SERMÃO 8

Os primeiros frutos do Espírito

A vida sem condenação daqueles que estão em Cristo Jesus.

Rm 8.1, NAA ⏱ 22 min de leituraEspírito Santo e certeza

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”

(Rm 8.1, NAA)

Antes de ler

O cristão verdadeiro ainda percebe fraquezas, limitações e tendências pecaminosas dentro de si. Isso significa que ele continua condenado diante de Deus? Como distinguir uma tentação, uma falha involuntária e um pecado praticado deliberadamente?

Neste sermão, Wesley oferece uma resposta pastoral e profundamente equilibrada. Quem está em Cristo foi perdoado, recebeu o Espírito Santo e já não vive sob o domínio do pecado. Embora ainda esteja caminhando para a plena santificação, não precisa viver atormentado pela culpa, pelo medo ou pela insegurança.

A ausência de condenação, porém, não é uma licença para pecar. Ela pertence àqueles que permanecem em Cristo e caminham segundo o Espírito. A graça que perdoa é também a graça que transforma, fortalece e conduz à santidade.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Por aqueles que estão “em Cristo Jesus”, Paulo evidentemente se refere aos que verdadeiramente creem nele; aqueles que, “justificados pela fé”, têm “paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).

Os que creem dessa maneira já não vivem segundo a carne. Já não seguem os impulsos da natureza humana corrompida, mas caminham segundo o Espírito. Seus pensamentos, suas palavras e suas ações passam a estar sob a direção do bendito Espírito de Deus.

2. Para essas pessoas, “já nenhuma condenação há”.

Deus não as condena, porque as justificou gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Jesus Cristo. Ele perdoou todas as suas iniquidades e apagou todos os seus pecados.

Também não existe condenação dentro delas, porque receberam não o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecerem as coisas que Deus lhes concedeu gratuitamente (1Co 2.12).

Esse mesmo Espírito testemunha com o espírito delas que são filhos de Deus (Rm 8.16).

A esse testemunho acrescenta-se o testemunho da própria consciência: elas sabem que têm vivido no mundo com simplicidade e sinceridade diante de Deus, não segundo a sabedoria humana, mas segundo a graça divina (2Co 1.12).

3. Entretanto, essa passagem tem sido frequentemente mal compreendida, e de uma maneira muito perigosa. Muitas pessoas sem instrução espiritual e sem firmeza na verdade distorceram esse texto para a própria destruição.

Por isso, procurarei mostrar com toda a clareza possível:

I. Quem são aqueles que estão “em Cristo Jesus” e não vivem segundo a carne, mas segundo o Espírito.

II. Em que sentido já não existe condenação para essas pessoas.

Ao final, apresentarei algumas conclusões práticas.

I. Quem são os que estão em Cristo Jesus

1. Primeiramente, devemos identificar quem são aqueles que estão “em Cristo Jesus”.

Não são aqueles que creem em seu nome? Não são aqueles que são encontrados nele, não possuindo uma justiça própria, mas a justiça que vem de Deus mediante a fé?

Aqueles que têm redenção por meio do sangue de Cristo podem ser corretamente descritos como pessoas que estão nele, pois permanecem em Cristo e Cristo permanece nelas.

Elas estão unidas ao Senhor em um só Espírito. Foram enxertadas nele como os ramos são enxertados na videira. Estão unidas a Cristo como os membros estão unidos à cabeça.

Trata-se de uma união tão profunda que as palavras humanas não conseguem explicá-la plenamente. Antes de experimentá-la, ninguém seria capaz de imaginar o que ela significa.

2. Aquele que permanece em Cristo não vive na prática do pecado. Não caminha segundo a carne.

Na linguagem habitual de Paulo, a palavra “carne” significa a natureza humana corrompida. É nesse sentido que o apóstolo escreve:

“Ora, as obras da carne são conhecidas.”

(Gl 5.19, NAA)

Pouco antes, ele havia declarado:

“Andem no Espírito e jamais satisfarão os desejos da carne.”

