SERMÃO 71
Dos bons anjos
Os espíritos ministradores enviados por Deus a favor dos que herdarão a salvação.
“Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?”
(Hb 1.14, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley apresenta sua compreensão sobre a natureza e o ministério dos bons anjos. Seu objetivo não é incentivar curiosidade especulativa nem a devoção aos anjos, mas mostrar como Deus pode empregá-los como instrumentos de sua providência em favor dos herdeiros da salvação.
Algumas afirmações refletem conhecimentos científicos, cronologias e concepções comuns no século XVIII. Wesley também apresenta como possibilidades algumas ideias que não são declaradas explicitamente nas Escrituras, como a capacidade dos anjos de perceber pensamentos humanos, participar de curas ou transmitir determinadas orientações durante sonhos.
Essas especulações devem ser reconhecidas como tais. O ponto teológico central permanece claro: os anjos não agem independentemente, não devem ser adorados e não substituem a ação de Deus. São criaturas santas que servem ao Criador e cumprem suas ordens.
— Bispo Ildo Mello
Muitos dos antigos pagãos possuíam, provavelmente por tradição, alguma noção a respeito de anjos bons e maus. Tinham alguma ideia de uma ordem superior de seres situada entre os seres humanos e Deus, aos quais os gregos geralmente chamavam de daimones, isto é, “seres conhecedores”, e os romanos de gênios. Supunham que alguns deles fossem bondosos e benevolentes, tendo prazer em fazer o bem, enquanto outros seriam maliciosos e cruéis, tendo prazer em praticar o mal.
Entretanto, suas concepções a respeito de ambos eram rudimentares, imperfeitas e confusas. Eram apenas fragmentos da verdade, em parte transmitidos por seus antepassados e em parte tomados dos escritos inspirados.
Entre os seres da primeira espécie, a espécie benevolente, parece ter estado o célebre daimon de Sócrates, a respeito do qual foram apresentadas muitas e variadas conjecturas nos séculos posteriores. “Ele me avisa”, dizia Sócrates, “todas as manhãs, a respeito de qualquer mal que me acontecerá naquele dia.” Um escritor recente, provavelmente alguém que quase não acredita na existência de anjos ou espíritos, publicou uma dissertação procurando provar que o daimon de Sócrates era apenas sua razão.
Entretanto, Sócrates não costumava falar de maneira tão obscura e ambígua. Se estivesse se referindo à sua razão, certamente o teria dito. Além disso, esse não poderia ser seu significado, pois seria impossível que sua razão o avisasse, todas as manhãs, de cada mal que lhe aconteceria durante o dia. Não pertence à esfera da razão fornecer avisos sobre acontecimentos futuros e contingentes. Essa interpretação estranha também não combina de modo algum com a conclusão que o próprio Sócrates tirava da experiência.
“Meu daimon”, disse ele, “não me avisou nesta manhã de nenhum mal que me aconteceria hoje. Portanto, não posso considerar um mal o fato de ter sido condenado à morte.” Sem dúvida, tratava-se de algum ser espiritual, provavelmente um desses espíritos ministradores.
Um poeta antigo, que viveu vários séculos antes de Sócrates, falou de maneira mais definida sobre o assunto. Hesíodo não hesitou em dizer:
Milhões de criaturas espirituais
Caminham invisíveis sobre a terra.
Provavelmente foi daí que surgiram as numerosas histórias a respeito dos feitos de seus semideuses, os minorum gentium. Daí também vieram seus sátiros, faunos e ninfas de todo tipo, com os quais imaginavam que o mar e a terra estavam povoados. Mas como são vazios, infantis e insatisfatórios todos os relatos que apresentam sobre eles! Na verdade, dificilmente poderia ser diferente, pois dependiam de uma tradição fragmentada e incerta.
