Meus Sermões · Volume 2 · Da justificação à glória
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Romanos 7.7–8.17 constitui um dos textos mais debatidos de toda a literatura paulina. A questão central que divide intérpretes há séculos pode ser formulada assim: Quem é o “eu” que grita “Desventurado homem que sou!” em Romanos 7.24? Trata-se do apóstolo Paulo descrevendo sua experiência pessoal como cristão maduro, ou de um recurso retórico para retratar a condição do ser humano não regenerado, que tenta cumprir a Lei de Deus pela força da própria carne?
A resposta que damos a essa pergunta tem consequências pastorais profundas. Se o “eu” de Romanos 7.14-25 é o cristão normal, então a vida cristã é marcada por derrota contínua, escravidão moral e impotência diante do pecado. Se, porém, o “eu” retrata a condição pré-cristã ou o ser humano sob a Lei sem o poder do Espírito, então Romanos 8 se torna a descrição normativa da vida cristã: vitória, liberdade e filiação divina.
Na aula anterior, vimos que morremos para a Lei para nos casarmos com Cristo (Rm 7.1-6). Paulo estabeleceu um contraste vital nos versículos 5 e 6: a vida antiga “na carne”, onde as paixões operavam para a morte (v. 5), versus a nova vida “no Espírito” (v. 6). Nesta aula, mergulharemos na explicação detalhada desse contraste. Romanos 7.7-25 é a anatomia do fracasso do versículo 5 (o homem tentando ser santo pela Lei). Romanos 8.1-17 é a exposição da vitória do versículo 6 (o homem capacitado pelo Espírito). Entender essa distinção é vital para não normalizarmos a derrota na vida cristã.
O presente estudo defende a perspectiva armínio-wesleyana de interpretação desta passagem, apoiada pela análise retórica de estudiosos como Ben Witherington III, Craig Keener, o Comentário Beacon e a tradição exegética wesleyana mais ampla. Nosso objetivo é demonstrar, com rigor exegético e hermenêutico, que o “eu” de Romanos 7.14-25 não descreve o cristão regenerado, mas sim a humanidade caída representada em Adão, tentando cumprir a vontade de Deus sem o poder do Espírito Santo.
Antes de mergulhar nos detalhes exegéticos, é indispensável compreender a estrutura do argumento de Paulo em Romanos 5–8. Essa grande seção da carta trata da santificação e da vida nova em Cristo, e seu argumento se desenvolve de forma progressiva e coerente.
Paulo estabelece em Romanos 5.12-21 o grande contraste entre dois representantes da humanidade: o primeiro Adão, cuja transgressão trouxe condenação, pecado e morte sobre todos os seres humanos, e o Segundo Adão — Cristo — cuja obediência trouxe justificação, graça e vida. Este contraste entre “em Adão” e “em Cristo” funciona como a espinha dorsal teológica de toda a argumentação que se segue nos capítulos 6 a 8.
A transgressão de Adão trouxe condenação (Rm 5.16, 18), o reinado da morte (Rm 5.17) e fez de muitos pecadores (Rm 5.19). Em contraste, o ato de justiça de Cristo trouxe justificação e vida (Rm 5.18), graça abundante (Rm 5.20) e o reinado pela justiça para a vida eterna (Rm 5.21). Este é o pano de fundo essencial para compreender Romanos 7.
Em Romanos 6, Paulo declara enfaticamente que os cristãos foram libertados da escravidão do pecado. As afirmações são claras e categóricas:
“E, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça… para a santificação. Porque, quando éreis escravos do pecado… que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.18-22).
Observe a ênfase: éreis escravos (passado), agora libertados (presente). A escravidão ao pecado é descrita como condição passada, superada pela união com Cristo na sua morte e ressurreição.
Os versículos 5 e 6 do capítulo 7 funcionam como um resumo programático que antecipa todo o desenvolvimento posterior. Paulo contrasta duas condições:
“Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte. Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm 7.5-6).
A estrutura é cristalina: o versículo 5 descreve a condição pregressa (“quando vivíamos segundo a carne”), e o versículo 6 descreve a condição atual (“agora, porém, libertados”). A partir dos versículos 7 a 25, Paulo detalha a condição descrita no versículo 5. E no capítulo 8.1-17, Paulo detalha a condição descrita no versículo 6. Note que tanto 7.6 quanto 8.1 são introduzidos pelo advérbio “agora”, reforçando o contraste com a vida pregressa e estabelecendo a continuidade entre ambos.
