Meus Sermões · Volume 1 · Providência e liberdade

Deus não trata o ser humano como mula

Capítulo 7 de 14 · 5.010 palavras

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Texto base: Salmo 32.8-9

1. O texto

No Salmo de número 32, versículos 8 e 9: "Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho. Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte, não te obedecem" (Sl 32.8-9).

Deus não trata o ser humano como alguém lida com um animal, botando cabresto e rédea curta. Nunca foi projeto de Deus guiar a humanidade desta forma.

2. Criados à imagem e semelhança

Deus, em sua soberania, ao criar o universo, ao criar o mundo — e os seres humanos em particular —, cria esses seres humanos à sua imagem e semelhança (Gn 1.26-27). Isso significa muita coisa. Ser criado à imagem e semelhança de Deus significa que nós não somos estúpidos, que nós não somos bestas, que nós não somos cavalos, que nós não somos mulas; que nós não somos animais que precisam ser amestrados, dominados e guiados pela força. Deus nos criou com inteligência; somos seres racionais, com capacidade criativa. Deus dotou os seres humanos de um poder extraordinário, que o restante da criação não compartilha: só a humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus; ela é distinta de tudo o mais nesse aspecto.

E, ao sermos criados à imagem e semelhança de Deus, somos dotados de um poder de relacionamento e de decisão. Podemos amar e podemos odiar; podemos obedecer e podemos desobedecer; podemos seguir pela direita e podemos seguir pela esquerda; podemos parar e podemos avançar. Nós temos liberdade.

3. Liberdade — e espaço para exercê-la

Deus não apenas nos dotou dessa capacidade de escolha: ele também concedeu espaço para o exercício dessa liberdade. Repare que, ao colocar Adão e Eva no jardim, Deus não fica numa marcação cerrada — estou usando a linguagem do futebol; ele não botou ninguém "mano a mano", não pôs um anjo no encalço de Adão e Eva. De repente, Eva se vê tentada pelo maligno, e não está ali Deus para impedir a tentação; não está ali um anjo de Deus para cercear o direito de escolha daquela mulher — e, posteriormente, daquele homem, seu marido, chamado Adão. Não é interessante isso? São dotados de liberdade, e também têm espaço para o exercício de tal liberdade. Sentem-se um tanto à vontade, concorda comigo?

Tanto é que, depois da queda em pecado, Deus "se apresenta" — parece que ele estava relativamente ausente. Embora saibamos que Deus está sempre presente, nem sempre temos a consciência de que ele está tão perto assim. Algo semelhante acontecia ali: de repente, Deus "chegou" (Gn 3.8). O que eu quero dizer é que Adão e Eva se sentiram à vontade para praticar o que praticaram; não estavam conscientes de estar debaixo de um olhar recriminador de Deus. E assim parece caminhar a humanidade: muitas vezes indiferente à presença divina, que em todos os lugares está, que tudo sabe, que tudo vê. Certamente Deus estava presente, espiritualmente presente; certamente Deus estava vendo. Mas ele permitiu; não usou os seus poderes para impedir uma ação errada do homem.

Porque, se fosse o propósito de Deus que o homem sempre acertasse e nunca errasse, se fosse o propósito de Deus que a humanidade inteira funcionasse ao seu comando, ele nunca, jamais, teria concedido a eles o quê? O livre-arbítrio. E, se ele concede o livre-arbítrio, ele precisa ser coerente com a concessão do mesmo, ou seja, precisa conceder espaço para o exercício das liberdades humanas, das escolhas. Senão, para que conceder livre-arbítrio? Se concede liberdade de escolha e de decisão, precisa conceder também espaço para essas decisões, para que o homem possa deliberar.

4. Só um Deus soberano pode correr esse risco

Mas isso é arriscado, concorda comigo? É muito arriscado. Mas só um Deus soberano pode correr tal risco. Só um ser tremendo, capaz e sábio pode correr o risco de conceder liberdade a seres criados à sua imagem e semelhança e, mesmo assim, conseguir conduzir a história para o final desejado, para o final feliz. É isso que ele promete: no meio de todas as liberdades, de todo o exercício do livre-arbítrio, Deus, em sua soberania e capacidade, consegue, nesse emaranhado de linhas, tecer e conduzir a história para o final que ele planejou. Só um Deus todo-poderoso, tremendo e soberano — tão soberano que foge à nossa inteligência, à nossa sabedoria, ao nosso discernimento — pode conceder, para mim, para você e para todo mundo, liberdade e espaço para o exercício das escolhas e, ao mesmo tempo, governar e liderar a história de toda a humanidade para o final desejado.