(Gl 5.16, NAA)

Para demonstrar que aqueles que caminham segundo o Espírito não satisfazem os desejos da carne, Paulo acrescenta que a carne luta contra o Espírito, e o Espírito luta contra a carne, porque são opostos entre si.

A finalidade dessa oposição é que vocês não façam as coisas que desejariam fazer segundo a natureza corrompida.

Algumas traduções antigas dão a impressão de que a carne necessariamente vence o Espírito e torna o cristão incapaz de obedecer a Deus. Essa interpretação não corresponde ao argumento do apóstolo. Na verdade, afirma justamente o contrário daquilo que Paulo está procurando demonstrar.

3. Aqueles que pertencem a Cristo e permanecem nele crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos.

Eles se afastam das obras da carne: da imoralidade sexual, da impureza, da sensualidade, da idolatria, das práticas ocultas, do ódio, das discórdias, do ciúme, da ira, das rivalidades, das divisões, das facções, da inveja, da embriaguez, das orgias e de todas as demais palavras, ações e intenções produzidas pela corrupção da natureza humana.

É verdade que ainda percebem dentro de si alguma raiz de amargura. Contudo, recebem poder do alto para mantê-la continuamente debaixo dos pés, de modo que ela não cresça nem venha a perturbá-los.

Cada novo ataque do pecado torna-se uma nova oportunidade de louvar a Deus e declarar:

“Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.”

(1Co 15.57, NAA)

4. Essas pessoas caminham segundo o Espírito tanto no coração quanto na vida.

O Espírito Santo as ensina a amar a Deus e ao próximo com um amor que se torna dentro delas como uma fonte de água que jorra para a vida eterna.

Por meio dele, são conduzidas a desejos santos e a disposições espirituais e celestiais. O Espírito trabalha nelas até que os pensamentos que surgem no coração sejam consagrados ao Senhor.

5. Aqueles que caminham segundo o Espírito também são conduzidos por ele a uma vida santa.

A maneira como falam é marcada pela graça e temperada com sal, cheia do amor e do temor de Deus.

Nenhuma palavra corrompida deve sair de sua boca, mas somente aquilo que seja bom para edificar e capaz de transmitir graça aos que ouvem (Ef 4.29).

Dia e noite, eles procuram fazer somente o que agrada a Deus.

Em todo o comportamento exterior, seguem aquele que lhes deixou exemplo para que andassem em seus passos (1Pe 2.21).

No relacionamento com o próximo, vivem em justiça, misericórdia e verdade. Em todas as circunstâncias da vida, procuram fazer tudo para a glória de Deus (1Co 10.31).

6. São esses os que verdadeiramente caminham segundo o Espírito.

Cheios de fé e do Espírito Santo, possuem no coração e demonstram na vida, por meio de suas palavras e ações, os frutos genuínos do Espírito de Deus:

“Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio.”

(Gl 5.22–23, NAA)

Também demonstram tudo o que é verdadeiro, digno, justo, puro, amável e de boa fama.

Em todas as coisas, tornam atraente o evangelho de Deus, nosso Salvador, e demonstram diante das pessoas que são conduzidos pelo mesmo Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos.

II. Em que sentido não existe condenação

1. Consideremos agora em que sentido já não existe condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus e não caminham segundo a carne, mas segundo o Espírito.

Primeiramente, os que creem em Cristo e vivem dessa maneira não são condenados por causa dos pecados que cometeram no passado.

Deus não os condena por nenhuma dessas transgressões. Diante dele, é como se aqueles pecados já não existissem. Foram lançados nas profundezas do mar, e Deus não se lembra mais deles.

Deus apresentou seu Filho como sacrifício de reconciliação, recebido mediante a fé em seu sangue, demonstrando sua justiça ao perdoar os pecados anteriormente cometidos.

Por isso, Deus não lança nenhum desses pecados contra eles. A lembrança dessas transgressões foi apagada.

2. Também não existe condenação dentro do coração deles.

Não permanecem dominados pelo sentimento de culpa nem pelo terror da ira de Deus. Possuem o testemunho dentro de si e sabem que foram alcançados pelo sangue de Cristo.

