SERMÃO 70

A razão imparcialmente considerada

O que a razão pode — e o que ela não pode — na vida cristã.

1Co 14.20, NAA ⏱ 20 min de leituraRazão e discernimento

“Irmãos, não sejam meninos no entendimento. Quanto à maldade, sim, sejam crianças; mas, quanto ao entendimento, sejam pessoas maduras.”

(1Co 14.20, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, John Wesley procura estabelecer o lugar correto da razão na vida cristã. Ele combate dois extremos: de um lado, aqueles que desprezam a razão, como se pensar cuidadosamente fosse inimigo da fé; de outro, aqueles que atribuem à razão uma capacidade que ela não possui, como se pudesse, por si mesma, produzir fé, esperança, amor, santidade e felicidade.

Wesley emprega o termo “entusiastas” para designar pessoas que confundiam suas próprias imaginações e impressões com revelações infalíveis de Deus. Também menciona os antinomianos, que, sob o pretexto de exaltar a fé, enfraqueciam ou anulavam a importância da lei moral.

Para Wesley, a razão é uma dádiva indispensável de Deus. Com a iluminação do Espírito Santo, ela nos ajuda a compreender as Escrituras, discernir a verdade e orientar nossa conduta. Contudo, a experiência viva da salvação não é uma conquista da capacidade intelectual, mas um dom da graça divina.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

É verdadeira a observação de um homem eminente, que estudou atentamente a natureza humana: “Quando a razão está contra uma pessoa, essa pessoa sempre estará contra a razão.” Isso tem sido confirmado pela experiência de todas as épocas. Houve muitos exemplos disso tanto no mundo cristão quanto no mundo pagão, e até mesmo nos tempos mais antigos.

Mesmo naquela época, não faltavam homens bem-intencionados que, por não possuírem muita capacidade de raciocínio, imaginavam que a razão não tinha utilidade alguma na religião; ou, ainda pior, que ela era um obstáculo à religião. Desde então, sempre existiram pessoas que acreditaram e afirmaram a mesma coisa. Contudo, talvez nunca tenha havido na Igreja cristã, pelo menos na Grã-Bretanha, um número tão grande delas quanto existe hoje.

Entre aqueles que desprezam e desvalorizam a razão, geralmente encontramos os entusiastas, que imaginam que os sonhos de sua própria mente são revelações de Deus. Não podemos esperar que pessoas dessa espécie deem muita atenção à razão. Como julgam possuir um guia infalível, pouco se importam com os argumentos de homens falíveis.

Entre os primeiros desse grupo encontramos, normalmente, toda a multidão dos antinomianos. Embora discordem em outros assuntos, todos concordam em “anular a lei pela fé”. Quando apresentamos argumentos racionais contra proposições absurdas ou até blasfemas defendidas por eles, provavelmente considerarão suficiente responder: “Ah, isso é apenas a sua razão!”, ou: “Isso é a sua razão carnal!” Desse modo, todos os argumentos se perdem. Eles não lhes dão mais atenção do que dariam à palha ou à madeira apodrecida.

Como é natural que aqueles que observam esse extremo corram para o extremo oposto! Impressionados com o absurdo de desprezar a razão, facilmente passam a valorizá-la em excesso. Por isso, estamos cercados de pessoas que estabelecem como princípio indiscutível que a razão é o maior dom de Deus. Elas a pintam com as cores mais belas e a exaltam até os céus. Gostam de ampliar seus elogios e a apresentam como algo quase divino.

Costumam descrevê-la como praticamente infalível. Consideram-na o guia plenamente suficiente de todos os seres humanos, capaz, por sua própria luz, de conduzi-los a toda a verdade e a toda a virtude.

Aqueles que possuem preconceito contra a revelação cristã e não recebem as Escrituras como os oráculos de Deus caem quase universalmente nesse extremo. Raramente encontrei alguma exceção. O mesmo acontece com todos aqueles, seja qual for o nome que recebam, que negam a divindade de Cristo. Alguns deles afirmam que não negam sua divindade, mas somente sua divindade suprema.

Entretanto, isso dá no mesmo, pois, ao negarem que Cristo seja o Deus supremo, negam que ele seja verdadeiramente Deus, a menos que pretendam afirmar que existem dois deuses: um grande e outro pequeno! Todos esses são defensores entusiasmados da razão como o grande guia que nunca erra. Entre os que supervalorizam a razão também podemos incluir, geralmente, os homens de entendimento excepcionalmente forte. Como sabem mais do que a maioria, imaginam que podem saber todas as coisas.

