SERMÃO 47

A tristeza em meio a diversas provações

A diferença entre a tristeza das provações e as trevas do deserto espiritual.

1Pe 1.6, NAA ⏱ 18 min de leituraVida cristã prática

“Nisso vocês exultam, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejam contristados por várias provações.”

(1Pe 1.6, NAA)

Antes de ler

Wesley distingue cuidadosamente a tristeza produzida pelas provações da escuridão espiritual examinada no sermão anterior. A escuridão envolve perda da certeza, da paz, da alegria e do poder sobre o pecado. A tristeza, porém, pode coexistir com fé viva, esperança, amor, paz e santidade.

O cristão não deixa de ser humano quando recebe a graça. Enfermidades, dores, pobreza, luto, decepções e preocupação com pessoas queridas podem produzir sofrimento real. A fé não elimina automaticamente os efeitos naturais dessas experiências.

Deus não cria arbitrariamente a tristeza nem abandona seus filhos. Contudo, pode permitir provações e usar aquilo que naturalmente produz dor para fortalecer a fé, confirmar a esperança, aprofundar o amor, promover a santidade e tornar o testemunho cristão uma bênção para outras pessoas.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. No sermão anterior, tratei especialmente daquela escuridão da mente na qual frequentemente caem pessoas que anteriormente caminhavam na luz da presença de Deus.

Muito próxima dessa experiência está a tristeza da alma, ainda mais comum entre os crentes.

Quase todos os filhos de Deus experimentam esse sofrimento em maior ou menor grau.

2. A semelhança entre tristeza e escuridão é tão grande que elas são frequentemente confundidas.

Dizemos indistintamente:

“Aquela pessoa está em escuridão” ou “aquela pessoa está profundamente triste”,

como se as duas expressões significassem a mesma coisa.

Entretanto, estão muito distantes de ser equivalentes.

A escuridão é uma coisa; a tristeza, outra.

Existe uma diferença ampla e essencial entre elas.

3. Todos os filhos de Deus precisam compreender essa diferença.

Caso contrário, poderão facilmente passar da tristeza para a escuridão.

Para evitar isso, procurarei mostrar:

I. Que tipo de pessoas eram aquelas às quais Pedro disse: “Vocês são contristados”.

II. Qual era a natureza dessa tristeza.

III. Quais eram suas causas.

IV. Quais eram suas finalidades.

Concluirei apresentando algumas aplicações.

I. As pessoas que estavam tristes

1. Em primeiro lugar, precisamos identificar as pessoas às quais o apóstolo disse:

“Sejam contristados por várias provações.”

Não existe dúvida de que eram crentes.

Pedro afirma que estavam sendo guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação (1Pe 1.5).

Logo depois, menciona a fé deles, muito mais preciosa do que o ouro perecível, embora provada pelo fogo.

Também fala sobre alcançarem o objetivo da fé: a salvação da alma.

Portanto, ao mesmo tempo em que estavam tristes, possuíam fé viva.

A tristeza não destruiu a fé.

Continuavam perseverando como pessoas que contemplavam aquele que é invisível.

2. A tristeza também não destruiu sua paz — a paz que excede todo entendimento e é inseparável da verdadeira fé viva.

Isso pode ser percebido quando Pedro não pede que graça e paz lhes sejam concedidas pela primeira vez, mas que lhes sejam multiplicadas.

Já possuíam essa bênção. O apóstolo orava para que a recebessem em abundância ainda maior.

3. As pessoas às quais Pedro escreveu também estavam cheias de viva esperança.

O apóstolo declara:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança.”

(1Pe 1.3, NAA)

Pedro inclui a si mesmo e aos leitores: todos haviam sido santificados pelo Espírito e aspergidos pelo sangue de Jesus Cristo.

Haviam sido regenerados para a esperança de uma herança incorruptível, sem mácula e que não perde seu valor.

Apesar da tristeza, continuavam possuindo uma esperança cheia de imortalidade.

4. Também continuavam se alegrando na esperança da glória de Deus.

Estavam cheios de alegria no Espírito Santo.

Depois de mencionar a futura revelação de Jesus Cristo, Pedro acrescenta:

“Mesmo sem tê-lo visto vocês o amam. Mesmo não o vendo agora, mas crendo nele, exultam com uma alegria indescritível e cheia de glória.”