Não receberam novamente um espírito de escravidão para viverem com medo, dúvida e incerteza atormentadora. Receberam o Espírito de adoção, por meio do qual o coração clama:

“Aba, Pai!”

(Rm 8.15, NAA)

Justificados pela fé, possuem a paz de Deus governando o coração. Essa paz nasce da percepção contínua de que Deus os perdoou e da resposta de uma consciência limpa diante dele.

3. Alguém poderá dizer:

“Um cristão pode perder temporariamente a percepção da misericórdia de Deus. Uma escuridão pode cair sobre ele, de modo que já não consiga enxergar aquele que é invisível nem sentir dentro de si o testemunho de que participa do sangue da expiação. Nesse caso, ele volta a sentir-se condenado e a carregar dentro de si uma sentença de morte.”

Admitindo que isso aconteça, respondo: enquanto a pessoa não enxerga a misericórdia de Deus e não confia nela, naquele momento ela não está exercendo a fé.

A fé implica luz: a luz de Deus brilhando sobre a alma.

Portanto, na medida em que alguém perde essa luz, perde também, por algum tempo, o exercício da fé. Não há dúvida de que um verdadeiro cristão pode perder temporariamente a luz da fé. Na medida em que a perde, pode voltar a experimentar condenação.

Entretanto, não é essa a condição daqueles que, no presente, estão em Cristo Jesus e creem em seu nome. Enquanto permanecem crendo e caminhando segundo o Espírito, nem Deus nem o próprio coração os condenam.

4. Em segundo lugar, eles não são condenados por pecados que estejam praticando no presente, transgredindo conscientemente os mandamentos de Deus.

A razão é simples: eles não vivem transgredindo os mandamentos. Não caminham segundo a carne, mas segundo o Espírito.

A prova contínua do amor que têm por Deus é que guardam os seus mandamentos.

João declara que aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado, porque a semente de Deus permanece nele. Enquanto essa semente, essa fé santa que atua pelo amor, permanece na pessoa, ela não vive pecando.

Enquanto o cristão se conserva na fé, o Maligno não consegue dominá-lo.

É evidente que ninguém pode ser condenado por pecados que não está cometendo.

Portanto, aqueles que são conduzidos pelo Espírito não estão debaixo da condenação da lei (Gl 5.18), pois a lei condena os que a transgridem.

5. O mandamento “não furte” condena apenas aqueles que furtam.

O mandamento para santificar o dia do Senhor condena aqueles que o profanam.

Contra os frutos do Espírito, porém, não existe lei (Gl 5.23).

O apóstolo explica mais detalhadamente essa verdade ao escrever a Timóteo que a lei é boa, quando alguém a utiliza de maneira legítima.

É necessário compreender que a lei não se levanta contra a pessoa justa. Ela não possui força ou autoridade para condenar aquele que vive em justiça.

A lei se levanta contra os transgressores e rebeldes, contra os ímpios e pecadores, contra os irreverentes e profanos e contra tudo o que se opõe ao glorioso evangelho do Deus bendito (1Tm 1.8–11).

6. Em terceiro lugar, aqueles que estão em Cristo não são condenados pelo pecado interior que ainda permanece neles.

A corrupção da natureza humana continua presente até mesmo naqueles que, pela fé, são filhos de Deus.

Ainda existem dentro deles sementes de orgulho, vaidade, ira, desejos desordenados e outras tendências pecaminosas. Isso é tão evidente na experiência diária que dificilmente poderia ser negado.

Por essa razão, Paulo escreveu a pessoas que estavam em Cristo Jesus, que haviam sido chamadas por Deus para a comunhão de seu Filho, e ainda assim declarou:

“Eu, porém, irmãos, não pude falar a vocês como a pessoas espirituais, e sim como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo.”

(1Co 3.1, NAA)

Eles eram crianças “em Cristo”. Portanto, realmente estavam em Cristo e eram crentes, embora ainda fossem imaturos.

E quanto pecado permanecia dentro deles! Quanto ainda existia daquela mentalidade carnal que não se submete plenamente à lei de Deus!