Se fomos “libertados da Lei” (7.6) e se as “paixões pecaminosas” eram excitadas pela Lei (7.5), alguém poderia perguntar: “A Lei é pecado?”. Paulo responde com um veemente “De modo nenhum!” (Rm 7.7). É fundamental notar que Paulo está aqui respondendo a uma questão apresentada de modo retórico por interlocutores fictícios que representam os judeus e suas inquietações quanto ao valor da Lei.
A Lei funciona como um raio-X: ela revela a fratura, mas não cura o osso. Paulo diz que não conheceria a cobiça se a Lei não dissesse “Não cobiçarás”. A Lei define o pecado e arranca a máscara da nossa pretensa inocência. Ela é santa, justa e boa (v. 12), mas não tem o poder de transformar o coração humano.
A culpa não é da Lei, mas do pecado que habita no ser humano caído. O pecado usa a Lei como uma “base de operações” (aphormē — ocasião, ponto de partida) para nos enganar. Assim como a serpente usou o mandamento no Éden para seduzir Eva, o pecado usa a proibição para despertar o desejo rebelde. O problema não é o mandamento “santo, justo e bom” (v. 12), mas a natureza carnal que reage a ele com rebeldia.
Observe que o versículo 11 emprega linguagem que ecoa claramente a narrativa da queda em Gênesis 3: “Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou.” O verbo “enganou” (exēpatēsen) é o mesmo usado pela LXX em Gênesis 3.13 para descrever a ação da serpente sobre Eva. Isto fortalece a tese de que Paulo está descrevendo retoricamente a experiência de Adão como representante da humanidade caída.
Paulo afirma: “Eu, outrora, sem lei, vivia; mas, sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri” (v. 9). Quem viveu “sem lei” e depois recebeu um “preceito”? Na história bíblica, Adão é o único que viveu um período sem mandamento proibitivo e depois recebeu uma ordem específica. Aliás, o contraste entre Adão e Cristo que Paulo estabeleceu em Romanos 5.12-21 funciona como pano de fundo para todo o capítulo 7. Paulo está dando continuidade à descrição dos efeitos drásticos da Queda.
Chegamos ao centro da controvérsia. Quem é o homem que diz: “O bem que prefiro não faço, mas o mal que não quero, esse faço” (v. 19)? E quem grita: “Desventurado homem que sou!” (v. 24)?
Há duas posições principais na história da interpretação:
Posição 1 (Agostiniano-Reformada): A tradição agostiniana e reformada (Agostinho tardio, Lutero, Calvino) geralmente afirma que este é o cristão maduro lutando contra a carne. Segundo essa posição, Paulo descreve tanto sua própria experiência quanto a de todos os cristãos genuínos.
Posição 2 (Armínio-Wesleyana): A tradição armínio-wesleyana, apoiada por muitos Pais da Igreja anteriores a Agostinho (Irineu, Orígenes, Crisóstomo, Metódio), bem como por exegetas modernos como Keener e Witherington, afirma que o “eu” é retórico e descreve a condição do ser humano sob a Lei, sem o poder do Espírito.
É importante notar que o próprio Agostinho, em seus escritos anteriores, interpretava Romanos 7.14-25 como referente ao ser humano não regenerado. Foi somente em sua controvérsia com os pelagianos que ele mudou de posição, passando a aplicar o texto ao cristão. Esta mudança foi motivada por razões polêmicas, não estritamente exegéticas.
Em nome da honestidade intelectual e do rigor acadêmico, apresentamos os principais argumentos daqueles que entendem que Romanos 7.14-25 se refere ao cristão, para depois oferecer a resposta wesleyana.
A mudança para o tempo presente (v. 14ss). Os verbos passam do passado (vv. 7-13) para o presente (vv. 14-25), sugerindo que Paulo fala de sua condição atual.
O deleite na lei de Deus (v. 22). Uma pessoa não regenerada não teria “prazer na lei de Deus, no tocante ao homem interior”.
A distinção entre o “eu” e a “carne” (v. 18). A capacidade de distinguir entre o verdadeiro “eu” e a carne pressupõe regeneração.
A libertação do corpo pecaminoso é futura (v. 24; cf. 8.10, 11, 23). O gemido por libertação reflete a tensão escatológica do “já e ainda não”.