Também podemos acrescentar muitos que se encontram no extremo oposto: pessoas de entendimento extremamente fraco, nas quais o orgulho, como frequentemente acontece, ocupa o lugar do bom senso. Elas não suspeitam que sejam cegas porque sempre foram cegas.

Não existe, então, um meio-termo entre esses dois extremos: desprezar e supervalorizar a razão? Certamente existe. Mas quem poderá indicá-lo? Quem poderá marcar o caminho do equilíbrio? O grande mestre da razão, o senhor Locke, fez algo nessa direção, em um capítulo de seu Ensaio sobre o Entendimento Humano. Contudo, o que escreveu aplica-se apenas indiretamente à questão e não chega ao ponto principal. O bom e grandioso doutor Watts também escreveu admiravelmente sobre a razão e a fé.

No entanto, nada do que ele escreveu indica precisamente o equilíbrio entre atribuir à razão importância insuficiente e atribuir-lhe importância excessiva.

Eu gostaria de tentar, em alguma medida, suprir essa grande deficiência. Mostrarei, primeiro, aos que desvalorizam a razão aquilo que ela pode fazer; e, depois, aos que a supervalorizam, aquilo que ela não pode fazer. Antes, porém, é absolutamente necessário definir o termo e estabelecer o significado exato da palavra em questão. Sem isso, as pessoas poderão discutir até o fim do mundo sem chegar a conclusão alguma.

Essa é uma das principais causas das inúmeras discussões que têm ocorrido sobre esse assunto. Pouquíssimos participantes dessas controvérsias se lembraram de definir a palavra sobre a qual discutiam. A consequência natural foi que, ao final, estavam tão distantes de um acordo quanto estavam no começo.

I. 1. Em primeiro lugar, a palavra razão é algumas vezes empregada com o sentido de argumento. Assim dizemos: “Apresente uma razão para sua afirmação.” Nesse sentido, lemos em Isaías: “Apresentem as suas razões”, isto é, seus argumentos mais fortes. Empregamos a palavra em sentido semelhante quando dizemos: “Ele possui boas razões para fazer o que faz.” Nesse caso, parece significar que possui motivos suficientes, capazes de influenciar uma pessoa sábia.

Mas como devemos entender a palavra na conhecida questão a respeito das “razões das coisas”, particularmente quando se pergunta: An rationes rerum sint aeternae? — “As razões das coisas são eternas?” A expressão “razões das coisas” não significa, nesse contexto, as relações existentes entre as coisas? Mas como poderiam ser eternas as relações entre coisas temporais, coisas que ainda ontem não existiam? Poderiam as relações entre essas coisas existir antes que as próprias coisas existissem? Falar de tais relações não seria uma contradição direta, tão evidente quanto qualquer contradição que possa ser expressa em palavras?

Em outro sentido, razão significa praticamente o mesmo que entendimento. Refere-se a uma faculdade da alma humana, faculdade que opera de três maneiras: pela apreensão simples, pelo juízo e pelo raciocínio. A apreensão simples é apenas conceber alguma coisa na mente; é o primeiro e mais simples ato do entendimento. O juízo é determinar se as coisas anteriormente concebidas concordam entre si ou diferem umas das outras.

O raciocínio, falando com rigor, é o movimento ou progresso da mente de um juízo para outro. É a faculdade da alma que inclui essas três operações que designo aqui pelo termo razão.

Tomando a palavra nesse sentido, consideremos agora imparcialmente, em primeiro lugar, aquilo que a razão pode fazer. Quem poderá negar que ela pode fazer muito, muitíssimo, nos assuntos da vida cotidiana? Começando pelo nível mais simples, a razão pode orientar os empregados quanto à maneira de realizar as diversas tarefas que lhes foram confiadas e cumprir adequadamente suas responsabilidades, sejam elas as mais simples ou as mais elevadas.

Ela pode orientar o agricultor quanto à época e à maneira de cultivar a terra: quando arar, semear, colher e armazenar os cereais; como criar e cuidar dos animais; e como agir com prudência e competência em cada parte de seu trabalho. Pode orientar os artesãos na fabricação dos diversos tipos de roupas e de milhares de objetos necessários e convenientes à vida, tanto para eles e suas famílias quanto para seus vizinhos, próximos ou distantes.

