SERMÃO 92
Sobre o zelo
O que é o verdadeiro zelo cristão — e como distingui-lo do fanatismo amargo.
“É bom ser sempre zeloso pelo bem e não apenas quando estou presente com vocês.”
(Gl 4.18, NAA)Antes de ler
Wesley inicia este sermão reconhecendo que o zelo religioso pode produzir grandes benefícios, mas também pode causar imenso sofrimento quando é separado do amor. As referências históricas às perseguições promovidas por diferentes grupos religiosos e as estimativas numéricas citadas pertencem às fontes e ao contexto do século XVIII. Devem ser preservadas como parte do argumento de Wesley, sem serem tratadas como avaliações históricas atuais.
Para Wesley, o verdadeiro zelo cristão não é ira, intolerância, hostilidade ou desejo de dominar. É “a chama do amor”. Por isso, suas características são as mesmas do amor: humildade, mansidão, paciência, contentamento e submissão à vontade de Deus.
Uma contribuição importante do sermão é aquilo que Wesley chama de “teologia comparativa”: os diferentes elementos da vida cristã não possuem exatamente o mesmo valor. A Igreja é importante; os meios de graça são mais importantes; as obras de misericórdia possuem precedência quando entram em conflito com práticas religiosas; as disposições santas são superiores às obras exteriores; e o amor a Deus e ao próximo é a finalidade e a perfeição de toda a religião.
— Bispo Ildo Mello
1. Existem poucos assuntos em todo o campo da religião que possuam importância maior do que este.
Sem zelo, é impossível realizar qualquer progresso significativo na religião ou prestar serviço considerável ao próximo, seja nas coisas temporais, seja nas espirituais.
Apesar disso, nada causou maior prejuízo à religião ou maior sofrimento à humanidade do que uma espécie de zelo que prevaleceu durante várias épocas entre nações pagãs, muçulmanas e cristãs.
Pode-se dizer verdadeiramente que o orgulho, a avareza, a ambição e a vingança mataram milhares em todas as partes do mundo, mas o falso zelo matou dezenas de milhares.
Exemplos terríveis disso ocorreram em épocas antigas, mesmo entre as nações pagãs mais civilizadas.
A ele se deveram principalmente as perseguições desumanas contra os primeiros cristãos e, em épocas posteriores, as perseguições igualmente desumanas contra os protestantes pela Igreja de Roma.
Foi o zelo que acendeu fogueiras em nossa nação durante o reinado da rainha Maria.
Foi o zelo que, pouco tempo depois, transformou tantas províncias da França em campos de sangue.
Foi o zelo que causou a morte de milhares de protestantes indefesos no inesquecível massacre de Paris.
Foi o zelo que ocasionou o massacre ainda mais terrível na Irlanda, semelhante ao qual, tanto em relação ao número das vítimas quanto às circunstâncias assustadoras nas quais muitos desses crimes foram cometidos, creio que jamais tenha acontecido desde o princípio do mundo.
Quanto às demais partes da Europa, um importante escritor alemão realizou enorme esforço para examinar documentos de vários lugares e as histórias consideradas mais confiáveis, procurando obter algum conhecimento do sangue derramado desde a Reforma.
Ele calculou que, em parte por perseguições particulares e em parte por guerras religiosas, durante quarenta anos, contados a partir de 1520, mais de quarenta milhões de pessoas foram destruídas.
2. Não seria possível distinguir o zelo correto do zelo incorreto?
Sem dúvida, é possível. É, porém, difícil, tamanha é a falsidade do coração humano e tamanha a habilidade das paixões para justificarem a si mesmas.
Existem também pouquíssimos tratados a respeito do assunto, pelo menos na língua inglesa.
Até hoje, vi ou ouvi falar de apenas um sermão, escrito mais de cem anos atrás pelo doutor Sprat, então bispo de Rochester. Por isso, tornou-se extremamente raro.
3. Com a ajuda de Deus, apresentarei de bom grado minha pequena contribuição para esclarecer essa importante questão.
Desejo capacitar pessoas bem-intencionadas e desejosas de agradar a Deus a distinguir o verdadeiro zelo cristão de suas diversas falsificações.
Isso é mais necessário atualmente do que foi durante muitos anos.
Sessenta anos atrás, parecia que quase não existia coisa alguma semelhante ao zelo religioso em nossa nação.
As pessoas em geral permaneciam admiravelmente frias e tranquilas a respeito daquela coisa insignificante chamada religião.
