SERMÃO 72

Dos anjos maus

A realidade e a atuação dos anjos caídos — e como resistir a eles.

Ef 6.12, NAA ⏱ 20 min de leituraDeus, criação e providência

“Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais.”

(Ef 6.12, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, Wesley trata da natureza, organização e atuação dos anjos maus. Ele procura levar os cristãos a reconhecerem a realidade do conflito espiritual, evitando que atribuam toda oposição apenas às pessoas ou às circunstâncias visíveis.

Algumas afirmações refletem a ciência e a medicina do século XVIII, especialmente as referências a enfermidades, transtornos mentais, fenômenos naturais e acontecimentos cotidianos como possíveis efeitos da ação demoníaca. Essas declarações são preservadas por fidelidade histórica e teológica ao autor, mas não devem ser usadas para rejeitar diagnósticos médicos, psicológicos ou psiquiátricos, nem para atribuir automaticamente doenças e acidentes à ação de espíritos malignos.

Wesley também distingue entre o ensino explícito das Escrituras e suas próprias deduções. Seu ponto pastoral é que o cristão não deve viver dominado pelo medo, mas revestido de santidade, fé, esperança, oração e confiança no poder de Deus.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Tem sido frequentemente observado que não existem lacunas ou abismos na criação de Deus, mas que todas as partes estão admiravelmente ligadas umas às outras, formando um único conjunto universal. Existe, portanto, uma cadeia de seres, desde o ponto mais baixo até o mais elevado, desde uma partícula não organizada de terra ou água até Miguel, o arcanjo.

A escala das criaturas não avança per saltum, isto é, por saltos, mas por graus suaves e progressivos, embora muitos deles sejam imperceptíveis às nossas faculdades imperfeitas. Não podemos seguir com precisão muitos dos elos intermediários dessa extraordinária cadeia, pois são sutis demais para serem percebidos pelos sentidos ou pelo entendimento.

Podemos apenas observar, de maneira geral, os seres elevando-se uns acima dos outros: primeiro, a matéria inorgânica; depois, os minerais e os vegetais em suas diferentes ordens; em seguida, os insetos, répteis, peixes, animais, seres humanos e anjos. A respeito dos anjos, na verdade, não sabemos coisa alguma com certeza, exceto por meio da revelação. Os relatos deixados pelos mais sábios entre os antigos ou apresentados pelos pagãos modernos não passam de fábulas tolas e contraditórias, grosseiras demais até mesmo para enganar crianças.

Pela revelação divina, porém, somos informados de que todos os anjos foram criados santos e felizes. Entretanto, nem todos permaneceram como haviam sido criados. Alguns conservaram sua condição original; outros a abandonaram. Os primeiros são agora os anjos bons; os últimos, os anjos maus. Falei a respeito dos primeiros no sermão anterior. Agora pretendo falar sobre os últimos.

É extremamente necessário que compreendamos bem aquilo que Deus revelou a respeito deles, para que não tirem vantagem de nossa ignorância e para que saibamos lutar eficazmente contra eles. Pois nossa luta não é contra sangue e carne, mas contra principados, potestades, dominadores deste mundo tenebroso e forças espirituais do mal nas regiões celestiais.

Essa única passagem parece conter toda a doutrina bíblica a respeito dos anjos maus.

Entendo que seu sentido claro, traduzido literalmente, seja este: “Nossa luta”, a luta dos verdadeiros cristãos, não é somente, nem principalmente, contra “sangue e carne”, isto é, contra seres humanos fracos ou contra apetites e paixões carnais, mas contra “principados e potestades”: os poderosos príncipes de todas as regiões infernais e as forças reunidas sob seu comando. Grande é o poder deles, assim como o poder das legiões que comandam. Lutamos contra “os dominadores do mundo”, que é o sentido literal da palavra. Talvez esses principados e potestades permaneçam principalmente na fortaleza central de seu reino.