Pode orientar pessoas de maior habilidade a planejar e executar obras mais refinadas. Pode dirigir o pintor, o escultor e o músico, para que se destaquem nas atividades em que a providência os colocou. Pode orientar o navegante a conduzir sua embarcação sobre a imensidão dos mares. Capacita os estudiosos das leis do país a defender os bens ou a vida de seus concidadãos e os estudiosos da medicina a tratar muitas das enfermidades às quais estamos sujeitos em nossa condição presente.

Subindo ainda mais, é certo que a razão pode nos auxiliar em todo o conjunto das artes e das ciências: gramática, retórica, lógica, filosofia natural e moral, matemática, álgebra e metafísica. Ela pode ensinar tudo quanto a habilidade e a dedicação humanas descobriram ao longo de milhares de anos.

A razão é absolutamente necessária para o devido exercício dos cargos mais importantes, como os dos magistrados, tanto inferiores quanto superiores, e os dos governantes subordinados ou supremos de estados, províncias e reinos.

Poucas pessoas em perfeito juízo negarão tudo isso. Nenhuma pessoa que pensa pode duvidar de que a razão presta um serviço considerável em todas as coisas relacionadas ao mundo presente. Mas suponhamos que falemos de assuntos mais elevados, das coisas do mundo futuro. O que a razão pode fazer nesse campo? Ela ajuda ou atrapalha a religião? Pode fazer muito nos assuntos humanos, mas o que pode fazer nas coisas de Deus?

Esse é um ponto que merece profunda consideração. Caso alguém pergunte: “O que a razão pode fazer na religião?”, respondo: ela pode fazer muitíssimo, tanto em relação ao fundamento da religião quanto àquilo que se edifica sobre esse fundamento.

O fundamento da verdadeira religião está nos oráculos de Deus. Ela está edificada sobre os profetas e os apóstolos, tendo o próprio Jesus Cristo como pedra angular. Como a razão é útil quando desejamos compreender esses oráculos vivos ou explicá-los aos outros! Como seria possível, sem ela, compreender as verdades essenciais contidas nas Escrituras, das quais temos um belo resumo no chamado Credo dos Apóstolos?

Não é a razão, auxiliada pelo Espírito Santo, que nos capacita a compreender o que as Escrituras declaram sobre a existência e os atributos de Deus, sobre sua eternidade e imensidade, seu poder, sua sabedoria e sua santidade? É por meio da razão que Deus nos capacita, em alguma medida, a compreender sua maneira de tratar os seres humanos, a natureza das diferentes dispensações, a antiga e a nova aliança, a lei e o evangelho.

Por meio dela compreendemos, enquanto o Espírito abre e ilumina os olhos de nosso entendimento, o que é o arrependimento que não produz remorso, o que é a fé pela qual somos salvos, qual é a natureza e a condição da justificação e quais são seus frutos imediatos e posteriores. Por meio da razão aprendemos o que é o novo nascimento, sem o qual não podemos entrar no Reino dos Céus, e o que é a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.

Pelo uso adequado da razão, conhecemos as disposições interiores que estão incluídas na santidade interior e o que significa ser exteriormente santo, santo em toda a maneira de viver. Em outras palavras, compreendemos o que significa ter a mente que houve em Cristo e andar como Cristo andou.

Muitos casos particulares surgirão a respeito dos diversos assuntos mencionados, nos quais precisaremos empregar todo o nosso entendimento, caso desejemos conservar uma consciência livre de ofensa. Muitos casos de consciência não podem ser resolvidos sem o mais cuidadoso exercício da razão. O mesmo é necessário para compreendermos e cumprirmos nossos deveres nos relacionamentos cotidianos: os deveres dos pais e dos filhos, dos maridos e das esposas e, para não mencionar outros, dos patrões e dos empregados.

Em todas essas relações e em todos os deveres da vida comum, Deus nos deu a razão como guia. Somente agindo de acordo com suas orientações e empregando todo o entendimento que Deus nos concedeu é que podemos conservar uma consciência sem ofensa diante de Deus e das pessoas.

Temos aqui, portanto, um campo verdadeiramente vasto no qual a razão pode se estender e exercer todas as suas capacidades. Se a razão pode fazer tudo isso nos assuntos civis e religiosos, o que existe que ela não possa fazer?

Até agora, procuramos deixar de lado todo preconceito e avaliar a questão com calma e imparcialidade. Continuemos no mesmo caminho. Consideremos agora serenamente, sem inclinação prévia para nenhum dos lados e de acordo com a melhor luz que possuímos, aquilo que a razão não pode fazer.

