SERMÃO 3

Desperta, tu que dormes

Pregado diante da Universidade de Oxford, em 4 de abril de 1742, pelo Rev. Charles Wesley.

Ef 5.14, NAA ⏱ 24 min de leituraNovo nascimento e adoçãoPecado e arrependimento

“Desperte, você que dorme, levante-se dentre os mortos, e Cristo lhe dará luz.”

(Ef 5.14, NAA)

Antes de ler

Este sermão tem uma particularidade: foi pregado por Charles Wesley, irmão de John, mas John o incluiu na coleção oficial por considerá-lo expressão fiel da mensagem metodista — e é fácil entender por quê. É talvez o mais vibrante apelo evangelístico de toda a série: o pecador retratado como alguém que dorme à beira do abismo, e o evangelho como a voz que desperta os mortos. Note a estrutura em três movimentos: quem são os que dormem, o chamado a despertar e a promessa da luz.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Ao discorrer sobre essas palavras, com a ajuda de Deus, vou:

Primeiro: descrever os que dormem, a quem elas são dirigidas;

Segundo: reforçar a exortação: “Desperte, você que dorme, levante-se dentre os mortos”;

Terceiro: explicar a promessa feita aos que despertam e se levantam: “Cristo lhe dará luz”.

I. Os que dormem

1. Primeiro, quanto aos que dormem, a quem estas palavras se dirigem. Por “sono” entende-se aqui o estado natural do homem: aquele sono profundo da alma no qual o pecado de Adão lançou todos os que descendem dele; aquela apatia, indolência e torpor, aquela insensibilidade quanto à própria condição real, com que todo ser humano vem ao mundo — e na qual permanece até que a voz de Deus o desperte.

2. Ora, “os que dormem, dormem de noite” (1Ts 5.7). O estado natural é um estado de total escuridão, um estado em que “as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos” (Is 60.2). O pobre pecador não despertado, por mais conhecimento que tenha de outras coisas, não tem conhecimento algum de si mesmo: nesse ponto, “nada sabe ainda como convém saber” (1Co 8.2). Não sabe que é um espírito caído, cuja única tarefa neste mundo é recuperar-se da queda, reaver a imagem de Deus na qual foi criado. Não vê necessidade alguma da única coisa necessária: aquela mudança interior e total, aquele “nascer do alto” — figurado no batismo — que é o começo da renovação completa, da santificação do espírito, da alma e do corpo, “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

3. Cheio de todas as doenças como está, ele se imagina em perfeita saúde. Amarrado na miséria e em ferros, sonha que está livre. Diz “Paz! Paz!”, enquanto o diabo, como “valente armado” (Lc 11.21), tem plena posse da sua alma. Ele continua dormindo e descansando, embora o inferno lá embaixo se alvoroce para recebê-lo; embora o abismo do qual não há retorno tenha aberto a boca para tragá-lo. Um fogo se acende ao seu redor, e ele não percebe; sim, o fogo já o queima, e ele não toma isso a peito (Is 42.25).

4. Por “aquele que dorme” devemos, portanto, entender — e quem dera todos entendêssemos! — o pecador satisfeito nos seus pecados; contente em permanecer no estado caído, em viver e morrer sem a imagem de Deus; ignorante tanto da sua doença quanto do único remédio para ela; alguém que nunca foi advertido — ou nunca deu ouvidos à voz de Deus que adverte — a “fugir da ira que está para vir” (Mt 3.7); alguém que ainda não viu que está em perigo do fogo do inferno, nem clamou na aflição da sua alma: “Que devo fazer para ser salvo?” (At 16.30).

5. Se esse dorminhoco não é exteriormente vicioso, seu sono costuma ser o mais profundo de todos — seja ele do espírito de Laodiceia, “nem frio nem quente” (Ap 3.16), um professor tranquilo, racional, inofensivo e afável da religião dos seus pais; seja ele zeloso e ortodoxo, vivendo “como fariseu, conforme a seita mais rigorosa da nossa religião” (At 26.5) — isto é, segundo o retrato bíblico, alguém que justifica a si mesmo, que se esforça por estabelecer a própria justiça como fundamento da sua aceitação diante de Deus.

