SERMÃO 1

A salvação pela fé

Pregado na igreja de St. Mary, em Oxford, diante da universidade, em 11 de junho de 1738 — poucos dias depois de Aldersgate.

Ef 2.8, NAA ⏱ 21 min de leituraSalvação e graça

“Pois pela graça vocês são salvos, por meio da fé.”

(Ef 2.8, NAA)

Antes de ler

Este é o sermão que abre a coleção de Wesley — e não por acaso. Pregado dezoito dias depois da experiência de Aldersgate, ele é o manifesto do avivamento metodista: a salvação é obra da graça de Deus, recebida pela fé, e não conquista do nosso esforço. Note como Wesley define o que essa fé não é antes de dizer o que ela é, e como responde, uma a uma, às objeções que ainda hoje ouvimos.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Todas as bênçãos que Deus concede ao ser humano vêm unicamente de sua graça, de sua bondade, de seu favor — um favor livre e imerecido, ao qual o homem não tem o menor direito. Foi a graça gratuita que “formou o homem do pó da terra e soprou nele o fôlego de vida” (Gn 2.7), gravou naquela alma a imagem de Deus e “pôs todas as coisas debaixo dos seus pés” (Sl 8.6). É a mesma graça gratuita que nos dá, ainda hoje, a vida, o fôlego e todas as coisas. Pois nada do que somos, temos ou fazemos pode merecer coisa alguma da parte de Deus. “Todas as nossas obras, tu és quem as realizou por nós” (Is 26.12). Tudo isso, portanto, são outras tantas provas de misericórdia gratuita; e qualquer justiça que se encontre no ser humano é, também ela, dom de Deus.

2. Com o que, então, poderia um pecador expiar o menor dos seus pecados? Com as próprias obras? Não. Ainda que fossem muitas e santas, elas não são dele, mas de Deus. Na verdade, elas mesmas são todas impuras e pecaminosas, de modo que cada uma delas precisa, por sua vez, de uma nova expiação. Árvore corrompida só produz fruto corrompido. O coração do homem é totalmente corrupto e abominável, pois ele está “destituído da glória de Deus” (Rm 3.23), aquela justiça gloriosa que fora impressa em sua alma à imagem do seu grande Criador. Assim, não tendo nada para alegar — nem justiça, nem obras —, sua boca se cala por completo diante de Deus.

3. Se, portanto, pecadores encontram favor diante de Deus, isso é “graça sobre graça” (Jo 1.16). Se Deus ainda se digna a derramar novas bênçãos sobre nós — inclusive a maior de todas, a salvação —, o que podemos dizer senão: “Graças a Deus pelo seu dom inefável!” (2Co 9.15)? E é exatamente assim: “Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8). Portanto, “pela graça vocês são salvos, por meio da fé”. A graça é a fonte; a fé, a condição da salvação.

Para que não fiquemos aquém da graça de Deus, convém examinar com cuidado:

I. Que fé é essa pela qual somos salvos.

II. Que salvação é essa que recebemos pela fé.

III. Como responder a algumas objeções.

I. Que fé é essa pela qual somos salvos

1. Em primeiro lugar, não se trata simplesmente da fé de um pagão. De um pagão, Deus exige que creia que “Deus existe e que recompensa os que o buscam” (Hb 11.6), e que ele deve ser buscado quando o glorificamos como Deus, quando lhe damos graças por todas as coisas e quando praticamos com zelo a virtude moral — a justiça, a misericórdia e a verdade para com o próximo. Um grego ou um romano, e até um cita ou um indiano, era indesculpável se não cresse ao menos nisto: a existência e os atributos de Deus, um estado futuro de recompensa e punição, e o caráter obrigatório da virtude moral. Porque isso é apenas a fé de um pagão.

2. Em segundo lugar, também não se trata da fé de um demônio — embora esta vá muito além da fé do pagão. Pois o diabo crê não apenas que existe um Deus sábio e poderoso, que gracioso recompensa e justo pune, mas também que Jesus é o Filho de Deus, o Cristo, o Salvador do mundo. Nós o encontramos declarando expressamente: “Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Lc 4.34). E não podemos duvidar de que aquele espírito infeliz crê em todas as palavras que saíram da boca do Santo, e em tudo o que foi escrito pelos santos homens de outrora — de dois dos quais ele foi obrigado a dar aquele glorioso testemunho: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e anunciam a vocês o caminho da salvação” (At 16.17). Tudo isso o grande inimigo de Deus e dos homens crê — e, crendo, treme (Tg 2.19): que Deus se manifestou em carne, que ele “porá todos os inimigos debaixo dos seus pés” (1Co 15.25) e que “toda a Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3.16). Até aí vai a fé de um demônio.

