SERMÃO 108
Sobre as riquezas
“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha” — os perigos espirituais de possuir e de desejar riquezas.
“E ainda lhes digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.”
(Mt 19.24, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley define como “rico” não apenas aquele que possui grande fortuna, mas qualquer pessoa que tenha alimento, roupas e as condições adequadas para sua família e ainda possua alguma coisa além disso. Assim, sua advertência alcança número muito maior de pessoas do que normalmente se imagina.
Wesley não ensina que a salvação do rico seja absolutamente impossível. Repete a declaração de Jesus de que aquilo que é impossível às pessoas é possível para Deus. Seu propósito é mostrar como a riqueza cria obstáculos espirituais e tentações: autossuficiência, orgulho, amor ao mundo, busca por prazer, desejo de elogios, comodidade e diminuição da prática da abnegação.
O sermão é especialmente importante para a ética econômica wesleyana. Os bens devem ser utilizados como recursos confiados por Deus. O cristão deve permanecer desprendido daquilo que possui, buscar sua felicidade somente em Deus e administrar tudo em benefício do próximo e do Reino.
— Bispo Ildo Mello
1. Nos versículos anteriores, encontramos o relato de um jovem que correu até nosso Senhor e se ajoelhou, não por hipocrisia, mas com profunda seriedade de alma, dizendo: “Bom Mestre, que coisa boa farei para ter a vida eterna?” “Tenho guardado todos os mandamentos desde a juventude”, afirmou. “Que me falta ainda?” Provavelmente, havia guardado os mandamentos em sentido literal. Apesar disso, continuava amando o mundo. Aquele que conhecia aquilo que existia no ser humano sabia que, naquela situação específica — pois isso não constitui de maneira alguma uma regra geral —, ele não poderia ser curado daquela enfermidade desesperadora sem um remédio igualmente radical. Por isso, respondeu: “Vá, venda tudo o que possui e dê aos pobres; depois, venha e siga-me.” Quando ouviu isso, porém, retirou-se entristecido, porque possuía muitas propriedades.
2. Assim, todas as belas flores murcharam! Ele não desejava acumular tesouros no céu pagando preço tão elevado! Jesus, observando isso, “olhou ao redor e disse aos discípulos”: “Como é difícil aqueles que possuem riquezas entrarem no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” Eles ficaram profundamente admirados e perguntavam entre si: “Quem, então, poderá ser salvo?”, caso seja tão difícil os ricos serem salvos, eles que possuem vantagens tão grandes e numerosas, estão livres dos cuidados deste mundo e de milhares de dificuldades às quais os pobres estão continuamente expostos.
3. Algumas pessoas imaginaram que Jesus tenha parcialmente voltado atrás naquilo que havia dito a respeito da dificuldade de os ricos serem salvos, por causa daquilo que é acrescentado no capítulo dez de Marcos. Depois de dizer: “Como é difícil aqueles que possuem riquezas entrarem no Reino de Deus!”, quando os discípulos ficaram admirados diante de suas palavras, Jesus respondeu novamente: “Como é difícil entrarem no Reino de Deus aqueles que confiam nas riquezas!” Observem, primeiramente, que nosso Senhor não pretendia voltar atrás naquilo que havia dito. Está tão distante disso que confirma imediatamente a declaração por meio destas palavras solenes: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.” Observem, em segundo lugar, que as duas frases afirmam exatamente a mesma coisa, pois é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que alguém que possui riquezas deixar de confiar nelas.
4. Percebendo a admiração dos discípulos diante dessas palavras difíceis, Jesus olhou para eles — certamente com indescritível ternura, para impedir que considerassem desesperadora a condição dos ricos — e disse: “Para os seres humanos isto é impossível, mas não para Deus, porque para Deus tudo é possível.”
5. Entendo que, pela expressão “homem rico”, Jesus se refere não somente àquele que possui tesouros imensos, que acumulou ouro como pó e prata como a areia do mar, mas a todo aquele que possui mais do que as necessidades e conveniências da vida. Aquele que possui alimento e roupas suficientes para si mesmo e sua família e alguma coisa além disso é rico.
6. Pelo Reino de Deus, ou Reino dos Céus — expressões exatamente equivalentes —, acredito que se entenda, não o Reino da glória, embora este certamente venha depois, mas o Reino dos Céus neste mundo, isto é, a religião verdadeira na terra.