Existem, porém, outros espíritos maus que percorrem diferentes lugares e aos quais foram confiadas regiões do mundo. São dominadores “das trevas”, principalmente das trevas espirituais, “desta era”, que prevalecem durante a presente ordem das coisas. Lutamos contra “espíritos malignos”, eminentemente malignos, que odeiam mortalmente a santidade, opõem-se continuamente a ela e procuram infundir incredulidade, orgulho, desejos maus, malícia, ira, ódio, inveja e vingança. Eles atuam “nas regiões celestiais”, que anteriormente eram sua habitação e às quais ainda aspiram retornar.

Ao tratar desse importante assunto, procurarei explicar:

I. A natureza e as características dos anjos maus;

Sua ocupação.

I. 1. Quanto ao primeiro ponto, não podemos duvidar de que todos os anjos de Deus eram originalmente da mesma natureza. Sem dúvida, constituíam a ordem mais elevada dos seres criados. Eram espíritos, criaturas puras e etéreas, simples e incorruptíveis. Mesmo que não fossem completamente imateriais, certamente não estavam presos à carne e ao sangue grosseiros e terrenos.

Como espíritos, foram dotados de entendimento, afeições e liberdade, isto é, do poder de determinar suas próprias ações. Dependia deles permanecer fiéis a Deus ou rebelar-se contra ele.

Suas características originais eram, sem dúvida, as mesmas dos santos anjos. Não existe absurdo em supor que Satanás, seu chefe, também chamado “Lúcifer, filho da manhã”, tenha sido pelo menos um dos primeiros arcanjos, se não o primeiro. Assim como os demais filhos da manhã, possuía uma altura e uma profundidade de entendimento completamente incompreensíveis para nós.

Em consequência disso, possuíam tamanho conhecimento e sabedoria que os mais sábios entre os seres humanos, caso já existissem, seriam completos ignorantes quando comparados a eles. Sua força correspondia ao seu conhecimento. Era uma força que nem sequer podemos imaginar. Também não podemos conceber a extensão da esfera de ação de sua força e de seu conhecimento. Somente Deus pode dizer qual era o número deles. Sem dúvida, era inferior apenas ao infinito.

O grande rebelde arrastou consigo a terça parte dessas estrelas do céu.

Não sabemos exatamente, porque isso não foi revelado nos oráculos de Deus, qual foi a ocasião de sua apostasia nem qual efeito ela produziu imediatamente neles. Alguns supuseram, não sem alguma probabilidade, que, quando Deus publicou o decreto mencionado no Salmo 2.6-7, estabelecendo o Reino de seu Filho unigênito sobre todas as criaturas, esses seres primogênitos da criação deram lugar ao orgulho e compararam-se a ele.

Isso talvez esteja indicado nos próprios nomes Satanás, Lúcifer ou Miguel, cujo significado é: “Quem é semelhante a Deus?” Talvez Satanás, cedendo pela primeira vez à tentação, tenha dito em seu coração: “Eu também terei meu trono. Eu me assentarei no extremo norte. Serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14.13-14).

Como os poderosos caíram! Que perda extraordinária sofreram! Caso admitamos a respeito de todos eles aquilo que nosso poeta supõe particularmente sobre seu chefe:

Sua forma ainda não havia perdido
Todo o brilho original, nem parecia
Menor do que um arcanjo arruinado,
Cujo excesso de glória fora obscurecido;

caso suponhamos que sua forma exterior não tenha sido inteiramente transformada — embora certamente tenha mudado em grande medida, pois a disposição maligna da mente deve diminuir o brilho do rosto —, que transformação espantosa aconteceu interiormente quando anjos se tornaram demônios! As criaturas mais santas de Deus tornaram-se as mais profanas!

Desde o momento em que abandonaram sua fidelidade a Deus, abandonaram toda bondade e adquiriram todas as disposições que são mais odiosas a ele e mais contrárias à sua natureza. Desde então, estão cheios de orgulho, arrogância e altivez. Exaltam-se desmedidamente e, embora estejam profundamente corrompidos em todo o seu ser, ainda admiram suas próprias perfeições.

