SERMÃO 11

O testemunho do Espírito — segunda exposição

Segunda exposição sobre o testemunho do Espírito, escrita cerca de vinte anos depois da primeira.

Rm 8.16, NAA ⏱ 23 min de leituraEspírito Santo e certeza

“O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.”

(Rm 8.16, NAA)

Antes de ler

Nesta segunda exposição sobre o testemunho do Espírito, Wesley retoma a questão da certeza da salvação de maneira mais detalhada e argumentativa.

Seu propósito é defender duas verdades que precisam permanecer juntas. A primeira é que o Espírito Santo pode comunicar diretamente ao coração do crente a certeza de que ele foi perdoado e recebido como filho de Deus. A segunda é que essa experiência jamais pode ser separada dos frutos do Espírito, da santidade e da obediência cristã.

Wesley procura evitar dois extremos. De um lado, uma religião meramente formal, que nega a possibilidade de uma experiência pessoal da graça de Deus. De outro, o fanatismo daqueles que alegam possuir revelações interiores enquanto vivem sem humildade, amor e santidade.

A verdadeira segurança cristã, portanto, não está fundamentada em sentimentos isolados. Ela resulta do testemunho conjunto do Espírito de Deus e de nossa consciência, confirmados por uma vida transformada.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

I. A importância dessa doutrina

1. Ninguém que creia que as Escrituras são a Palavra de Deus pode duvidar da importância dessa verdade.

Ela não é revelada na Bíblia apenas uma vez, nem de maneira obscura ou acidental. É apresentada muitas vezes, em termos claros, solenes e intencionais, como um dos privilégios especiais dos filhos de Deus.

2. É ainda mais necessário explicar e defender essa verdade porque existem perigos tanto de um lado quanto do outro.

Se a negarmos, corremos o risco de reduzir nossa religião a uma simples formalidade. Podemos conservar “a forma da piedade”, mas desprezar ou até negar o seu poder (2Tm 3.5).

Se a reconhecermos, mas não compreendermos corretamente o que estamos reconhecendo, poderemos cair nos excessos do fanatismo.

É extremamente necessário, portanto, proteger aqueles que temem a Deus contra ambos os perigos, apresentando uma explicação bíblica e racional dessa verdade tão importante.

3. Uma explicação como essa parece ainda mais necessária porque pouco foi escrito sobre o assunto com suficiente clareza.

Alguns textos foram escritos justamente para negar essa doutrina ou esvaziá-la completamente de seu significado.

É provável que essas reações tenham sido provocadas, pelo menos em grande parte, pelas explicações imaturas, antibíblicas e irracionais de pessoas que não compreendiam aquilo que diziam nem aquilo que afirmavam com tanta segurança.

4. Aqueles que são chamados metodistas possuem uma responsabilidade especial de compreender, explicar e defender claramente essa doutrina.

Ela constitui uma parte importante do testemunho que Deus lhes confiou para ser anunciado a toda a humanidade.

Por meio da bênção especial de Deus na investigação das Escrituras, confirmada pela experiência de seus filhos, essa grande verdade evangélica foi recuperada depois de ter permanecido, durante muitos anos, quase perdida e esquecida.

II. O que é o testemunho do Espírito

1. Mas o que é o testemunho do Espírito?

A palavra original pode ser traduzida como “testemunho”, “depoimento” ou “declaração”.

Ela é utilizada nesse sentido quando João escreve:

“E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho.”

(1Jo 5.11, NAA)

Esse é o conteúdo do testemunho de Deus nas Escrituras inspiradas.

O testemunho que estamos considerando é comunicado pelo Espírito de Deus ao nosso espírito e juntamente com ele. O Espírito Santo é aquele que testemunha.

Aquilo que ele testemunha é que somos filhos de Deus.

O resultado imediato desse testemunho é o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade e tudo o que acompanha essas graças.

Sem esses frutos, o testemunho não pode permanecer.

Ele é inevitavelmente destruído não somente pela prática de qualquer pecado exterior ou pela negligência consciente de um dever, mas também quando permitimos que algum pecado interior governe nosso coração.

Em resumo, o testemunho é enfraquecido ou perdido por tudo aquilo que entristece o Espírito Santo de Deus.

2. Muitos anos atrás, observei que é difícil encontrar palavras humanas capazes de explicar as coisas profundas de Deus.

Na verdade, não existem palavras que expressem adequadamente aquilo que o Espírito de Deus realiza em seus filhos.

Talvez possamos dizer — pedindo àqueles que foram ensinados por Deus que corrijam, suavizem ou fortaleçam a expressão — que:

O testemunho do Espírito é uma impressão interior na alma, pela qual o Espírito de Deus comunica direta e imediatamente ao meu espírito que sou filho de Deus; que Jesus Cristo me amou e entregou-se por mim; que todos os meus pecados foram apagados; e que eu, até mesmo eu, fui reconciliado com Deus.

3. Depois de refletir durante mais vinte anos sobre essa definição, não vejo razão para retirar qualquer parte dela.

Também não consigo imaginar como essas expressões poderiam ser modificadas para se tornarem mais claras.