6. É este aquele que, “tendo forma de piedade, nega o seu poder” (2Tm 3.5) — e provavelmente ainda a insulta, onde quer que a encontre, como pura extravagância e ilusão. Enquanto isso, o infeliz enganador de si mesmo agradece a Deus por não ser “como os demais homens: roubadores, injustos, adúlteros” (Lc 18.11). Não: ele não faz mal a ninguém; “jejua duas vezes por semana”, usa todos os meios de graça, é assíduo à igreja e à ceia, e “dá o dízimo de tudo quanto ganha”. Faz todo o bem que pode. “Quanto à justiça que há na lei”, é “irrepreensível” (Fp 3.6). Não lhe falta nada da piedade — exceto o poder; nada da religião — exceto o espírito; nada do cristianismo — exceto a verdade e a vida.

7. Mas vocês não sabem que um “cristão” assim, por mais estimado que seja entre os homens, é abominação diante de Deus, e herdeiro de todos os ais que o Filho de Deus — ontem, hoje e para sempre — pronuncia contra “escribas e fariseus, hipócritas”? Ele “limpou o exterior do copo e do prato”, mas por dentro está cheio de toda imundícia (Mt 23.25). “Uma doença maligna se apega a ele”, e as suas entranhas são pura perversidade (Sl 41.8). O Senhor o compara, com justeza, a um “sepulcro caiado”, que “por fora parece bonito, mas por dentro está cheio de ossos de mortos e de toda imundícia” (Mt 23.27). Os ossos, é verdade, já não estão secos; os tendões e a carne vieram sobre eles, e a pele os cobre por cima — mas não há fôlego neles, não há o Espírito do Deus vivo (Ez 37.8). E, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele” (Rm 8.9). “Vocês são de Cristo, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês”; se não, saibam que permanecem na morte até agora.

8. Esta é outra marca do dorminhoco a quem falamos: ele permanece na morte, embora não o saiba. Está morto para Deus, “morto nos delitos e pecados” (Ef 2.1). Pois “o pendor da carne dá para a morte” (Rm 8.6). Como está escrito: “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte; assim, a morte passou a todos os homens” (Rm 5.12) — não apenas a morte temporal, mas também a espiritual e a eterna. “No dia em que dela comer”, disse Deus a Adão, “certamente você morrerá” (Gn 2.17) — não de morte corporal (a não ser por tornar-se então mortal), mas espiritual: você perderá a vida da sua alma, morrerá para Deus, será separado dele, sua vida essencial e sua felicidade.

9. Assim se dissolveu, primeiro, a união vital da nossa alma com Deus — de tal modo que, “em meio à vida” natural, estamos agora na morte espiritual. E nela permanecemos até que o segundo Adão se torne para nós espírito vivificante (1Co 15.45); até que ele ressuscite os mortos — os mortos no pecado, nos prazeres, nas riquezas ou nas honras. Mas, antes que qualquer alma morta possa viver, ela “ouve” (dá ouvidos a) “a voz do Filho de Deus” (Jo 5.25): torna-se consciente do seu estado perdido e recebe em si mesma a sentença de morte. Reconhece que está “morta enquanto vive” (1Tm 5.6); morta para Deus e para todas as coisas de Deus; sem mais poder para praticar as ações de um cristão vivo do que um cadáver para exercer as funções de um homem vivo.

10. E é certíssimo que alguém morto no pecado não tem “as faculdades exercitadas para discernir o bem e o mal espirituais” (Hb 5.14). “Tendo olhos, não vê; tendo ouvidos, não ouve” (Mc 8.18). Ele não “prova, nem vê que o Senhor é bom” (Sl 34.8). “Jamais viu a Deus”, nem “ouviu a sua voz”, nem “apalpou a palavra da vida” (1Jo 1.1). Em vão o nome de Jesus é “como unguento derramado”, e todas as suas vestes “cheiram a mirra, aloés e cássia” (Ct 1.3; Sl 45.8): a alma que dorme na morte não tem percepção alguma de coisas dessa ordem. Seu coração “perdeu toda a sensibilidade” (Ef 4.19) e não entende nada disso.