Estão cheios de inveja, talvez até mesmo contra o próprio Deus, o que não é impossível, visto que anteriormente desejaram seu trono. Invejam todas as outras criaturas, os anjos de Deus, que agora desfrutam o céu do qual eles caíram, e muito mais os vermes da terra que agora são chamados a herdar o Reino. Estão cheios de crueldade e de fúria contra todos os seres humanos. Desejam inspirá-los com a mesma maldade que possuem e envolvê-los na mesma miséria.

Na realização desse projeto infernal, são extremamente diligentes. Para descobrir os meios mais eficazes de executá-lo, aplicam toda a força de seu entendimento angelical. Acrescentam a isso toda a sua força, até onde Deus se agrada em permitir. Felizmente para a humanidade, Deus estabeleceu limites que eles não podem ultrapassar.

Deus disse ao mais feroz e poderoso dos espíritos apóstatas: “Até aqui você virá e não passará.” De outro modo, com que facilidade e rapidez um deles poderia destruir toda a estrutura da natureza! Em quanto tempo envolveriam tudo em uma ruína comum ou, pelo menos, eliminariam a humanidade da face da terra! Eles são incansáveis em sua obra maligna. Nunca desfalecem nem se cansam. Na verdade, parece que somente os espíritos que habitam carne e sangue são capazes de sentir cansaço.

Podemos aprender nas Escrituras mais uma circunstância a respeito dos anjos maus: eles não vagueiam de modo independente, mas estão todos unidos sob um chefe comum. Ele é chamado por nosso bendito Senhor de “príncipe deste mundo”. O apóstolo não hesita em chamá-lo de “deus deste mundo”. É frequentemente chamado de Satanás, o adversário, porque é o grande adversário de Deus e da humanidade.

É chamado, por excelência, “o diabo”; “Abadom” ou “Apoliom”, o destruidor; “a antiga serpente”, porque enganou Eva sob essa forma; e “o anjo do abismo”. Temos razão para acreditar que os outros anjos maus estejam sob seu comando; que sejam organizados por ele segundo suas diferentes ordens; que sejam designados para diferentes postos; e que, de tempos em tempos, recebam seus trabalhos e funções particulares.

Sem dúvida, estão ligados, embora não saibamos de que modo — certamente não pelo amor —, tanto a Satanás quanto uns aos outros.

Qual é, porém, a ocupação dos anjos maus? Esse é o segundo ponto a ser considerado.

Eles são, até onde Deus permite, kosmokratores, “dominadores do mundo”. Talvez exista mais fundamento do que geralmente imaginamos naquela estranha declaração de Satanás, quando mostrou a nosso Senhor todos os reinos do mundo e a glória deles e disse: “Tudo isto lhe darei se você, prostrado, me adorar” (Mateus 4.8-9).

Isso é expresso de maneira um pouco mais detalhada no quarto capítulo de Lucas: o diabo mostrou a Jesus todos os reinos do mundo num instante. Que extraordinária medida de poder ainda permanece com o príncipe das trevas! Então lhe disse que lhe daria toda aquela autoridade e glória, porque lhe haviam sido entregues e ele as dava a quem quisesse (Lucas 4.5-6).

Eles são “os dominadores das trevas desta era”, que é a tradução literal das palavras, os dominadores da presente ordem das coisas, durante a qual “o mundo inteiro jaz no Maligno” (1 João 5.19). Ele é o ambiente no qual vivem os seres humanos, exceto aqueles que temem a Deus.

Satanás e seus anjos, ligados a ele e subordinados ao seu comando, organizam toda a ignorância, todo o erro, toda a insensatez e, particularmente, toda a maldade humana de maneira que possam impedir ao máximo o Reino de Deus e promover o reino das trevas.

