SERMÃO 48

Negar a si mesmo

Negar-se a si mesmo e tomar a cruz: o que significa — e o que custa não fazer.

Lc 9.23, NAA ⏱ 20 min de leituraVida cristã prática

“Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.”

(Lc 9.23, NAA)

Antes de ler

Negar a si mesmo não significa desprezar a própria dignidade, praticar violência contra o corpo ou rejeitar todas as alegrias da vida. Para Wesley, significa recusar-se a seguir a própria vontade quando ela se opõe à vontade de Deus.

Tomar a cruz vai um pouco além. É aceitar voluntariamente aquilo que, embora doloroso ou desagradável, tornou-se necessário para obedecer a Deus, abandonar o pecado, praticar o bem ou crescer em santidade.

Wesley mostra que muitos permanecem espiritualmente adormecidos, não alcançam a fé, perdem a graça recebida ou deixam de crescer porque recusam pequenas renúncias cotidianas. Não se trata apenas de enfrentar perseguições extraordinárias. A cruz aparece nas decisões comuns: perseverar em oração, abandonar um desejo desordenado, corrigir alguém com amor, servir os necessitados ou aceitar algum desconforto para cumprir um dever cristão.

O sermão também contém críticas dirigidas a grupos religiosos da época de Wesley. Essas referências históricas foram preservadas como parte de seu argumento original, sem que devam ser transformadas em generalizações sobre tradições cristãs atuais.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Frequentemente se imaginou que a orientação apresentada neste texto fosse dirigida principalmente, ou até exclusivamente, aos apóstolos; ou, pelo menos, aos cristãos dos primeiros séculos e àqueles que enfrentavam perseguição.

Isso, porém, é um grave engano.

Embora nosso bendito Senhor estivesse falando mais diretamente aos apóstolos e aos outros discípulos que o acompanhavam durante seu ministério terreno, por meio deles falava também a nós e a toda a humanidade, sem exceção ou limitação.

A própria natureza dessa orientação demonstra que o dever ordenado não pertencia somente aos apóstolos ou aos cristãos antigos.

Ele não se limita a determinada classe de pessoas, época ou país. Possui natureza universal, abrangendo todas as pessoas, todos os tempos e todas as áreas da vida — e não somente alimentos, bebidas ou questões relacionadas aos sentidos.

O significado é este:

“Se alguém”, independentemente de sua posição, condição, circunstâncias, nação ou época, deseja realmente seguir-me, deve negar a si mesmo em todas as coisas, tomar sua cruz, qualquer que seja, diariamente, e seguir-me.

2. Negar a nós mesmos e tomar nossa cruz, em todo o sentido dessas expressões, não é um assunto de pouca importância.

Não se trata apenas de algo conveniente, como certas circunstâncias secundárias da religião.

É absoluta e indispensavelmente necessário tanto para nos tornarmos discípulos de Cristo como para continuarmos sendo seus discípulos.

Por sua própria natureza, é necessário para irmos após ele e o seguirmos. Na medida em que não o praticamos, não somos seus discípulos.

Se não negamos continuamente a nós mesmos, não estamos aprendendo de Cristo, mas de outros mestres.

Se não tomamos diariamente nossa cruz, não estamos seguindo a ele, mas ao mundo, ao príncipe deste mundo ou à nossa própria mente carnal.

Se não caminhamos pelo caminho da cruz, não estamos seguindo Jesus nem andando em seus passos. Estamos retrocedendo ou, pelo menos, afastando-nos dele.

3. Por essa razão, muitos ministros de Cristo, em quase todas as épocas e nações — especialmente depois da Reforma da Igreja — escreveram e falaram amplamente sobre esse importante dever, tanto em sermões públicos como em orientações particulares.

Também distribuíram muitos escritos sobre o assunto, inclusive em nossa própria nação.

Eles sabiam, tanto pela Palavra de Deus como pela própria experiência, que é impossível evitarmos negar nosso Mestre se nos recusamos a negar a nós mesmos.

Também sabiam que tentamos inutilmente seguir aquele que foi crucificado quando não tomamos diariamente nossa cruz.

4. Alguém poderá perguntar:

“Se tantas coisas já foram escritas e faladas sobre o assunto, por que precisamos dizer mais?”

Respondo que muitas pessoas que temem a Deus nunca tiveram oportunidade de ouvir ou ler aquilo que já foi apresentado.

Talvez, mesmo que tivessem lido muitos desses escritos, não recebessem grande benefício.