11. Por isso — não tendo sentidos espirituais, nenhuma porta de entrada para o conhecimento espiritual —, “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus”; mais que não aceitar: tudo o que “se discerne espiritualmente” é para ele “loucura” (1Co 2.14). Ele não se contenta em ignorar por completo as coisas espirituais: nega a própria existência delas. E a própria sensibilidade espiritual é, para ele, o cúmulo da insensatez. “Como”, pergunta, “pode ser isso? Como pode alguém saber que está vivo para Deus?” Da mesma forma que você sabe que o seu corpo está vivo agora. A fé é a vida da alma; e, se você tem essa vida habitando em você, não precisa de outras provas para atestá-la a si mesmo, além daquela consciência divina, aquele testemunho de Deus, que é maior do que dez mil testemunhas humanas.

12. Se ele ainda não testemunha com o seu espírito que você é filho de Deus (Rm 8.16), oh, que ele o convença, pobre pecador adormecido, por sua demonstração e poder, de que você é filho do diabo! Oh, que haja agora, como profetizo, “um ruído e um estremecimento, e que os ossos se juntem, cada osso ao seu osso”! Então, “vem dos quatro ventos, ó Espírito, e sopra sobre estes mortos, para que vivam!” (Ez 37.7–9). E vocês, não endureçam o coração, nem resistam ao Espírito Santo, que neste momento vem convencê-los do pecado, “porque não creem no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 16.8–9; 3.18).

II. O chamado: desperte e levante-se

1. Portanto, “desperte, você que dorme, e levante-se dentre os mortos”. Deus o chama agora pela minha boca e manda que você conheça a si mesmo, espírito caído — o seu verdadeiro estado e a sua única tarefa aqui embaixo. “Que é isso, dorminhoco? Levante-se e clame ao seu Deus, para que talvez ele se lembre de você, e você não pereça” (Jn 1.6). Uma tempestade violenta se agita ao seu redor, e você está afundando nas profundezas da perdição, no abismo dos juízos de Deus. Se quiser escapar deles, lance-se neles. “Julgue a si mesmo, e você não será julgado pelo Senhor” (1Co 11.31).

2. Desperte, desperte! Levante-se agora, para não beber “da mão do Senhor o cálice do seu furor” (Is 51.17). Anime-se e apegue-se ao Senhor — o Senhor, Justiça sua, poderoso para salvar! “Sacuda de você o pó” (Is 52.2). Que ao menos o terremoto das ameaças de Deus o sacuda! Desperte e clame, como o carcereiro tremendo: “Que devo fazer para ser salvo?” (At 16.30). E não descanse enquanto não crer no Senhor Jesus, com uma fé que é dom dele, pela operação do seu Espírito.

3. Se falo a algum de vocês mais do que aos outros, é a você, que se julga alheio a esta exortação. “Tenho uma mensagem de Deus para você” (Jz 3.20). Em nome dele, eu o advirto: “fuja da ira que está para vir”. Alma sem santidade, veja o seu retrato em Pedro condenado: deitado no cárcere escuro, entre os soldados, preso com duas correntes, com os guardas diante da porta vigiando a prisão (At 12.6). A noite vai avançada; a manhã se aproxima — a manhã em que você será levado à execução. E, nessas circunstâncias pavorosas, você dorme profundamente; dorme nos braços do diabo, à beira do abismo, nas mandíbulas da destruição eterna!

4. Oh, que o Anjo do Senhor venha sobre você, e a luz brilhe na sua prisão! E que você sinta o toque da mão do Todo-Poderoso levantando-o, com as palavras: “Levante-se depressa, cinja-se, calce as sandálias, ponha a capa e siga-me” (At 12.7–8).

5. Desperte, espírito imortal, do seu sonho de felicidade mundana! Não foi para si mesmo que Deus o criou? Então você não pode descansar enquanto não descansar nele. Volte, peregrino errante! Voe de volta à sua arca. Este mundo não é o seu lar. Não pense em armar tendas aqui. Você é apenas estrangeiro e peregrino na terra, criatura de um dia, prestes a lançar-se num estado imutável. Apresse-se: a eternidade está às portas. A eternidade depende deste momento — uma eternidade de felicidade ou uma eternidade de miséria!