“Mas cada ser humano possui um anjo mau particular, assim como um anjo bom, acompanhando-o?” Essa é uma opinião extremamente antiga, tanto entre os cristãos quanto entre os judeus que os precederam. Entretanto, é muito duvidoso que possa ser suficientemente provada pelas Escrituras. Não seria improvável que houvesse um anjo mau particular acompanhando cada pessoa, caso tivéssemos certeza de que existe um anjo bom particular para cada uma.

Isso, porém, não pode ser deduzido das palavras de nosso Senhor a respeito das crianças: “Os seus anjos no céu veem continuamente a face de meu Pai celeste” (Mateus 18.10). Isso prova apenas que existem anjos encarregados de cuidar das crianças. Não prova que um anjo específico seja designado para cada criança.

A ideia também não é provada pelas palavras de Rode que, ouvindo a voz de Pedro, disse: “É o anjo dele” (Atos 12.15). Mesmo supondo que “seu anjo” significasse “seu anjo da guarda”, podemos apenas concluir que Rode acreditava na doutrina dos anjos da guarda, que era comum entre os judeus. Continuará sendo uma questão discutível, visto que a revelação não estabelece coisa alguma a esse respeito, se cada pessoa é acompanhada por um anjo bom ou mau particular.

Entretanto, sejam ou não pessoas específicas acompanhadas por espíritos maus particulares, sabemos que Satanás e todos os seus anjos guerreiam continuamente contra nós e observam cada ser humano. Estão sempre atentos para descobrir quais circunstâncias externas ou internas, qual prosperidade ou adversidade, saúde ou enfermidade, amigos ou inimigos, juventude ou velhice, conhecimento ou ignorância, atividade ou ociosidade, alegria ou tristeza podem tornar uma pessoa vulnerável à tentação.

Estão permanentemente prontos para tirar a maior vantagem possível de cada circunstância.

Esses lutadores habilidosos percebem o menor deslize que cometemos e imediatamente tiram proveito dele. Estão ao redor de nossa cama e de nosso caminho e observam todas as nossas ações. Cada um deles anda ao redor como leão que ruge, procurando alguém para devorar, ou procura enganar pela astúcia, assim como a serpente enganou Eva. Para fazer isso de maneira ainda mais eficaz, transformam-se em anjos de luz. Assim:

Com fúria que jamais termina,
Praticam suas artes infernais;
Legiões de espíritos cruéis e malignos
E poderes entronizados nas alturas.

É principalmente por meio desses instrumentos que o coração insensato daqueles que não conhecem a Deus fica obscurecido. Sim, frequentemente obscurecem, em alguma medida, até mesmo o coração daqueles que conhecem a Deus. O “deus deste mundo” sabe cegar o coração, colocar uma nuvem sobre o entendimento e esconder a luz das verdades que, em outros momentos, brilhavam com a claridade do sol do meio-dia. Desse modo, ataca nossa fé, nossa convicção a respeito das coisas que não se veem.

Procura enfraquecer a esperança cheia de imortalidade para a qual Deus nos regenerou e, assim, diminuir, caso não consiga destruir, nossa alegria em Deus, nosso Salvador. Acima de tudo, procura enfraquecer nosso amor a Deus, pois sabe que esse amor é a fonte de toda a religião e que, à medida que ele aumenta ou diminui, a obra de Deus floresce ou enfraquece na alma.

Depois do amor a Deus, não existe coisa alguma que Satanás odeie tão profundamente quanto o amor ao próximo. Por isso, emprega todos os meios possíveis para impedir ou destruir esse amor. Procura despertar suspeitas particulares ou públicas, hostilidades, ressentimentos e discussões; destruir a paz das famílias ou das nações; e expulsar da terra a unidade e a harmonia.

Esse é, na verdade, o triunfo de sua arte: tornar amargos uns contra os outros os pobres e miseráveis filhos dos homens e, finalmente, levá-los a realizar sua própria obra, lançando uns aos outros no abismo da destruição.