Somente a revelação pode suprir essa deficiência. Somente ela nos fornece uma explicação clara, racional e coerente a respeito daqueles que nossos olhos não viram e nossos ouvidos não ouviram, tanto dos anjos bons quanto dos maus. Meu propósito, neste momento, é falar apenas dos primeiros. Temos a respeito deles uma descrição completa, embora breve, nestas palavras: “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?”
I. 1. Segundo a maneira de escrever do apóstolo, essa pergunta equivale a uma afirmação enfática. Aprendemos, em primeiro lugar, que, quanto à sua essência ou natureza, todos eles são espíritos. Não são seres materiais nem estão presos à carne e ao sangue como nós. Caso possuam corpos, eles não são grosseiros e terrenos como os nossos, mas de uma substância mais sutil, semelhante ao fogo ou à chama, mais do que a qualquer outro dos elementos inferiores.
Não existe uma indicação semelhante nas palavras do salmista, segundo as quais Deus faz de seus anjos ventos e de seus ministros labaredas de fogo (Salmo 104.4)? Como espíritos, Deus os dotou de entendimento, vontade ou afeições — que são, na verdade, a vontade exercendo-se de diferentes maneiras — e liberdade. O entendimento, a vontade e a liberdade não são essenciais a um espírito, se é que não constituem a própria essência de um espírito?
Mas quem, entre os seres humanos, pode compreender o entendimento de um anjo? Quem pode compreender até onde se estende sua visão? Empregamos a palavra “visão” por analogia com a visão humana, embora não se trate da mesma coisa, pois somos obrigados a falar assim por causa da pobreza da linguagem humana. Provavelmente, sua visão se estende não apenas sobre um hemisfério da terra, nem somente:
Dez vezes o comprimento deste mundo terrestre;
nem apenas sobre todo o sistema solar, mas talvez lhes permita contemplar de uma só vez toda a extensão da criação! Não podemos imaginar qualquer deficiência em sua percepção nem erro em seu entendimento. Mas de que maneira empregam seu entendimento? Não devemos imaginar que avancem lentamente de uma verdade para outra pelo método vagaroso que chamamos de raciocínio.
Sem dúvida, contemplam de uma só vez toda verdade que lhes é apresentada, com a mesma certeza e clareza com que nós, mortais, reconhecemos um princípio evidente. Quem pode, então, conceber a extensão de seu conhecimento? Conhecem não apenas a natureza, os atributos e as obras de Deus, tanto na criação quanto na providência, mas também as circunstâncias, ações, palavras, disposições e até mesmo os pensamentos dos seres humanos.
Embora somente Deus conheça plenamente o coração de todos e todas as suas obras desde o princípio do mundo, não podemos duvidar de que seus anjos conheçam o coração daqueles a quem servem mais diretamente. Muito menos podemos duvidar de que conheçam os pensamentos que estão em nosso coração em determinado momento. O que os impediria de percebê-los enquanto surgem? Certamente não seria o fino véu da carne e do sangue. Poderia isso impedir a visão de um espírito? Não:
Muros dentro de muros não impedem sua passagem
Mais do que o espaço livre do ar transparente.
Esses seres perspicazes percebem nossos pensamentos enquanto surgem no coração com muito mais facilidade e perfeição do que nós percebemos o pensamento de alguém pela expressão de seu rosto, pois enxergam o espírito semelhante a eles com maior clareza do que nós enxergamos o corpo.
Caso isso pareça estranho a alguém que nunca tenha refletido sobre o assunto, considere apenas o seguinte: suponhamos que meu espírito estivesse fora do corpo. Um anjo não poderia perceber meus pensamentos mesmo que eu não pronunciasse palavra alguma, caso palavras sejam empregadas no mundo dos espíritos? E esse espírito ministrador não pode percebê-los igualmente bem agora, enquanto estou no corpo? Parece, portanto, uma verdade incontestável, embora talvez não seja normalmente observada, que os anjos conhecem não apenas as palavras e ações, mas também os pensamentos daqueles a quem servem.
Na verdade, sem esse conhecimento, estariam muito pouco preparados para cumprir várias partes de seu ministério.