Desde então, porém, é fácil observar que aconteceu mudança considerável.
Muitos milhares de pessoas, em quase todas as partes da nação, experimentaram verdadeiro desejo de salvar a própria alma.
Estou convencido de que existe atualmente mais zelo religioso na Inglaterra do que existia há cem anos.
4. Mas esse zelo é da espécie correta ou incorreta?
Provavelmente, existem as duas espécies.
Vejamos se conseguimos separá-las, para evitarmos a segunda e nos apegarmos à primeira.
Para isso, perguntarei:
I. Qual é a natureza do verdadeiro zelo cristão;
II. Quais são suas características;
III. Quais conclusões práticas podemos extrair.
1. Primeiramente, qual é a natureza do zelo em geral e do verdadeiro zelo cristão em particular?
A palavra original, em seu primeiro significado, indica calor, como o calor da água fervendo.
Quando é aplicada figuradamente à mente, significa alguma emoção ou afeição intensa.
Algumas vezes, significa inveja. Assim a traduzimos em Atos 5.17, onde lemos que o sumo sacerdote e todos aqueles que estavam com ele ficaram cheios de inveja, embora a expressão também pudesse ser traduzida por “cheios de zelo”.
Algumas vezes, significa ira e indignação. Em outras ocasiões, desejo intenso.
Quando alguma de nossas paixões é fortemente movida por causa de alguma questão religiosa, seja em favor daquilo que é bom, seja contra alguma coisa que consideramos má, chamamos isso de zelo religioso.
2. Nem tudo aquilo que é chamado de zelo religioso, porém, merece esse nome.
Não é propriamente zelo religioso ou cristão caso não esteja unido ao amor.
Um excelente escritor, o bispo Sprat, vai um pouco mais longe.
Ele diz:
“Tem-se afirmado que nenhum zelo é correto se não for caridoso. O zelo é, em sua maior parte, formado pela caridade. A caridade, ou amor, não é apenas um de seus componentes, mas o componente principal.”
Não podemos avançar ainda mais?
Não podemos afirmar que o verdadeiro zelo não é formado principalmente pelo amor, mas inteiramente pelo amor, caso compreendamos a caridade no sentido de Paulo: o amor de Deus e do próximo?
É verdade indiscutível, embora pouco compreendida no mundo, que o zelo cristão é inteiramente amor.
Não é coisa alguma além disso.
O amor de Deus e dos seres humanos preenche toda a sua natureza.
3. Nem todo grau desse amor, porém, recebe o nome de zelo.
Pode existir algum amor, um grau pequeno dele, sem que exista zelo.
O zelo é propriamente o amor num grau mais elevado.
É amor fervoroso.
O verdadeiro zelo cristão não é outra coisa senão a chama do amor.
Essa é sua natureza e sua essência mais profunda.
1. Segue-se daí que as características do amor também são as características do zelo.
Uma das principais características do amor é a humildade: “O amor não se ensoberbece.”
Consequentemente, essa é também uma característica do verdadeiro zelo. A humildade é inseparável dele.
O grau de zelo corresponde ao grau de humildade. Ambos necessariamente crescem e diminuem juntos.
O mesmo amor que enche uma pessoa de zelo por Deus a torna pequena, pobre e insignificante aos próprios olhos.
2. Outra característica do amor é a mansidão. Consequentemente, ela também é uma característica do zelo.
O amor nos ensina a ser mansos, assim como humildes, e a permanecer igualmente acima da ira e do orgulho.
Assim como a cera derrete diante do fogo, todas as paixões turbulentas se derretem diante dessa chama sagrada, deixando a alma tranquila e serena.
3. Outra característica do amor, e consequentemente do zelo, é a paciência incansável, pois “o amor tudo suporta”.
Ela arma a alma com inteira submissão a todas as determinações da providência divina.
Ensina-nos a dizer em todos os acontecimentos:
“É o Senhor; faça o que bem lhe parecer” (1 Samuel 3.18).
Capacita-nos a estar contentes em qualquer condição, a não reclamar de coisa alguma, a não murmurar por coisa alguma, mas a dar graças em todas as circunstâncias.
4. Existe uma quarta característica do zelo cristão que merece consideração mais específica.
Aprendemos isso nas próprias palavras do apóstolo:
“É bom ser sempre zeloso” — não experimentar apenas impulsos passageiros de zelo, mas possuir uma disposição firme e profundamente enraizada — “pelo bem”.