Do contrário, se Deus não concedesse livre-arbítrio às suas criaturas prediletas, elas seriam como robôs. Deus teria botado um chip, e nós funcionaríamos como fantoches em suas mãos.

5. O problema do determinismo

Existem muitos cristãos que assim entendem. Existe muita gente — queridos, muito próximos a nós — que entende que Deus decretou tudo o que acontece e acontecerá: todas as ações humanas, cada detalhe, cada escolha, cada decisão já foi deliberada por Deus; Deus, de antemão, prescreveu tudo o que aconteceria; ele teria determinado tudo. O que você comeu hoje no almoço? Você só comeu porque foi influenciado por Deus a tomar aquela medida de comida, a escolher isto e não aquilo — e assim sucessivamente: cada detalhe estaria predeterminado, predestinado.

O problema com essa posição é que recairia sobre Deus a culpa de tudo o que acontece de errado. Concorda? Não haveria como fugirmos do óbvio: se Deus, desde antes da criação de tudo, já escreveu o roteiro da minha vida, e eu não tenho escolha alguma a não ser cumprir aquilo que ele determinou e impôs sobre a minha existência, então eu jamais tive liberdade; eu sou como que tapeado, enganado com a ideia de que sou livre, de que sou eu que tomo as decisões; de fato, eu não passo de uma marionete nas mãos de Deus. Deus seria, assim, o manipulador de todos os eventos, de tudo o que acontece; ele seria o criador do mal, em última instância — a causa primária de todos os males, de todas as tragédias, de todos os pecados, de todas as barbaridades, de todas as guerras, de toda a violência, de todo ciúme, de todo sangue derramado, de todos os estupros, de todos os maníacos, de todos os pedófilos: todos eles estariam cumprindo um papel que Deus escreveu. Isso é horrendo demais, pelo menos para o meu gosto. Eu tenho muita dificuldade de compreender a mente de irmãos que assim interpretam as Escrituras. Esse determinismo soa horrendo aos meus olhos.

E, para piorar a história, eles acreditam que Deus teria, desde a eternidade, decidido quem seria salvo e quem seria perdido. Se a gente sabe, pela boca de Jesus, que o caminho da salvação é estreito e poucos são os que se salvam (Mt 7.14), teria Deus, desde a eternidade, determinado que a grande maioria da raça humana estivesse destinada, sem nenhuma chance de escape, ao fogo do inferno? Essa turma, a grande maioria da humanidade, jamais teria sido objeto do amor de Deus. Isto que cantamos hoje — "Deus me ama, Deus te ama" —, isso que cantamos a respeito do amor e do desejo de Deus de salvar, não valeria para todo mundo; aliás, não valeria para a maioria das pessoas, porque Deus jamais teria tido a intenção de salvar a maioria das pessoas — é o que diz essa corrente doutrinária. Essas pessoas já teriam nascido com o seu destino traçado para a perdição, sem escapatória, reféns de um decreto divino; e um dia terão que comparecer perante o tribunal de Deus, e Deus as condenará por terem feito aquilo que Deus determinou que fariam.