Que grau inconcebível de sabedoria devem ter adquirido pelo emprego de suas extraordinárias capacidades, além daquela sabedoria com a qual foram originalmente dotados, durante mais de seis mil anos! Temos certeza de que existem há todo esse tempo, pois “juntas, as estrelas da alva cantavam” quando foram lançados os fundamentos da terra (Jó 38.7). Como sua sabedoria deve ter aumentado durante um período tão longo! Observaram o coração e os caminhos dos seres humanos durante sucessivas gerações; contemplaram as obras de Deus, suas obras de criação, de providência e de graça; e, acima de tudo, contemplaram continuamente a face de seu Pai, que está nos céus.
Que medidas de santidade, assim como de sabedoria, receberam desse oceano inesgotável!
Um abismo sem limites e insondável,
Sem fundo e sem margem!
Não é por essa razão que são especialmente chamados de santos anjos? Quanta bondade, quanta benevolência e quanto amor pela humanidade beberam dos rios de alegria que estão à direita de Deus! Não podemos imaginar que esse amor seja superado por qualquer outro, exceto pelo amor de Deus, nosso Salvador. E continuam recebendo cada vez mais amor dessa Fonte de água viva.
Tal é o conhecimento e a sabedoria dos anjos de Deus, conforme aprendemos nos oráculos divinos. Tais são também sua santidade e bondade.
E como é extraordinária sua força! Até mesmo um anjo caído é chamado por um escritor inspirado de “príncipe da potestade do ar” (Efésios 2.2). Que demonstração terrível desse poder ele apresentou quando levantou repentinamente o vendaval que atingiu os quatro cantos da casa e matou de uma só vez todos os filhos de Jó! Que essa foi sua obra podemos compreender pela ordem divina de preservar a vida de Jó. Ele deu uma demonstração ainda mais terrível de sua força, caso suponhamos que o “anjo do Senhor” mencionado naquela passagem fosse um anjo mau, o que não é de modo algum impossível, quando matou cento e oitenta e cinco mil assírios em uma única noite, talvez em uma hora ou mesmo em um instante.
Uma força ainda maior deve ter sido exercida pelo anjo — fosse ele um anjo de luz ou das trevas, pois o texto não determina — que, em uma única hora, matou todos os primogênitos do Egito, tanto de pessoas quanto de animais. Considerando a extensão da terra do Egito, sua enorme população e o número incontável de animais criados nas casas e nos campos férteis, as pessoas e os animais mortos naquela noite devem ter somado vários milhões! Caso se suponha que tenha sido um anjo mau, um anjo bom não seria igualmente forte ou até mais forte? Certamente, qualquer anjo bom deve possuir poder maior do que o de um arcanjo arruinado.
E que poder devem possuir os quatro anjos mencionados em Apocalipse, encarregados de segurar os quatro ventos da terra! Portanto, não parece exagerado supor que, caso Deus permitisse, qualquer anjo de luz poderia retirar a terra e todos os planetas de suas órbitas. Poderia armar-se com todos esses elementos e esmagar toda a estrutura da natureza. Na verdade, não sabemos como estabelecer limites à força desses filhos primogênitos de Deus.
Embora somente seu grande Criador seja onipresente, e somente ele possa perguntar: “Não encho eu os céus e a terra?” (Jeremias 23.24), sem dúvida concedeu aos espíritos criados uma imensa esfera de ação, embora não ilimitada. O “príncipe do reino da Pérsia”, mencionado em Daniel 10.13, provavelmente um anjo mau, parece ter possuído uma esfera de conhecimento e poder tão extensa quanto aquele vasto império. Podemos razoavelmente atribuir uma esfera igual ou ainda maior ao anjo bom ao qual ele resistiu durante vinte e um dias.
Os anjos de Deus possuem grande poder, particularmente sobre o corpo humano. Podem causar ou remover dores e enfermidades, matar ou curar. Compreendem perfeitamente do que somos feitos. Conhecem todas as engrenagens dessa extraordinária máquina e podem, sem dúvida, com a permissão de Deus, tocar qualquer uma delas para interromper ou restaurar seu funcionamento.