O objeto apropriado do zelo é o bem em geral, tudo aquilo que é verdadeiramente bom aos olhos de Deus.
5. Mas o que é bom aos olhos de Deus?
Qual é a religião com a qual Deus sempre se agrada?
De que maneira suas diferentes partes se elevam umas acima das outras?
Qual é o valor comparativo delas?
Esse é um ponto pouquíssimo considerado e, por isso, pouco compreendido.
Muitas pessoas possuem algum conhecimento da teologia positiva. Poucas conhecem coisa alguma da teologia comparativa.
Vi apenas um tratado sobre esse assunto. Talvez seja útil apresentar um resumo dele.
No cristão que crê, o amor está assentado no trono erguido no íntimo da alma.
É o amor de Deus e dos seres humanos, preenchendo todo o coração e reinando sem rival.
Num círculo próximo ao trono estão todas as disposições santas: paciência, benignidade, mansidão, fidelidade, domínio próprio e todas as demais disposições compreendidas na mente que houve em Cristo Jesus.
Num círculo mais exterior estão todas as obras de misericórdia, tanto para a alma quanto para o corpo das pessoas.
Por meio dessas obras, exercitamos todas as disposições santas e as desenvolvemos continuamente.
Portanto, todas as obras de misericórdia são verdadeiros meios de graça, embora isso não seja geralmente observado.
Ao lado delas, estão aquilo que geralmente chamamos de obras de piedade: ler e ouvir a Palavra; oração pública, familiar e particular; participação na Ceia do Senhor; jejum ou abstinência.
Finalmente, para que seus seguidores possam estimular uns aos outros de maneira mais eficaz ao amor, às disposições santas e às boas obras, nosso bendito Senhor os uniu num só corpo, a Igreja espalhada por toda a terra.
Possuímos uma pequena representação da Igreja universal em cada congregação cristã particular.
6. Essa é a religião que nosso Senhor estabeleceu na terra desde a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes.
Esse é o sistema inteiro e interligado do cristianismo.
Assim, as diferentes partes da religião se elevam umas acima das outras, começando pelo ponto mais baixo, a reunião dos cristãos, e chegando ao mais elevado, o amor reinando no coração.
Com base nisso, é fácil conhecer o valor comparativo de cada parte da religião.
Também aprendemos uma quinta característica do verdadeiro zelo: assim como é sempre exercido naquilo que é bom, também é sempre proporcional ao grau de bondade existente em seu objeto.
7. Por exemplo, todo cristão deve, sem dúvida, possuir zelo pela Igreja, ter forte afeição por ela e desejar intensamente sua prosperidade e crescimento.
Deve possuir zelo pela Igreja universal, orando continuamente por ela, mas especialmente pela Igreja particular ou sociedade cristã da qual é membro.
Deve lutar com Deus em oração por ela e, ao mesmo tempo, empregar todos os meios ao seu alcance para ampliar suas fronteiras e fortalecer seus irmãos, para que eles adornem a doutrina de Deus, nosso Salvador.
8. Deve, porém, possuir maior zelo pelas ordenanças de Cristo do que pela própria Igreja.
Deve possuir zelo pela oração pública e particular, pela Ceia do Senhor, pela leitura, audição e meditação na Palavra e pelo dever tão negligenciado do jejum.
Deve recomendar intensamente essas práticas, primeiro por meio do próprio exemplo e, depois, por meio de conselhos, argumentos, persuasão e exortação, sempre que surgir oportunidade.
9. Assim deve demonstrar zelo pelas obras de piedade, mas ainda mais pelas obras de misericórdia.
Deus deseja misericórdia, e não sacrifício, isto é, misericórdia antes do sacrifício.
Sempre que um dever interfere com o outro, as obras de misericórdia devem ser preferidas.
Até mesmo a leitura, a audição e a oração devem ser omitidas ou adiadas diante do chamado todo-poderoso do amor, quando somos chamados a aliviar o sofrimento de nosso próximo, seja no corpo, seja na alma.
10. Por maior que seja nosso zelo por todas as boas obras, devemos possuir zelo ainda maior pelas disposições santas.
Devemos plantar e promover em nossa alma e na alma de todos aqueles com quem convivemos a humildade, a mansidão, a benignidade, a paciência, o contentamento, a submissão à vontade de Deus e a libertação do apego ao mundo e às coisas do mundo, pois somente assim podemos estar verdadeiramente vivos para Deus.