A tensão de 7.25. A declaração final — “com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” — reflete a experiência real do cristão.
Cristãos são justos, mas não perfeitos. Os cristãos já são justos em Cristo, mas não são aperfeiçoados até o dia da redenção.
A exegese armínio-wesleyana responde a cada um desses argumentos e oferece razões exegéticas robustas para rejeitar a aplicação de Romanos 7.14-25 ao cristão regenerado. Apresentamos agora as sete razões decisivas.
Como demonstramos na seção 1.3, os versículos 5 e 6 funcionam como um sumário programático. O versículo 5 descreve a vida pregressa na carne; o versículo 6 descreve a vida atual no Espírito. A sequência de 7.7-25 é o detalhamento do versículo 5, e 8.1-17 é o detalhamento do versículo 6. A própria arquitetura do texto aponta para esta leitura.
A mudança para o tempo presente nos verbos (v. 14ss) não indica necessariamente experiência pessoal atual. Paulo utiliza o presente dramático e a primeira pessoa (“eu”) como um recurso retórico amplamente reconhecido na antiguidade: a prosopopeia (personificação ou discurso em persona). Este recurso serve para acentuar a vivacidade retórica, funcionando como o “presente histórico” na narrativa.
Paulo faz extenso uso da diatribe ao longo de toda a carta aos Romanos, estabelecendo diálogos com interlocutores fictícios. Exemplos claros aparecem em: 2.1-6; 2.17-24; 3.1-9; 3.27–4.25; 9.19-21; 10.14-21; 11.17-24; 14.4, 10-11. Elementos típicos da diatribe em Romanos incluem exclamações dramáticas como “De modo nenhum!” (3.4, 6, 31; 6.2, 15; 7.7, 13; 9.14; 11.1, 11) e fórmulas de inferência como “Que diremos, pois?” (3.1, 9; 4.1; 6.1, 15; 7.7; 8.31; 9.14, 30; 11.7). Assim, Paulo usa um “eu” retórico para falar de si na qualidade de judeu ainda não redimido, sem confrontar diretamente seus conterrâneos.
Se Paulo estivesse falando de si mesmo como cristão em Romanos 7.14-25, ele estaria se contradizendo frontalmente com o que acabara de afirmar com tanta clareza. Em Romanos 6.18, 22, ele declara que os cristãos foram “libertados do pecado” e feitos “servos da justiça para a santificação”. Porém, em Romanos 7.14, o “eu” é descrito como “carnal, vendido à escravidão do pecado”. Um cristão não pode ser simultaneamente livre e escravo do pecado.
“Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6.2).
O próprio Paulo vivia em santidade e não em pecado. Tanto que pôde exortar os cristãos a seguirem o seu exemplo de vida: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Como poderia Paulo afirmar ao mesmo tempo que era imitador de Cristo e que era “carnal, vendido à escravidão do pecado”? Veja também o que Paulo afirma a respeito de si mesmo em Filipenses 3.4-6: “segundo a justiça que há na lei, irrepreensível”.
A mesma contradição se repete quando comparamos com o capítulo 8. Paulo declara categoricamente:
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte… Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito… do seu Espírito, que em vós habita” (Rm 8.1-2, 9, 11).
Se o cristão é descrito em 8.9 como alguém que “não está na carne, mas no Espírito”, como poderia o mesmo Paulo descrever o cristão em 7.14 como “carnal”? Dizer que os cristãos são “carnais, vendidos à escravidão do pecado” (7.14) e que cada um deles segue como “prisioneiro à lei do pecado” (v. 23) contraria frontalmente o ensino dos capítulos 6 e 8.
O argumento de que o “deleite na lei de Deus” (v. 22) pressupõe regeneração desconhece a realidade do judeu piedoso. O desejo de guardar a lei de Deus reflete perfeitamente a mentalidade do judeu devoto que quer viver uma vida moral. Como os próprios versículos enfatizam, essas pessoas desejam cumprir a Lei, mas não conseguem e não podem fazê-lo por estarem sob a escravidão do pecado. A religiosidade sincera não é exclusiva dos regenerados. Saulo de Tarso, antes da conversão, era extremamente zeloso pela Lei.