Esse inimigo de toda a justiça é igualmente diligente em impedir toda boa palavra e toda boa obra. Caso não consiga nos convencer a praticar o mal, procurará, se possível, impedir-nos de fazer o bem. É particularmente diligente em impedir que a obra de Deus se espalhe no coração das pessoas.

Quanto esforço emprega para impedir ou dificultar a obra geral de Deus! Quantas estratégias utiliza para interromper seu progresso em cada pessoa! Procura impedir que continuem ou cresçam na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Procura diminuir, se não destruir, o amor, a alegria e a paz; a paciência, a amabilidade e a bondade; a fidelidade, a mansidão e o domínio próprio que nosso Senhor produz por seu Espírito amoroso naqueles que creem e nos quais consiste a própria essência da religião.

Para alcançar esses objetivos, trabalha continuamente, com toda a sua habilidade e poder, para introduzir pensamentos maus de todos os tipos no coração humano. Certamente, é tão fácil para um espírito falar ao nosso coração quanto para uma pessoa falar aos nossos ouvidos. Algumas vezes, porém, é extremamente difícil distinguir esses pensamentos dos nossos, porque aqueles que ele introduz se parecem exatamente com os que surgem naturalmente em nossa mente.

Algumas vezes podemos distinguir uns dos outros pela seguinte circunstância: os pensamentos que surgem naturalmente em nossa mente são geralmente, se não sempre, provocados ou pelo menos ligados a alguma circunstância interior ou exterior anterior. Os pensamentos sugeridos de maneira extraordinária, porém, frequentemente não possuem nenhuma relação ou ligação perceptível com coisa alguma que os tenha precedido.

Ao contrário, entram repentinamente, como se atravessassem a sequência normal do pensamento, revelando assim que possuem outra origem.

Ele também procura despertar paixões ou disposições más em nossa alma.

Procura inspirar paixões e disposições diretamente contrárias ao fruto do Espírito. Esforça-se para introduzir incredulidade, ateísmo, má vontade, amargura, ódio, malícia e inveja, opostos à fé e ao amor; medo, tristeza, ansiedade e preocupação mundana, opostos à paz e à alegria; impaciência, mau humor, ira e ressentimento, opostos à paciência, à amabilidade e à mansidão; fraude, engano e dissimulação, contrários à fidelidade; amor ao mundo, afeições desordenadas e desejos insensatos, opostos ao amor de Deus.

Provavelmente pode despertar ou inflamar determinados desejos malignos atuando sobre as engrenagens desta máquina animal e procurando, por meio do corpo, perturbar ou contaminar a alma.

De maneira geral, podemos observar que, assim como nenhum bem é feito, falado ou pensado sem a assistência de Deus, que trabalha juntamente com aqueles que creem nele, nenhum mal é feito, falado ou pensado sem a assistência do diabo, que atua com poder forte, embora secreto, nos filhos da desobediência.

Assim ele entrou em Judas e o confirmou no propósito de trair seu Mestre. Do mesmo modo, colocou no coração de Ananias e Safira que mentissem ao Espírito Santo. De maneira semelhante, participa de todas as ações, palavras e projetos das pessoas más.

Assim como os filhos de Deus cooperam com Deus em cada bom pensamento, palavra ou ação, os filhos do diabo cooperam com ele em cada pensamento, palavra ou obra má.

Portanto, assim como todas as boas disposições e, indiretamente, todas as boas palavras e ações são fruto do Espírito bom, todas as disposições más, juntamente com as palavras e obras que delas procedem, são fruto do espírito mau. Desse modo, todas as obras da carne, isto é, de nossa natureza corrompida, são também obras do diabo.

Por estar continuamente incitando as pessoas ao mal, ele é enfaticamente chamado de “o tentador”. Essa atividade não se limita a seus próprios filhos. Ele também tenta continuamente os filhos de Deus e aqueles que estão procurando tornar-se filhos de Deus.