6. Em que estado se encontra a sua alma? Se Deus, enquanto ainda falo, a exigisse de você, você está pronto para encontrar a morte e o juízo? Pode ficar em pé diante daquele cujos olhos são “tão puros que não podem ver o mal” (Hc 1.13)? Você está “apto a participar da herança dos santos na luz” (Cl 1.12)? “Combateu o bom combate e guardou a fé” (2Tm 4.7)? Assegurou a única coisa necessária? Recuperou a imagem de Deus — a justiça e a verdadeira santidade? Despiu-se do velho homem e revestiu-se do novo (Ef 4.22–24)? Está revestido de Cristo (Gl 3.27)?

7. Você tem azeite na sua lâmpada — graça no coração? Você “ama o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força” (Mc 12.30)? Há em você aquela mente que houve também em Cristo Jesus (Fp 2.5)? Você é cristão de verdade — isto é, uma nova criatura? As coisas antigas já passaram, e tudo se fez novo (2Co 5.17)?

8. Você é “participante da natureza divina” (2Pe 1.4)? Não sabe que “Cristo está em você, a menos que você seja reprovado” (2Co 13.5)? Sabe que Deus “habita em você, e você nele, pelo Espírito que ele lhe deu” (1Jo 4.13)? Não sabe que “o seu corpo é templo do Espírito Santo, que está em você e que recebeu de Deus” (1Co 6.19)? Você tem o testemunho em si mesmo — o penhor da sua herança (Ef 1.14)? Você “recebeu o Espírito Santo”? Ou se assusta com a pergunta, sem saber “se existe Espírito Santo” (At 19.2)?

9. Se a pergunta o ofende, esteja certo: você não é cristão, nem deseja sê-lo. Mais: a sua própria oração se converteu em pecado, e você zombou solenemente de Deus hoje mesmo, ao pedir a inspiração do seu Santo Espírito sem crer que existisse tal coisa a receber.

10. Contudo, sobre a autoridade da Palavra de Deus e da nossa própria Igreja, devo repetir a pergunta: “Você recebeu o Espírito Santo?” Se não recebeu, ainda não é cristão. Pois cristão é o homem “ungido com o Espírito Santo e com poder” (At 10.38). Você ainda não participa da religião pura e sem mácula. Sabe você o que é religião? É a participação na natureza divina; a vida de Deus na alma do homem; “Cristo formado no coração” (Gl 4.19); “Cristo em vocês, a esperança da glória” (Cl 1.27); felicidade e santidade; o céu começado na terra; “o Reino de Deus dentro de vocês” (Lc 17.21) — “não comida nem bebida”, coisa alguma exterior, “mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17); um reino eterno instaurado na sua alma; a “paz de Deus, que excede todo o entendimento” (Fp 4.7); uma “alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8).

11. Sabe você que, “em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6) — a nova criação? Você vê a necessidade daquela mudança interior, daquele nascimento espiritual, daquela vida dentre os mortos, daquela santidade? E está inteiramente convencido de que, sem ela, ninguém verá o Senhor? Você trabalha por alcançá-la — “procurando, com diligência cada vez maior, confirmar a sua vocação e eleição” (2Pe 1.10), “desenvolvendo a sua salvação com temor e tremor” (Fp 2.12), “esforçando-se por entrar pela porta estreita” (Lc 13.24)? Você leva a sério a sua alma? E pode dizer ao Sondador dos corações: “Tu, ó Deus, és aquilo por que anseio! Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu quero te amar!”?

12. Você espera ser salvo — mas que razão tem para essa esperança? Será porque não fez mal a ninguém? Ou porque fez muito bem? Ou porque não é como os outros homens, mas sábio, ou instruído, ou honesto e moralmente bom, estimado pelas pessoas e de boa reputação? Ai de nós! Nada disso o levará a Deus. Aos olhos dele, tudo isso pesa menos que a vaidade. Você conhece Jesus Cristo, a quem ele enviou (Jo 17.3)? Ele já lhe ensinou que “pela graça somos salvos, por meio da fé; e isto não vem de nós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8–9)? Você recebeu a palavra fiel como o único fundamento da sua esperança: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15)? Você aprendeu o que significa “não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento” e “não fui enviado senão às ovelhas perdidas” (Mt 9.13; 15.24)? Você está — quem tem ouvidos, ouça! — perdido, morto, já condenado? Conhece o que merece? Sente a sua carência? É “pobre em espírito”, chorando por Deus e recusando consolo? O filho pródigo já “caiu em si” (Lc 15.17) — e aceita de bom grado ser tido por “fora de si” pelos que ainda se alimentam das alfarrobas que ele deixou? Você está disposto a viver piedosamente em Cristo Jesus? E sofre, por isso, perseguição (2Tm 3.12)? Dizem os homens todo tipo de mal contra você, mentindo, por causa do Filho do Homem (Mt 5.11)?