7. Apesar disso, não estavam condenados.

Eles sentiam dentro de si a carne, isto é, a natureza corrompida. Percebiam cada vez mais que o coração humano é enganoso e profundamente enfermo.

Contudo, enquanto não se entregavam a essa corrupção, não davam lugar ao diabo e mantinham uma guerra contínua contra o orgulho, a ira e os desejos pecaminosos, o pecado não exercia domínio sobre eles.

Continuavam caminhando segundo o Espírito. Por isso, não havia condenação para aqueles que estavam em Cristo Jesus.

Deus se agradava de sua obediência sincera, ainda que imperfeita. Eles podiam aproximar-se de Deus com confiança, sabendo que pertenciam a ele por causa do Espírito que lhes havia concedido (1Jo 3.24).

8. Em quarto lugar, eles também não são condenados pelas imperfeições que acompanham tudo o que fazem.

Esses cristãos percebem que o pecado ainda se apega às suas melhores ações. Sabem que não cumprem perfeitamente a lei de Deus em seus pensamentos, palavras e obras.

Reconhecem que ainda não amam o Senhor com todo o coração, toda a mente, toda a alma e todas as forças.

Percebem que algum orgulho, vontade própria ou interesse pessoal tenta infiltrar-se até mesmo em suas melhores ações.

Isso ocorre inclusive nos momentos de comunhão mais direta com Deus: quando se reúnem com a congregação ou quando derramam a alma em oração secreta diante daquele que conhece todos os pensamentos e intenções do coração.

Nesses momentos, frequentemente se envergonham de pensamentos dispersos, da frieza dos sentimentos ou da falta de fervor espiritual.

Apesar de tudo isso, não existe condenação para eles, nem da parte de Deus nem dentro do próprio coração.

9. A consciência dessas muitas imperfeições apenas os faz perceber mais profundamente que necessitam continuamente do sangue de Cristo, que fala em favor deles diante de Deus, e do Advogado que está junto ao Pai e vive sempre para interceder por eles.

Essas imperfeições não os afastam daquele em quem creram. Pelo contrário, fazem com que se aproximem ainda mais daquele de quem necessitam a cada momento.

Quanto mais profundamente percebem sua necessidade, mais intenso se torna o desejo de crescer espiritualmente. Eles se tornam mais cuidadosos para viver em Cristo da mesma maneira como o receberam.

10. Em quinto lugar, não são condenados pelos chamados “pecados de fraqueza”.

Talvez fosse melhor chamá-los simplesmente de fraquezas, para não darmos a impressão de que estamos tratando o pecado com leviandade ou diminuindo sua gravidade ao associá-lo à fraqueza humana.

Caso essa expressão seja mantida, entendo por “pecados de fraqueza” aquelas falhas involuntárias, como afirmar alguma coisa que sinceramente acreditávamos ser verdadeira, mas que depois se mostra incorreta.

Outro exemplo seria causar algum prejuízo ao próximo sem saber ou desejar fazê-lo, talvez justamente quando pretendíamos ajudá-lo.

Essas falhas são desvios da vontade santa, agradável e perfeita de Deus. Contudo, não são propriamente pecados voluntários e não produzem culpa na consciência daqueles que estão em Cristo Jesus.

Não criam separação entre eles e Deus nem escondem deles a luz do rosto divino, porque não são incompatíveis com a característica geral de quem não caminha segundo a carne, mas segundo o Espírito.

11. Finalmente, não existe condenação por qualquer coisa que esteja fora da capacidade da pessoa evitar, seja algo interior ou exterior, seja uma ação praticada ou uma obrigação que deixou de ser cumprida.

Por exemplo, a Ceia do Senhor será celebrada, mas você não participará. Qual é a razão? Você está impossibilitado por causa de uma enfermidade.

Nesse caso, não pode evitar a ausência. Pela mesma razão, não é condenado por ela.

Não existe culpa onde não existe escolha.

Quando há disposição sincera, Deus aceita a pessoa segundo aquilo que ela possui, e não segundo aquilo que não possui (2Co 8.12).

12. É verdade que um cristão pode sentir tristeza por não conseguir fazer aquilo que sua alma deseja.