Em primeiro lugar, a razão não pode produzir a fé. Embora a verdadeira fé seja sempre coerente com a razão, a razão não pode produzir a fé no sentido bíblico da palavra. Segundo as Escrituras, a fé é “a convicção de fatos que não se veem” (Hebreus 11.1). É uma evidência divina que produz plena convicção a respeito do mundo invisível e eterno. É verdade que existia uma espécie de vaga persuasão sobre isso até mesmo entre os pagãos mais sábios, provavelmente recebida por tradição ou por alguns raios de luz refletidos a partir dos israelitas.

Por isso, muitos séculos antes do nascimento de nosso Senhor, um poeta grego expressou esta grande verdade:

Milhões de criaturas espirituais
Caminham invisíveis sobre a terra,
Quer estejamos acordados, quer adormecidos.

Contudo, isso não passava de uma fraca conjectura. Estava muito longe de ser uma convicção firme, coisa que a razão, mesmo no mais elevado estado de desenvolvimento, jamais poderia produzir em qualquer ser humano.

Há muitos anos, descobri a verdade disso por uma experiência dolorosa.

Depois de reunir cuidadosamente os argumentos mais fortes que pude encontrar, tanto em autores antigos quanto modernos, em favor da existência de Deus e, estreitamente ligada a ela, da existência de um mundo invisível, caminhei de um lado para outro, refletindo comigo mesmo: “E se todas essas coisas que vejo ao meu redor, a terra, o céu e toda a estrutura do universo, existirem desde a eternidade? E se aquela melancólica suposição do antigo poeta corresponder à realidade:

Οἵη περ φύλλων γενεή, τοίη δὲ καὶ ἀνδρῶν;

E se ‘a geração dos seres humanos for exatamente semelhante à geração das folhas’? E se a terra deixar cair sucessivamente seus habitantes, assim como uma árvore deixa cair suas folhas? E se for verdadeira a declaração de um grande homem:

Post mortem nihil est; ipsaque mors nihil?

‘Depois da morte não existe nada, e a própria morte nada é.’

Como posso ter certeza de que não seja assim? Como posso saber que não segui fábulas engenhosamente inventadas?” Prossegui nesses pensamentos até perder completamente as forças e mergulhar no mais profundo desespero.

Em uma questão de importância tão indescritível, não dependa da palavra de outra pessoa. Afaste-se por algum tempo do mundo agitado e faça você mesmo a experiência. Verifique se sua razão pode lhe dar uma evidência clara e satisfatória da existência do mundo invisível. Depois de abandonar os preconceitos recebidos durante sua formação, apresente seus argumentos mais fortes em favor dessa existência. Organize-os todos; silencie todas as objeções; expulse todas as dúvidas. Infelizmente, mesmo com todo o seu entendimento, você não conseguirá.

Talvez consiga reprimi-las por algum tempo. Mas com que rapidez elas voltarão a se reunir e atacarão com violência redobrada! O que a pobre razão poderá fazer para libertá-lo? Quanto mais violentamente você lutar, mais profundamente se prenderá nas redes e não encontrará caminho para escapar.

O que aconteceu com aquele grande admirador da razão, o autor da máxima citada no início? Refiro-me ao famoso senhor Hobbes. Ninguém negará que ele possuía um entendimento poderoso. Mas esse entendimento produziu nele uma convicção plena e satisfatória do mundo invisível? Abriu os olhos de seu entendimento para enxergar:

Além dos limites desta esfera iluminada pelo dia?

De modo algum! Suas palavras finais nunca deveriam ser esquecidas. Um de seus amigos perguntou: “Para onde o senhor está indo?” Ele respondeu: “Estou dando um salto no escuro!” E morreu. Essa é toda a evidência do mundo invisível que a razão, sozinha, pode proporcionar até mesmo ao mais sábio dos seres humanos.

Em segundo lugar, a razão sozinha não pode produzir esperança em nenhum ser humano. Refiro-me à esperança bíblica, pela qual “nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5.2). É a esperança que o apóstolo Paulo chama, em um lugar, de experimentar “os poderes do mundo vindouro” (Hebreus 6.5) e, em outro, de estar assentado “nas regiões celestiais em Cristo Jesus” (Efésios 2.6). É a esperança que nos capacita a bendizer a Deus, que nos regenerou “para uma viva esperança” e para uma herança incorruptível, sem mácula e reservada nos céus (1 Pedro 1.3-4).