Craig Keener observa que o tipo de luta descrita em 7.14-25 ressoaria com muitas pessoas na antiguidade. O judaísmo falava de um impulso maligno (yetzer), e mestres posteriores argumentavam que o aprendizado da Torá fortaleceria o bom impulso contra o impulso maligno. Alguns judeus da diáspora também argumentavam que a Lei permitia governar as paixões. A descrição de Paulo, porém, é hiperbólica: a completa incapacidade de fazer o certo e a compulsão involuntária para cometer o mal (7.15-20) soa mais como possessão do que mera frustração moral.
O verso de abertura da seção (v. 13) explica como a Lei trouxe morte a Paulo quando ainda era o incrédulo Saulo: “Acaso o bom se me tornou em morte? De modo nenhum! Pelo contrário, o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno.” O contexto é claramente o da condição pré-cristã.
Romanos 7.7-25 descreve uma pessoa carnal que não tem o Espírito Santo habitando nela. Saulo poderia afirmar tais coisas, mas Paulo jamais diria: “em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum” (v. 18); “não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (v. 19); “o pecado que habita em mim” (v. 20).
Paulo vivia em santidade e se apresentava como exemplo a ser imitado: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais” (1Ts 4.1).
Paulo também declarou: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20). Como conciliar essa declaração com “sou carnal, vendido à escravidão do pecado”?
A evidência talvez mais gritante a favor da interpretação wesleyana é a completa ausência do Espírito Santo em Romanos 7.7-25. Nos versículos 7 a 25, a Lei é mencionada diversas vezes, e o “eu” (egō) é o centro da luta. O Espírito Santo não é mencionado nenhuma vez sequer.
Em contraste dramático, Romanos 8 contém 19 referências à pessoa e à obra do Espírito Santo! Esta assimetria não é acidental; ela revela a própria essência do argumento de Paulo: Romanos 7 descreve o ser humano tentando cumprir a vontade de Deus pela força da própria carne, sem o Espírito; Romanos 8 descreve o ser humano capacitado e dirigido pelo Espírito de Deus.
O trecho de Romanos 7.14-25 descreve, portanto, a falência do esforço humano. É o homem moral ou religioso tentando cumprir a vontade de Deus com a força da sua própria carne. O resultado é inevitável: derrota, cativeiro e desespero. Deus permite essa frustração para nos levar ao fim de nós mesmos, para que gritemos por socorro: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (v. 24).
A tabela a seguir, baseada na análise de Craig Keener, demonstra visualmente como as descrições do “eu” em Romanos 7.7-25 são incompatíveis com o que Paulo afirma sobre os crentes no contexto mais amplo da carta. Os contrastes são tão marcantes que tornam insustentável a identificação do “eu” com o cristão regenerado.
O “eu” de Romanos 7.7-25 Os crentes no contexto
Sob o domínio da Lei, do pecado e da morte (7.7-13) Libertados da Lei (7.4, 6; 8.2), do pecado (6.18, 20, 22) e da morte (5.21; 6.23; 8.2)
Sou carnal (7.14) Não estais na carne, mas no Espírito (8.9); viver na carne é coisa do passado (7.5)
Vendido à escravidão do pecado (7.14, 23) Libertados da escravidão do pecado (6.18, 20, 22); “redimidos” (3.24)
Conhece o certo, mas não consegue praticá-lo (7.15-23) Poder para viver em retidão (8.4), não conferido pela Lei externa (8.3)
O pecado habita em mim e me domina (7.17, 20) O Espírito habita nos crentes (8.9, 11)
Nada de bom habita em mim/na minha carne (7.18) O Espírito de Deus habita nos crentes (8.9, 11)
A lei do pecado domina seus membros corporais (7.23) Os crentes foram libertados da lei do pecado (8.2)
O pecado vence a guerra e me captura como prisioneiro (7.23) Os crentes vencem as batalhas espirituais (8.2, 13, 37; 2Co 10.3-5)
Anseia por libertação do “corpo da morte” (7.24) Os crentes foram libertos do caminho da morte (8.2, 10-13)
Escravo da lei do pecado na carne (7.25) Libertados da lei do pecado (8.2; 6.18, 20, 22); guiados pelo Espírito (8.5-9, 14)
Como observa Keener: “Idealmente, a representação de Paulo não pode se referir a um crente, muito menos a alguém que abraça a teologia de Paulo de uma nova vida em Cristo. Isso não é afirmar que nenhum crente jamais compartilharia quaisquer elementos da descrição, mas qualquer crente que fizesse isso estaria pensando de uma maneira incompatível com o ensinamento de Paulo sobre a Lei.”