3. Em terceiro lugar, a fé pela qual somos salvos — no sentido que será explicado adiante — não é simplesmente aquela que os próprios apóstolos tinham enquanto Cristo ainda estava na terra. E olhe que eles creram nele a ponto de “deixar tudo e segui-lo” (Lc 5.11); receberam poder para operar milagres, para “curar toda sorte de doenças e enfermidades” (Mt 10.1); receberam “poder e autoridade sobre todos os demônios”; e, mais que tudo isso, foram enviados pelo Mestre para “pregar o Reino de Deus” (Lc 9.1–2).

4. Que fé é, então, aquela pela qual somos salvos? Respondo, primeiro, em termos gerais: é fé em Cristo — Cristo, e Deus por meio de Cristo, são o seu objeto próprio. Nisso ela já se distingue total e absolutamente da fé dos pagãos, antigos ou modernos. E da fé de um demônio ela se distingue plenamente por isto: não é apenas algo especulativo e racional, um assentimento frio e sem vida, um encadeamento de ideias na cabeça — é também uma disposição do coração. Pois assim diz a Escritura: “Com o coração se crê para a justiça” (Rm 10.10); e: “Se, com a sua boca, você confessar Jesus como Senhor e, em seu coração, crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (Rm 10.9).

5. E ela difere da fé que os apóstolos tinham enquanto o Senhor estava na terra porque reconhece a necessidade e o mérito da sua morte e o poder da sua ressurreição. Reconhece a morte de Cristo como o único meio suficiente para redimir o homem da morte eterna, e sua ressurreição como a restauração de todos nós à vida e à imortalidade — porque ele “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4.25). A fé cristã é, portanto, não apenas o assentimento a todo o evangelho de Cristo, mas também a plena confiança no sangue de Cristo; a confiança nos méritos de sua vida, morte e ressurreição; o repousar sobre ele como nossa expiação e nossa vida — dado por nós e vivendo em nós. É, em consequência, unir-se a ele e apegar-se a ele como nossa “sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Co 1.30) — numa palavra, nossa salvação.

II. Que salvação é essa que recebemos pela fé

1. Primeiro: o que quer que ela implique além disso, é uma salvação presente. É algo que pode ser alcançado — mais: que é de fato alcançado — ainda nesta terra, por aqueles que participam dessa fé. Pois assim diz o apóstolo aos crentes de Éfeso, e neles aos crentes de todos os tempos: não “vocês serão salvos” (embora isso também seja verdade), mas “vocês são salvos, por meio da fé”.

2. Vocês são salvos — para resumir tudo numa palavra — do pecado. Essa é a salvação que vem pela fé. Essa é a grande salvação anunciada pelo anjo antes que Deus trouxesse o seu Primogênito ao mundo: “Você lhe dará o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). E nem aqui nem em outra parte da Escritura há qualquer limitação ou restrição. Todo o seu povo — ou, como está dito em outro lugar, “todos os que nele creem” — ele salvará de todos os seus pecados: do pecado original e do atual, do passado e do presente, “da carne e do espírito”. Pela fé nele, são salvos tanto da culpa quanto do poder do pecado.

3. Primeiro, da culpa de todo pecado passado. O mundo inteiro é culpado diante de Deus — a tal ponto que, “se ele observasse as iniquidades, quem poderia subsistir?” (Sl 130.3). E “pela lei vem” apenas “o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20), não a libertação dele, de modo que “ninguém será justificado diante dele por obras da lei”. Mas agora “a justiça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo, se manifesta a todos os que creem”. Agora “são justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus apresentou como propiciação, pela fé, no seu sangue, para manifestar a sua justiça, por ter ele passado por alto os pecados anteriormente cometidos” (Rm 3.21–25). Agora Cristo removeu “a maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gl 3.13). Ele “cancelou o escrito de dívida que era contra nós, removendo-o inteiramente ao encravá-lo na cruz” (Cl 2.14). “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

4. E, salvos da culpa, são salvos também do medo. Não do temor filial de ofender a Deus, mas de todo medo servil: do medo que traz tormento, do medo do castigo, do medo da ira de Deus — a quem já não veem como um Senhor severo, mas como um Pai bondoso. “Vocês não receberam o espírito de escravidão, para viverem outra vez com medo, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.15–16). São salvos também do medo — embora não da possibilidade — de cair da graça de Deus e ficar aquém das grandes e preciosas promessas. Assim, têm “paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”, e “se gloriam na esperança da glória de Deus” (Rm 5.1–2). “E o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5). E por isso estão persuadidos — talvez não em todos os momentos, nem sempre com a mesma plenitude de convicção — de que “nem a morte, nem a vida, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separá-los do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38–39).