Essa esperança somente pode nascer da fé cristã. Portanto, onde não existe fé, também não existe essa esperança.

Consequentemente, como a razão é incapaz de produzir a fé, é igualmente incapaz de produzir a esperança. A experiência também confirma isso. Quantas vezes trabalhei, com todas as minhas forças, para produzir essa esperança em mim mesmo! Contudo, foi um esforço inútil. Eu não podia adquirir essa esperança do céu mais do que poderia tocar o céu com as mãos. Quem fizer a mesma tentativa obterá o mesmo resultado.

Não nego que uma pessoa entusiasta e enganada por si mesma possa produzir em si uma espécie de esperança. Pode elevar-se a uma imaginação muito viva, a uma espécie de sonho agradável. Pode cercar-se, como diz o profeta, das “faíscas que vocês mesmos acenderam”. Isso, porém, não pode durar muito. Em pouco tempo a bolha certamente estourará. E qual será a consequência? “Isto é o que vocês receberão da minha mão: vocês se deitarão em tormentos” (Isaías 50.11).

Se a razão pudesse produzir em algum ser humano uma esperança cheia de imortalidade, certamente a teria produzido naquele grande homem a quem Justino Mártir não hesitou em chamar de “cristão antes de Cristo”. Pois quem, não tendo recebido a Palavra escrita de Deus, jamais superou ou sequer igualou Sócrates? Em qual outro pagão encontramos um entendimento tão poderoso unido a uma virtude tão elevada? Mas ele realmente possuía essa esperança? Deixemos que ele mesmo responda.

Qual foi a conclusão daquela nobre defesa que apresentou diante de seus juízes injustos? “Agora, ó juízes, vocês vão daqui para viver, e eu vou daqui para morrer. Qual dessas coisas é melhor, os deuses sabem; mas suponho que nenhum ser humano saiba.” Nenhum ser humano sabe! Como isso está distante da linguagem do pequeno benjamita: “Tenho o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filipenses 1.23)! E quantos milhares existem hoje, até mesmo em nossa nação, jovens e idosos, homens e mulheres, capazes de apresentar a mesma boa confissão!

Mas quem pode fazer isso pela força da razão, por mais desenvolvida que ela seja? Um dos pagãos mais sensatos e amáveis que viveram depois da morte de nosso Senhor, embora governasse o maior império do mundo, foi o imperador Adriano.

É bem conhecida sua declaração: “Um príncipe deve se assemelhar ao sol. Deve brilhar sobre todas as partes de seus domínios e espalhar seus raios benéficos em todos os lugares por onde passar.” Sua vida foi um comentário sobre essas palavras. Por onde ia, procurava praticar a justiça e demonstrar misericórdia. Estava ele, então, ao final de uma longa vida, cheio de esperança imortal? Podemos responder com base em uma autoridade incontestável: suas próprias palavras diante da morte. Como são incomparavelmente comoventes!

Adriani morientis ad animam suam
— Adriano, ao morrer, dirige-se à sua alma:

Animula, vagula, blandula,
Hospes comesque corporis,
Quae nunc abibis in loca,
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis jocos!

O leitor pode encontrar o espírito do original nesta tradução:

Pobre, pequena e inquieta criatura,
Não viveremos mais juntas?
Preparas agora a asa trêmula
Para voar sem saber para onde?
Teu humor leve e tua alegria
Foram abandonados e esquecidos.
Pensativa, incerta e melancólica,
Esperas e temes, sem saber o quê.

Em terceiro lugar, a razão, por mais cultivada e aperfeiçoada que seja, não pode produzir o amor de Deus. Isso fica evidente pelo fato de que ela não pode produzir nem a fé nem a esperança, das quais esse amor procede.

Somente quando contemplamos pela fé “que grande amor o Pai nos tem concedido” (1 João 3.1), entregando seu Filho único para que não pereçamos, mas tenhamos a vida eterna, é que “o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo” (Romanos 5.5). Somente quando nos alegramos na esperança da glória de Deus é que “nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4.19). O que a fria razão pode fazer nesse assunto? Pode nos apresentar ideias belas e pintar um belo quadro do amor, mas isso não passa de fogo pintado.