13. Oh, que em todas essas perguntas vocês ouçam a voz que desperta os mortos, e sintam o martelo da Palavra, que “esmiúça a rocha” (Jr 23.29)! “Hoje, se vocês ouvirem a sua voz, não endureçam o coração” (Hb 3.15). Agora, “desperte, você que dorme” na morte espiritual — para que não durma na morte eterna! Sinta o seu estado perdido e “levante-se dentre os mortos”. Deixe os seus velhos companheiros de pecado e de morte. Siga Jesus, e “deixe que os mortos sepultem os seus mortos” (Mt 8.22). “Salve-se desta geração perversa” (At 2.40). “Saia do meio deles, separe-se, não toque em coisa impura; e o Senhor o receberá” (2Co 6.17). “E Cristo lhe dará luz.”

III. A promessa: Cristo lhe dará luz

1. Resta-me, por último, explicar essa promessa. E que consideração encorajadora: quem quer que você seja, se obedecer ao chamado dele, não buscará a sua face em vão! Se agora mesmo você “despertar e se levantar dentre os mortos”, ele se comprometeu a “dar-lhe luz”. “O Senhor dará graça e glória” (Sl 84.11): a luz da sua graça aqui, e a luz da sua glória quando você receber a coroa que não murcha. “A sua luz romperá como a alvorada”, e as suas trevas serão como o meio-dia (Is 58.8, 10). “Deus, que disse: das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandecerá no seu coração, para iluminá-lo com o conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo” (2Co 4.6). Sobre os que temem ao Senhor “nascerá o Sol da Justiça, trazendo cura nas suas asas” (Ml 4.2). E naquele dia lhe será dito: “Levante-se, resplandeça, porque chegou a sua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre você” (Is 60.1). Pois Cristo se revelará em você — e ele é a Luz verdadeira.

2. Deus é luz, e se dará a todo pecador desperto que o espera. Você será então templo do Deus vivo; Cristo “habitará no seu coração, pela fé”; e, “arraigado e alicerçado em amor”, você poderá “compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” daquele amor de Cristo “que excede todo entendimento” (Ef 3.17–19).

3. Vejam, irmãos, a vocação de vocês. Somos chamados a ser “morada de Deus no Espírito” (Ef 2.22) e, pelo seu Espírito que habita em nós, a ser santos aqui e participantes da herança dos santos na luz. Tão extraordinárias são as promessas que nos foram dadas — dadas de fato a nós, que cremos! Pois pela fé “recebemos, não o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus” — a soma de todas as promessas — “para conhecermos o que Deus gratuitamente nos deu” (1Co 2.12).

4. O Espírito de Cristo é o grande dom de Deus que, em diversos tempos e de muitas maneiras, ele prometeu ao homem, e que concedeu plenamente desde que Cristo foi glorificado. Aquelas promessas feitas outrora aos pais, ele assim as cumpriu: “Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos” (Ez 36.27). “Derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a sua descendência e a minha bênção sobre a sua posteridade” (Is 44.3).

5. Todos vocês podem ser testemunhas vivas dessas coisas: da remissão dos pecados e do dom do Espírito Santo. “Se você pode crer, tudo é possível ao que crê” (Mc 9.23). “Quem há entre vocês que tema ao Senhor” e, contudo, ande “em trevas, sem nenhuma luz?” (Is 50.10). Eu lhe pergunto, em nome de Jesus: você crê que “o braço dele não está encolhido” (Is 59.1), que ele ainda é poderoso para salvar? Que ele é “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8)? Que ele tem, agora, poder na terra para perdoar pecados? “Filho, tenha bom ânimo; os seus pecados estão perdoados” (Mt 9.2). Deus, por amor de Cristo, perdoou você. Receba isto “não como palavra de homens, mas como, de fato, é: a palavra de Deus” (1Ts 2.13) — e você está justificado gratuitamente, pela fé. Será também santificado pela fé que há em Jesus, e porá o seu selo — sim, o seu — nisto: “Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho” (1Jo 5.11).