A resposta ao grito de “Quem me livrará?” (7.24) é “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (7.25). O capítulo 8 começa com a palavra “Portanto” (ou “Agora, pois”), inaugurando a descrição da vida normativa do cristão.
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1-2).
Observe a troca de “leis”: o crente foi liberto da “lei do pecado e da morte” (a força gravitacional que puxa para baixo em Romanos 7) pela “lei do Espírito da vida” (a dinâmica da graça que nos capacita a viver para Deus). O que fora impossível à Lei, por causa da fraqueza da carne, Deus realizou enviando seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa (v. 3).
O versículo 4 é crucial para a teologia wesleyana: “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.4). Note: a justiça da Lei se cumpre em nós (en hēmin). Através do Espírito, à medida que não andamos segundo a carne, a santidade torna-se uma realidade prática, não apenas uma imputação forense. Cumpre-se em Cristo a promessa profética: “Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.27).
Paulo estabelece uma antítese absoluta, sem meio-termo. A mente voltada para a carne é inimizade contra Deus, não pode agradar a Deus e conduz à morte (vv. 6-8). A mente voltada para o Espírito é vida e paz (v. 6). O teste de um cristão genuíno não é a perfeição absoluta, mas a habitação e a direção do Espírito: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (v. 9).
Note como Paulo descreve a incapacidade descrita em Romanos 7 como característica daqueles que estão na esfera da carne: “O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (vv. 7-8). Mas imediatamente acrescenta: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito” (v. 9). A incapacidade de Romanos 7 pertence àqueles que estão “na carne” — e Paulo afirma categoricamente que os cristãos não estão mais nessa condição.
A vida no Espírito não é apenas ética; é relacional. O Espírito nos confere o espírito de adoção, pelo qual clamamos “Aba, Pai” (v. 15). O Espírito expulsa o medo escravizador (típico da condição descrita em Romanos 7) e nos dá a certeza da salvação que é tão cara à teologia wesleyana: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (v. 16).
Ao mesmo tempo, Paulo enfatiza que a vitória não é automática; ela requer cooperação ativa com a graça de Deus: “Se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (v. 13). O cristão é chamado a “mortificar” (fazer morrer) continuamente os feitos do corpo pelo Espírito. Há uma sinergia entre a graça divina e a responsabilidade humana — Deus capacita, mas o crente coopera ativamente.
Como escreveu Paulo aos filipenses: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13). O Espírito intercede, o Pai age, o crente desenvolve sua salvação — e tudo isso conduz à santidade e à vida eterna.
A interpretação wesleyana de Romanos 7–8 tem implicações diretas para a doutrina da santificação. Se Romanos 7 descreve a condição pré-cristã, então Romanos 8 se torna o padrão normativo da vida cristã. O ensino de Paulo é que a Lei exige, mas não capacita o ser humano à obediência. Porém, o que fora impossível através da operação externa da Lei, por conta da pecaminosidade da natureza humana, agora torna-se possível pela operação interna do Espírito Santo que liberta e regenera o crente.
É preciso esclarecer: afirmar que Romanos 7 não descreve o cristão não significa dizer que o cristão não enfrenta lutas contra o pecado. Os defensores de ambas as posições concordam que: (1) os cristãos ainda lutam contra o pecado ao longo de toda a vida (Gl 5.17; 1Jo 1.8-9); e (2) os cristãos podem e devem crescer em santificação pelo poder do Espírito (Rm 8.2, 4, 9, 13-14).
A diferença crucial é a seguinte: embora os cristãos tenham de batalhar contra o pecado, eles travam esta luta com confiança na força do Espírito Santo que neles habita, revestidos de toda a armadura de Deus (Ef 6.10-17). Eles seguem sujeitos a tropeços (Tg 3.2), mas contam com o poderoso auxílio “daquele que é poderoso para os guardar de tropeços e para os apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Jd 24). Há uma diferença abismal entre ser escravo derrotado e ser soldado que eventualmente tropeça, mas tem poder para vencer.
A teologia wesleyana sustenta tanto a segurança da salvação quanto a responsabilidade do crente. Ao listar o que não pode nos separar do amor de Deus (Rm 8.38-39), Paulo não menciona o próprio crente. Os wesleyanos argumentam que a liberdade que temos em Cristo inclui a liberdade que Adão e Eva tinham no Éden: de viver a vida justa ou de se afastar da comunhão com Deus pela incredulidade. Somos livres para amar e servir a Deus, e nada externo pode separar-nos desse amor, pois nossa fé e Seu amor estão ambos enraizados em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 39).