Nunca podemos possuir zelo excessivo por essas evidências e frutos da fé viva.
Devemos falar sobre elas quando estivermos sentados em casa, quando caminharmos pelo caminho, quando nos deitarmos e quando nos levantarmos.
Devemos torná-las assunto contínuo de oração, pois são muito mais excelentes do que quaisquer obras exteriores.
As obras exteriores terminarão quando deixarmos o corpo. As disposições santas nos acompanharão na eternidade.
11. Nosso zelo mais elevado deve, porém, ser reservado para o próprio amor: a finalidade do mandamento e o cumprimento da lei.
A Igreja, as ordenanças, as obras exteriores de toda espécie e até mesmo todas as demais disposições santas são inferiores ao amor.
Somente aumentam de valor à medida que se aproximam cada vez mais dele.
Aqui, portanto, está o grande objeto do zelo cristão.
Que todo verdadeiro crente em Cristo se aproxime, com todo fervor de espírito, do Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, para que seu coração seja cada vez mais ampliado no amor a Deus e a toda a humanidade.
Que faça esta única coisa: prossiga para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.
Resta apenas extrair algumas conclusões práticas das observações anteriores.
1. Primeiramente, caso o verdadeiro zelo cristão não seja coisa alguma além da chama do amor, então o ódio, em qualquer espécie ou grau, e toda amargura contra aqueles que se opõem a nós estão tão distantes de merecer o nome de zelo que são diretamente contrários a ele.
Caso o zelo seja apenas amor fervoroso, ele permanece à maior distância possível do preconceito, do ciúme e das suspeitas malignas, pois “o amor não suspeita mal”.
Toda espécie de intolerância e, acima de tudo, o espírito de perseguição são completamente incompatíveis com o verdadeiro zelo.
Portanto, que nenhuma dessas disposições profanas se esconda debaixo desse nome sagrado.
Como todas elas são obras do diabo, apareçam em sua verdadeira forma e deixem de enganar os filhos desatentos de Deus por meio desse disfarce atraente.
2. Em segundo lugar, caso a humildade seja uma característica do zelo, o orgulho é incompatível com ele.
É verdade que algum grau de orgulho poderá permanecer depois que o amor de Deus for derramado no coração, pois esse é um dos últimos males a serem arrancados quando Deus faz novas todas as coisas.
Ele, porém, não pode reinar nem conservar poder considerável onde existe amor fervoroso.
Caso cedêssemos ao orgulho mesmo em pequena medida, ele diminuiria aquele santo fervor e, caso não retornássemos imediatamente a Cristo, apagaria completamente o Espírito.
3. Em terceiro lugar, caso a mansidão seja característica inseparável do zelo, o que diremos daqueles que chamam sua ira de zelo?
Diremos que confundem inteiramente a verdade e, no sentido mais completo, chamam as trevas de luz e a luz de trevas.
Não podemos vigiar com cuidado excessivo contra esse engano, porque ele se espalha por todo o mundo cristão.
Em quase todos os lugares, zelo e ira são tratados como palavras equivalentes. Pouquíssimas pessoas estão convencidas de que exista qualquer diferença entre eles.
Com que frequência ouvimos alguém dizer:
“Vejam como esse homem é zeloso!”
Não, ele não pode ser zeloso. Isso é impossível, pois está dominado pela ira.
A paixão descontrolada é tão incompatível com o zelo quanto a luz é incompatível com as trevas ou o céu com o inferno.
Seria bom que esse ponto fosse completamente compreendido.
Frequentemente observamos alguém considerado religioso violentamente irado contra o próximo.
Talvez chame seu irmão de “Raca” ou “tolo” e apresente contra ele acusações insultuosas.
Você o adverte com mansidão a respeito de sua exaltação.
Ele responde:
“É o meu zelo!”
Não. É o seu pecado. A menos que se arrependa, ele o conduzirá à destruição.
Existe grande quantidade dessa espécie de zelo no abismo.
É dali que procede todo zelo dessa natureza. É para ali que retornará, levando você consigo, a menos que seja salvo dele antes de partir deste mundo.
4. Em quarto lugar, caso a paciência, o contentamento e a submissão sejam características do zelo, a murmuração, a irritação, o descontentamento e a impaciência são inteiramente incompatíveis com ele.
Como a humanidade é ignorante a esse respeito!