Temos um exemplo claro desse poder até mesmo em um anjo mau no caso de Jó, a quem ele feriu com tumores malignos “desde a planta do pé até o alto da cabeça” (Jó 2.7). Naquele instante, sem dúvida, ele o teria matado se Deus não tivesse preservado sua vida. Por outro lado, temos um exemplo notável do poder dos anjos para fortalecer no caso de Daniel.
“Não me restou força alguma”, disse o profeta. Então alguém o tocou e lhe disse: “Não tenha medo! Que a paz esteja com você! Seja forte! Seja forte!” Quando ele falou, Daniel recobrou as forças (Daniel 10.17-19). Por outro lado, quando recebem uma missão do alto, não poderiam pôr fim à vida humana? Não existe nada de improvável naquilo que o doutor Parnell coloca na boca do anjo, ao falar ao eremita sobre a morte da criança:
Para todos, menos para você, parecia uma crise natural;
Mas foi meu ministério aplicar o golpe final.
Provavelmente foi dessa grande verdade que os poetas pagãos extraíram a imaginação de que Íris era enviada do céu para libertar as almas de seus corpos. Talvez a morte repentina de muitos filhos de Deus também ocorra pelo ministério de um anjo.
Os anjos de Deus estão perfeitamente preparados para seu elevado ofício. Resta perguntar de que maneira o exercem. Como servem aos herdeiros da salvação?
Não afirmarei que eles não prestem serviço algum àqueles que, por sua obstinada falta de arrependimento e incredulidade, excluem a si mesmos do Reino. Este mundo é um mundo de misericórdia, no qual Deus derrama muitas bênçãos até mesmo sobre os maus e ingratos. É provável que muitas dessas bênçãos lhes sejam transmitidas pelo ministério dos anjos, especialmente enquanto ainda conservam algum pensamento sobre Deus ou algum temor de Deus diante de seus olhos.
Entretanto, sua ocupação favorita e seu ofício particular consistem em servir aos herdeiros da salvação: aqueles que agora são salvos pela fé ou que, pelo menos, buscam sinceramente a Deus.
Não é seu primeiro cuidado servir à nossa alma? Não devemos esperar, porém, que isso aconteça de maneira visivelmente perceptível, permitindo-nos distinguir claramente a ação deles das operações de nossa própria mente. Não temos razão para esperar isso mais do que para esperar que apareçam diante de nós em forma visível. Mesmo sem aparecer, podem dirigir-se ao nosso entendimento de milhares de maneiras.
Podem nos auxiliar na busca da verdade, remover muitas dúvidas e dificuldades, lançar luz sobre aquilo que antes era escuro e obscuro e confirmar-nos na verdade que conduz à piedade. Podem nos advertir sobre o mal disfarçado e apresentar o bem sob uma luz clara e poderosa. Podem mover suavemente nossa vontade para abraçar o bem e fugir do mal.
Muitas vezes podem despertar nossas afeições enfraquecidas, aumentar nossa santa esperança ou nosso temor filial e ajudar-nos a amar mais fervorosamente aquele que nos amou primeiro. Sim, podem ser enviados por Deus para responder a toda aquela oração colocada em nossos lábios pelo piedoso bispo Ken:
Que teus anjos, enquanto eu dormir,
Ao redor de meu leito venham vigiar;
Que seu amor angelical possam transmitir
E toda entrada do mal possam fechar!
Que as alegrias celestes venham recordar
E, pensamento a pensamento, comigo conversar!
Entretanto, enquanto habitarmos o corpo, não seremos capazes de explicar a maneira como isso acontece.