(1Pe 1.8, NAA)

A tristeza, portanto, era compatível não somente com a esperança viva, mas também com alegria indescritível.

Ao mesmo tempo em que estavam tristes, alegravam-se com alegria cheia de glória.

5. Em meio à tristeza, ainda possuíam o amor de Deus derramado no coração.

Pedro afirma:

“Mesmo sem tê-lo visto vocês o amam.”

Ainda não haviam contemplado Cristo face a face, mas o conheciam pela fé e haviam entregado a ele o coração.

Cristo era seu Deus e seu amor, o maior desejo e a grande recompensa.

Haviam buscado e encontrado nele a felicidade.

Alegravam-se no Senhor, que satisfazia o desejo mais profundo do coração.

6. Finalmente, embora tristes, continuavam santos.

Conservavam poder sobre o pecado e eram guardados pelo poder de Deus.

Eram filhos obedientes e já não se conformavam aos antigos desejos.

Assim como aquele que os chamou é santo, procuravam ser santos em toda a maneira de viver.

Sabendo que haviam sido redimidos pelo precioso sangue de Cristo, purificavam a alma pela obediência à verdade, mediante o Espírito.

Assim, a tristeza podia coexistir com fé, esperança, amor a Deus e ao próximo, paz, alegria no Espírito Santo e santidade interior e exterior.

Ela não prejudicava nem destruía a obra de Deus no coração.

Não era incompatível com a santificação do Espírito nem com a felicidade produzida pela graça e pela paz que governavam a alma.

II. A natureza dessa tristeza

1. Podemos compreender agora qual era a natureza da tristeza mencionada pelo apóstolo.

A palavra utilizada significa simplesmente estar entristecido, aflito ou pesaroso.

As pessoas às quais Pedro escreveu sentiam tristeza.

Sua experiência não era outra coisa senão pesar ou sofrimento emocional: uma afeição conhecida por todos os seres humanos.

2. Provavelmente, os tradutores antigos escolheram uma palavra que indicava tanto o grau como a duração dessa tristeza.

Não se trata de sentimento leve ou insignificante, mas de tristeza que produz forte impressão e penetra profundamente na alma.

Também não parece ser sofrimento passageiro que desaparece em poucos minutos.

Pode manter-se por algum tempo, ocupando de tal maneira o coração que parece uma disposição permanente, e não apenas uma emoção momentânea.

Isso pode acontecer até com pessoas que possuem fé viva em Cristo e verdadeiro amor de Deus no coração.

3. Até nesses cristãos, a tristeza pode ser tão profunda que cobre toda a alma e colore, por assim dizer, todas as afeições.

Pode manifestar-se em todo o comportamento.

Também pode influenciar o corpo, especialmente naqueles que possuem constituição naturalmente frágil ou que foram enfraquecidos por alguma enfermidade, particularmente por distúrbios nervosos.

Em muitos casos, o corpo corruptível pesa sobre a alma.

Aqui, porém, a alma pode pesar sobre o corpo e enfraquecê-lo cada vez mais.

Uma tristeza profunda e prolongada pode enfraquecer até uma constituição forte e contribuir para doenças difíceis de tratar.

Tudo isso pode coexistir com a fé que atua pelo amor.

4. Essa experiência pode ser chamada corretamente de provação ardente.

Não é exatamente a mesma provação mencionada por Pedro no capítulo 4, mas várias expressões aplicadas ali aos sofrimentos exteriores podem ser adaptadas à aflição interior.

Essas expressões não podem ser aplicadas adequadamente às pessoas em escuridão espiritual.

Elas não conseguem alegrar-se, e não podemos afirmar que o Espírito da glória e de Deus repousa sobre elas.

Entretanto, ele frequentemente repousa sobre aqueles que estão tristes.

Por isso, embora entristecidos, podem continuar se alegrando.

III. As causas da tristeza

1. Quais são as causas dessa tristeza em um verdadeiro crente?

O apóstolo responde claramente:

“Por várias provações.”

A palavra significa muitas provações, não apenas numerosas, mas também de diferentes espécies.

