixou de ser filha de Deus. Prova somente que não devemos esperar que uma pessoa viva seja infalível, assim como não esperamos que seja onisciente.

7. Alguém poderá citar as palavras de João:

“Vocês têm a unção que vem do Santo e todos têm conhecimento.”

(1Jo 2.20, NAA)

A resposta é simples: eles conheciam tudo aquilo que era necessário para a salvação.

João não queria dizer que conheciam absolutamente todas as coisas.

Caso contrário, o discípulo seria maior do que o Mestre, pois o próprio Cristo, em sua condição humana, afirmou não conhecer o dia e a hora de determinado acontecimento (Mc 13.32).

Além disso, João os advertiu repetidamente para que ninguém os enganasse. Essa advertência seria desnecessária caso fossem incapazes de errar.

8. Portanto, os cristãos não são perfeitos a ponto de estarem livres da ignorância ou do erro.

Também não estão completamente livres das fraquezas humanas.

Precisamos, contudo, compreender corretamente essa expressão.

Não devemos chamar pecados conhecidos de “fraquezas”, como algumas pessoas fazem.

Alguém diz: “Todos possuem uma fraqueza; a minha é a embriaguez.” Outro chama a imoralidade de fraqueza. Outro utiliza esse nome para o costume de usar o nome de Deus de maneira irreverente, insultar o próximo ou retribuir ofensa com ofensa.

Aqueles que falam assim precisam arrepender-se. Caso contrário, serão condenados juntamente com suas supostas fraquezas.

9. Por fraquezas, quero dizer imperfeições interiores ou exteriores que não possuem natureza moral.

Incluem lentidão do entendimento, dificuldade de compreensão, confusão de pensamentos, imaginação excessivamente rápida ou lenta e limitações da memória.

Também incluem dificuldade de expressão, uso inadequado de palavras, pronúncia imperfeita e inúmeras deficiências relacionadas à conversação ou ao comportamento.

Essas fraquezas são encontradas, em maior ou menor grau, até mesmo nas melhores pessoas.

Ninguém pode esperar libertação completa delas enquanto o espírito não voltar para Deus, que o concedeu.

10. Também não podemos esperar estar completamente livres das tentações enquanto permanecermos nesta vida.

É verdade que existem pessoas entregues ao pecado que quase não percebem as tentações, porque não resistem a elas.

Há também pessoas adormecidas em uma religião morta que o inimigo não tenta abertamente a pecados escandalosos, para não despertá-las antes que caminhem para a destruição.

11. Sei também que alguns filhos de Deus, depois de serem justificados gratuitamente e encontrarem redenção no sangue de Cristo, podem passar algum tempo sem sentir tentações.

Durante semanas ou meses, Deus os carrega como sobre asas de águia, acima dos dardos inflamados do Maligno.

Esse estado, porém, não dura necessariamente para sempre.

O próprio Filho de Deus foi tentado durante sua vida terrena. O servo deve esperar ser semelhante ao seu Mestre.

12. A perfeição cristã, portanto, não significa libertação completa da ignorância, dos erros, das fraquezas humanas ou das tentações.

Ela é simplesmente outro nome para a santidade. São duas palavras para a mesma realidade.

Todo aquele que é perfeito, no sentido bíblico, é santo; e todo aquele que é santo é perfeito nesse mesmo sentido.

Mesmo assim, não existe perfeição absoluta sobre a terra.

Não existe uma perfeição que não possa crescer.

Por mais que alguém tenha avançado e por mais elevado que seja o grau de sua perfeição, ainda precisa crescer na graça e no conhecimento e amor de nosso Senhor Jesus Cristo (2Pe 3.18).

II. Em que sentido os cristãos são perfeitos

1. Em que sentido, então, os cristãos são perfeitos?

Antes de responder, precisamos observar que existem diversas etapas na vida cristã, assim como na vida natural.

Alguns filhos de Deus são recém-nascidos. Outros alcançaram maior maturidade.

João dirige-se separadamente às crianças, aos jovens e aos pais na fé (1Jo 2.12–14).

Às crianças, escreve porque seus pecados foram perdoados. Elas foram justificadas e possuem paz com Deus por meio de Jesus Cristo.

Aos jovens, escreve porque venceram o Maligno, são fortes e a Palavra de Deus permanece neles.

Aos pais, escreve porque conhecem profundamente aquele que existe desde o princípio. Cresceram até a medida da plenitude de Cristo.