Gente, eu não estou exagerando. Eu debati essa semana — quem teve oportunidade, assistiu — com um colega, amigo, querido irmão. Não é para a gente desgostar das pessoas; a gente pode separar as coisas: eu desgosto desta opinião; no mais, temos opiniões muito semelhantes. Nesse aspecto eu discordo, mas o irmão querido eu amo e espero vê-lo no céu — querido pastor, humilde, que esposa esse ponto de vista. E nesse debate fica muito claro esse posicionamento; não sou eu que estou pintando isso com cores muito tenebrosas: é exatamente do jeito que eu estou dizendo. Eles acreditam que Deus decretou de antemão tudo o que acontece. Aliás, eles dizem que Deus só pode conhecer o futuro porque determinou o futuro — portanto, até a ideia que têm da onisciência de Deus é muito limitada. Porque nós acreditamos que Deus conhece o futuro sem necessariamente ter de predeterminá-lo para poder conhecê-lo. Nós entendemos que Deus, na sua eternidade, consegue contemplar passado, presente e futuro como algo claro aos seus olhos: assim como nós podemos olhar para o passado e lembrar, Deus pode olhar para o futuro; para ele, passado, presente e futuro são claros diante dos seus olhos. É difícil de compreender — Deus é eterno; estamos falando de alguém que nunca teve princípio, de alguém que está muito acima da humanidade. Mas eles entendem que a onisciência de Deus só é possível porque Deus escreveu tudo o que vai acontecer; por isso ele sabe. E cada um de nós seria, então, uma vaquinha de presépio, um instrumento manipulado por Deus. Deus controlaria a vida de cada um de nós, cada uma das nossas ações e tudo o que acontece no mundo — inclusive as ações de Hitler teriam sido instigadas, escritas pela mão de Deus. É difícil, gente; é difícil engolir um negócio desses.

6. E o diabo, nessa perspectiva?

E o diabo? O que seria o diabo, dessa perspectiva? Acompanhe o raciocínio. Para nós, arminianos, o diabo foi um anjo de luz, criado por Deus — assim como Deus criou os homens com livre-arbítrio, criou também os anjos com livre-arbítrio —, criado com graça, com amor, para um propósito santo. E o diabo usou a liberdade que recebeu para rebelar-se contra Deus; e assim surgiu o capeta: fazendo uso da sua liberdade, rebelou-se contra Deus, assim como o homem, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelou-se contra o Altíssimo.

Mas um calvinista consequente teria de pensar que o diabo foi criado por Deus para ser diabo, para fazer o que faz — eu não estou brincando: eles creem que tudo o que acontece foi escrito por Deus. Portanto, o diabo seria um fantoche nas mãos de Deus, representando um papel escrito pelo próprio Deus; Deus teria determinado as ações do diabo, uma a uma; o diabo não passaria de um instrumento nas mãos de Deus para cumprir os propósitos de Deus na história. O diabo, Mussolini, Fidel Castro, todos os tiranos — Hitler, Nero, Calígula, Domiciano —, todos os que mataram muita gente, que perseguiram, que fizeram barbaridades, e o próprio diabo. Nesse debate eu levantei a seguinte questão: se Deus cria todos para cumprirem um papel já predeterminado, inclusive o diabo, o diabo não seria como que uma desculpa para Deus? "Vamos botar a culpa no diabo" — mas, de fato, teria sido Deus que fez com que o diabo fizesse isso e aquilo. Que complicado! Que terrível! Seria Deus, então, o autor do mal; seria Deus o autor do pecado, o autor da queda, o autor da doença, o autor da morte, o autor da guerra, da injustiça, de todas as malignidades?

Seria isso compatível com o Deus revelado na pessoa de Jesus Cristo? O Deus que se revelou em Cristo, que se fez homem na pessoa de Jesus Cristo, é compatível com o deus descrito por tal doutrina? Mostrou Jesus indiferença ou descaso por quem quer que fosse? Mostrou Jesus ser uma pessoa que faz acepção de pessoas? As ações de Jesus não revelam um coração amoroso, sinceramente preocupado em salvar a todos? Pare para pensar: o Deus revelado em Jesus Cristo nada tem de déspota, de tirano; nada tem com o mal.

7. Deus não é o autor do mal

Aliás, há muitos textos bíblicos que falam que Deus é plena luz, e nele não há treva nenhuma (1Jo 1.5); que Deus não é o autor do mal. Tiago diz, com outras palavras, que ninguém, ao ser tentado, deve dizer "por Deus estou sendo tentado". Por quê? Diz Tiago: porque Deus a ninguém tenta; cada um é tentado pelas suas próprias concupiscências (Tg 1.13-14). Em outras palavras: Deus não está instigando quem quer que seja à prática do mal — muito menos escrevendo o mal que alguém tem que cumprir, determinando o mal que alguém tem que realizar. Está entendendo? Ele não prescreveu, não determinou o mal; ele sequer instiga, sequer propõe o mal, sequer tenta. Muito menos seria ele o autor do mal em nosso próprio coração e em nossa própria mente. Veja que Tiago, esse apóstolo querido, faz questão de desvincular Deus de qualquer mal. Deus não tem nada a ver com o mal; o pecado não habita no coração de Deus; Deus não instiga ninguém à prática do mal, do pecado. Somos tentados pelas nossas próprias concupiscências.