7. O significado da afirmação de nosso Senhor é, portanto, este: é absolutamente impossível, a não ser pelo poder para o qual todas as coisas são possíveis, que um rico seja cristão; que possua a mente que houve em Cristo e ande como Cristo andou. Tão grandes são os obstáculos à santidade e as tentações para o pecado que o cercam por todos os lados.
Primeiramente, consideremos alguns dos obstáculos à santidade que cercam o rico por todos os lados. Enumerar todos eles exigiria um grande volume. Tratarei apenas de alguns.
1. A raiz de toda religião é a fé, sem a qual é impossível agradar a Deus. Caso você compreenda a fé em seu sentido geral, como “certeza das coisas que não se veem”, do mundo invisível e eterno, de Deus e das coisas de Deus, que tendência natural as riquezas possuem para obscurecer essa certeza, impedir sua atenção a Deus e às coisas de Deus e afastá-lo das coisas invisíveis e eternas! Caso compreenda a fé em outro sentido, como confiança, que tendência as riquezas possuem para destruí-la, fazendo com que você confie nelas, para felicidade ou proteção, em vez de confiar “no Deus vivo”! Ou, caso compreenda a fé no sentido propriamente cristão, como confiança divina num Deus que perdoa, que obstáculo mortal e quase insuperável as riquezas constituem para essa fé! Poderá uma pessoa rica e, consequentemente, honrada aproximar-se de Deus como alguém que nada possui para pagar? Poderá deixar de lado toda a sua grandeza e apresentar-se como pecadora, simplesmente pecadora, a pior das pecadoras, no mesmo nível daqueles que alimentam os cães de seu rebanho e daquele “mendigo que permanece junto ao portão coberto de feridas”? Isso é impossível, a não ser pelo mesmo poder que criou os céus e a terra. Apesar disso, sem agir assim, não poderá, em sentido algum, “entrar no Reino de Deus”.
2. Que obstáculo as riquezas constituem para o primeiro fruto da fé: o amor de Deus! “Se alguém ama o mundo”, diz o apóstolo, “o amor do Pai não está nele.” Como, porém, seria possível alguém não amar o mundo quando se encontra cercado por todas as suas atrações? Como poderia, então, ouvir a voz mansa e delicada que diz: “Meu filho, dê-me o seu coração”? Que poder inferior ao poder do Todo-Poderoso poderia fazer com que o rico respondesse a esta oração: “Conserva-me morto para tudo aqui embaixo, decidido a conhecer somente Cristo; firme, desprendido e livre, buscando em ti toda a minha felicidade!”
3. As riquezas constituem igualmente obstáculo para amar o próximo como a nós mesmos, isto é, amar toda a humanidade como Cristo nos amou. Uma pessoa rica poderá realmente amar os integrantes de seu próprio partido ou as pessoas que compartilham suas opiniões. Poderá amar aqueles que a amam. “Não fazem os próprios pagãos”, batizados ou não, “a mesma coisa?” Não poderá, porém, possuir boa vontade pura e desinteressada para com todo filho dos seres humanos. Isso somente poderá nascer do amor de Deus, que suas grandes propriedades expulsaram de sua alma.
4. Do amor de Deus, e de nenhuma outra fonte, também procede a verdadeira humildade. Portanto, na medida em que impedem o amor de Deus, as riquezas também precisam impedir a humildade. Fazem isso igualmente ao afastar os ricos daquela liberdade de conversa por meio da qual poderiam tomar consciência de seus defeitos e alcançar verdadeiro conhecimento de si mesmos. Como é raro encontrarem um amigo fiel, alguém que possa e queira falar-lhes claramente! Sem isso, provavelmente envelheceremos em nossas falhas e morreremos “com todas as nossas imperfeições sobre a cabeça”.
5. A mansidão também não pode existir sem a humildade, pois “do orgulho procede a discussão”. De acordo com isso, nosso Senhor nos orienta a aprender simultaneamente com ele a ser “mansos e humildes de coração”. Portanto, as riquezas são tão grande obstáculo para a mansidão quanto são para a humildade. Ao impedirem a humildade da mente, consequentemente impedem a mansidão, que aumenta na mesma proporção em que diminuímos em nossa própria estima e, ao contrário, necessariamente diminui à medida que pensamos mais elevadamente a respeito de nós mesmos.