Diversos autores, alguns dos quais escreveram extensos volumes, parecem não ter compreendido plenamente o assunto.

Alguns possuíam uma visão imperfeita de sua natureza e, consequentemente, não poderiam explicá-la corretamente aos outros.

Outros não compreenderam a extensão extraordinária desse mandamento nem perceberam sua necessidade absoluta e indispensável.

Alguns escreveram de maneira tão obscura, complicada, confusa e mística que pareciam mais interessados em esconder o assunto das pessoas comuns do que em explicá-lo.

Outros falaram admiravelmente bem sobre a necessidade da renúncia, com grande clareza e força, mas permaneceram apenas em afirmações gerais.

Por não apresentarem aplicações concretas, foram pouco úteis às pessoas de formação e compreensão comuns.

Quando desceram aos casos particulares, geralmente trataram apenas de situações que raramente acontecem na vida cotidiana: suportar prisões e torturas ou abandonar literalmente casas, terras, marido, esposa, filhos ou a própria vida.

A maior parte de nós não é chamada a enfrentar essas coisas e provavelmente não será, a menos que Deus permita o retorno de tempos de perseguição pública.

Não conheço, porém, nenhum autor de língua inglesa que tenha descrito a natureza da renúncia com palavras simples e compreensíveis e aplicado o ensino às pequenas situações que surgem diariamente na vida comum.

Ainda necessitamos de uma explicação assim.

Em todas as etapas da vida espiritual, embora existam diferentes obstáculos para recebermos a graça ou crescermos nela, todos eles podem ser reduzidos a estas duas causas gerais:

Ou não negamos a nós mesmos, ou não tomamos nossa cruz.

Para suprir, pelo menos em parte, essa necessidade, procurarei mostrar:

I. O que significa negar a si mesmo e tomar a cruz.

II. Que, quando alguém não segue plenamente a Cristo, isso acontece por falta de renúncia ou por recusar-se a tomar a cruz.

III. Algumas conclusões práticas.

I. O que significa negar a si mesmo e tomar a cruz

1. Procurarei mostrar, primeiro, o que significa negar a si mesmo e tomar diariamente a cruz.

Esse assunto precisa ser cuidadosamente considerado e profundamente compreendido, especialmente porque enfrenta inúmeros e poderosos adversários.

Toda a nossa natureza se levanta contra essa doutrina em defesa própria.

Consequentemente, o mundo — isto é, as pessoas que seguem a natureza em vez da graça — detesta até mesmo o som dessas palavras.

O grande inimigo de nossa alma, conhecendo sua importância, não deixa de utilizar todos os recursos contra ela.

Isso, porém, não é tudo.

Até alguns que, em alguma medida, libertaram-se do jugo do diabo e experimentaram uma verdadeira obra da graça no coração não são amigos dessa grande doutrina cristã, embora o próprio Mestre tenha insistido tanto nela.

Alguns permanecem tão profundamente ignorantes a respeito dela como se não existisse na Bíblia uma única palavra sobre o assunto.

Outros estão ainda mais distantes, pois, sem perceber, receberam fortes preconceitos contra a renúncia.

Adquiriram esses preconceitos, em parte, de cristãos apenas exteriormente corretos: pessoas de discurso e comportamento respeitáveis, mas que não possuem o poder da piedade nem o espírito da verdadeira religião.

Também os receberam daqueles que anteriormente experimentaram, se não experimentam ainda, os poderes do mundo futuro.

Alguém poderá perguntar:

“Existem realmente pessoas religiosas que não praticam a renúncia nem a recomendam aos outros?”

Quem duvida disso conhece muito pouco a humanidade. Existem grupos inteiros que, embora não declarem guerra aberta contra a renúncia, quase chegam a fazê-lo.

Observem, por exemplo, certos predestinacionistas de Londres que, pela livre misericórdia de Deus, foram recentemente chamados das trevas naturais para a luz da fé.

São exemplos de renúncia?

Quantos deles realmente professam praticá-la?

Quantos a recomendam ou se alegram com aqueles que a ensinam?

Não a apresentam frequentemente de maneira desagradável, como se fosse procurar salvação pelas obras ou tentar estabelecer a própria justiça?

Antinomianos de diferentes espécies — desde alguns morávios de linguagem suave até grupos barulhentos e ofensivos — unem-se facilmente a essa acusação, falando de maneira vazia sobre legalismo e pregação da Lei.

Portanto, vocês estão continuamente em perigo de serem persuadidos, intimidados ou ridicularizados a abandonar essa importante doutrina do evangelho por falsos mestres ou falsos irmãos, que se afastaram, em maior ou menor grau, da simplicidade do evangelho.