8. Instruir e aconselhar — não dominar

Voltemos ao texto, que se encontra no Salmo 32. Repare no versículo 8: "Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir." Portanto, o que vemos Deus fazer é instruir, aconselhar — como um pai instrui e aconselha o seu filho. Ainda que tivesse poder para impor isso sobre a vida de suas criaturas, Deus jamais escolheu esse caminho. Pelo contrário, ele diz: "Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados." Eu não quero agir assim na vida de vocês; nunca foi meu plano colocar um cabresto na vida de vocês, um freio para puxar, uma rédea curta para comandar a vida de vocês.

Quanta gente gostaria que assim fosse! Não pense que não tem gente que adoraria que assim acontecesse: "Assim eu sempre estudaria; assim eu nunca teria preguiça; assim eu me comportaria cem por cento das vezes da maneira adequada, correspondente à vontade de Deus — porque Deus estaria controlando a minha vida, como alguém que joga videogame." Quem joga videogame aqui? Confesse o pecado agora! Não é que eu considere pecado — o exagero, sim. Ao jogar videogame, nós colocamos nas mãos o quê? O controle. E nos sentimos poderosos: temos o controle em nossas mãos, e tudo o que rola dentro daquela máquina, naquela tela, se move por causa do nosso controle. Eu acho isso muito sem graça; eu prefiro lidar com o animal — sobre o animal a gente não tem esse controle todo; a gente tem que cativar o animal; ele interage, ele às vezes nos surpreende.

Os seres humanos são assim. E Deus escolheu criar seres humanos, e não robôs. Deus não quer ficar movendo comandos e apertando botões para você ter a sua ação. Deus instrui você, aconselha você — mas não obriga você. Se ele quisesse obrigar, já teria criado o mundo debaixo do seu controle absoluto: jamais teríamos saído da linha, Adão e Eva jamais teriam pecado, tudo funcionaria de modo harmônico, de acordo com a prescrição de Deus. E seria muito chato, no final das contas. Ou não? Não se cansa você de tudo o que é artificial? Não se cansou você de todas as bonecas que um dia recebeu — estou falando com as mulheres —, que diziam coisas maravilhosas a seu respeito, chamavam você de mamãe e diziam que te amavam? Uma criança já da idade da Helena se cansa disso rapidamente — ela só tem um ano e quatro meses, e logo percebe a artificialidade daquela expressão de louvor. Comprei um ferrorama para os meninos certa vez — era o sonho da minha infância, que eu nunca tive. E ver aquele trenzinho rodando, sempre fazendo a mesma coisa, logo se mostra uma coisa muito chata, não é? Por isso as brincadeiras entre crianças são muito mais divertidas: elas sempre têm o elemento humano, e a interação humana é insubstituível. E repare que quem joga videogame gosta de jogar contra o outro, e não contra a máquina. Quem gosta de jogar xadrez contra uma máquina, levante a mão. Eu gosto de jogar xadrez, mas contra máquina, não. Você só desafia a máquina para treinar habilidade — e já está na cabeça: "vou treinar aqui para depois pegar o meu irmão, o meu amigo da escola". Porque o grande barato da vida é a inter-relação pessoal.

Se eu, tendo me apaixonado pela Cristine, para garantir que ela me amasse, a tivesse levado para um laboratório e botado um chip na cabeça dela, robotizado essa mulher, e ela começasse a dizer todas as coisas que eu sempre sonhei ouvir da boca dela — eu pergunto para você: que graça teria uma porcaria dessas? Seria uma porcaria! Uma máquina, um robô — por melhor que seja um robô, gente, é um robô.