2. É principalmente desses cristãos amadurecidos que tratarei na parte final.

Entretanto, até os recém-nascidos em Cristo são perfeitos em determinado sentido.

Primeiro, são perfeitos no sentido de que não vivem na prática do pecado.

Caso alguém duvide desse privilégio dos filhos de Deus, a questão não deve ser decidida por raciocínios abstratos e intermináveis.

Também não deve ser decidida pela experiência isolada de uma ou outra pessoa.

Devemos apelar para a Lei e para o testemunho. Deus seja verdadeiro, ainda que todas as pessoas sejam consideradas mentirosas. Permaneceremos firmes em sua Palavra.

3. A Palavra de Deus declara que aqueles que foram justificados e nasceram de novo não continuam vivendo no pecado.

Foram unidos à morte de Cristo. O velho ser humano foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado perdesse seu domínio e já não fossem escravos do pecado.

Consideram-se mortos para o pecado e vivos para Deus.

O pecado já não os domina, porque não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça. Libertos do pecado, tornaram-se servos da justiça (Rm 6).

4. O mínimo que essas palavras podem significar é que todos os verdadeiros cristãos foram libertos do pecado exterior.

Pedro expressa a mesma realidade quando declara que aquele que sofreu na carne deixou o pecado, para viver não segundo os desejos humanos, mas segundo a vontade de Deus (1Pe 4.1–2).

Mesmo em seu sentido mais limitado, deixar o pecado significa abandonar a prática exterior daquilo que transgride a lei de Deus.

5. João é ainda mais explícito:

“Aquele que pratica o pecado procede do diabo […] Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.”

(1Jo 3.8, NAA)

E:

“Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado.”

(1Jo 3.9, NAA)

Também declara:

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado.”

(1Jo 5.18, NAA)

6. Alguns dizem que João queria afirmar apenas que o cristão não peca voluntariamente, habitualmente, da mesma maneira que os outros ou com a mesma frequência que pecava antes.

Mas onde João diz isso?

Essas palavras não aparecem no texto, no capítulo, na carta ou em qualquer outro escrito do apóstolo.

Uma afirmação sem prova pode ser simplesmente negada. Quem conseguir demonstrá-la pela Palavra de Deus deve apresentar suas razões.

7. Frequentemente são citados exemplos bíblicos.

Dizem:

“Abraão não pecou quando escondeu a verdade a respeito de sua mulher? Moisés não pecou nas águas de Meribá? Davi, o homem segundo o coração de Deus, não cometeu adultério e homicídio?”

Certamente cometeram.

Podemos reconhecer que Davi foi uma das pessoas mais santas da antiga aliança e que até os mais santos daquela dispensação algumas vezes pecaram.

Mas não podemos concluir que todos os cristãos precisam pecar enquanto viverem. Essa conclusão não decorre dos exemplos apresentados.

8. Aqueles que argumentam dessa maneira não consideram as palavras de Jesus:

“Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no Reino dos Céus é maior do que ele.”

(Mt 11.11, NAA)

O Reino dos Céus não significa aqui o estado de glória depois da morte, mas o Reino estabelecido por Cristo na terra, ao qual pertencem todos os que verdadeiramente creem.

Jesus ensina que, antes de sua vinda, ninguém foi maior do que João. Isso inclui Abraão, Moisés e Davi.

Ao mesmo tempo, afirma que o menor no Reino de Deus é maior do que João — não necessariamente como profeta, mas quanto à graça e ao conhecimento de Jesus Cristo.

Não devemos, portanto, medir os privilégios cristãos pela experiência daqueles que viveram sob a antiga aliança.

A antiga dispensação foi gloriosa, mas a nova a supera em glória.

9. Alguns afirmam que as Escrituras dizem que “o justo peca sete vezes por dia”.

Não existe nenhum texto bíblico com essas palavras.

O texto geralmente citado declara:

“Porque sete vezes cairá o justo e se levantará.”

(Pv 24.16, NAA)

A expressão “por dia” não está no versículo.

Além disso, o contexto não fala de cair em pecado, mas de cair em aflição.

O perverso procura destruir a casa do justo, mas Deus o levanta novamente de suas dificuldades.

10. Outros citam as palavras de Salomão:

“Não há ninguém que não peque.”

(1Rs 8.46, NAA)

E:

“Não há ninguém justo sobre a terra que faça o bem e que não peque.”