5. Além disso: por essa fé são salvos do poder do pecado, e não apenas da sua culpa. Assim declara o apóstolo: “Sabem que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado. Todo aquele que permanece nele não vive pecando” (1Jo 3.5–6). E ainda: “Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que comete pecado é do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois a semente de Deus permanece nele; e não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.7–9). E mais uma vez: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; mas o que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” (1Jo 5.18).

6. Aquele que, pela fé, é nascido de Deus não peca: (1) por nenhum pecado habitual, pois todo pecado habitual é pecado reinando, e o pecado não pode reinar em quem crê; (2) nem por nenhum pecado voluntário, pois sua vontade, enquanto ele permanece na fé, está firmemente posta contra todo pecado, e o abomina como veneno mortal; (3) nem por nenhum desejo pecaminoso, pois ele deseja continuamente a santa e perfeita vontade de Deus, e qualquer tendência a um desejo impuro ele sufoca, pela graça de Deus, assim que nasce; (4) nem peca por fraquezas, seja em ato, palavra ou pensamento, pois suas fraquezas não têm o consentimento da sua vontade — e, sem isso, não são propriamente pecados. Assim, “aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado”: embora não possa dizer que nunca pecou, agora ele não peca.

7. Esta, portanto, é a salvação que vem pela fé, ainda neste mundo: uma salvação do pecado e das consequências do pecado — ambas frequentemente expressas pela palavra justificação, que, tomada no sentido mais amplo, significa libertação da culpa e do castigo, pela expiação de Cristo efetivamente aplicada à alma do pecador que agora crê nele, e libertação do poder do pecado, por Cristo formado no coração. De modo que aquele que é assim justificado, ou salvo pela fé, é de fato nascido de novo. Nasceu de novo, do Espírito, para uma vida nova, que “está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3.3). E, como recém-nascido, recebe com alegria o “leite espiritual não falsificado, para que, por ele, cresça para a salvação” (1Pe 2.2), prosseguindo na força do Senhor seu Deus, de fé em fé, de graça em graça, até chegar “à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13).

III. Respondendo às objeções

1. A primeira objeção habitual é esta: pregar a salvação, ou a justificação, somente pela fé é pregar contra a santidade e as boas obras. A resposta curta seria: “Assim seria, se falássemos, como alguns, de uma fé separada das obras; mas falamos de uma fé que não é assim — uma fé que produz todas as boas obras e toda a santidade.”

2. Mas convém examinar a questão mais de perto, até porque não é objeção nova: é tão antiga quanto os dias de Paulo. Já então se perguntava: “Anulamos a lei pela fé?” (Rm 3.31). Respondemos: primeiro, todos os que não pregam a fé anulam manifestamente a lei — seja de modo direto e grosseiro, por limitações e interpretações que corroem todo o espírito do texto, seja indiretamente, por não apontarem o único meio pelo qual é possível cumpri-la. Nós, ao contrário, “confirmamos a lei”: mostrando sua plena extensão e seu sentido espiritual, e chamando a todos para aquele caminho vivo pelo qual “a justiça da lei se cumpre em nós” (Rm 8.4). Estes, enquanto confiam somente no sangue de Cristo, usam todas as ordenanças que ele instituiu, praticam todas as “boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10), e desfrutam e manifestam todos os temperamentos santos e celestiais — a mesma mente que houve em Cristo Jesus (Fp 2.5).

3. Mas pregar essa fé não conduz as pessoas ao orgulho? Respondo: acidentalmente, pode acontecer. Por isso todo crente deve ser seriamente advertido com as palavras do grande apóstolo: “Pela incredulidade, os ramos naturais foram quebrados; e você, pela fé, está firme. Não se orgulhe, mas tema. Pois, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você. Considere, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para com você, bondade — se nela permanecer; do contrário, também você será cortado” (Rm 11.20–22). E, enquanto nela permanece, o crente se lembra das palavras de Paulo, que previu e respondeu exatamente essa objeção: “Onde está, então, a vanglória? Foi excluída. Por que lei? Das obras? Não; pela lei da fé” (Rm 3.27). Se o homem fosse justificado pelas obras, teria de que se gloriar. Mas não há glória alguma para aquele “que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio” (Rm 4.5). No mesmo sentido vão as palavras que precedem e seguem o nosso texto: “Deus, sendo rico em misericórdia, estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça vocês são salvos! —, para mostrar, nos tempos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Pois pela graça vocês são salvos, por meio da fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Ef 2.4–8). De vocês não vem nem a fé nem a salvação: é dom de Deus — dom livre e imerecido: tanto a fé pela qual são salvos quanto a salvação que ele, por seu beneplácito, por puro favor, junta a ela. Que você creia é uma prova da sua graça; que, crendo, seja salvo, é outra. “Não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.9). Pois todas as nossas obras, toda a nossa justiça anterior à fé, não mereciam de Deus nada senão condenação — tão longe estavam de merecer a fé, a qual, portanto, sempre que é dada, não é dada por obras. Tampouco a salvação vem das obras que fazemos depois que cremos, pois então é Deus quem opera em nós; e o fato de que ele nos recompensa pelo que ele mesmo opera apenas exalta as riquezas da sua misericórdia — e não nos deixa nada de que nos gloriar.