6. Existe outra disposição cristã intimamente relacionada à mansidão e à humildade, mas que dificilmente possui um nome específico. Paulo chama-a de epieíkeia. Enquanto não encontrarmos nome melhor, poderemos chamá-la de disposição para ceder: prontidão para submeter-nos aos outros e abrir mão da própria vontade. Parece ser a qualidade atribuída por Tiago à “sabedoria que vem do alto”, quando a chama de tratável, aberta à razão, fácil de ser convencida daquilo que é verdadeiro e persuadida a agir. Como é raro encontrar essa agradável disposição numa pessoa rica! Não sei se, em mais de setenta anos, encontrei dez exemplos de semelhante prodígio!
7. Como também é incomum encontrar paciência naqueles que possuem grandes propriedades, exceto quando ela é equilibrada por sofrimentos longos e severos, com os quais frequentemente Deus se agrada em visitar aqueles que ama, como antídoto para as riquezas. Isso não é incomum. Frequentemente envia dor, enfermidade e grandes provações àqueles que possuem grandes propriedades. Por esses meios, “a paciência realiza sua obra completa”, até que sejam “perfeitos e íntegros, sem que lhes falte coisa alguma”.
Esses são alguns dos obstáculos à santidade que cercam os ricos por todos os lados. Podemos agora observar, por outro lado, como as riquezas constituem tentação para todas as disposições profanas.
1. Primeiramente, como é grande a tentação ao ateísmo que naturalmente procede das riquezas, até o completo esquecimento de Deus, como se nenhum ser dessa espécie existisse no universo! Atualmente, isso geralmente recebe o nome de dissipação, um nome elegante aplicado pelas pessoas importantes ao completo desprezo por Deus e, na realidade, por todo o mundo invisível. Como o rico é cercado por todas as espécies de tentações à dissipação contínua! Sim, como a arte da dissipação é estudada entre os ricos e importantes! Como Prior observa de maneira penetrante: “As cartas são distribuídas e os dados trazidos, felizes efeitos da inteligência humana, para que Alma possa esquecer a si mesma.” Diga, antes, para que os mortais esqueçam seu Deus; para que o mantenham completamente fora de seus pensamentos, embora ele esteja sentado sobre o círculo dos céus e, apesar disso, permaneça ao redor da cama e do caminho deles e observe todos os seus passos. Chame isso de inteligência, caso deseje, mas seria sabedoria? Não! Está extremamente distante dela. Insensato! Imagina que, porque não vê Deus, Deus não o vê? Continue rindo, jogando, cantando e dançando. “Por todas essas coisas, porém, Deus o trará a julgamento!”
2. Do ateísmo existe uma passagem fácil para a idolatria, da adoração de nenhum Deus para a adoração de falsos deuses. Na realidade, aquele que não ama a Deus — e o amor é a adoração propriamente devida a ele — certamente amará alguma obra de suas mãos. Amará a criatura, caso não ame o Criador. A quantas espécies de idolatria toda pessoa rica está exposta! Debaixo de quais tentações contínuas e quase insuperáveis se encontra para “amar o mundo” em todos os seus ramos: “o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida”! Quantas tentações encontrará para satisfazer “o desejo da carne”! Compreendam corretamente: isso não se refere a um único sentido, mas a todos os sentidos exteriores. É igualmente idolatria procurar nossa felicidade satisfazendo um deles ou todos eles. Existe, porém, perigo maior de que as pessoas procurem felicidade satisfazendo o paladar, numa sensualidade moderada, numa espécie regular de epicurismo. Não na gula nem na embriaguez — longe delas semelhante coisa! Não prejudicam o corpo. Apenas conservam a alma morta, morta para Deus e para toda verdadeira religião.