(Ec 7.20, NAA)

Sem dúvida, isso descrevia corretamente a condição humana nos dias de Salomão.

Foi assim de Adão até Moisés, de Moisés até Salomão e de Salomão até Cristo.

Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho para redimir os que estavam debaixo da lei, a fim de que recebessem a adoção.

A graça foi manifestada pelo aparecimento de Jesus Cristo, que destruiu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho (2Tm 1.10).

Agora já não são servos, mas filhos.

Por isso, podemos afirmar com João que aquele que nasceu de Deus não vive na prática do pecado.

11. É muito importante observar a diferença entre a dispensação judaica e a cristã.

João explica essa diferença ao comentar a promessa de Jesus:

“Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.”

(Jo 7.38, NAA)

O evangelista explica que Jesus se referia ao Espírito que receberiam aqueles que nele cressem, pois o Espírito ainda não havia sido concedido dessa maneira porque Jesus ainda não havia sido glorificado.

João não se refere ao poder de realizar milagres, pois os apóstolos já haviam recebido autoridade para expulsar demônios, curar enfermos e até ressuscitar mortos.

Refere-se à plenitude das graças santificadoras do Espírito, concedida depois que Jesus foi glorificado.

No Pentecostes, aqueles que esperavam a promessa do Pai receberam o Espírito e foram capacitados a ser mais que vencedores sobre o pecado.

12. Pedro também ensina que essa grande salvação foi revelada plenamente depois da glorificação de Cristo.

Os profetas procuraram compreender a salvação anunciada e investigaram o tempo indicado pelo Espírito de Cristo, que falava dos sofrimentos de Cristo e das glórias que viriam depois.

Foi-lhes revelado que serviam às gerações futuras, às quais o evangelho seria anunciado pelo Espírito Santo enviado do céu (1Pe 1.9–12).

Com base nessa graça, Pedro ordena aos cristãos que sejam santos em toda a sua maneira de viver.

13. Os privilégios cristãos não devem ser medidos pelo que o Antigo Testamento registra a respeito daqueles que viveram sob a antiga dispensação.

A plenitude do tempo chegou. O Espírito Santo foi dado. A grande salvação de Deus foi trazida à humanidade pela revelação de Jesus Cristo.

O Reino dos Céus foi estabelecido na terra.

Por isso, o profeta declarou que o mais fraco naquele dia seria como Davi, e a casa de Davi, como o anjo do Senhor (Zc 12.8).

14. Caso alguém deseje provar que as palavras de João não devem ser compreendidas em seu sentido simples, deve buscar provas no Novo Testamento.

Alguns citam os exemplos de Paulo e Pedro.

Paulo teria pecado em sua forte discussão com Barnabé, e Pedro pecou ao agir com hipocrisia em Antioquia.

Suponhamos que ambos tenham pecado. O que isso prova?

Não prova que todos os demais apóstolos pecaram, muito menos que todos os cristãos da época apostólica pecavam.

É ainda mais impossível concluir que todos os cristãos de todas as épocas precisam pecar enquanto viverem.

15. Também não podemos concluir que qualquer pessoa seja obrigada a pecar.

A graça de Deus era suficiente para Pedro e Paulo e continua suficiente para nós.

Em cada tentação existe um caminho de escape. Ninguém é tentado além daquilo que pode suportar com a graça de Deus (1Co 10.13).

16. Alguém poderá mencionar o espinho na carne de Paulo.

O apóstolo recebeu um espinho na carne, um mensageiro de Satanás que o atormentava. Pediu três vezes que aquilo fosse removido, e Deus respondeu que sua graça era suficiente, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza (2Co 12.7–10).

Nada no texto indica que o espinho levava Paulo a pecar, muito menos que o obrigava a pecar.

Os antigos escritores cristãos entendiam que se tratava de sofrimento físico.

As próprias palavras de Paulo apontam para fraquezas do corpo: algo que o atingia, atormentava e o fazia experimentar debilidade física.

17. O espinho não poderia ser orgulho, ira, desejo pecaminoso ou qualquer outra transgressão interior ou exterior.

Paulo declarou que se alegrava em suas fraquezas para que o poder de Cristo repousasse sobre ele.

Ele não poderia alegrar-se em orgulho, ira ou impureza.

Quando afirmou que era forte quando estava fraco, queria dizer: quando estava fraco no corpo, era fortalecido no espírito.