4. “Mas será que falar assim da misericórdia de Deus — que salva ou justifica gratuitamente, somente pela fé — não encoraja as pessoas a pecar?” De fato, pode acontecer, e acontecerá: muitos “continuarão no pecado, para que a graça seja mais abundante” (Rm 6.1). Mas o sangue deles está sobre a sua própria cabeça. A bondade de Deus deveria conduzi-los ao arrependimento (Rm 2.4) — e assim conduzirá os que são sinceros de coração. Quando souberem que ainda há perdão com ele, clamarão em alta voz para que ele apague também os seus pecados, pela fé que há em Jesus. E, se clamarem com fervor e não desanimarem, se o buscarem em todos os meios que ele instituiu, se recusarem consolo até que ele venha — “ele virá, e não tardará” (Hb 10.37). E ele pode fazer muita obra em pouco tempo. São muitos, no livro de Atos, os exemplos de Deus operando essa fé no coração das pessoas com a rapidez de um relâmpago. Na mesma hora em que Paulo e Silas começaram a pregar, o carcereiro se arrependeu, creu e foi batizado (At 16.29–34); assim também os três mil, no dia de Pentecostes, que à primeira pregação de Pedro se arrependeram e creram (At 2.41). E — bendito seja Deus! — há hoje muitas provas vivas de que ele continua “poderoso para salvar” (Is 63.1).

5. À mesma verdade, vista por outro ângulo, opõe-se objeção contrária: “Se o homem não pode ser salvo por tudo o que é capaz de fazer, isso levará as pessoas ao desespero.” É verdade: ao desespero de serem salvas pelas próprias obras, pelos próprios méritos, pela própria justiça. E assim deve ser, pois ninguém pode confiar nos méritos de Cristo enquanto não tiver renunciado por completo aos seus. Quem “procura estabelecer a sua própria justiça” não pode receber a justiça de Deus (Rm 10.3). A justiça que vem da fé não pode ser dada a quem confia na que vem da lei.

6. “Mas essa”, dizem, “é uma doutrina desconfortável.” Quem falou assim foi o diabo — e falou como quem é, sem verdade e sem vergonha, ao ousar sugerir aos homens tal coisa. Ela é a única doutrina verdadeiramente confortadora; é “cheia de consolo” para todo pecador que se reconhece destruído e condenado por si mesmo. Que “todo aquele que nele crê não será confundido” (Rm 10.11); que “o mesmo Senhor de todos é rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12) — eis um consolo alto como o céu, mais forte que a morte! Como? Misericórdia para todos? Para Zaqueu, ladrão público? Para Maria Madalena? Parece-me ouvir alguém dizer: “Então eu, até mesmo eu, posso esperar misericórdia!” E pode, sim, você que está aflito e a quem ninguém consolou! Deus não rejeitará a sua oração. Talvez já na próxima hora ele diga: “Tenha bom ânimo; os seus pecados estão perdoados” (Mt 9.2) — perdoados de tal modo que não reinarão mais sobre você; e “o Espírito Santo testemunhará com o seu espírito que você é filho de Deus” (Rm 8.16). Ó boas-novas! Novas de grande alegria, enviadas a todos os povos! “Vocês, todos os que têm sede, venham às águas; venham, comprem sem dinheiro e sem preço” (Is 55.1). Sejam quais forem os seus pecados, “ainda que vermelhos como o carmesim” (Is 1.18), ainda que mais numerosos que os cabelos da sua cabeça, “volte-se para o Senhor, que se compadecerá dele, e para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” (Is 55.7).