Não poderiam também nos servir em relação ao corpo de milhares de maneiras que atualmente não compreendemos? Podem impedir que caiamos em muitos perigos dos quais nem sequer temos consciência e podem nos livrar de muitos outros, embora não saibamos de onde veio o livramento. Quantas vezes fomos preservados de maneira estranha e inexplicável em quedas repentinas e perigosas! E seria lamentável se atribuíssemos essa preservação ao acaso ou à nossa própria sabedoria e força.
Não foi assim. Deus ordenou a seus anjos que cuidassem de nós, e eles nos sustentaram nas mãos. As pessoas do mundo sempre atribuirão esses livramentos ao acaso ou às causas secundárias. Talvez alguns atribuíssem a essas causas a preservação de Daniel na cova dos leões. O próprio Daniel, porém, atribuiu-a à verdadeira causa: “O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões” (Daniel 6.22).
Quando uma enfermidade violenta, considerada incurável, desaparece completa e repentinamente, não é de modo algum improvável que isso aconteça pelo ministério de um anjo. Talvez se deva à mesma causa o fato de um remédio ser inexplicavelmente sugerido à pessoa enferma ou a alguém que esteja cuidando dela, por meio do qual é completamente curada.
Parece que aquilo que geralmente é chamado de “sonhos divinos” pode, muitas vezes, ser atribuído aos anjos. Temos um exemplo notável relatado por alguém que dificilmente será considerado um entusiasta, pois era pagão, filósofo e imperador. Refiro-me a Marco Aurélio Antonino.
Em suas Meditações, ele agradece solenemente a Deus por lhe ter revelado em um sonho, quando estava em Caieta, o que o curou completamente de uma grave enfermidade intestinal que nenhum de seus médicos conseguira tratar. Por que não poderíamos supor que Deus lhe transmitiu essa informação pelo ministério de um anjo?
Quantas vezes Deus nos livra de pessoas más por meio do ministério de seus anjos, destruindo tudo aquilo que a ira, a malícia ou a astúcia delas planejou contra nós! Os anjos estão ao redor da cama e do caminho dessas pessoas e conhecem todos os seus projetos obscuros. Sem dúvida, frustram muitos deles por meios que nem imaginamos. Algumas vezes destroem seus planos preferidos logo no início; outras vezes, quando estão prestes a ser executados.
Podem fazer isso por milhares de meios que desconhecemos. Podem detê-los no meio de sua carreira, retirando-lhes a coragem ou a força, enfraquecendo seus corpos ou transformando sua sabedoria em loucura. Algumas vezes trazem à luz as coisas ocultas das trevas e nos mostram as armadilhas colocadas diante de nossos pés. Dessas e de muitas outras maneiras, despedaçam os laços preparados pelos ímpios.
Outro grande ramo de seu ministério é combater a ação dos anjos maus, que andam continuamente ao redor, não apenas como leões que rugem, procurando alguém para devorar, mas, de maneira ainda mais perigosa, como anjos de luz, procurando alguém para enganar. Como é grande o número deles! Não são tão numerosos quanto as estrelas do céu? Como é grande sua astúcia, desenvolvida por uma experiência de mais de seis mil anos! Como é grande sua força, inferior apenas à dos anjos de Deus!
Os mais fortes entre os seres humanos são como gafanhotos diante deles. E que vantagem possuem sobre nós pelo simples fato de serem invisíveis! Assim como não temos força para repelir seu poder, também não possuímos habilidade para evitar suas ciladas.
Entretanto, o Senhor misericordioso não nos entregou à vontade de nossos inimigos. Seus olhos, isto é, seus santos anjos, percorrem toda a terra. Caso nossos olhos fossem abertos, veríamos que são mais numerosos os que estão conosco do que os que estão contra nós. Veríamos:
Um cortejo que nos acompanha,
Um exército ministrador de amigos invisíveis.
Sempre que os anjos maus nos atacam no corpo ou na alma, os bons anjos são capazes, estão dispostos e permanecem prontos para nos defender. São pelo menos igualmente fortes, igualmente sábios e igualmente vigilantes. Quem poderá nos causar dano quando temos ao nosso lado os exércitos dos anjos e o Deus dos anjos?