Por isso, façam com que a oração fervorosa preceda, acompanhe e siga a leitura deste sermão, para que a verdade seja escrita no coração pelo dedo de Deus e jamais seja apagada.

2. Mas o que é negar a si mesmo?

Em que devemos negar a nós mesmos?

De onde surge essa necessidade?

A vontade de Deus é a regra suprema e imutável para toda criatura inteligente.

Ela obriga igualmente todos os anjos no céu e todos os seres humanos sobre a terra.

Não poderia ser diferente. Essa obrigação é resultado natural e necessário do relacionamento entre as criaturas e seu Criador.

Se a vontade de Deus é nossa única regra de ação em todas as coisas, grandes e pequenas, segue-se necessariamente que não devemos seguir nossa própria vontade em coisa alguma quando ela se opõe à vontade divina.

Aqui percebemos a natureza, o fundamento e a razão da renúncia.

Negar a si mesmo é recusar-se a seguir a própria vontade, reconhecendo que a vontade de Deus é nossa única regra de ação.

A razão é simples: somos criaturas.

“Foi ele quem nos fez, e dele somos.”

(Sl 100.3, NAA)

3. Essa razão para negar a si mesmo seria válida até para os anjos de Deus no céu e para o ser humano inocente e santo, tal como saiu das mãos de seu Criador.

Entretanto, existe outra razão, relacionada à condição da humanidade depois da queda.

Nossa natureza está corrompida em todas as suas capacidades.

Nossa vontade, corrompida juntamente com as demais partes de nossa natureza, inclina-se a satisfazer essa corrupção.

Por outro lado, a vontade de Deus é que resistamos e nos oponhamos à corrupção, não apenas em alguns momentos ou áreas, mas em todos os momentos e em todas as coisas.

Aqui encontramos outro fundamento para a renúncia constante e universal.

4. Para explicar melhor: a vontade de Deus é um caminho que conduz diretamente a ele.

A vontade humana, que originalmente caminhava na mesma direção, tornou-se, em nosso estado presente, outro caminho.

Não apenas é diferente, mas diretamente contrário. Conduz para longe de Deus.

Se caminharmos por um desses caminhos, precisaremos abandonar o outro.

Não podemos caminhar simultaneamente nos dois.

Uma pessoa indecisa e de mãos enfraquecidas pode alternar entre os dois caminhos, seguindo um e depois o outro.

Mas não pode seguir ambos ao mesmo tempo.

Não podemos, no mesmo instante, cumprir nossa própria vontade e a vontade de Deus.

Precisamos escolher uma ou outra: negar a vontade de Deus para seguir a nossa ou negar a nós mesmos para seguir a vontade divina.

5. É, sem dúvida, agradável durante algum tempo seguir nossa própria vontade e satisfazer a corrupção da natureza em alguma situação.

Ao segui-la, porém, fortalecemos a perversidade da vontade.

Ao satisfazê-la, aumentamos continuamente a corrupção da natureza.

O alimento agradável ao paladar pode aumentar uma enfermidade física.

Satisfaz o gosto, mas inflama a doença.

Produz prazer, mas também produz morte.

6. Em resumo, negar a nós mesmos significa negar nossa vontade sempre que ela não estiver de acordo com a vontade de Deus, por mais agradável que pareça.

Significa negar a nós mesmos qualquer prazer que não proceda de Deus nem nos conduza a ele.

É recusar-nos a abandonar o caminho correto para entrar em uma estrada agradável e florida.

É rejeitar aquilo que sabemos ser veneno mortal, mesmo que possua sabor agradável.

7. Todo aquele que deseja seguir a Cristo e ser verdadeiramente seu discípulo não deve apenas negar a si mesmo, mas também tomar a cruz.

Uma cruz é qualquer coisa contrária à nossa vontade e desagradável à nossa natureza.

Tomar a cruz vai um pouco além de negar a nós mesmos.

Eleva-se um pouco mais e representa tarefa mais difícil para a carne e o sangue, pois é mais fácil abrir mão de um prazer do que suportar uma dor.

8. Enquanto corremos a carreira que está diante de nós segundo a vontade de Deus, frequentemente encontramos uma cruz no caminho.

Surge alguma coisa que não é agradável, mas dolorosa; algo contrário à nossa vontade e desagradável à nossa natureza.

O que devemos fazer?

A escolha é clara.

Ou tomamos a cruz, ou nos afastamos do caminho de Deus e do santo mandamento que nos foi entregue.