Quantas vezes vemos pessoas irritadas com os ímpios ou declarando que perderam completamente a paciência com determinada situação, chamando tudo isso de zelo!
Não poupem esforços para libertá-las desse engano.
Caso seja possível, mostrem-lhes o que é o verdadeiro zelo.
Convençam-nas de que toda murmuração e irritação diante do pecado é, ela mesma, uma espécie de pecado e não possui semelhança ou ligação alguma com o verdadeiro zelo do evangelho.
5. Em quinto lugar, caso o objeto do zelo seja aquilo que é bom, o fervor por alguma coisa má não é zelo cristão.
Tomo como exemplo a idolatria, a adoração de anjos, santos, imagens ou da cruz.
Ainda que alguém estivesse tão intensamente ligado a uma forma de culto idólatra que entregasse o próprio corpo ao sofrimento em vez de abandoná-la, chamem isso de intolerância ou superstição, mas não o chamem de zelo. O zelo é coisa inteiramente diferente.
Segue-se da mesma verdade que o fervor por coisas indiferentes não é zelo cristão.
Como esse erro também é comum!
Alguém imaginaria que pessoas inteligentes não fossem capazes de semelhante fraqueza. A história de todas as épocas, porém, demonstra o contrário.
Quem possuía entendimento mais vigoroso do que o bispo Ridley e o bispo Hooper?
Apesar disso, com que intensidade eles e outros grandes homens daquela época discutiram a respeito das vestes sacerdotais!
Como foi intensa, durante quase cem anos, a discussão em favor ou contra o uso da sobrepeliz!
Que vergonha para a humanidade!
Eu discutiria com a mesma disposição a respeito de um pedaço de palha ou de um grão de cevada.
E isso será chamado de zelo?
Por que não chamar isso também de sabedoria ou santidade?
6. Segue-se também que o fervor por opiniões não é zelo cristão.
Como são poucas as pessoas conscientes disso!
Como são incontáveis os males causados no mundo cristão até mesmo por essa espécie de falso zelo!
Quantos milhares de vidas foram perdidas por causa daqueles que possuíam zelo pelas opiniões da Igreja de Roma!
Quantas pessoas excelentes foram destruídas por fanáticos por causa da insensata opinião da transubstanciação!
Toda pessoa livre de preconceito não percebe que esse zelo é terreno, animal e demoníaco?
Ele permanece em completa oposição ao zelo recomendado aqui pelo apóstolo.
Como é excessiva a tolerância expressada por nosso grande poeta no poema sobre o último dia, quando fala sobre encontrar no céu:
Aqueles que morreram ferindo uns aos outros, Inflamados pelo zelo por suas diferentes opiniões!
Zelo, realmente!
Que espécie de zelo os levou a destruir uns aos outros?
Aqueles que foram inflamados por esse espírito e morreram permanecendo nele certamente não terão sua parte no céu, onde existe somente amor, mas no fogo que não se apaga.
7. Finalmente, caso o verdadeiro zelo seja sempre proporcional ao grau de bondade existente em seu objeto, deverá elevar-se cada vez mais segundo a escala anteriormente apresentada, conforme o valor comparativo das diferentes partes da religião.
Todos os que verdadeiramente temem a Deus devem possuir zelo pela Igreja, tanto pela Igreja católica ou universal quanto pela parte dela da qual são membros.
Isso não é instituição humana, mas divina.
Deus percebeu que não era bom que o ser humano permanecesse sozinho, também nesse sentido, mas que todo o corpo de seus filhos estivesse unido e fortalecido por aquilo que cada parte fornece.
Ao mesmo tempo, devem possuir maior zelo pelas ordenanças de Deus: pela oração pública e particular, pela audição e leitura da Palavra, pelo jejum e pela Ceia do Senhor.
Devem possuir maior zelo pelas obras de misericórdia do que até mesmo pelas obras de piedade.
Devem possuir zelo ainda maior por todas as disposições santas: humildade, mansidão e submissão.
Acima de tudo, devem possuir o maior zelo por aquilo que constitui o resumo e a perfeição da religião: o amor a Deus e aos seres humanos.
8. Resta apenas aplicar essas coisas de maneira próxima e sincera à própria alma.
Todos conhecemos a verdade geral de que é bom ser sempre zeloso pelo bem.
Cada um de nós deve agora aplicá-la particularmente a si mesmo.