Acrescento apenas que, se algum filho de Deus puder apresentar outras expressões mais compreensíveis ou mais de acordo com a Palavra de Deus, abandonarei prontamente estas e adotarei aquelas.

4. Enquanto isso, devemos observar que não quero dizer que o Espírito Santo sempre comunique esse testemunho por meio de uma voz exterior.

Também não afirmo que ele sempre utilize uma voz interior, embora possa fazê-lo em algumas ocasiões.

Não suponho igualmente que ele sempre aplique ao coração um ou mais textos das Escrituras, embora frequentemente possa fazer isso.

O Espírito atua diretamente sobre a alma por meio de sua influência imediata e de uma operação forte, embora inexplicável.

Como resultado, o vento tempestuoso e as ondas agitadas se acalmam. Surge uma doce tranquilidade.

O coração repousa, por assim dizer, nos braços de Jesus. O pecador recebe uma certeza clara de que Deus está reconciliado com ele, de que suas iniquidades foram perdoadas e seus pecados foram cobertos.

5. Qual é, então, o verdadeiro ponto da discussão?

Não se discute se existe um testemunho do Espírito.

Também não se discute se o Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.

Ninguém poderia negar isso sem contradizer diretamente as Escrituras e acusar de falsidade o Deus da verdade.

Todas as partes reconhecem, portanto, que existe um testemunho do Espírito.

6. Também não está em discussão a existência de um testemunho indireto de que somos filhos de Deus.

Esse testemunho é praticamente o mesmo que o testemunho de uma boa consciência diante de Deus.

Ele resulta da razão ou da reflexão sobre aquilo que percebemos em nossa própria alma.

Falando com rigor, é uma conclusão extraída parcialmente da Palavra de Deus e parcialmente de nossa experiência.

A Palavra de Deus afirma que todo aquele que possui o fruto do Espírito é filho de Deus.

Nossa experiência ou consciência interior nos diz que possuímos o fruto do Espírito.

Dessas duas premissas, concluímos racionalmente:

“Portanto, sou filho de Deus.”

Isso também é reconhecido por todos e não constitui o ponto da controvérsia.

7. Também não afirmamos que possa existir um verdadeiro testemunho do Espírito sem o fruto do Espírito.

Pelo contrário, afirmamos que o fruto do Espírito nasce imediatamente desse testemunho.

É verdade que esse fruto não aparece sempre no mesmo grau, nem mesmo quando o testemunho é concedido pela primeira vez.

Muito menos permanece sempre na mesma intensidade depois disso.

A alegria e a paz podem variar. O amor também pode variar em sua intensidade. O próprio testemunho nem sempre permanece igualmente forte e claro.

8. O verdadeiro ponto em questão é este:

Existe algum testemunho direto do Espírito?

Existe outro testemunho além daquele que surge da consciência de que possuímos o fruto do Espírito?

III. A existência do testemunho direto

1. Creio que existe um testemunho direto porque esse é o significado simples e natural do texto:

“O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.”

(Rm 8.16, NAA)

É evidente que dois testemunhos são mencionados, os quais declaram conjuntamente a mesma coisa: o Espírito de Deus e nosso próprio espírito.

Um antigo bispo de Londres, pregando sobre esse texto, demonstrou surpresa diante da possibilidade de alguém duvidar de algo que aparece claramente nas próprias palavras do versículo.

Segundo ele, o testemunho de nosso espírito é a consciência de nossa sinceridade.

Podemos expressar isso mais claramente dizendo que é a consciência de possuirmos o fruto do Espírito.

Quando nosso espírito reconhece em nós amor, paz, paciência, bondade e outras graças, conclui facilmente que somos filhos de Deus.

2. É verdade que esse mesmo bispo considerava o outro testemunho como sendo a consciência de nossas boas obras.

Ele afirmava que esse seria o testemunho do Espírito de Deus.

Contudo, a consciência de nossas boas obras já está incluída no testemunho de nosso próprio espírito.

Também está incluída na consciência de nossa sinceridade, mesmo quando a palavra “sinceridade” é entendida em seu sentido comum.

Paulo escreve:

“Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência de que, com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas pela graça de Deus, temos vivido no mundo.”

(2Co 1.12, NAA)

Essa sinceridade se refere tanto às palavras e ações quanto às disposições interiores.

Portanto, a consciência de nossas boas obras não constitui outro testemunho. É apenas uma parte da consciência de nossa sinceridade.

Continuaríamos, assim, possuindo apenas um testemunho.

Se o texto menciona dois testemunhos, um deles não pode ser simplesmente a consciência de nossas boas obras ou de nossa sinceridade, pois tudo isso já está incluído no testemunho de nosso espírito.

3. Qual é, então, o outro testemunho?

Mesmo que o próprio texto não fosse suficientemente claro, poderíamos descobri-lo pelo versículo anterior:

“Vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai!’”

(Rm 8.15, NAA)

Em seguida, Paulo acrescenta:

“O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.”

(Rm 8.16, NAA)

4. Essa verdade é explicada ainda mais claramente pela passagem paralela da Carta aos Gálatas:

“E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e o Espírito clama: ‘Aba, Pai!’”