9. O louvor só tem valor porque é livre

Isso significa que o nosso louvor só faz sentido para Deus porque nós poderíamos não estar louvando. Ele curou dez — estou falando de Jesus —, mas não obrigou os dez a estarem com ele; só um voltou para agradecer; todos eram livres para ir embora. Mas aquele que voltou para agradecer foi motivo de muita alegria para Deus (Lc 17.12-19). O motivo da maior alegria para o pai foi quando o filho pródigo decidiu regressar para casa por livre e espontânea vontade (Lc 15.20-24). Gente, quando nós, por livre e espontânea vontade, respondemos ao amor de Deus, isto é repleto de significado para o Pai das luzes, criador de tudo o que há. Ele é engrandecido. Sabe por quê? Porque ele não nos obrigou; nós não estamos cumprindo um decreto; nós não estamos sendo manipulados e controlados por ele. O filho, quando quis ir embora, teve liberdade para ir; e, quando quis voltar, foi acolhido e recebido com muito amor e carinho.

Jesus diz aos judeus: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" (Mt 23.37). Repare: "quantas vezes eu quis" — Jesus é Deus — "amparar vocês, proteger vocês, salvar vocês; mas vocês não quiseram". Portanto, existe aí um conflito entre o querer de Deus e o querer do homem — e um respeito, da parte do Deus que poderia impor o seu querer com toda a tranquilidade. Nunca diminuímos o poder de Deus: Deus se abstém do exercício de todo o seu controle porque ele é soberano até sobre a sua soberania; ele é poderoso para autolimitar-se, a fim de ter filhos vivos e autênticos. "Vocês não quiseram; eu quis." Não foi "não aconteceu porque eu não quis que acontecesse"; não: "eu quis que acontecesse, mas não aconteceu porque vocês não quiseram".

"Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus" (Jo 1.11-12). O propósito de Jesus era salvar os seus, mas os seus não o receberam; e tantos quantos o receberam fizeram uso do seu livre-arbítrio e abraçaram o Natal. A luz brilhou para todo mundo; mas Herodes não quis saber da luz — quis saber de matar o menino; e os pastores acolheram a luz, e o Natal se fez para eles. Era para ter se feito também para Herodes, para os judeus, para os fariseus como um todo; mas apenas um punhado deles abraçou a fé.

10. "Rejeitaram o propósito de Deus para eles"

Quero ler, no encerramento desta mensagem, um versículo que se encontra em Lucas, capítulo 7, versículo 30, a respeito ainda dos judeus: "Mas os fariseus e os peritos na lei rejeitaram o propósito de Deus para eles, não sendo batizados por João" (Lc 7.30).

O propósito é revelado com toda a clareza — costumo usar a expressão: com todas as letras —, de modo que não dá para evitar a conclusão óbvia desse texto. Desafio qualquer um a tentar interpretá-lo de outra forma sem violentar o seu sentido claro. "Os fariseus e os peritos na lei rejeitaram o propósito de Deus para eles." Qual era o propósito de Deus para eles? Veja a frase subsequente: "não sendo batizados por João". O propósito de Deus para eles era que fossem batizados por João — era a salvação, era o arrependimento, era o perdão. É muito claro. Está difícil? Vamos repetir: o propósito de Deus para eles era que fossem batizados; mas eles rejeitaram o propósito.

"Mas como pode alguém rejeitar o propósito de Deus? Que autossuficiência, que prepotência é essa?" — e aí estou falando como falaria um calvinista. Eu não estou falando de prepotência alguma: eu estou citando as palavras da Bíblia, que dizem que Deus concedeu esse direito aos homens. Certamente, ele, sendo todo-poderoso, poderia tolher, poderia cercear o livre-arbítrio; poderia até não ter criado homens com livre-arbítrio. Mas aqui diz que eles tiveram o poder até mesmo de resistir, de rejeitar o propósito de Deus para eles. Portanto, aqueles que se perdem não se perdem porque esse foi o propósito eterno de Deus para eles — ao contrário do que dizem os calvinistas, de que Deus predeterminou os perdidos para a perdição desde a eternidade. Esse texto claramente se opõe a essa ideia, dizendo que o propósito de Deus para as pessoas é a salvação — e muitos rejeitam esse propósito de salvação e colocam-se numa condição de perdição.

João, o evangelista, registra as seguintes palavras de Jesus: "A luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más" (Jo 3.19). Ele não veio para condenar quem quer que fosse (Jo 3.17); mas o juízo é este: tendo a luz se manifestado ao mundo, para iluminar, para espantar as trevas, muitos optaram por esconder-se em suas cavernas e rejeitaram a luz como proposta de Deus para as suas vidas.

