SERMÃO 58

Sobre a predestinação

A ordem da salvação — sem anular a liberdade que Deus nos deu.

Rm 8.29–30, NAA ⏱ 11 min de leituraSalvação e graça

“Porque aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho… E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.”

(Rm 8.29–30, NAA)

Antes de ler

Aqui Wesley enfrenta o texto que, mais do que qualquer outro, foi puxado para um lado e para outro na história da igreja. E o faz com uma serenidade rara neste debate: começa lamentando que justamente sobre este assunto tão difícil os autores costumem escrever com a maior arrogância, "falando da cátedra, como infalíveis". A sua proposta é modesta e libertadora: Paulo, em Romanos 8, não descreve uma cadeia de causas que fabrica alguns para a glória e outros para a perdição; descreve simplesmente a ordem em que Deus salva — presciência, predestinação, chamado, justificação, santificação, glória. O ponto que sustenta toda a leitura arminiana está no §5, e é de uma clareza cristalina: Deus conhece as coisas porque elas são, não elas são porque ele as conhece. Assim como o sol não brilha porque eu o vejo, mas eu o vejo porque ele brilha, também Deus sabe que o homem crê ou não crê sem causar essa fé ou incredulidade. A presciência não destrói a liberdade — e sem liberdade não haveria responsabilidade, nem virtude, nem pecado. Note como Wesley fecha a questão do juízo de modo que nos é caro: Deus está "limpo do sangue de todos os homens; quem perece, perece por seu próprio ato e decisão". A predestinação, aqui, é de crentes — Deus predestinou aqueles que de antemão conheceu como crentes. É o coração da nossa teologia: a graça precede, convida e capacita, mas não força; a salvação é para todo o que crê, e a perdição, longe de ser decretada, é a recusa livre de quem "não quis vir".

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. “O nosso amado irmão Paulo”, diz Pedro, “segundo a sabedoria que lhe foi dada, também lhes escreveu, como o faz em todas as suas cartas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis torcem, como o fazem também com as demais Escrituras, para a própria destruição” (2Pe 3.15–16).

2. Não é improvável que, entre essas coisas ditas por Paulo que são difíceis de entender, o apóstolo Pedro incluísse o que ele fala sobre este assunto nos capítulos oitavo e nono da carta aos Romanos. E é certo que não só os ignorantes, mas muitos dos homens mais eruditos do mundo; e não só os “instáveis”, mas muitos que pareciam bem firmados nas verdades do evangelho, têm, por vários séculos, “torcido” estas passagens “para a própria destruição”.

3. Bem podemos admitir que sejam “difíceis de entender”, quando consideramos como homens do mais forte entendimento, aprimorados por todas as vantagens da educação, continuamente divergiram no juízo a respeito delas. E esta mesma consideração — que há tão larga diferença sobre o tema entre homens de maior saber, bom senso e piedade — seria de imaginar que tornaria extremamente cautelosos e humildes todos os que hoje falam do assunto. Mas, não sei como, observa-se justamente o contrário em toda parte do mundo cristão. Nenhum autor na terra parece mais categórico do que os que escrevem sobre este tema difícil. Aliás, os mesmos homens que, escrevendo sobre qualquer outro assunto, são notavelmente modestos e humildes, só neste depõem toda a autodesconfiança e falam da cátedra, como infalíveis. Isto se observa em quase todos os que sustentam os decretos absolutos. Mas por certo é possível evitá-lo: o que quer que proponhamos, pode ser proposto com modéstia e com deferência aos homens sábios e bons que são de opinião contrária — tanto mais que já se disse tanto, escreveram-se tantos volumes, que dificilmente se pode dizer algo que não tenha sido dito antes. Tudo o que ofereço agora, não aos amigos da contenda, mas aos homens de piedade e sinceridade, são algumas breves indicações que talvez lancem alguma luz sobre o texto acima citado.

4. Quanto mais frequente e cuidadosamente o considerei, mais me inclinei a pensar que o apóstolo não está aqui (como muitos supuseram) descrevendo uma cadeia de causas e efeitos — isto não parece ter-lhe passado pela mente —, mas simplesmente mostrando o método pelo qual Deus opera, a ordem em que os vários ramos da salvação constantemente se sucedem. E isto, entendo, ficará claro a todo investigador sério e imparcial, examinando a obra de Deus para a frente ou para trás, do começo ao fim ou do fim ao começo.