Caso não paremos completamente, poderemos retroceder para a perdição.

9. Para curar a corrupção e a doença espiritual que todos trazemos ao mundo, muitas vezes é necessário, em sentido figurado, arrancar o olho direito ou cortar a mão direita.

Tão dolorosa pode ser a própria coisa que precisa ser realizada ou o único meio para realizá-la!

Talvez seja necessário abandonar um desejo insensato ou uma afeição desordenada ou separar-nos do objeto dessa afeição, sem o que ela jamais será vencida.

No primeiro caso, arrancar um desejo ou afeição profundamente enraizados na alma pode ser como a penetração de uma espada, dividindo simbolicamente alma e espírito, juntas e medulas.

O Senhor se apresenta à alma como fogo do refinador para queimar toda a impureza.

Isso é realmente uma cruz.

É essencialmente doloroso e precisa ser assim por sua própria natureza.

A alma não pode ser atravessada e passar pelo fogo sem experimentar sofrimento.

10. No segundo caso, os meios necessários para curar a alma enferma pelo pecado e eliminar um desejo insensato ou afeição desordenada são frequentemente dolorosos, não por sua própria natureza, mas por causa da enfermidade.

Quando Jesus disse ao jovem rico que vendesse o que possuía e desse aos pobres, sabia que esse era o meio necessário para curar sua avareza.

A simples ideia de obedecer produziu tamanha dor que o jovem afastou-se triste.

Preferiu abandonar a esperança do céu a abandonar seus bens terrenos.

Esse era um peso que não quis levantar, uma cruz que se recusou a tomar.

De uma maneira ou de outra, todo seguidor de Cristo certamente precisará tomar sua cruz diariamente.

11. “Tomar” a cruz é um pouco diferente de “carregá-la”.

Carregamos propriamente a cruz quando suportamos com mansidão e submissão aquilo que nos foi colocado sem nossa escolha.

Tomamos a cruz quando sofremos voluntariamente alguma coisa que estava em nosso poder evitar.

Isso acontece quando acolhemos livremente a vontade de Deus, embora contrária à nossa; quando escolhemos aquilo que é doloroso porque reconhecemos ser a vontade de nosso sábio e bondoso Criador.

12. Todo discípulo de Cristo precisa tanto tomar como carregar a cruz.

Em determinado sentido, sua cruz não pertence somente a ele, pois é comum a muitas outras pessoas.

Nenhuma tentação nos alcança que não seja humana, isto é, apropriada à condição comum da humanidade neste mundo.

Em outro sentido, porém, considerada em todas as suas circunstâncias, a cruz é particular de cada pessoa.

Foi permitida por Deus para ela e lhe é concedida como sinal de seu amor.

Depois de empregar os meios indicados pela sabedoria cristã para remover ou aliviar o sofrimento, deve entregar-se como barro nas mãos do Oleiro.

Deus ordena todas as coisas para seu bem: a espécie da cruz, sua intensidade, duração e todas as demais circunstâncias.

13. Podemos compreender que, em tudo isso, nosso bendito Senhor atua como Médico da alma.

Não age simplesmente segundo seu prazer, mas para nosso bem, a fim de participarmos de sua santidade.

Se, ao examinar as feridas, causa-nos dor, faz isso somente para curá-las.

Remove aquilo que está deteriorado ou doente para preservar a parte saudável.

Se escolhemos voluntariamente perder uma parte do corpo para que o corpo inteiro não morra, quanto mais deveríamos aceitar, em sentido figurado, cortar a mão direita para que a alma inteira não seja destruída!

14. Percebemos claramente a natureza e o fundamento de tomar a cruz.

Isso não significa castigar ou ferir deliberadamente o próprio corpo, usar roupas ásperas, cintos de ferro ou qualquer coisa que prejudique a saúde física.

Não sabemos que consideração Deus poderá demonstrar por aqueles que fazem isso em ignorância involuntária.

Tomar a cruz significa acolher a vontade de Deus, embora seja contrária à nossa.

Significa escolher medicamentos saudáveis, ainda que amargos, e aceitar livremente a dor temporária — de qualquer espécie ou intensidade — quando se torna direta ou indiretamente necessária para alcançar a alegria eterna.

II. A falta de renúncia impede o discipulado completo

1. Mostrarei, em segundo lugar, que, quando alguém não segue plenamente a Cristo e não é inteiramente seu discípulo, isso acontece por falta de renúncia ou por recusar-se a tomar a cruz.