Elas podem variar de milhares de maneiras por causa de incontáveis circunstâncias.

Essa diversidade torna ainda mais difícil proteger-se completamente delas.

1. Enfermidades e dores

2. Entre essas provações podemos incluir todas as enfermidades físicas, especialmente as doenças agudas e as dores intensas, quer afetem o corpo inteiro, quer apenas uma pequena parte.

Algumas pessoas que sempre desfrutaram de boa saúde podem tratar esses sofrimentos com pouca consideração e perguntar por que uma enfermidade ou dor física produziria tristeza na mente.

Talvez exista uma pessoa entre mil com constituição tão particular que não sinta a dor como os demais.

Em alguns casos extraordinários, a educação ou influências incomuns podem tornar certas pessoas aparentemente insensíveis ao sofrimento.

Separados esses casos excepcionais, porém, a dor intensa naturalmente produz sofrimento profundo.

Mesmo quando a graça de Deus impede que a pessoa perca a paciência, a dor pode provocar grande tristeza interior, pois a alma participa dos sofrimentos do corpo.

3. As enfermidades prolongadas, ainda que menos dolorosas, também podem produzir o mesmo efeito.

Doenças que enfraquecem lentamente o corpo e condições caracterizadas por febre, tremores ou cansaço constante podem produzir sofrimento emocional.

Isso é especialmente verdadeiro nos chamados distúrbios nervosos.

A fé não destrói a ordem da natureza.

As causas naturais continuam produzindo efeitos naturais.

A fé não impede que as forças emocionais diminuam durante uma enfermidade nervosa, assim como não impede que o pulso se acelere durante uma febre.

2. Pobreza e privação

4. Outra grande provação acontece quando a calamidade chega como tempestade e a pobreza, como homem armado.

Trata-se de uma tentação pequena?

É surpreendente que produza tristeza?

Talvez pareça pequena para aqueles que observam à distância ou passam pelo outro lado.

Para aqueles que realmente a enfrentam, porém, é muito diferente.

Tendo alimento, roupas e abrigo, podemos estar satisfeitos se o amor de Deus está em nosso coração.

Mas o que acontece com aqueles que não possuem essas coisas?

Alguns não têm casa seca, aquecida ou limpa para si e para os filhos.

Não possuem roupas suficientes para proteger do frio a si mesmos e às pessoas que mais amam.

5. Um poeta pagão afirmou que o pior aspecto da pobreza seria tornar as pessoas motivo de zombaria.

Que afirmação insensível!

A falta de alimento não é muito pior do que o ridículo?

Deus declarou que o ser humano obteria seu pão com o suor do rosto.

Mas quantas pessoas, até em uma nação chamada cristã, trabalham, esforçam-se e transpiram e, no final, ainda não possuem pão suficiente!

Depois de um dia pesado de trabalho, retornam a uma casa pobre, fria, suja e desconfortável e não encontram o alimento necessário para recuperar as forças.

Vocês que vivem confortavelmente na terra precisam apenas de olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para compreender quanto Deus lhes concedeu.

Não é profundamente doloroso procurar diariamente o pão e não encontrá-lo?

Não é terrível encontrar cinco ou seis crianças chorando por aquilo que o pai ou a mãe não consegue oferecer?

Se uma mão invisível não os sustentasse, não seriam tentados a amaldiçoar a própria existência e morrer?

Quem pode compreender a falta de pão sem tê-la experimentado?

Surpreende-me que ela produza apenas tristeza até mesmo naqueles que creem!

3. A morte de pessoas queridas

6. Talvez depois da pobreza devamos mencionar a morte das pessoas mais próximas e queridas:

Um pai ou uma mãe amorosos, ainda não profundamente envelhecidos;

Um filho amado, apenas começando a viver e estreitamente unido ao coração;

Um amigo que era como nossa própria alma e que, depois da graça de Deus, representava uma das melhores dádivas do céu.

Inúmeras circunstâncias podem aumentar ainda mais esse sofrimento.

Talvez a pessoa tenha morrido em nossos braços.

Talvez tenha sido retirada inesperadamente, enquanto florescia como uma planta que acaba de surgir.

Nesses casos, não somente podemos, mas devemos sentir a dor.