6. Homens e irmãos, permitam-me falar livremente e suportem esta palavra de exortação, ainda que venha de um dos menos estimados na Igreja. A consciência de vocês dá testemunho no Espírito Santo de que essas coisas são assim — se é que vocês já provaram que o Senhor é bom. “Esta é a vida eterna: que conheçam o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Esse conhecimento experimental — e somente ele — é o verdadeiro cristianismo. Cristão é quem recebeu o Espírito de Cristo; não é cristão quem não o recebeu. E não é possível tê-lo recebido sem o saber. “Naquele dia” — quando ele vier, diz o Senhor — “vocês saberão que estou no meu Pai, e vocês em mim, e eu em vocês” (Jo 14.20). Este é o “Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês” (Jo 14.17).

7. O mundo não pode recebê-lo: rejeita por completo a Promessa do Pai, contradizendo e blasfemando. Mas todo espírito que não confessa isso não é de Deus. Sim, “este é o espírito do anticristo, a respeito do qual vocês ouviram que viria; e, agora, já está no mundo” (1Jo 4.3). É anticristo todo aquele que nega a inspiração do Espírito Santo, ou que a habitação do Espírito de Deus é o privilégio comum de todos os crentes, a bênção do evangelho, o dom inefável, a promessa universal, o critério do verdadeiro cristão.

8. De nada lhes vale dizer: “Não negamos a assistência do Espírito de Deus; negamos apenas essa inspiração, esse ‘receber o Espírito Santo’ e ter consciência disso. É só esse sentir o Espírito, esse ser movido ou cheio do Espírito, que negamos ter lugar na religião sadia.” Mas, negando somente isso, vocês negam toda a Escritura, toda a verdade, toda a promessa e todo o testemunho de Deus.

9. A nossa própria e excelente Igreja não conhece essa distinção diabólica: fala claramente de “sentir o Espírito de Cristo”; de ser “movido pelo Espírito Santo”; de conhecer e “sentir que não há outro nome, senão o de Jesus”, pelo qual possamos receber vida e salvação. Ela nos ensina a orar pela “inspiração do Santo Espírito”, e mais: para que sejamos “cheios do Espírito Santo”. E cada um dos seus presbíteros professa receber o Espírito Santo pela imposição de mãos. Negar qualquer dessas coisas é, na prática, renunciar tanto à Igreja da Inglaterra quanto a toda a revelação cristã.

10. Mas “a sabedoria de Deus” sempre foi “loucura para os homens” (1Co 1.23–25). Não admira, portanto, que o grande mistério do evangelho esteja, também agora, “oculto aos sábios e entendidos” (Mt 11.25), como nos dias antigos; que seja quase universalmente negado, ridicularizado e desprezado como pura loucura; e que todos os que ainda ousam confessá-lo sejam marcados como fanáticos e exaltados. Esta é aquela “apostasia” que haveria de vir (2Ts 2.3) — a deserção geral de homens de todas as ordens e classes, que já agora encontramos espalhada pela terra. “Corram pelas ruas de Jerusalém e vejam se acham um homem” (Jr 5.1) — um homem que ame o Senhor seu Deus de todo o coração e o sirva com todas as forças. Como a nossa própria terra pranteia (para não olharmos mais longe) sob a inundação da impiedade! Que vilanias de toda espécie se cometem dia após dia — e muitas vezes impunemente, entre os que pecam descaradamente e “se gloriam na sua vergonha” (Fp 3.19)! Quem poderá contar os juramentos, as maldições, as profanações, as blasfêmias; as mentiras, as calúnias, as maledicências; a profanação do dia do Senhor, a glutonaria, a embriaguez, a vingança; as prostituições, os adultérios e imundícias de todo tipo; as fraudes, injustiças, opressões e extorsões que alagam a nossa terra como uma inundação?