9. Aqueles que ainda estão mortos em suas transgressões e pecados não possuem parte alguma nessa questão.
O mesmo acontece com aqueles que vivem em algum pecado conhecido, como embriaguez, profanação do dia do Senhor ou linguagem profana.
Eles não possuem relação alguma com o zelo. Nem sequer deveriam pronunciar essa palavra.
É completa insensatez e presunção alguém falar sobre zelo por Deus enquanto pratica as obras do diabo.
Caso, porém, você tenha renunciado ao diabo e a todas as suas obras e decidido no coração:
“Adorarei o Senhor, meu Deus, e somente a ele servirei”,
tenha cuidado para não ser nem frio nem quente. Seja zeloso por Deus.
Você pode começar pelo degrau mais baixo.
Possua zelo pela Igreja, especialmente pela parte dela na qual Deus o colocou.
Procure seu bem-estar e observe cuidadosamente todas as suas regras por causa da consciência.
Ao mesmo tempo, tome cuidado para não negligenciar alguma das ordenanças de Deus, para as quais, em grande medida, a própria Igreja foi constituída.
Seria profundamente absurdo falar de zelo pela Igreja caso não possuísse zelo ainda maior pelas ordenanças.
Você possui maior zelo pelas obras de misericórdia do que pelas obras de piedade?
Segue o exemplo de seu Senhor e prefere a misericórdia até mesmo ao sacrifício?
Emprega toda diligência para alimentar os famintos, vestir aqueles que estão sem roupa e visitar os enfermos e os presos?
Acima de tudo, utiliza todos os meios ao seu alcance para salvar almas da morte?
Caso, enquanto possui oportunidade, faça o bem a todas as pessoas, especialmente aos que pertencem à família da fé, seu zelo pela Igreja é agradável a Deus.
Caso contrário, caso não tenha cuidado em manter as boas obras, o que você possui a ver com a Igreja?
Caso não tenha compaixão de seus companheiros de serviço, o Senhor também não terá compaixão de você.
“Não tragam mais ofertas inúteis.” Todo o seu serviço é uma abominação diante do Senhor.
10. Você já foi suficientemente instruído para não separar aquilo que Deus uniu?
Não separa as obras de piedade das obras de misericórdia?
Possui zelo constante por ambas?
Até esse ponto, anda de maneira agradável a Deus, desde que se recorde continuamente de que Deus examina o coração e as intenções; de que ele é Espírito e aqueles que o adoram precisam adorá-lo em espírito e em verdade.
Consequentemente, nenhuma obra exterior é aceitável diante dele caso não proceda de disposições santas, sem as quais ninguém poderá possuir lugar no Reino de Cristo e de Deus.
11. Entre todas as disposições santas e acima de todas elas, cuide para possuir o maior zelo pelo amor.
Considere todas as coisas como perda em comparação com o amor de Deus e de toda a humanidade.
É absolutamente certo que, ainda que distribua todos os seus bens para alimentar os pobres e entregue o próprio corpo ao sofrimento, caso não possua amor humilde, manso e paciente, isso de nada lhe aproveitará.
Que esta verdade seja profundamente gravada em seu coração:
Tudo é nada sem o amor!
12. Receba toda a religião exatamente como Deus a revelou em sua Palavra.
Possua zelo constante por cada uma de suas partes de acordo com seu grau de excelência.
Fundamente todo o seu zelo no único fundamento, Jesus Cristo e este crucificado.
Conserve firmemente este princípio:
“Esse viver que agora tenho, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”
Proporcione seu zelo ao valor de seu objeto.
Possua, portanto, zelo sereno pela Igreja, por toda a condição da Igreja de Cristo que milita aqui na terra e, particularmente, pela parte com a qual está mais diretamente ligado.
Possua maior zelo por todas as ordenanças estabelecidas por nosso bendito Senhor para permanecerem na Igreja até o fim do mundo.
Possua maior zelo pelas obras de misericórdia, os sacrifícios com os quais Deus se agrada, as marcas pelas quais o Pastor de Israel reconhecerá suas ovelhas no último dia.
Possua zelo ainda maior pelas disposições santas: paciência, benignidade, mansidão, humildade e submissão.
Acima de tudo, possua o maior zelo pelo amor, a rainha de todas as graças, a mais elevada perfeição na terra ou no céu, a própria imagem do Deus invisível, tanto nas pessoas aqui embaixo quanto nos anjos no alto.
“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1 João 4.16).
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.