Podemos fazer uma observação geral: toda ajuda que Deus concede aos seres humanos por meio de outras pessoas, ele também pode conceder, e frequentemente em grau mais elevado, por meio dos anjos.
Deus nos concede por meio de pessoas luz quando estamos em trevas, alegria quando estamos abatidos, livramento quando estamos em perigo e alívio e saúde quando estamos enfermos ou sofrendo? Não podemos duvidar de que ele frequentemente transmite as mesmas bênçãos pelo ministério dos anjos. Isso acontece de modo menos perceptível, mas não menos eficaz, embora os mensageiros permaneçam invisíveis.
Deus nos livra muitas vezes, por meio de pessoas, da violência e da astúcia dos inimigos? Muitas vezes realiza o mesmo livramento por intermédio desses agentes invisíveis. Eles fecham a boca dos leões humanos, de modo que não tenham poder para nos ferir. Frequentemente se unem a nossos amigos humanos, embora nem eles nem nós percebamos, concedendo-lhes sabedoria, coragem ou força, sem as quais todo o trabalho deles em nosso favor seria inútil.
Assim, em incontáveis ocasiões, servem secretamente aos herdeiros da salvação, enquanto ouvimos apenas vozes humanas e não vemos ao nosso redor senão seres humanos.
Mas as Escrituras não ensinam que é o próprio Deus quem realiza todo o auxílio que existe na terra? Certamente. Ele é capaz de realizá-lo por seu poder imediato. Não necessita empregar instrumento algum, nem no céu nem na terra. Não precisa de anjos nem de seres humanos para cumprir todo o propósito de sua vontade. Contudo, não é de seu agrado agir dessa maneira. Nunca agiu assim, e podemos razoavelmente supor que nunca agirá.
Deus sempre operou pelos instrumentos que lhe agradou empregar, mas ainda é o próprio Deus quem realiza a obra. Portanto, qualquer auxílio que recebemos, seja por meio de anjos, seja por meio de seres humanos, é tão verdadeiramente obra de Deus como seria se ele estendesse diretamente seu braço todo-poderoso e agisse sem instrumento algum. Desde o princípio do mundo, porém, emprega esses instrumentos. Em todas as épocas, utiliza o ministério de seres humanos e de anjos.
É especialmente dessa maneira que se manifesta, na Igreja, “a multiforme sabedoria de Deus” (Efésios 3.10). Ao mesmo tempo, toda a glória pertence a ele, como pertenceria caso não empregasse instrumento algum.
A grande razão pela qual Deus se agrada em ajudar os seres humanos por meio uns dos outros, em vez de agir sempre imediatamente, é certamente fazer com que nos tornemos mais queridos uns aos outros por esses atos mútuos de bondade, aumentando assim nossa felicidade no tempo e na eternidade.
Não seria pela mesma razão que Deus ordena a seus anjos que cuidem de nós? Ele deseja tornar-nos queridos uns aos outros, de modo que, pelo crescimento de nosso amor e gratidão para com eles, experimentemos um aumento correspondente de felicidade quando nos encontrarmos no Reino de nosso Pai.
Enquanto isso, embora não possamos adorá-los, pois a adoração pertence somente ao Criador comum de todos nós, podemos estimá-los profundamente em amor por causa do trabalho que realizam. Podemos também imitá-los em toda santidade, ajustando nossa vida à oração que o próprio Senhor nos ensinou e procurando fazer a vontade de Deus na terra como os anjos a fazem no céu.
Não posso concluir este sermão de maneira melhor do que por meio desta admirável oração de nossa Igreja:
“Ó Deus eterno, que ordenaste e estabeleceste de maneira maravilhosa os serviços dos anjos e dos seres humanos, concede que, assim como teus santos anjos sempre te servem no céu, também, por tua determinação, possam socorrer-nos e defender-nos na terra, por Jesus Cristo, nosso Senhor.”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.