Do começo ao fim

5. Primeiro, olhemos para a frente, sobre toda a obra de Deus na salvação do homem, considerando-a desde o começo até terminar na glória. O primeiro ponto é a presciência de Deus. Deus conheceu de antemão, em toda nação, os que haviam de crer, desde o princípio do mundo até a consumação de todas as coisas. Mas, para lançar luz sobre esta questão obscura, deve-se notar bem que, ao falarmos da presciência de Deus, não falamos segundo a natureza das coisas, mas à maneira dos homens. Pois, a rigor, não há em Deus tal coisa como presciência ou pós-ciência. Estando todo o tempo, ou antes, toda a eternidade, presente a ele de uma só vez, ele não conhece uma coisa hoje e outra amanhã. Como todo o tempo, com tudo o que nele existe, lhe está presente de uma só vez, ele vê de uma só vez tudo o que foi, é ou será, até o fim do tempo. Mas note: não devemos pensar que as coisas são porque ele as conhece. Não; ele as conhece porque elas são. Assim como eu (se me for permitido comparar as coisas dos homens com as profundas coisas de Deus) agora sei que o sol brilha; contudo, o sol não brilha porque eu o sei, mas eu o sei porque ele brilha. O meu conhecimento supõe que o sol brilhe, mas de modo algum o causa. Do mesmo modo, Deus sabe que o homem peca, pois conhece todas as coisas; contudo, nós não pecamos porque ele o sabe, mas ele o sabe porque nós pecamos; e o seu conhecimento supõe o nosso pecado, mas de modo algum o causa. Em suma, Deus, olhando todas as eras, da criação à consumação, como um só momento, e vendo de uma só vez o que há no coração de todos os filhos dos homens, conhece cada um que crê ou não crê, em toda era e nação. Contudo, o que ele conhece, seja fé ou incredulidade, de modo algum é causado pelo seu conhecimento. Os homens são tão livres em crer ou não crer como se ele nada soubesse a respeito.

6. De fato, se o homem não fosse livre, não poderia ser responsável nem pelos seus pensamentos, nem pelas palavras, nem pelas ações. Se não fosse livre, não seria capaz de recompensa nem de castigo; seria incapaz de virtude ou de vício, de ser moralmente bom ou mau. Se não tivesse mais liberdade que o sol, a lua ou as estrelas, não seria mais responsável do que eles. Nessa suposição, as pedras da terra seriam tão capazes de recompensa, e tão sujeitas a castigo, quanto o homem: uma seria tão responsável quanto a outra. Sim, e seria tão absurdo atribuir-lhe virtude ou vício quanto atribuí-lo ao tronco de uma árvore.

7. Mas prossigamos: “Aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho.” Este é o segundo passo (falando à maneira dos homens, pois, de fato, não há antes nem depois em Deus). Em outras palavras: Deus decreta, de eternidade a eternidade, que todos os que creem no Filho do seu amor serão conformes à sua imagem, serão salvos de todo pecado interior e exterior para toda santidade interior e exterior. Por isso, é fato claro e inegável que todos os que verdadeiramente creem no nome do Filho de Deus recebem agora “o fim da sua fé, a salvação da sua alma”; e isto em virtude do imutável, irreversível e irresistível decreto de Deus: “Quem crer será salvo; quem não crer será condenado.”

8. “Aos que predestinou, a esses também chamou.” Este é o terceiro passo (sempre lembrando que falamos à maneira dos homens). Para exprimi-lo um pouco mais amplamente: segundo o seu decreto fixo, de que os crentes serão salvos, aqueles que ele conhece de antemão como tais, ele os chama exterior e interiormente — exteriormente pela palavra da sua graça, e interiormente pelo seu Espírito. Esta aplicação interior da sua palavra ao coração parece ser o que alguns chamam “chamado eficaz”; e implica chamá-los filhos de Deus, aceitá-los “no Amado”, justificá-los “gratuitamente, pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus”.

9. “Aos que chamou, a esses também justificou.” Este é o quarto passo. Geralmente se admite que a palavra “justificou” aqui é tomada em sentido peculiar: significa que os tornou justos. Ele executou o seu decreto, “conformando-os à imagem de seu Filho”; ou, como comumente dizemos, santificou-os.

10. Resta: “Aos que justificou, a esses também glorificou.” Este é o último passo. Tendo-os tornado “aptos a participar da herança dos santos na luz”, ele lhes dá “o reino que lhes foi preparado desde a fundação do mundo”. Esta é a ordem em que, “segundo o conselho da sua vontade”, o plano que traçou desde a eternidade, ele salva aqueles que conheceu de antemão: os verdadeiros crentes em todo lugar e geração.

Do fim ao começo

11. A mesma grande obra da salvação pela fé, segundo a presciência e o decreto de Deus, pode aparecer em luz ainda mais clara se a examinarmos ao contrário, do fim ao começo. Suponha, então, que você estivesse com “a grande multidão que ninguém pode contar, de toda nação, tribo, povo e língua”, que “dão louvor àquele que está assentado no trono, e ao Cordeiro, para todo o sempre”: você não acharia, entre todos os que entraram na glória, um só que não fosse testemunha daquela grande verdade — “sem santificação ninguém verá o Senhor”; nem um só, de toda aquela inumerável companhia, que não tivesse sido santificado antes de ser glorificado. Pela santidade ele foi preparado para a glória, segundo a invariável vontade do Senhor, de que a coroa, comprada pelo sangue do seu Filho, não seja dada senão aos que são renovados pelo seu Espírito. Ele se tornou “o autor da salvação eterna” somente “para os que lhe obedecem”, que lhe obedecem interior e exteriormente, que são santos no coração e santos em todo o seu procedimento.