Além disso, o espinho foi recebido muitos anos antes de o apóstolo terminar sua carreira.

Depois disso, ainda enfrentou batalhas, alcançou vitórias e cresceu no conhecimento e na graça de Cristo.

Nada no texto demonstra que permaneceu espiritualmente fraco até a morte.

18. Também são citadas as palavras de Tiago:

“Porque todos tropeçamos em muitas coisas.”

(Tg 3.2, NAA)

Nesse contexto, Tiago fala aos muitos que desejavam tornar-se mestres sem terem sido chamados por Deus e que receberiam julgamento mais severo.

Ele não está descrevendo a si mesmo nem todos os cristãos verdadeiros.

No mesmo capítulo, utiliza a palavra “nós” ao dizer que com a língua bendizemos a Deus e amaldiçoamos as pessoas. Certamente, isso não significa que Tiago e todos os cristãos faziam essas duas coisas.

Além disso, o próprio versículo menciona alguém que não tropeça no falar e o chama de homem perfeito.

19. João, escrevendo depois de Tiago, elimina qualquer dúvida por suas declarações diretas.

Entretanto, alguém poderá perguntar como reconciliar as palavras:

“Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado”

(1Jo 3.9, NAA)

com:

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos.”

(1Jo 1.8, NAA)

20. A dificuldade desaparece quando observamos que o versículo 10 explica o versículo 8.

Dizer “não temos pecado” significa afirmar que “não temos cometido pecado”.

A questão, portanto, é sobre os pecados cometidos anteriormente, não sobre a necessidade de continuar pecando agora.

O versículo 9 esclarece os dois anteriores:

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar […] e nos purificar de toda injustiça.”

(1Jo 1.9, NAA)

João ensina que todos pecaram e necessitam do sangue de Cristo.

Entretanto, Deus está disposto não apenas a perdoar, mas também a purificar de toda injustiça, para que a pessoa vá e não viva mais no pecado.

21. O ensino de João pode ser resumido assim:

Primeiro, o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado.

Segundo, ninguém pode afirmar que nunca pecou ou que não precisa ser purificado.

Terceiro, Deus está pronto a perdoar os pecados passados e salvar-nos deles no futuro.

Quarto, João escreve para que não pequemos. Caso alguém peque, não precisa permanecer no pecado, porque temos um Advogado junto ao Pai: Jesus Cristo, o Justo (1Jo 2.1).

22. Para eliminar qualquer dúvida, João volta ao assunto no capítulo 3.

Ele adverte:

“Filhinhos, não deixem que ninguém os engane.”

(1Jo 3.7, NAA)

Aquele que pratica a justiça é justo. Aquele que pratica o pecado procede do diabo.

O Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo.

Todo aquele que nasceu de Deus não vive na prática do pecado.

Assim se tornam conhecidos os filhos de Deus e os filhos do diabo.

Em conformidade com João e com todo o ensino do Novo Testamento, concluímos: o cristão é perfeito no sentido de não viver na prática do pecado.

23. Esse é o privilégio de todo cristão, ainda que seja uma criança em Cristo.

Mas somente dos que são fortes no Senhor, venceram o Maligno e conheceram profundamente aquele que existe desde o princípio podemos afirmar que são perfeitos no sentido de estarem livres dos pensamentos e das disposições pecaminosas.

24. Precisamos distinguir pensamentos a respeito do mal de pensamentos maus.

Pensar em um homicídio cometido por outra pessoa não é ter um pensamento homicida.

Jesus compreendeu a sugestão de Satanás quando ouviu:

“Tudo isto lhe darei se, prostrado, você me adorar.”

(Mt 4.9, NAA)

Mesmo assim, não houve nele pensamento pecaminoso.

Da mesma maneira, uma sugestão que surge na mente de um cristão não se torna pecado enquanto não é acolhida e transformada em desejo ou disposição interior.

25. Os pensamentos maus procedem do coração mau.

Jesus ensinou que do interior do coração procedem os maus pensamentos (Mc 7.21).

Se o coração foi purificado, os pensamentos pecaminosos deixam de nascer dele.

Uma árvore boa produz bons frutos. Uma árvore má produz frutos maus.

26. Paulo apresenta a mesma experiência:

“As armas da nossa luta não são carnais, mas poderosas em Deus, para destruir fortalezas.”