11. E, mesmo entre os que se conservam puros dessas abominações mais grosseiras, quanta ira e orgulho, quanta preguiça e ociosidade, quanta moleza e afeminação, quanto luxo e autoindulgência, quanta cobiça e ambição, quanta sede de elogio, quanto amor ao mundo, quanto temor dos homens se encontram! E, enquanto isso, quão pouco da verdadeira religião! Pois onde está quem ame a Deus, ou ao próximo, como ele nos ordenou? De um lado estão os que não têm nem sequer a forma de piedade; do outro, os que têm apenas a forma. Ali está o sepulcro aberto; aqui, o sepulcro pintado. De modo que, na verdade, quem observasse com atenção qualquer ajuntamento público do povo (temo que nem os das nossas igrejas sejam exceção) facilmente perceberia que uma parte são saduceus e a outra, fariseus: uns com tão pouco interesse pela religião como se não houvesse “ressurreição, nem anjo, nem espírito” (At 23.8); outros fazendo dela uma forma sem vida, uma rotina entediante de práticas exteriores, sem a verdadeira fé, sem o amor de Deus, sem a alegria no Espírito Santo!

12. Quem dera eu pudesse excetuar-nos, os deste lugar! “Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha oração a Deus a favor de vocês são para que sejam salvos” (Rm 10.1) desta inundação de impiedade — e que aqui as suas ondas soberbas se detenham! Mas é assim, de fato? Deus sabe — e as nossas consciências também — que não. Nós não nos conservamos puros. Também nós estamos corrompidos e somos abomináveis; e poucos há que entendam; poucos que adorem a Deus em espírito e em verdade. Também nós somos “uma geração que não firmou o coração, e cujo espírito não permaneceu fiel a Deus” (Sl 78.8). Ele nos designou, é verdade, para sermos “o sal da terra; mas, se o sal perder o sabor, para nada mais presta senão para ser lançado fora e pisado pelos homens” (Mt 5.13).

13. “Não hei de castigar essas coisas?, diz o Senhor. Não hei de vingar-me de uma nação como esta?” (Jr 5.9). Não sabemos quão cedo ele poderá dizer à espada: “Espada, percorre esta terra!” Ele nos deu longo prazo para o arrependimento; deixa-nos em paz também este ano. Mas nos adverte e desperta com trovões. Os seus juízos já andam pela terra, e temos toda razão para esperar o mais pesado de todos: que ele “venha depressa a nós e remova o nosso candelabro do seu lugar, se não nos arrependermos e praticarmos as primeiras obras” (Ap 2.5) — se não voltarmos aos princípios da Reforma, à verdade e à simplicidade do evangelho. Talvez estejamos agora resistindo ao último esforço da graça divina para nos salvar. Talvez tenhamos quase “enchido a medida das nossas iniquidades”, rejeitando o conselho de Deus contra nós mesmos e expulsando os seus mensageiros.

14. Ó Deus, “na tua ira, lembra-te da misericórdia!” (Hc 3.2). Sê glorificado na nossa reforma, e não na nossa destruição! Que ouçamos “a vara e aquele que a designou” (Mq 6.9)! Agora que os teus “juízos andam pela terra”, que os moradores do mundo “aprendam justiça” (Is 26.9)!

15. Meus irmãos, já é hora de despertarmos do sono, antes que “a grande trombeta do Senhor seja tocada” (Is 27.13) e a nossa terra se torne um campo de sangue. Oh, que depressa vejamos as coisas que pertencem à nossa paz, antes que fiquem encobertas aos nossos olhos! “Converte-nos, ó bom Senhor, e afasta de nós a tua ira. Ó Senhor, olha lá do céu, vê e visita esta vinha” (Sl 80.14); e faze-nos conhecer “o tempo da nossa visitação” (Lc 19.44). “Ajuda-nos, ó Deus da nossa salvação, pela glória do teu nome! Livra-nos e perdoa os nossos pecados, por amor do teu nome! E assim não nos apartaremos de ti. Vivifica-nos, e invocaremos o teu nome. Restaura-nos, ó Senhor, Deus dos Exércitos! Faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 79.9; 80.18–19).

“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef 3.20–21).

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os sermões