É verdade que, em alguns casos, isso pode estar parcialmente relacionado à ausência dos meios da graça: falta da pregação verdadeira da Palavra de Deus com poder, dos sacramentos ou da comunhão cristã.

Mas, quando esses meios estão disponíveis, o grande obstáculo para recebermos a graça ou crescermos nela é sempre a falta de negar a nós mesmos ou tomar nossa cruz.

2. Alguns exemplos deixarão isso claro.

Uma pessoa ouve a Palavra capaz de salvar sua alma.

Aprecia o que escuta, reconhece a verdade e fica um pouco sensibilizada.

Mesmo assim, permanece morta em suas transgressões e pecados, insensível e espiritualmente adormecida.

Por quê?

Porque não deseja abandonar seu pecado preferido, embora agora saiba que ele é abominável diante do Senhor.

Veio ouvir a Palavra carregando desejos impuros e não deseja abandoná-los.

Por isso, nenhuma impressão profunda é produzida.

Seu coração insensato permanece endurecido.

Continua adormecida porque não deseja negar a si mesma.

3. Suponha que comece a despertar e que seus olhos sejam parcialmente abertos.

Por que se fecham novamente tão depressa?

Por que retorna ao sono da morte?

Porque volta a ceder ao pecado preferido e novamente bebe o veneno agradável.

Consequentemente, nenhuma impressão duradoura pode ser produzida no coração.

Recai na insensibilidade fatal porque não deseja negar a si mesma.

4. Isso não acontece com todas as pessoas.

Conhecemos muitas que, depois de despertarem, não voltaram a dormir.

As impressões recebidas não desapareceram. Tornaram-se profundas e permanentes.

Apesar disso, muitas ainda não encontraram aquilo que procuram.

Lamentam, mas não são consoladas.

Por quê?

Porque não produzem frutos dignos de arrependimento.

Segundo a graça recebida, não deixam de praticar o mal nem passam a fazer o bem.

Não abandonam o pecado que facilmente as envolve — relacionado à constituição, à educação ou à profissão.

Ou deixam de praticar o bem que podem e sabem que devem realizar porque existem circunstâncias desagradáveis ligadas a ele.

Não alcançam a fé porque não desejam negar a si mesmas ou tomar sua cruz.

5. Outra pessoa recebeu o dom celestial e experimentou os poderes do mundo futuro.

Contemplou a luz da glória de Deus na face de Jesus Cristo.

A paz que excede todo entendimento governou seu coração e sua mente, e o amor de Deus foi derramado ali pelo Espírito Santo.

Agora, porém, tornou-se fraca como as demais pessoas.

Voltou a apreciar as coisas terrenas e encontra mais prazer nas coisas visíveis do que nas invisíveis.

Os olhos do entendimento fecharam-se novamente, e já não contempla aquele que é invisível.

Seu amor esfriou, e a paz de Deus deixou de governar o coração.

Isso não é surpreendente.

Ela voltou a dar lugar ao diabo e entristeceu o Espírito Santo.

Retornou à insensatez e a algum pecado agradável, quando não exteriormente, pelo menos no coração.

Deu lugar ao orgulho, à ira, aos desejos desordenados, à vontade própria ou à obstinação.

Ou não despertou o dom de Deus existente nela.

Entregou-se à preguiça espiritual e não aceitou o esforço de orar sempre e vigiar com perseverança.

Fez naufrágio na fé por falta de renúncia e por não tomar diariamente sua cruz.

6. Talvez outra pessoa não tenha naufragado na fé.

Ainda possui alguma medida do Espírito de adoção, que continua confirmando ao seu espírito que é filha de Deus.

Apesar disso, não avança para a perfeição.

Já não possui, como anteriormente, fome e sede de justiça.

Não deseja ardentemente a imagem completa e o pleno desfrute de Deus, como a corça anseia pelas águas.

Está cansada e desanimada, como se permanecesse entre a vida e a morte.

Por que se encontra assim?

Porque se esqueceu de que a fé é aperfeiçoada pelas obras.

Não utiliza toda a diligência para realizar as obras de Deus.

Não persevera na oração particular e pública, na Ceia do Senhor, na pregação, na meditação, no jejum e na comunhão espiritual.

Mesmo que não abandone completamente alguns desses meios, não os utiliza com toda a força.

Também não é zelosa nas obras de misericórdia, além das obras de piedade.

Não demonstra misericórdia segundo a capacidade que Deus lhe concedeu.

Não serve fervorosamente ao Senhor fazendo todo o bem possível ao corpo e à alma das pessoas.