Deus deseja que sejamos sensíveis. Não deseja transformar-nos em pedras.

Quer regular nossas afeições, e não destruí-las.

A natureza, sem ser condenada, pode derramar lágrimas.

Pode existir tristeza sem pecado.

4. A condição espiritual de pessoas amadas

7. Podemos sentir tristeza ainda mais profunda por aqueles que estão mortos enquanto vivem: por causa da ingratidão, da infidelidade ou do afastamento de pessoas unidas a nós pelos relacionamentos mais próximos.

Quem consegue expressar aquilo que alguém que ama as almas sente por um amigo ou irmão morto para Deus?

O que sente por marido, esposa, pai, mãe ou filho que corre para o pecado como cavalo que se lança à batalha e, apesar de todas as advertências e apelos, apressa-se para a própria destruição?

Essa angústia pode tornar-se ainda maior quando a pessoa que agora corre para a perdição anteriormente corria bem no caminho da vida.

Tudo aquilo que ela foi no passado torna mais dolorosa a lembrança daquilo que agora se tornou.

5. Os ataques do adversário

8. Em todas essas circunstâncias, nosso grande adversário certamente procurará aproveitar a oportunidade.

Aquele que anda ao redor procurando alguém para devorar utiliza especialmente seu poder e sua habilidade contra a alma já abatida.

Lança os dardos mais apropriados à provação que a atinge, escolhendo aqueles que podem penetrar mais profundamente no coração.

Procura introduzir pensamentos de incredulidade, blasfêmia e murmuração.

Sugere que Deus não se importa com a terra ou não a governa corretamente; que não age de acordo com a justiça e a misericórdia.

Procura levantar o coração contra Deus e despertar novamente nossa antiga inimizade contra ele.

Caso tentemos combatê-lo utilizando suas próprias armas e comecemos a discutir com ele, nossa tristeza aumentará e poderá transformar-se em completa escuridão.

6. Deus não se afasta arbitrariamente

9. Frequentemente se afirma que existe outra causa para a tristeza: Deus retiraria sua presença da alma por simples decisão soberana.

Sem dúvida, ele o fará quando entristecemos seu Espírito Santo por meio do pecado exterior ou interior; praticando o mal ou negligenciando o bem; cedendo ao orgulho, à ira, à preguiça espiritual, aos desejos insensatos ou às afeições desordenadas.

Mas nego completamente que Deus retire sua presença simplesmente porque deseja fazê-lo, sem que exista qualquer causa.

Não há texto bíblico que sustente essa ideia.

Ela contradiz não apenas várias passagens específicas, mas todo o sentido das Escrituras.

É também incompatível com a natureza de Deus, sua majestade, sabedoria, justiça e misericórdia e com a experiência equilibrada de seus filhos.

7. O conhecimento de nós mesmos

10. Muitos escritores místicos mencionam outra suposta causa de profunda tristeza.

Segundo eles, depois de experimentar o amor de Deus, a pessoa seria conduzida a um deserto interior no qual reconheceria sua extrema diferença em relação a Deus e perceberia a alma completamente corrompida e cheia de maldade.

Dessa afirmação, alguns concluíram que o conhecimento de nós mesmos, indispensável à salvação, precisa necessariamente produzir profunda tristeza, mesmo depois de recebermos a fé justificadora.

11. Sobre isso, observo, primeiro, que muitas experiências chamadas de justificação talvez tenham sido apenas as primeiras atrações do Pai e as influências iniciais da graça.

Nesse caso, a tristeza e a escuridão posteriores seriam simplesmente convicção do pecado, que naturalmente precede a fé justificadora.

Em segundo lugar, suponha que a pessoa tenha sido justificada imediatamente, antes de receber aquele conhecimento gradual de si mesma que normalmente precede a justificação.

Nesse caso, esse conhecimento veio depois e talvez tenha sido ainda mais doloroso por ser inesperado.

Em terceiro lugar, reconheço que depois da justificação adquirimos conhecimento muito mais profundo e claro do pecado que permanece em nós e da corrupção de nossa natureza.

Mas isso não precisa produzir escuridão espiritual.

Nem posso afirmar que necessariamente produza profunda tristeza.