Isaías, capítulo 1, versículo 2, diz assim: "Criei filhos e os engrandeci" (Is 1.2). Deus é revelado, através do profeta Isaías, como um ser bondoso, que cria filhos. E quem cria filhos, cria com propósitos benignos. Ou vamos supor que Deus tenha criado filhos para a perdição? "Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial?" (Mt 7.11) — o Pai celestial não cria filhos senão para um bom propósito. Veja: "criei filhos e os engrandeci" — e o texto continua: "mas eles estão revoltados contra mim". Há uma carga de decepção, de desilusão, da parte divina — não que ele não tivesse previsto o que aconteceria; mas certamente significa que Deus, ao nos criar, ao nos engrandecer, ao nos dar tantas capacidades e tantos dons, não tinha por intento o resultado que acabou acontecendo.

Podemos nós entristecer o Espírito Santo? Podemos nós resistir ao Espírito Santo? A palavra de Deus diz que sim. Por isso Efésios 4.30 diz: "Não entristeçais o Espírito Santo de Deus" (Ef 4.30). E outro texto diz: "Vós sempre resistis ao Espírito Santo" — palavra da boca de Estêvão, no seu sermão a respeito dos judeus (At 7.51): vocês sempre têm resistido ao Espírito Santo, ao propósito de Deus para as suas vidas. Esse texto casa bem com Lucas 7.30.

11. Nem por força, nem por violência: o poder do amor

Portanto, vou concluindo dizendo o seguinte: Deus é bom, e não há nele maldade alguma. Deus nos criou à sua imagem e semelhança, com o melhor dos propósitos, com a melhor das intenções. Mas, ao conceder liberdade ao homem, ele também teve que conceder espaço para o exercício dessa liberdade — o que resulta em quê? Rebelião, pecado. Ele não pode ir tolhendo todas as rebeliões, não pode cercear todo o exercício das liberdades; ele precisa conceder espaço. E, ao conceder espaço, o mal começa a se expandir, como vemos na história da humanidade. Mas não pense que Deus abandonou a humanidade! Deus, já antecipadamente, desde a eternidade, antevendo o que aconteceria — porque jamais foi pego de surpresa —, preparou a nossa salvação, a nossa redenção e o conserto de toda a história. De antemão propôs o Cristo, propôs o Natal, propôs a Páscoa — um caminho no meio do temporal, no meio da tempestade, no meio dessa confusão, no meio dessa Babel. Deus tem as suas ações, Deus está atuante na história da humanidade, ele está presente, e ele tem uma linha traçada no meio de toda essa confusão; e ele vai dando nó em tudo, até o último capítulo da história. Não percam, por esperar! A história revelará como Deus, em sua soberania, foi capaz de conceder espaço para as pessoas agirem livremente e, mesmo assim, ter o domínio da história em suas mãos. Como isso é possível? Um dia saberemos. Mas ele é Deus, e tudo pode.

E foi do seu agrado vir a este mundo na forma de servo. Deus poderia ter vindo todo-poderoso, para subjugar todas as vontades, para nos conquistar pela força. Mas já dizia ele, desde os tempos do Antigo Testamento: "Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito" (Zc 4.6). E veio o Cristo, sendo levantado na cruz e atraindo os homens a si (Jo 12.32). Nem por força, nem por violência: é pela via do amor, é pela graça. Foi esbofeteado, cuspiram nele, gritaram "crucifica!" — mas ele conquistou, e tem conquistado, mais e mais corações espontâneos, livres. Ele nos amou; no meio de tudo isso, ele revela o seu amor, e o seu amor nos constrange — não é isso que diz o texto bíblico? "O amor de Cristo nos constrange" (2Co 5.14). Não é a força, não é o poder de Deus que nos constrange; ele não nos domina pela força do seu poder — ainda que pudesse, ele se limitou, se restringiu nesse quesito, para poder nos conquistar por outra via, que nada tem a ver com esse poder, mas com um outro poder: o poder não da força, mas do amor. O amor de Cristo nos constrange, nos atrai, nos conquista, mexe com a gente. Ele nos conquista pelo seu amor. Assim foi do seu agrado.