Impedido por alguma circunstância de adorar a Deus junto à congregação, poderá declarar:

“Como a corça suspira pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma.”

(Sl 42.1, NAA)

Sua alma tem sede de Deus, do Deus vivo, e deseja comparecer diante dele.

A pessoa pode desejar intensamente voltar a caminhar com a multidão e conduzi-la em procissão à Casa de Deus. Contudo, permanece dizendo em seu coração:

“Não seja como eu quero, e sim como tu queres.”

(Mt 26.39, NAA)

Mesmo impedida de ir, não sente condenação, culpa ou sinal do desagrado de Deus. Entrega alegremente seu desejo e declara:

“Espere em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.”

(Sl 42.5, NAA)

13. É mais difícil avaliar aquilo que geralmente se chama de “pecados cometidos por surpresa”.

Isso pode acontecer quando alguém que normalmente mantém a paciência, diante de uma tentação súbita e violenta, fala ou age de uma maneira incompatível com a lei real:

“Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.”

(Mc 12.31, NAA)

Não é fácil estabelecer uma regra geral sobre transgressões dessa natureza.

Não podemos afirmar que todas as pessoas sejam condenadas por qualquer falha cometida sob surpresa. Também não podemos dizer que nenhuma delas seja condenada.

Parece que, quando um cristão é surpreendido por alguma falta, existe maior ou menor culpa de acordo com a maior ou menor participação de sua vontade.

Quanto mais voluntário for um desejo, uma palavra ou uma ação pecaminosa, maior será o desagrado de Deus e maior será a culpa experimentada pela alma.

14. Sendo assim, algumas falhas cometidas sob surpresa podem produzir grande culpa e condenação.

Em certos casos, a pessoa é surpreendida porque anteriormente agiu com negligência deliberada ou permitiu uma sonolência espiritual que poderia ter sido evitada.

Ela pode ter sido advertida por Deus ou por outras pessoas de que provações e perigos estavam se aproximando. Mesmo assim, resolveu descansar um pouco mais e cruzar as mãos.

Se depois cai inesperadamente em uma armadilha que poderia ter evitado, o fato de ter sido surpreendida não serve de desculpa. Ela poderia ter previsto o perigo e se afastado dele.

Nesse caso, a queda aparentemente repentina é, na realidade, resultado de uma decisão voluntária anterior. Por isso, pode trazer condenação tanto da parte de Deus quanto da própria consciência.

15. Por outro lado, podem acontecer ataques repentinos vindos do mundo, do deus deste mundo ou do próprio coração, os quais a pessoa não previu e dificilmente poderia prever.

Diante de um ataque assim, um cristão ainda fraco na fé pode ser vencido momentaneamente e cair em algum grau de irritação ou suspeita contra o próximo, quase sem o consentimento da vontade.

Nesse caso, o Deus santo certamente lhe mostrará que agiu de maneira insensata.

A pessoa perceberá que se desviou da lei perfeita e da disposição que havia em Cristo. Sentirá tristeza segundo Deus e ficará humildemente envergonhada diante dele.

Apesar disso, não precisará cair em condenação.

Deus não lançará essa insensatez contra ela, mas demonstrará compaixão, assim como um pai se compadece dos próprios filhos.

Seu coração também não a condenará. Em meio à tristeza e à vergonha, ainda poderá declarar:

“Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei.”

(Is 12.2, NAA)

III. Conclusões práticas

1. Resta apresentar algumas conclusões práticas.

Primeiramente, se não existe condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus e caminham segundo o Espírito por causa dos pecados anteriormente cometidos, por que você ainda vive com medo, pessoa de pequena fé?

Ainda que seus pecados tenham sido mais numerosos do que os grãos de areia, que poder possuem agora, se você está em Cristo Jesus?

Quem apresentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? (Rm 8.33–34).

Todos os pecados que você cometeu desde a juventude até o momento em que foi aceito no Filho amado foram levados para longe como a palha que o vento espalha.

Eles se foram. Foram apagados, consumidos e não são mais lembrados.