Se fosse indispensável, Pedro não teria escrito “se necessário”, pois todos os que desejam conhecer a si mesmos teriam obrigatoriamente de experimentá-la.

12. Deus pode aumentar profundamente nosso conhecimento próprio e, na mesma proporção, aumentar nosso conhecimento dele e a experiência de seu amor.

Nesse caso, não existirá deserto, abandono ou miséria.

O amor, a paz e a alegria crescerão gradualmente até a vida eterna.

IV. As finalidades das provações

1. Para quais finalidades Deus permite que a tristeza alcance muitos de seus filhos?

Pedro oferece uma resposta direta:

“Para que, uma vez confirmado o valor da fé que vocês têm, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado pelo fogo, resulte em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo.”

(1Pe 1.7, NAA)

Existe relação com a exortação para não estranharmos a provação ardente, mas nos alegrarmos por participar dos sofrimentos de Cristo, a fim de também nos alegrarmos quando sua glória for revelada.

2. A primeira grande finalidade das provações que produzem tristeza é provar a fé.

A fé é provada como o ouro no fogo.

O ouro submetido ao fogo é purificado e separado de suas impurezas.

Assim acontece com a fé durante a provação.

Quanto mais é provada, mais pode ser purificada.

Ela não é apenas purificada, mas fortalecida, confirmada e aumentada pelas novas demonstrações da sabedoria, do poder, do amor e da fidelidade de Deus.

Portanto, aumentar nossa fé é uma das finalidades bondosas pelas quais Deus permite essas provações.

3. Elas servem também para provar, purificar, confirmar e aumentar nossa viva esperança.

A esperança cresce na mesma proporção que a fé, pois está fundamentada nela.

Crendo no nome de Cristo e vivendo pela fé no Filho de Deus, esperamos com confiança a glória que será revelada.

Tudo aquilo que fortalece nossa fé também aumenta nossa esperança.

Ao mesmo tempo, cresce a alegria no Senhor, que acompanha necessariamente uma esperança cheia de imortalidade.

Por isso, Pedro incentiva os crentes a se alegrarem por participarem dos sofrimentos de Cristo.

O Espírito da glória e de Deus repousa sobre eles e os capacita a se alegrar com alegria indescritível mesmo em meio aos sofrimentos.

4. Eles se alegram ainda mais porque as provações que aumentam a fé e a esperança também aumentam o amor.

Aumentam tanto a gratidão a Deus por todas as suas misericórdias como a boa vontade para com toda a humanidade.

Quanto mais profundamente percebem a bondade de Deus, mais o coração se inflama de amor por aquele que nos amou primeiro.

Quanto mais clara e forte é a evidência da glória futura, mais amam aquele que a comprou para eles e colocou sua garantia no coração.

Portanto, o crescimento do amor é outra finalidade das provações permitidas por Deus.

5. Outra finalidade é o avanço na santidade, tanto do coração como da vida.

A santidade exterior procede naturalmente da interior, pois a árvore boa produz bons frutos.

Toda santidade interior é fruto imediato da fé que atua pelo amor.

Por meio dela, o Espírito Santo purifica o coração do orgulho, da vontade própria, da ira, do amor ao mundo, dos desejos insensatos e prejudiciais e das afeições desprezíveis e vazias.

Além disso, as aflições santificadas possuem, pela graça de Deus, tendência direta para a santidade.

Pela atuação do Espírito, humilham cada vez mais a alma diante de Deus.

Acalmam o espírito agitado, dominam a agressividade da natureza, enfraquecem a obstinação e a vontade própria, crucificam-nos para o mundo e nos ensinam a buscar toda a força e toda a felicidade em Deus.

6. Todas essas coisas conduzem ao grande objetivo:

Que nossa fé, esperança, amor e santidade resultem em louvor da parte de Deus, honra diante dos seres humanos e dos anjos e glória concedida pelo grande Juiz àqueles que perseveraram até o fim.

Naquele dia, cada pessoa receberá de acordo com suas obras: com a obra realizada por Deus em seu coração, com as obras realizadas para Deus e também com aquilo que sofreu.

Assim, as provações tornam-se ganho incomparável.

Essas aflições leves e momentâneas produzem para nós eterno peso de glória acima de toda comparação.