Mantém constante vigilância,
Observa-os durante a noite e o dia;
Nunca cochila, nunca adormece,
Para não perder a sua presa.

Na verdade, enquanto permanecerem na terra, nem mesmo os mais santos estão livres de suas tentações. Não podem esperar que seja diferente, pois basta ao discípulo ser como seu Mestre. Sabemos que ele foi tentado até o momento em que disse: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23.46).

Tamanha é a malícia do Maligno que ele atormentará aqueles que não consegue destruir. Caso não possa seduzir as pessoas ao pecado, procurará, até onde lhe seja permitido, causar-lhes sofrimento. Não existe dúvida de que ele seja, direta ou indiretamente, a causa de muitos sofrimentos humanos que aqueles que não conseguem explicá-los de outra maneira classificam levianamente como problemas dos nervos.

Inúmeros acontecimentos chamados de acidentes também se devem, segundo Wesley, à sua atuação: o susto inexplicável ou a queda de cavalos, o tombamento de carruagens, a fratura ou deslocamento de ossos, os ferimentos causados pelo desabamento ou incêndio de casas, por tempestades de vento, neve, chuva ou granizo, por raios ou terremotos.

A todos esses acontecimentos e a milhares de outros, esse espírito astuto pode dar a aparência de acidentes, receando que os sofredores, caso reconhecessem o verdadeiro agente, pedissem auxílio àquele que é mais poderoso do que ele.

Existe pouca razão para duvidar de que muitas enfermidades, tanto agudas quanto crônicas, sejam causadas ou agravadas pela atuação diabólica, particularmente aquelas que começam repentinamente, sem causa perceptível, e aquelas que permanecem e talvez aumentem gradualmente apesar de todos os recursos da medicina. Nesse ponto, homens vazios que desejam parecer sábios novamente recorrem aos nervos para explicar tudo.

Mas isso não seria explicar ignotum per ignotius, “uma coisa desconhecida por meio de outra ainda mais desconhecida”? Pois o que sabemos sobre os próprios nervos? Na época de Wesley, nem sequer se sabia com certeza se eram sólidos ou ocos!

Muitos anos atrás, perguntei a um médico experiente, particularmente conhecido por tratar casos de insanidade: “Senhor, o senhor nunca encontrou razões para acreditar que algumas pessoas consideradas insanas fossem, na realidade, endemoninhadas?” Ele respondeu: “Senhor, muitas vezes me inclinei a pensar que a maioria das pessoas consideradas insanas estivesse endemoninhada.”

Também não considerava decisiva a objeção de que essas pessoas fossem frequentemente tratadas com medicamentos, pois, segundo ele, qualquer outra enfermidade causada por um espírito mau também poderia ser tratada, caso Deus não permitisse que o espírito repetisse o golpe pelo qual a enfermidade fora produzida.

Esse pensamento abre diante de nós um cenário ainda mais amplo.

Quem pode dizer quantas enfermidades atribuídas inteiramente a causas naturais podem ser, na realidade, extraordinárias? Que desordem poderia existir no corpo humano que um anjo mau não fosse capaz de produzir? Não poderia ferir-nos, como feriu Jó, num instante, com tumores desde a planta dos pés até o alto da cabeça? Não poderia, com a mesma facilidade, causar qualquer outra enfermidade exterior ou interior?

Não poderia, num instante e com a permissão divina, lançar ao chão o homem mais forte e fazê-lo revolver-se e espumar, apresentando todos os sintomas de epilepsia ou apoplexia? Da mesma maneira, seria fácil para ele atingir uma pessoa ou todos os habitantes de uma cidade ou nação com uma febre maligna ou com a própria peste, tornando inútil o auxílio humano.

Contudo, a malícia cega os olhos até mesmo dos sábios. Seria de imaginar que um ser tão inteligente não desceria tão baixo quanto, aparentemente, o diabo algumas vezes desce para atormentar os pobres seres humanos. A ele, porém, podemos razoavelmente atribuir muitos pequenos inconvenientes que sofremos.