3. Os ricos são igualmente cercados pelas tentações procedentes do “desejo dos olhos”, isto é, a busca da felicidade na satisfação da imaginação, cujos prazeres são principalmente transmitidos pelos olhos. Os objetos que proporcionam prazer à imaginação são grandiosos, belos ou novos. Na realidade, nem todas as pessoas ricas apreciam objetos grandiosos, mas apreciam coisas novas e belas, especialmente novas, pois o desejo de novidade é tão natural aos seres humanos quanto o desejo de alimento e bebida. Como são numerosas as tentações para essa espécie de idolatria que naturalmente nasce das riquezas! Como são forte e continuamente incentivados a procurar felicidade — caso não em coisas grandiosas — em belas casas, móveis elegantes, quadros curiosos e jardins agradáveis! Talvez naquela insignificância de todas as insignificâncias: roupas caras ou vistosas! Sim, em toda coisa nova, pequena ou grande, recomendada pela moda, senhora dos insensatos. Como as pessoas ricas de mente mais elevada são tentadas, segundo os diferentes gostos, a procurar felicidade na poesia, na história, na música, na filosofia ou nas artes e ciências mais curiosas! Embora todas essas coisas certamente possuam utilidade e, portanto, possam ser procuradas inocentemente, buscar felicidade em qualquer uma delas, em lugar de Deus, constitui evidente idolatria. Ainda que fosse somente porque as riquezas oferecem os meios para satisfazer todos esses desejos, poderíamos perguntar corretamente: “A vida do rico não é, mais do que qualquer outra, uma tentação sobre a terra?”
4. Que tentação toda pessoa rica também enfrenta para procurar felicidade “na soberba da vida”! Não entendo que o apóstolo se refira principalmente ao luxo, à posição ou à ostentação, mas à “honra que vem das pessoas”, merecida ou não. O rico certamente encontrará isso. É uma armadilha da qual não consegue escapar. Toda a cidade de Londres utiliza as palavras “rico” e “bom” como expressões equivalentes. “Sim”, dizem, “ele é um homem bom: possui cem mil libras.” Na realidade, em todos os lugares, “se você fizer bem a si mesmo”, isto é, aumentar seus bens, “as pessoas falarão bem de você”. Todo o mundo concorda: “Mil libras compensam a ausência de vinte mil qualidades.” Quem poderá suportar o aplauso geral sem ficar orgulhoso, sem ser gradualmente levado a pensar de si mesmo além daquilo que deveria pensar?
5. Como seria possível o rico escapar do orgulho, ainda que fosse somente porque sua situação necessariamente faz com que elogios cheguem até ele por todos os lados? O elogio geralmente é veneno para a alma; quanto mais agradável, mais fatal, especialmente quando não é merecido. Por isso, nosso poeta declarou corretamente: “Pai do mal e destruidor das obras honestas, bajulação prejudicial! Suas sementes destrutivas, lançadas numa hora má e por mão fatal sobre o fértil campo da virtude, aparecem juntamente com o orgulho entre os cereais e destroem a esperança e a promessa da colheita!” Não somente os elogios, merecidos ou não, mas todas as coisas ao redor tendem a inspirar e aumentar o orgulho. Sua casa imponente, os móveis elegantes, os quadros bem escolhidos, os belos cavalos, a carruagem e as próprias roupas — até os bordados espalhados pelas abas do casaco — serão elogiados por algum de seus convidados. Tudo isso possui tendência quase irresistível para fazê-lo considerar-se pessoa melhor do que aqueles que não possuem essas vantagens.
6. Como as riquezas também alimentam e fortalecem naturalmente a vontade própria que nasce em cada filho dos seres humanos! Não apenas os empregados domésticos e dependentes imediatos são completamente governados por sua vontade, pois encontram nisso seus interesses, mas também a maioria dos vizinhos e conhecidos procura agradá-lo em todas as coisas. Como sua vontade é continuamente satisfeita, naturalmente se torna cada vez mais forte, até que finalmente ele quase não consegue submeter-se à vontade de Deus nem à vontade das pessoas.
7. As riquezas possuem tamanha tendência para produzir e alimentar todas as disposições contrárias ao amor de Deus! Possuem igual tendência para alimentar todas as paixões e disposições contrárias ao amor ao próximo: o desprezo, por exemplo, especialmente pelos inferiores, nada sendo mais contrário ao amor; o ressentimento diante de uma ofensa real ou imaginária; talvez até a vingança, embora Deus reivindique isso como prerrogativa exclusiva; pelo menos a ira, pois surge imediatamente na mente do rico: “O quê? Ele me tratou dessa maneira? Não! Logo aprenderá a agir melhor. Agora possuo capacidade de fazer justiça com as próprias mãos!”