7. Acrescente-se ainda o benefício que outras pessoas recebem ao observarem nosso comportamento durante as aflições.

A experiência demonstra que o exemplo frequentemente produz impressão mais profunda do que o ensino.

Que exemplo exerce influência maior, tanto sobre aqueles que possuem a mesma fé como sobre os que ainda não conhecem a Deus, do que uma alma serena em meio às tempestades?

Ela está triste, mas continua se alegrando.

Aceita com mansidão a vontade de Deus, por mais dolorosa que seja para a natureza.

Durante a enfermidade e a dor, diz:

“Por acaso não beberei o cálice que o Pai me deu?”

(Jo 18.11, NAA)

Durante as perdas e necessidades, declara:

“O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.”

(Jó 1.21, NAA)

V. Conclusões

1. Em primeiro lugar, percebemos como é grande a diferença entre escuridão espiritual e tristeza, embora sejam frequentemente confundidas até por cristãos experientes.

A escuridão, ou estado de deserto, envolve perda da alegria no Espírito Santo.

A tristeza não. Em meio a ela, podemos alegrar-nos com alegria indescritível.

Aqueles que estão em escuridão perderam a paz de Deus.

Os que estão tristes não perderam. Naquele mesmo momento, graça e paz podem ser multiplicadas.

Na escuridão, o amor de Deus esfriou ou foi apagado.

Durante a tristeza, pode conservar toda a força e até aumentar diariamente.

Na escuridão, a fé foi perdida ou seriamente enfraquecida. A evidência do amor perdoador de Deus já não é clara, e a confiança nele diminui.

Aqueles que estão tristes, embora não vejam Cristo, conservam confiança firme em Deus e evidência permanente de que seus pecados foram apagados.

Enquanto conseguimos distinguir fé de incredulidade, esperança de desespero, paz de guerra interior e amor de Deus de amor ao mundo, podemos distinguir tristeza de escuridão.

2. Em segundo lugar, aprendemos que pode existir necessidade de tristeza, mas nunca existe necessidade de escuridão.

Pode ser necessário sermos contristados por breve tempo, como resultado natural das várias provações necessárias para experimentar e aumentar nossa fé, confirmar a esperança, purificar o coração e aperfeiçoar-nos em amor.

Consequentemente, essas provações podem contribuir para tornar mais brilhante nossa coroa e aumentar o eterno peso de glória.

Mas a escuridão não é necessária para alcançar essas finalidades.

A perda da fé, da esperança e do amor não contribui para a santidade nem aumenta a recompensa celestial.

3. Em terceiro lugar, a maneira como Pedro escreve demonstra que nem mesmo a tristeza é sempre necessária:

“Por breve tempo, se necessário.”

Portanto, ela não é necessária para todas as pessoas nem para qualquer pessoa em todos os períodos da vida.

Deus possui poder e sabedoria para realizar a mesma obra de graça por outros meios.

Em alguns casos, conduz pessoas de força em força, até que aperfeiçoem a santidade no temor de Deus, quase sem experimentarem profunda tristeza.

Esses casos, porém, parecem ser menos comuns.

Em geral, Deus considera apropriado provar pessoas aceitáveis na fornalha da aflição.

Assim, diversas provações e algum grau de tristeza costumam fazer parte da experiência de seus filhos mais queridos.

4. Finalmente, devemos vigiar, orar e utilizar todos os recursos da graça para evitar cair em escuridão.

Quanto à tristeza, nossa principal preocupação não deve ser evitá-la, mas aproveitá-la espiritualmente.

Precisamos comportar-nos de tal maneira durante ela e esperar no Senhor de modo que cumpra os propósitos amorosos pelos quais Deus permitiu que nos alcançasse.

Que se torne instrumento para aumentar a fé, confirmar a esperança e aperfeiçoar-nos em santidade.

Sempre que vier, consideremos essas finalidades bondosas.

Tenhamos cuidado para não anular em nós mesmos o propósito de Deus.

Cooperemos sinceramente com a graça que ele continuamente concede, purificando-nos de toda impureza da carne e do espírito e crescendo diariamente na graça de nosso Senhor Jesus Cristo, até sermos recebidos em seu Reino eterno.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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