Você nasceu do Espírito. Continuará perturbado e assustado com aquilo que aconteceu antes de seu novo nascimento?

Abandone seus temores! Você não foi chamado para viver dominado pelo medo, mas para receber o Espírito de poder, amor e equilíbrio.

Reconheça a sua vocação. Alegre-se em Deus, seu Salvador, e por meio de Cristo dê graças a Deus, seu Pai.

2. Você poderá dizer:

“Mas voltei a pecar depois de receber a redenção por meio do sangue de Cristo. Por isso, desprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza.”

É correto que você reconheça e rejeite o seu pecado. O próprio Deus produziu em você esse arrependimento.

Mas você crê novamente? Deus voltou a capacitá-lo para dizer: “Eu sei que o meu Redentor vive”? Você pode declarar que a vida que agora vive é vivida pela fé no Filho de Deus?

Então essa fé cancela novamente tudo o que ficou para trás, e já não existe condenação para você.

Sempre que uma pessoa verdadeiramente crê no nome do Filho de Deus, todos os pecados cometidos antes desse momento desaparecem como o orvalho da manhã.

3. Permaneça, portanto, firme na liberdade para a qual Cristo o libertou.

Ele o libertou novamente tanto do poder quanto da culpa e do castigo do pecado.

Não volte a se colocar debaixo de um jugo de escravidão.

Não volte à escravidão maligna e diabólica do pecado: dos desejos perversos, das atitudes pecaminosas, das palavras más e das ações contrárias a Deus. Esse é o jugo mais pesado que alguém pode carregar deste lado do inferno.

Também não retorne à escravidão do medo servil e atormentador, da culpa permanente e da autocondenação.

4. Em segundo lugar, se todos os que permanecem em Cristo Jesus não caminham segundo a carne, mas segundo o Espírito, devemos concluir que aquele que atualmente vive na prática consciente do pecado não participa dessa condição.

Essa pessoa já é condenada pelo próprio coração.

Se o nosso coração nos condena e nossa consciência testemunha que somos culpados, Deus certamente também conhece a culpa, pois ele é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas (1Jo 3.20).

Podemos enganar a nós mesmos, mas não podemos enganar a Deus.

Não tente dizer:

“Eu fui justificado no passado. Meus pecados foram perdoados certa vez.”

Eu não sei se isso realmente aconteceu, e não discutirei agora se aconteceu ou não.

Talvez, depois de tanto tempo e diante da condição atual, seja muito difícil saber com segurança se aquilo foi uma obra verdadeira de Deus ou apenas um engano da própria alma.

Mas uma coisa pode ser afirmada com certeza: aquele que vive praticando o pecado está fazendo as obras do diabo.

Não se iluda com esperanças vazias. Não diga a si mesmo: “Paz, paz”, quando não existe paz.

Clame a Deus das profundezas, para que ele ouça a sua voz.

Aproxime-se dele como fez no princípio: reconhecendo-se pobre, miserável, pecador, cego e nu.

Não permita que sua alma encontre descanso enquanto o amor perdoador de Deus não lhe for novamente revelado, enquanto ele não curar sua infidelidade e voltar a enchê-lo da fé que atua pelo amor.

5. Em terceiro lugar, se não existe condenação para aqueles que caminham segundo o Espírito por causa do pecado interior que ainda permanece, desde que não se entreguem a ele, nem por causa das imperfeições presentes em suas ações, não se desespere por ainda encontrar tendências pecaminosas em seu coração.

Não fique indignado ou desanimado porque ainda não corresponde plenamente à gloriosa imagem de Deus.

Também não desanime porque algum orgulho, vontade própria ou incredulidade ainda tenta infiltrar-se em suas palavras e ações.

Não tenha medo de conhecer toda a maldade que ainda existe dentro de você. Deseje conhecer a si mesmo assim como você é conhecido por Deus.

Peça ao Senhor que não permita que você pense a respeito de si mesmo além do que convém.

Ore continuamente:

Mostra-me, Senhor, até onde posso suportar, a profundidade do pecado que habita em mim; revela toda a minha incredulidade e o orgulho que ainda se esconde no coração.