A razão não pode ir além disso. Fiz essa experiência por muitos anos. Reuni os mais belos hinos, orações e meditações que pude encontrar em qualquer língua. Recitei, cantei ou li essas composições repetidas vezes, com toda a seriedade e atenção possíveis. Contudo, continuava semelhante aos ossos na visão de Ezequiel: havia pele sobre eles, mas não havia neles espírito de vida.

Assim como a razão não pode produzir o amor de Deus, também não pode produzir o amor ao próximo: uma benevolência tranquila, generosa e desinteressada para com todos os seres humanos. Essa boa vontade sincera e constante para com nossos semelhantes nunca procedeu de outra fonte senão da gratidão ao nosso Criador. Se essa benevolência é, como supõe um homem muito inteligente, a própria essência da virtude, segue-se que a virtude não pode existir a menos que proceda do amor de Deus.

Portanto, como a razão não pode produzir esse amor, também não pode produzir a virtude.

E, como não pode conceder fé, esperança, amor ou virtude, também não pode conceder felicidade, pois, separados dessas coisas, não pode haver felicidade para nenhuma criatura inteligente. É verdade que aqueles que não possuem virtude alguma podem ter determinados prazeres, tais como são; mas não possuem e não podem possuir felicidade verdadeira. Não:

Sua alegria é tristeza; sua festa é vazia;
Seu riso é loucura; seu prazer, agonia!

Prazeres! Sombras! Sonhos! Passageiros como o vento, sem substância como o arco-íris e tão incapazes de satisfazer a alma sedenta:

Como as belas cores de uma nuvem oriental.

Nenhum deles resiste ao teste da reflexão. Quando o pensamento chega, a bolha estoura!

Permitam-me agora acrescentar algumas palavras simples, primeiramente a vocês que desvalorizam a razão. Nunca mais façam discursos descontrolados, vagos e exagerados contra esse precioso dom de Deus. Reconheçam “a lâmpada do Senhor” que ele colocou em nossa alma para propósitos excelentes.

Vocês veem quantos fins admiráveis ela realiza, mesmo que consideremos apenas as coisas desta vida. Como é indescritivelmente útil até mesmo uma porção moderada de razão em todas as ocupações terrenas, desde os trabalhos mais simples e humildes, passando por todos os níveis intermediários, até chegarmos aos assuntos de maior importância e dificuldade! Portanto, quando desprezam ou diminuem a razão, não imaginem que estejam prestando serviço a Deus. Muito menos estarão promovendo a causa de Deus quando tentarem excluir a razão da religião.

A menos que fechem voluntariamente os olhos, vocês não podem deixar de perceber quanto a razão é útil, sob a direção do Espírito de Deus, tanto no estabelecimento do fundamento da verdadeira religião quanto na construção sobre esse fundamento. Ela nos orienta em cada aspecto da fé e da prática. Guia-nos em cada dimensão da santidade, tanto interior quanto exterior.

Não nos gloriamos justamente no fato de que toda a nossa religião é um “culto racional” (Romanos 12.1) e de que cada uma de suas partes, quando devidamente praticada, exige o mais elevado exercício de nosso entendimento?

Permitam-me acrescentar algumas palavras também a vocês que supervalorizam a razão. Por que correr de um extremo para o outro? O caminho do meio não é o melhor? Deixem que a razão faça tudo aquilo que pode fazer. Empreguem-na até onde ela é capaz de chegar. Ao mesmo tempo, reconheçam que ela é completamente incapaz de conceder fé, esperança ou amor e, consequentemente, de produzir verdadeira virtude ou felicidade sólida. Esperem essas coisas de uma fonte mais elevada, do Pai dos espíritos de todos os seres humanos.

Busquem e recebam essas bênçãos, não como conquistas próprias, mas como dons de Deus.

Elevem o coração àquele que “a todos dá com generosidade e sem reprovações” (Tiago 1.5). Somente ele pode conceder a fé que é a convicção das coisas que não se veem. Somente ele pode regenerá-los para uma viva esperança de uma herança eterna nos céus. Somente ele pode derramar seu amor em seu coração pelo Espírito Santo que lhes foi dado.

Peçam, portanto, e lhes será dado! Clamem a ele, e não clamarão em vão! Como podem duvidar? Se vocês, sendo maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, “quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem” (Lucas 11.13)!

Assim vocês serão testemunhas vivas de que a sabedoria, a santidade e a felicidade são uma só realidade, inseparavelmente unidas, e constituem verdadeiramente o princípio daquela vida eterna que Deus nos concedeu em seu Filho.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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