8. Intimamente relacionados à ira, caso não sejam espécies dela, encontram-se a irritação e o mau humor. Os ricos são mais atacados por essas disposições do que os pobres? Toda experiência demonstra que sim. Muitos anos atrás, testemunhei um exemplo notável. Enquanto conversávamos seriamente, um cavalheiro de grande fortuna ordenou ao empregado que colocasse um pouco de carvão no fogo. Uma pequena nuvem de fumaça saiu da lareira. Ele lançou-se para trás na cadeira e exclamou: “Ó senhor Wesley, essas são as cruzes que enfrento todos os dias!” Não pude deixar de perguntar: “Por favor, Sir John, essas são as cruzes mais pesadas que enfrenta?” Certamente, essas cruzes não o teriam irritado tanto caso possuísse cinquenta, em vez de cinco mil libras por ano!
9. Não seria surpreendente que, de modo geral, os ricos estivessem destituídos de todas as boas disposições e fossem presas fáceis para todas as más, pois tão poucos prestam atenção à declaração solene de nosso Senhor, sem cuja observância não podemos ser seus discípulos: “Jesus dizia a todos”, a toda a multidão, não somente aos apóstolos: “Se alguém quer vir após mim”, caso deseje ser verdadeiro cristão, “negue a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23). Como essas palavras são difíceis para aqueles que vivem “tranquilos no meio de suas propriedades”! As Escrituras, porém, não podem ser anuladas. Portanto, a menos que alguém “negue a si mesmo” todo prazer que não o prepare para encontrar prazer em Deus e “tome diariamente a própria cruz”, obedecendo a cada mandamento de Deus, por mais difícil que seja para a natureza humana, não poderá ser discípulo de Cristo nem “entrar no Reino de Deus”.
10. A respeito desse importante ponto, negar a nós mesmos e tomar diariamente nossa cruz, apelemos aos fatos e à consciência de cada pessoa diante de Deus. Quantos ricos existem entre os metodistas — observem que não existia nenhum quando se reuniram inicialmente — que realmente “negam a si mesmos e tomam diariamente sua cruz”? Quantos se abstêm firmemente de todo prazer dos sentidos ou da imaginação, exceto quando sabem pela experiência que isso os prepara para encontrar prazer em Deus? Quem não evita trabalho, dificuldade ou sofrimento que esteja no caminho de seu dever? Quem entre vocês que atualmente são ricos nega a si mesmo exatamente como fazia quando era pobre? Quem suporta trabalho ou sofrimento com a mesma disposição que possuía quando não valia cinco libras? Entremos nos detalhes. Jejuam atualmente com a mesma frequência? Levantam-se tão cedo pela manhã? Suportam frio ou calor, vento ou chuva, com a mesma alegria? Vejam uma entre muitas razões pelas quais tão poucas pessoas aumentam seus bens sem diminuir na graça! Já não negam a si mesmas nem tomam sua cruz diária. Infelizmente, já não suportam dificuldades como bons soldados de Jesus Cristo!
11. “Escutem agora, ricos! Chorem e lamentem por causa das desgraças que estão para cair sobre vocês”, que certamente virão dentro de poucos dias, a menos que sejam impedidas por uma transformação profunda e completa! “A ferrugem do ouro e da prata” servirá de “testemunho contra vocês” e “devorará como fogo”! Como é lamentável sua condição! Quem será capaz de ajudá-los? Vocês necessitam de maior franqueza do que todas as outras pessoas do mundo e recebem menos. Como são poucas as pessoas que ousam falar-lhes tão claramente quanto falariam com um de seus empregados! Ninguém que espere receber alguma coisa por seu favor ou tema perder alguma coisa por seu desagrado. Que Deus me conceda palavras aceitáveis e faça com que penetrem profundamente no coração de vocês! Muitos me conhecem há muito tempo, quase desde a infância. Frequentemente me ajudaram quando eu enfrentava necessidades. Não posso dizer que me amaram? O momento de nossa separação, porém, está próximo. Meus pés já estão tropeçando sobre montanhas escuras. Desejo deixar-lhes uma palavra antes de partir, para que se recordem dela quando eu já não for visto.
12. Que o coração de vocês seja inteiramente dedicado a Deus! Procurem sua felicidade nele e somente nele. Tenham cuidado para não se apegarem ao pó! “Esta terra não é o lugar de vocês.” Utilizem este mundo sem abusar dele. Utilizem o mundo e desfrutem de Deus. Permaneçam tão desprendidos de todas as coisas terrenas como se fossem pobres mendigos. Sejam bons administradores dos diversos dons de Deus, para que, quando forem chamados a prestar contas de sua administração, ele possa dizer: “Muito bem, servo bom e fiel! Entre na alegria do seu Senhor!”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.