“Acredito”, disse aquele excelente homem, o marquês de Renty, quando o banco em que estava sentado se quebrou repentinamente, sem causa visível, “que Satanás teve participação nisso, fazendo-me cair de maneira desajeitada.” Não sei se ele também não teria participação naquele terror inexplicável que se apodera de algumas pessoas durante a noite, a ponto de todos os seus ossos tremerem. Talvez também participe daqueles sonhos aterrorizantes que muitos experimentam mesmo quando estão em perfeita saúde.

Pode-se observar que, em todos esses exemplos, costumamos dizer “o diabo”, como se existisse apenas um. Isso acontece porque esses espíritos, embora sejam incontáveis, atuam em conjunto e porque não sabemos se um ou vários deles estão envolvidos nesta ou naquela obra das trevas.

Resta apenas apresentar algumas conclusões simples a partir da doutrina exposta.

Em primeiro lugar, como proteção geral contra toda a fúria, o poder e a astúcia de seu grande adversário, vistam a armadura completa, “toda a armadura de Deus”, isto é, a santidade em todas as suas dimensões.

Tenham em vocês a mesma mente que houve em Cristo Jesus e andem como Cristo andou. Conservem “uma consciência sem ofensa diante de Deus e das pessoas”. Assim serão capazes de resistir a toda a força e a todas as estratégias do inimigo. Serão capazes de resistir no dia mau, no dia da tentação intensa, e, depois de terem feito tudo, permanecer firmes, na posição de vitória e triunfo.

Contra os “dardos inflamados” do inimigo, isto é, suas sugestões malignas de todos os tipos, sejam blasfemas ou impuras, ainda que sejam numerosas como as estrelas do céu, levantem “o escudo da fé”. A consciência do amor de Cristo Jesus apagará eficazmente todos esses dardos.

Jesus morreu por você!
A que sua fé não poderá resistir?
Creia, mantenha firme o seu escudo!
Quem poderá arrancá-lo de suas mãos?

Caso ele introduza dúvidas sobre você ser filho de Deus ou medos de que não perseverará até o fim, tome “o capacete da esperança da salvação”. Apegue-se à alegre palavra segundo a qual o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, por sua grande misericórdia, nos regenerou “para uma viva esperança” e para uma herança incorruptível e sem mácula, reservada nos céus (1 Pedro 1.3-4).

Você nunca será derrubado nem abalado pelo adversário se conservar firme, até o fim, a confiança que teve desde o princípio.

Sempre que o leão que ruge, andando ao redor e procurando alguém para devorar, atacar você com toda a sua malícia, fúria e força, resista-lhe, firme na fé. Esse é o momento de clamar ao Poderoso por força, despertar o dom de Deus que está em você e reunir toda a sua fé, esperança e amor. Enfrente o ataque em nome do Senhor e na força de seu poder. Ele logo fugirá de você.

Alguém disse: “Não existe tentação maior do que estar sem tentação.” Portanto, quando Satanás parecer ter se retirado, tome cuidado para que ele não o prejudique mais como serpente astuta do que poderia fazê-lo como leão que ruge. Cuidado para não ser embalado num sono agradável. Ele pode enganá-lo, assim como enganou Eva quando ainda estava em sua inocência, e afastá-lo imperceptivelmente da simplicidade para com Cristo e da busca de toda a sua felicidade nele.

Por último, caso ele se transforme em anjo de luz, você estará no maior perigo de todos. Nesse momento, precisa tomar o máximo cuidado para não cair onde muitos mais poderosos foram derrotados. É quando mais necessita vigiar e orar para não entrar em tentação.

Caso continue fazendo isso, o Deus a quem você ama e serve o livrará. A unção que vem do Santo permanecerá com você e lhe ensinará todas as coisas. Seus olhos perceberão as armadilhas. Você conhecerá qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus e continuará em seu caminho até crescer em tudo naquele que é a Cabeça, Cristo Jesus.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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