Quando Deus responder à sua oração e revelar seu coração; quando lhe mostrar claramente que tipo de espírito ainda tenta agir em você, tome cuidado para que a sua fé não desfaleça.

Não permita que o escudo da fé seja arrancado de suas mãos.

Humilhe-se. Curve-se até o pó. Reconheça que, por si mesmo, você nada é, menos do que nada, apenas fragilidade e vaidade.

6. Mesmo assim, não permita que o seu coração fique perturbado ou dominado pelo medo.

Continue afirmando:

“Eu tenho um Advogado junto ao Pai: Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1).

Assim como os céus são mais altos do que a terra, o amor de Deus é maior do que todos os seus pecados.

Deus demonstra misericórdia a você, pecador, exatamente o pecador que você é.

Deus é amor. Cristo morreu por você. O próprio Pai o ama. Você é filho dele. Portanto, ele não lhe negará coisa alguma que seja verdadeiramente boa.

É bom que todo o corpo do pecado, que agora está crucificado dentro de você, seja completamente destruído?

Então isso será realizado.

Você será purificado de toda impureza da carne e do espírito.

É bom que nada permaneça em seu coração além do puro amor de Deus?

Tenha coragem! Você amará o Senhor, seu Deus, com todo o coração, toda a mente, toda a alma e todas as forças.

Fiel é aquele que fez a promessa, e ele também realizará isso (1Ts 5.24).

Sua responsabilidade é continuar pacientemente na obra da fé e no trabalho do amor.

Espere com paz e alegria, em humilde confiança, com calma, submissão e intenso desejo, até que o zelo do Senhor dos Exércitos cumpra essa obra.

7. Em quarto lugar, se aqueles que estão em Cristo e caminham segundo o Espírito não são condenados pelas fraquezas, pelas falhas involuntárias ou por qualquer coisa que não consigam evitar, tome cuidado para que Satanás não alcance vantagem sobre você nesse ponto.

Você que possui fé no sangue de Cristo ainda é fraco, limitado, ignorante e sujeito a muitos enganos.

Sua fraqueza é maior do que as palavras conseguem descrever. Sua falta de entendimento é maior do que você consegue imaginar. Você ainda não conhece as coisas como deveria conhecê-las.

Contudo, não permita que suas limitações, nem os efeitos inevitáveis dessas limitações, abalem sua fé e sua confiança filial em Deus.

Não permita que elas perturbem sua paz ou sua alegria no Senhor.

Um conselho que pode ser perigoso quando aplicado aos pecados voluntários é sábio e seguro quando aplicado às fraquezas e limitações involuntárias:

Você caiu, homem ou mulher de Deus? Não permaneça caído, irritado consigo mesmo e lamentando continuamente sua fraqueza.

Diga humildemente:

“Senhor, cairei a cada momento, se não me sustentares com a tua mão.”

Depois, levante-se. Volte a andar. Prossiga em seu caminho e corra com perseverança a carreira que está diante de você.

8. Finalmente, um cristão não precisa cair em condenação quando é surpreendido por alguma coisa que sua alma verdadeiramente detesta, desde que essa surpresa não tenha sido provocada por negligência ou descuido deliberado.

Caso você, que crê, seja dessa maneira surpreendido por alguma falta, entristeça-se diante do Senhor. Essa tristeza será como um bálsamo precioso.

Derrame seu coração diante dele. Conte-lhe toda a sua aflição.

Ore com toda a força àquele que se compadece de suas fraquezas. Peça que ele firme, fortaleça e estabeleça sua alma e não permita que volte a cair.

Mesmo assim, Deus não o condena.

Por que você deveria viver com medo? Não precisa daquele medo que produz tormento.

Ame aquele que ama você. Isso é suficiente.

Quanto mais amor você receber e oferecer, mais força terá.

Quando amar a Deus com todo o coração, será completo e plenamente formado no amor, sem que lhe falte coisa alguma.

Espere em paz pela hora em que o Deus da paz o santificará completamente, para que todo o seu espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.

Aquele que chama vocês é fiel e fará isso.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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