(2Co 10.4, NAA)

Essas armas destroem argumentos, toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus e levam todo pensamento à obediência de Cristo.

27. Os cristãos amadurecidos também são libertos das disposições pecaminosas.

Jesus afirmou:

“O discípulo não está acima do seu mestre; todo aquele, porém, que for bem instruído será como o seu mestre.”

(Lc 6.40, NAA)

Imediatamente antes, havia ensinado seus discípulos a amar os inimigos, fazer o bem aos que os odeiam e responder ao mal com amor.

O mundo considera essas coisas impossíveis.

Jesus, porém, promete que o discípulo plenamente instruído será semelhante ao Mestre.

Como Cristo estava livre de disposições pecaminosas, seu discípulo também pode ser purificado delas.

28. O cristão pode declarar com Paulo:

“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.”

(Gl 2.19–20, NAA)

Essas palavras descrevem libertação tanto do pecado exterior como do interior.

Negativamente: o velho ser humano já não governa.

Positivamente: Cristo vive no crente e produz aquilo que é santo, justo e bom.

Essas duas realidades estão inseparavelmente ligadas, pois não existe comunhão entre luz e trevas.

29. Cristo purifica pela fé o coração daqueles em quem vive.

O crente é purificado do orgulho, pois Cristo é humilde de coração.

É purificado da vontade própria, pois Cristo desejava somente cumprir a vontade do Pai.

É purificado da ira pecaminosa, pois Cristo é manso, paciente e compassivo.

Nem toda indignação, porém, é pecaminosa.

Jesus olhou com indignação para a dureza das pessoas e, ao mesmo tempo, sentiu compaixão por elas (Mc 3.5).

Desaprovou o pecado, mas amou o pecador.

Essa deve ser também a atitude do cristão: oposição firme ao mal e amor sincero pela pessoa que o pratica.

30. Assim Jesus salva seu povo de seus pecados: não apenas dos pecados exteriores, mas também dos pensamentos e das disposições pecaminosas.

Alguns dizem que essa salvação só acontecerá na morte.

João, porém, declara:

“Nisto o amor é aperfeiçoado em nós, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos a confiança; pois, assim como ele é, também nós somos neste mundo.”

(1Jo 4.17, NAA)

O apóstolo fala de cristãos vivos e afirma que são semelhantes a Cristo neste mundo.

31. João também declara que Deus é luz e que nele não existe treva alguma.

Se caminhamos na luz, temos comunhão com Deus, e o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado.

Se confessamos nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar e purificar de toda injustiça (1Jo 1.5–9).

O apóstolo não diz que o sangue de Cristo purificará somente na hora da morte. Afirma que purifica agora os cristãos vivos.

Se algum pecado permanece, a pessoa não foi purificada de todo pecado. Se alguma injustiça permanece, não foi purificada de toda injustiça.

32. Essa purificação não se refere apenas à culpa.

João distingue claramente duas coisas: perdoar os pecados e purificar de toda injustiça.

Caso a purificação significasse apenas perdão da culpa, estaríamos fazendo a santidade completa ser condição anterior da justificação.

O sentido é que os cristãos podem ser salvos neste mundo de todo pecado e de toda injustiça.

São perfeitos no sentido de não viverem na prática do pecado e de serem libertos de pensamentos e disposições pecaminosas.

33. Assim Deus cumpre as promessas anunciadas por seus profetas.

Moisés declarou que Deus circuncidaria o coração de seu povo para que o amasse com todo o coração e toda a alma (Dt 30.6).

Davi orou:

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.”

(Sl 51.10, NAA)

Ezequiel anunciou que Deus aspergiria água pura, purificaria seu povo de toda impureza e idolatria, daria um novo coração e colocaria dentro dele um novo espírito.

Deus faria seu povo andar em seus estatutos e o salvaria de todas as impurezas (Ez 36.25–29).

34. Possuindo essas promessas na Lei, nos Profetas e no evangelho de nosso Senhor e de seus apóstolos, purifiquemo-nos de toda impureza da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus (2Co 7.1).

Temamos que, permanecendo a promessa de entrar no descanso de Deus, algum de nós fique para trás (Hb 4.1).

Esqueçamos as coisas que ficaram para trás e avancemos para as que estão diante de nós.

Prossigamos para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus (Fp 3.13–14).

Clamemos a Deus dia e noite até sermos libertos da escravidão da corrupção e introduzidos na gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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