7. Quando já não restam objeções, dizem-nos simplesmente que a salvação somente pela fé não deve ser pregada como primeira doutrina — ou, ao menos, não deve ser pregada a todos. Mas o que diz o Espírito Santo? “Ninguém pode lançar outro fundamento além do que já foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). Portanto, que “todo aquele que nele crê será salvo” é — e tem de ser — o fundamento de toda a nossa pregação; isto é, deve ser pregado em primeiro lugar. “Está bem; mas não a todos.” A quem, então, não devemos pregá-la? Quem ficaria de fora? Os pobres? Não; eles têm um direito especial de que o evangelho lhes seja pregado (Mt 11.5). Os sem instrução? Não. Desde o princípio, Deus revelou essas coisas a gente simples e iletrada. Os jovens? De modo algum. “Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam” (Mc 10.14). Os pecadores? Menos ainda. Ele “veio chamar não justos, e sim pecadores ao arrependimento” (Lc 5.32). Se houvéssemos de excluir alguém, seriam antes os ricos, os instruídos, os respeitáveis, os moralistas — e é verdade que eles com frequência se excluem a si mesmos de ouvir. Contudo, devemos falar as palavras do nosso Senhor, pois é este o teor da nossa comissão: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Se alguém torcer essa palavra, ou parte dela, para a própria destruição, levará sobre si o seu fardo. Mas, “tão certo como vive o Senhor, o que o Senhor nos disser, isso falaremos”.

8. Neste tempo, mais do que nunca, proclamaremos que “pela graça vocês são salvos, por meio da fé” — porque nunca foi tão oportuno sustentar essa doutrina como hoje. Nada senão ela pode deter eficazmente o avanço do erro romano entre nós. Seria interminável atacar, um por um, todos os equívocos daquela igreja; mas a salvação pela fé fere a raiz, e, onde ela se estabelece, todos caem de uma vez. Foi essa doutrina — que a nossa Igreja com justiça chama de rocha firme e fundamento da religião cristã — que primeiro expulsou o papado destes reinos, e só ela pode mantê-lo fora. Nada senão ela pode frear a imoralidade que “alagou a terra como uma inundação”. Você conseguiria esvaziar o oceano gota a gota? Pois é o que se tenta ao reformar as pessoas dissuadindo-as de vícios particulares. Mas traga-se a “justiça que vem de Deus, pela fé”, e as suas ondas soberbas se deterão. Nada senão ela pode calar a boca dos que “se gloriam na sua vergonha e abertamente negam o Senhor que os resgatou” (2Pe 2.1). Eles sabem falar da lei tão sublimemente quanto quem a tem escrita por Deus no coração; ouvindo-os discorrer sobre esse ponto, alguém poderia julgá-los não longe do Reino de Deus. Mas tire-os da lei e leve-os ao evangelho; comece com a justiça da fé, com Cristo, “o fim da lei para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4) — e aqueles que há pouco pareciam quase cristãos, se não inteiramente, revelam-se filhos da perdição, tão longe da vida e da salvação (Deus tenha misericórdia deles!) quanto o abismo do inferno dista da altura do céu.

9. Por essa razão o adversário se enfurece sempre que a “salvação pela fé” é anunciada ao mundo; por essa razão levantou terra e inferno para destruir os que primeiro a pregaram; e, pela mesma razão — sabendo que somente a fé poderia derrubar os fundamentos do seu reino —, convocou todas as suas forças e empregou todas as suas artes de mentira e calúnia para amedrontar Martinho Lutero e impedi-lo de restaurá-la. Nem devemos nos admirar disso, pois, como observa aquele homem de Deus: “Como não se enfureceria um valente orgulhoso e armado ao ser detido e derrotado por um menino que vem contra ele com um caniço na mão?” — sobretudo sabendo que aquele menino certamente o derrubaria e o pisaria sob os pés. Assim seja, Senhor Jesus! Assim a tua força sempre se “aperfeiçoou na fraqueza” (2Co 12.9)! Vá, então, você, criança que crê nele, e a sua “destra lhe ensinará coisas tremendas” (Sl 45.4)! Ainda que você seja fraco e desamparado como um recém-nascido, o valente não poderá resistir-lhe. Você prevalecerá sobre ele, e o subjugará, e o derrubará, e o pisará debaixo dos pés. Você marchará sob o grande Capitão da sua salvação, “vencendo e para vencer” (Ap 6.2), até que todos os seus inimigos sejam destruídos e “a morte seja tragada pela vitória” (1Co 15.54).

Agora, “graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 15.57) — a quem, com o Pai e o Espírito Santo, sejam o louvor e a glória, a sabedoria e as ações de graças, a honra, o poder e a força, para todo o sempre. Amém.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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