Por que não persevera na oração?

Porque, durante os períodos de secura espiritual, orar torna-se doloroso e cansativo.

Por que não participa da pregação em todas as oportunidades?

Porque o sono é agradável ou porque está frio, escuro ou chovendo.

7. Por que não persevera nas obras de misericórdia?

Porque não consegue alimentar o faminto ou vestir quem necessita sem reduzir as despesas com as próprias roupas ou utilizar alimentos mais simples e menos agradáveis.

Visitar os enfermos ou os presos também envolve diversas circunstâncias desagradáveis.

O mesmo acontece com muitas obras de misericórdia espiritual, especialmente a correção.

A pessoa deseja corrigir o próximo, mas a vergonha ou o medo ficam no caminho.

Pode expor-se não apenas ao ridículo, mas também a consequências mais graves.

Por essas e outras razões, deixa de praticar uma ou várias — talvez todas — as obras de misericórdia e piedade.

Consequentemente, sua fé não é aperfeiçoada, e ela não cresce na graça porque se recusa a negar a si mesma e tomar diariamente sua cruz.

Fica evidente, portanto, que, quando alguém não segue plenamente o Senhor e não é inteiramente seu discípulo, isso acontece por falta de renúncia ou por recusar-se a tomar a cruz.

Por esse motivo, quem está morto no pecado não desperta, embora a trombeta seja tocada.

Quem começa a despertar não desenvolve convicção profunda e permanente.

Quem possui profunda convicção do pecado não alcança o perdão.

Alguns que receberam o dom celestial não o conservam, mas naufragam na fé.

Outros, mesmo que não retrocedam para a perdição, tornam-se cansados e desanimados e não alcançam o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.

III. Conclusões práticas

1. Podemos aprender facilmente que não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus aqueles que, direta ou indiretamente, em público ou em particular, se opõem à doutrina da renúncia e da cruz diária.

Como são ignorantes a respeito de tantas passagens específicas e também do sentido geral da Palavra de Deus!

Como desconhecem a verdadeira experiência cristã e a maneira pela qual o Espírito Santo sempre operou e continua operando na alma humana!

Talvez falem com muita confiança e em voz alta, fruto comum da ignorância, como se fossem os únicos que compreendessem a Palavra de Deus e a experiência de seus filhos.

Suas palavras, porém, são vazias. Foram pesadas na balança e encontradas em falta.

2. Podemos também compreender a verdadeira razão pela qual muitas pessoas e até grupos inteiros, que anteriormente eram luzes ardentes e brilhantes, perderam tanto a luz como o fervor.

Mesmo que não tenham odiado ou combatido essa preciosa doutrina do evangelho, consideraram-na pouco importante.

Talvez não tenham declarado abertamente:

“Pisamos toda renúncia e a condenamos à destruição.”

Entretanto, não a valorizaram segundo sua grande importância nem se dedicaram a praticá-la.

Um conhecido opositor da doutrina declarou:

“Os autores místicos ensinam a renúncia.”

Não são somente os místicos. São os autores inspirados!

O próprio Deus ensina a renúncia a toda pessoa disposta a ouvir sua voz.

3. Aprendemos ainda que não é suficiente o ministro do evangelho simplesmente deixar de combater a doutrina da renúncia ou permanecer em silêncio sobre ela.

Também não cumpre seu dever falando apenas algumas palavras em seu favor.

Para permanecer livre da responsabilidade pelo sangue das pessoas, precisa falar sobre o assunto de maneira frequente e ampla.

Deve ensinar sua necessidade com a maior clareza e força e apresentá-la com seriedade a todas as pessoas, em todos os momentos e lugares.

Deve colocar ensino sobre ensino, mandamento sobre mandamento.

Assim conservará uma consciência limpa e contribuirá para a salvação da própria alma e daqueles que o ouvem.

4. Finalmente, cada pessoa deve aplicar esse ensino à própria alma.

Medite sobre ele em secreto e guarde-o no coração.

Procure não apenas compreendê-lo profundamente, mas lembrá-lo até o fim da vida.

Clame ao Deus forte por força para que, assim que compreender, comece a praticar.

Não adie.

Pratique a renúncia imediatamente, a partir desta hora.

Pratique-a universalmente, nas milhares de ocasiões que surgirão em todas as circunstâncias da vida.

Pratique-a diariamente e sem interrupção, desde o momento em que colocar a mão no arado.

Persevere até o fim, até que seu espírito retorne a Deus.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os sermões