Paulo adverte claramente: “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (Rm 8.13). O contexto de Romanos 8 não suporta o conceito de “uma vez salvo, salvo para sempre”. O foco de Paulo é sobre os efeitos libertadores da graça e o poder do Espírito, mas sempre pressupondo a resposta de fé e obediência do crente.
O maior perigo de uma interpretação equivocada deste texto é concluir que, se até o apóstolo Paulo era carnal e seguia escravo do pecado, agindo sem domínio próprio, incapaz de fazer o bem desejado e de conter o mal indesejado, que dirá dos recém-convertidos e dos demais cristãos que não chegaram à maturidade espiritual dele? Tal ideia gera conformismo e complacência diante das tentações e do pecado.
Se o apóstolo que escreveu dois terços do Novo Testamento era escravo do pecado, então não há esperança de santificação real para ninguém nesta vida. A mensagem prática seria: “Aceite sua derrota, pois até Paulo era derrotado.” Essa conclusão contradiz não apenas Romanos 6 e 8, mas toda a ética paulina, toda a tradição profética do Antigo Testamento sobre a nova aliança e a própria promessa de Jesus sobre a vinda do Espírito Santo.
A interpretação wesleyana, ao contrário, preserva a esperança bíblica: o cristão não está condenado à derrota perpétua. A cruz e o Pentecostes mudaram nosso endereço espiritual. A “lei do Espírito da vida” quebra o ciclo de derrota descrito em Romanos 7.
Concluímos que o “eu” de Romanos 7.7-25 é retórico e não pode se referir nem a Paulo como cristão, nem aos cristãos em geral, pelos seguintes motivos sintetizados nesta conclusão:
1. O “eu” ainda está sob o domínio da Lei, do pecado e da morte (7.7-13), enquanto os cristãos já foram libertados da Lei (7.4, 6; 8.2), do domínio do pecado (6.18, 20, 22) e da morte (5.21; 6.23; 8.2).
2. O “eu” é carnal (7.14), enquanto os cristãos não devem mais viver na carne (8.9), pois viver segundo as paixões carnais é coisa do passado (7.5) e conduz à morte (8.13).
3. O “eu” segue ainda vendido como escravo do pecado (7.14, 23), enquanto os crentes em Cristo foram libertados dessa escravidão (6.18, 20, 22), pois já foram “redimidos” (3.24).
4. O “eu” diz respeito ao judeu Saulo, antes da conversão, e também aos judeus que ainda estão debaixo da Lei, que conhecem e querem obedecê-la, mas não conseguem devido à escravidão do pecado (7.15-23). Já os cristãos receberam o poder do Espírito que os habilita a cumprir o preceito da Lei (8.4).
5. Nada de bom habita no “eu” em questão, a não ser o pecado que o domina (7.17-20). Já os cristãos sabem que o Espírito Santo é quem habita neles (8.9, 11).
6. O “eu” de Romanos 7 está sob o domínio da lei do pecado (7.23), enquanto os crentes já foram libertados dessa lei (8.2; cf. 6.18, 20, 22).
7. O “eu” está aprisionado e perde a batalha contra o pecado (7.23), enquanto os crentes devem vencer as batalhas espirituais (8.2, 13, 15, 31, 37; 2Co 10.3-5).
8. O “eu” anseia por libertação do “corpo da morte”, enquanto os crentes foram libertos em Cristo e não vivem para seus próprios desejos carnais (8.10-13), tendo sido libertos do caminho que conduz à morte (8.2).
Romanos 7 é o retrato do ser humano que tenta alcançar a santidade sozinho; Romanos 8 é o retrato do ser humano possuído pelo Espírito de Deus. Não devemos ficar acampados em Romanos 7. A cruz e o Pentecostes nos mudaram de endereço. O cristão não está mais identificado com o primeiro Adão, mas está em Cristo, o Segundo e mais poderoso Adão!
“Graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo!” (1Co 15.57).
Que cada um de nós viva não a angústia de Romanos 7 (“o bem que quero não faço”), mas a liberdade de Romanos 8 (“o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”). Pois “daquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém” (Jd 24-25).
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(Autor Bispo José Ildo Swartele de Mello)