12. E, se você pudesse ver todos os que na terra estão agora santificados, acharia que nenhum deles fora santificado senão depois de ser chamado. Ele foi primeiro chamado, não só com um chamado exterior, pela palavra e pelos mensageiros de Deus, mas também com um chamado interior, pelo seu Espírito, que aplica a sua palavra, capacita-o a crer no Filho unigênito de Deus e testemunha com o seu espírito que ele é filho de Deus. E foi por este mesmo meio que todos foram santificados. Foi por um senso do amor de Deus derramado no coração que cada um deles foi capacitado a amar a Deus. Amando a Deus, amou o próximo como a si mesmo e teve poder de andar em todos os mandamentos de modo irrepreensível. Esta é uma regra que não admite exceção. Deus chama seu ao pecador — isto é, justifica-o — antes de santificá-lo. E por esta mesma coisa, a consciência do seu favor, opera nele aquela grata afeição filial, da qual brotam todo bom ânimo, palavra e obra.

13. E quem são os que assim são chamados de Deus, senão aqueles que ele antes predestinara, ou decretara, a “conformar-se à imagem de seu Filho”? Este decreto (ainda falando à maneira dos homens) precede o chamado de cada homem: todo crente foi predestinado antes de ser chamado. Pois Deus não chama ninguém senão “segundo o conselho da sua vontade”, segundo aquele plano de agir que traçou antes da fundação do mundo.

14. Ainda: assim como todos os que são chamados foram predestinados, também a todos os que Deus predestinou ele conheceu de antemão. Ele os conheceu, viu-os como crentes e, como tais, predestinou-os à salvação, segundo o seu eterno decreto: “Quem crer será salvo.” Assim vemos todo o processo da obra de Deus, do fim ao começo. Quem são os glorificados? Ninguém senão os que primeiro foram santificados. Quem são os santificados? Ninguém senão os que primeiro foram justificados. Quem são os justificados? Ninguém senão os que primeiro foram predestinados. Quem são os predestinados? Ninguém senão aqueles que Deus conheceu de antemão como crentes. Assim, o propósito e a palavra de Deus permanecem inabaláveis como as colunas do céu: “Quem crer será salvo; quem não crer será condenado.” E assim Deus está limpo do sangue de todos os homens, visto que quem perece, perece por seu próprio ato e decisão. “Vocês não querem vir a mim”, diz o Salvador dos homens; e “em nenhum outro há salvação”. Eles “não querem crer”; e não há outro caminho para a salvação, presente ou eterna. Portanto, o seu sangue está sobre a própria cabeça; e Deus continua “justificado nas suas palavras”, ao dizer que “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”.

15. A soma de tudo é esta: o Deus todo-poderoso e sapientíssimo vê e conhece, de eternidade a eternidade, tudo o que é, o que foi e o que há de vir, num só eterno agora. Para ele, nada é passado ou futuro, mas todas as coisas igualmente presentes. Ele não tem, portanto, se falarmos segundo a verdade das coisas, nem presciência nem pós-ciência. Isto seria mal condizente com as palavras do apóstolo: “Nele não há mudança nem sombra de variação”; e com o que ele diz de si pelo profeta: “Eu, o Senhor, não mudo.” Contudo, quando fala conosco, conhecendo de que somos feitos e a estreiteza do nosso entendimento, ele se abaixa à nossa capacidade e fala de si à maneira dos homens. Assim, em condescendência com a nossa fraqueza, fala do seu propósito, conselho, plano e presciência. Não que Deus tenha necessidade de conselho, de propósito, ou de planejar a sua obra de antemão. Longe de nós atribuir isto ao Altíssimo, medindo-o por nós mesmos! É apenas por compaixão de nós que ele fala assim de si, como quem conhece de antemão as coisas do céu e da terra e as predestina. Mas poderemos imaginar que essas expressões devam tomar-se literalmente? A quem fosse tão grosseiro nas suas concepções, não poderia ele dizer: “Pensas que eu sou tal como tu? Não; assim como os céus são mais altos que a terra, também os meus caminhos são mais altos que os teus. Eu conheço, decreto e opero de um modo que não te é possível conceber; mas, para dar-te algum leve e trêmulo conhecimento dos meus caminhos, uso a linguagem dos homens e me ajusto à tua compreensão, neste teu estado de existência ainda infantil.”

16. Que aprendemos, então, de todo este relato? Isto, e nada mais: primeiro, Deus conhece todos os crentes; segundo, quer que sejam salvos do pecado; terceiro, para esse fim, justifica-os; quarto, santifica-os; e, quinto, leva-os à glória. Oh, que os homens louvassem o Senhor por esta sua bondade, e se contentassem com este relato simples dela, sem tentar penetrar naqueles mistérios que são profundos demais até para os anjos sondarem!

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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