E, quando amamos a Deus, os seus mandamentos não são pesados (1Jo 5.3). Ele disse: "O meu jugo é suave, e o meu fardo é leve" (Mt 11.30). Mas como fazer a vontade de Deus é coisa pesada — sempre pesada — para quem não tem amor!

Com dezoito anos, a Cristine se muda — eu namorava com ela —, por causa do pai dela, que, como pastor, foi ser pastor no Cangaíba. Eu morava em Cidade Ademar. Naquela época, para chegar ao Cangaíba, eu pegava um ônibus até o metrô, descia no Jabaquara, depois descia na estação São Bento e pegava o ônibus de São Miguel, que passava lá na avenida Cangaíba. Era esse o caminho que eu fazia — e fazia com muita frequência. Gente, eu tinha um pique para fazer essa caminhada de ida e volta que vocês não fazem ideia! Quem já amou sabe do que eu estou falando. O Rafael, parece que se apaixonou por alguém lá de Ipatinga, não é isso mesmo? Ipatinga é longe — é bem depois de Belo Horizonte, para cima, já no caminho da Bahia. Mas esse moleque não mede esforço para ir lá — ele já tem vinte e um anos de idade, mas para mim é sempre uma criança. Uma vez pagou uma passagem aérea caríssima — uma perninha daqui para Ipatinga é caro; o pagamento dele todo está ali. Nenhum sacrifício, se fazemos com amor, pesa. Para ver a pessoa que você ama, você paga — e paga com um gosto que você não tem ideia. E eu ia de ônibus e voltava de lá no domingo; chegava, mal dormia, e ia para o serviço na segunda. E ela fazia a mesma coisa, vindo para cá. O que a gente está querendo dizer? Que, quando a gente ama, isso é facinho. Agora, me manda ao Cangaíba para fazer um favor para alguém: "Olha, eu tenho uma correspondência aqui, não vou poder levar hoje; você não pode pegar três conduções e chegar lá no Cangaíba hoje?" — "Hum… mas Cangaíba, de Cidade Ademar? Isso é muito longe!" E Ipatinga? "Longe demais de São Paulo!" Quando você não tem amor, tudo é custoso; a preguiça vem com uma facilidade, as desculpas são escandalosas: "Ah, não dá, já tinha outro compromisso." Mas, quando a gente tem amor, é prioridade número um. O amor faz toda a diferença.

E o caminho que Deus escolheu foi amar você e mostrar que por você ele paga qualquer preço — ele já pagou, até mesmo com a própria vida. E, se isso não foi suficiente para te conquistar, eu acho que não tem mais nada que ele possa fazer.

12. Lição de casa: a vinha do Senhor

Eu convido você, como lição de casa, a meditar em Isaías, capítulo 5 — guarde esse capítulo: a parábola do senhor da vinha. Nessa parábola, Deus diz: plantei uma vinha, preparei o terreno, cuidei para que ela tivesse todas as condições propícias para produzir a melhor uva; mas produziu uvas bravas. E Deus levanta um desafio, e diz: "Que mais se podia fazer ainda à minha vinha, que eu lhe não tenha feito?" (Is 5.4). Por favor, digam-me: há algo que eu deveria ter feito e não fiz? A resposta óbvia é: não. Ele tomou todos os cuidados, plantou vinha boa e deu todas as condições. Ele quer que você produza frutos bons; se não produz frutos bons, a culpa é sua.

E, no dia do juízo, ele vai dizer assim: "Venha aqui conversar comigo. O que é que eu podia ter feito por você que eu não fiz?" E você não vai poder dizer: "Todas essas uvas verdes e amargas que eu produzi são porque o Senhor me deu gene de planta de uva verde e amarga." Não tem essa conversa no dia do juízo final. Deus é justo, e todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo, para prestar contas do bem ou do mal que fizemos no corpo, em nossa vida (2Co 5.10). E aquele não será um dia de desculpas — porque Deus jamais traçou o nosso destino para a perdição; porque temos escolha; porque temos o evangelho; porque temos recebido luz — e devemos responder à luz que temos recebido. Amém e amém.

Capítulo 8

Bispo Ildo Mello
De Meus Sermões, Volume 1: Deus — pessoa, atributos e providência. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).