(Gl 4.6, NAA)

Isso não descreve algo imediato e direto, em vez de uma conclusão resultante de reflexão e argumentação?

O Espírito de Deus não clama “Aba, Pai” em nosso coração no momento em que nos é concedido, antes de refletirmos sobre nossa sinceridade e antes de qualquer raciocínio?

Não é esse o sentido simples e natural dessas palavras, percebido imediatamente por quem as ouve?

Todas essas passagens, em seu significado mais evidente, descrevem um testemunho direto do Espírito.

5. O testemunho do Espírito de Deus precisa, pela própria natureza das coisas, preceder o testemunho de nosso espírito.

Isso pode ser demonstrado por uma única consideração.

Precisamos ser santos no coração e na vida antes de termos consciência de que somos santos.

Entretanto, precisamos amar a Deus antes de podermos ser santos, porque o amor a Deus é a raiz de toda santidade.

Não podemos amar a Deus antes de sabermos que ele nos ama, pois:

“Nós amamos porque ele nos amou primeiro.”

(1Jo 4.19, NAA)

E não podemos conhecer seu amor por nós até que seu Espírito confirme esse amor ao nosso espírito.

Antes disso, não podemos verdadeiramente crer nem declarar:

“Esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”

(Gl 2.20, NAA)

Somente então reconhecemos nossa participação em seu sangue e clamamos com alegria indescritível:

“Tu és o meu Senhor e o meu Deus!”

Portanto, se o testemunho do Espírito precisa preceder o amor a Deus e toda santidade, consequentemente também precisa preceder nossa consciência dessa santidade.

6. Neste ponto, a experiência dos filhos de Deus confirma a doutrina das Escrituras.

Não se trata da experiência de duas ou três pessoas, nem de um pequeno grupo, mas de uma multidão que ninguém consegue contar.

Em todas as épocas, essa verdade foi confirmada por uma grande nuvem de testemunhas, tanto vivas quanto já falecidas.

Também é confirmada por sua experiência e pela minha.

O próprio Espírito confirmou ao meu espírito que eu era filho de Deus. Concedeu-me essa certeza, e imediatamente clamei: “Aba, Pai!”

Isso aconteceu antes que eu refletisse ou tivesse consciência de qualquer fruto do Espírito.

Foi desse testemunho recebido que nasceram o amor, a alegria, a paz e todo o fruto do Espírito.

Primeiramente, ouvi em meu coração:

“Seus pecados estão perdoados! Você foi aceito!”

Eu ouvi, e o céu nasceu em meu coração.

7. Essa verdade não é confirmada somente pela experiência dos filhos de Deus.

Milhares deles podem declarar que nunca souberam que estavam reconciliados com Deus até que seu Espírito lhes comunicasse diretamente essa certeza.

Ela também é confirmada pela experiência daqueles que estão convencidos do pecado e sentem a ira de Deus permanecendo sobre eles.

Essas pessoas não conseguem se satisfazer com nada menos do que um testemunho direto do Espírito de que Deus é misericordioso para com suas injustiças e não se lembra mais de seus pecados.

Diga a alguém nessa condição:

“Você deve saber que é filho de Deus refletindo sobre aquilo que ele realizou dentro de você, sobre seu amor, sua alegria e sua paz.”

Ele provavelmente responderá:

“Por meio dessas coisas, concluo justamente que ainda sou filho do diabo! Não possuo mais amor por Deus do que o próprio diabo. Minha mente carnal é inimiga de Deus.

Não possuo alegria no Espírito Santo. Minha alma está profundamente triste.

Não tenho paz. Meu coração é como um mar agitado. Dentro de mim existem apenas tempestade e inquietação.”

Como essas pessoas poderão ser consoladas?

Não por um testemunho de que são boas, sinceras ou conformadas às Escrituras no coração e na vida.

Elas somente poderão ser consoladas pelo testemunho divino de que Deus justifica o ímpio.

Até o momento em que é justificada, essa pessoa não possui verdadeira santidade. Não realiza nada que seja espiritualmente bom.

Ela somente começa a praticar o verdadeiro bem depois de receber a consciência de que foi aceita, não por alguma obra de justiça que tenha realizado, mas unicamente pela misericórdia livre e gratuita de Deus, por aquilo que o Filho de Deus fez e sofreu em seu favor.

8. Poderia ser diferente, se uma pessoa é justificada pela fé independentemente das obras da lei?

Que bondade interior ou exterior ela poderia reconhecer em si antes da justificação?

Não é indispensável que perceba que nada possui com que pagar sua dívida?

Não precisa reconhecer que, por sua própria natureza, não habita nela bem algum, seja interior ou exteriormente, antes de ser justificada gratuitamente pela redenção que há em Cristo Jesus?

Alguma pessoa foi justificada desde a vinda de Cristo, ou poderá algum dia ser justificada, sem chegar ao ponto de declarar:

“Abandono toda outra defesa.
Senhor, estou condenado, mas tu morreste por mim”?

9. Portanto, aquele que nega a existência desse testemunho direto nega, na prática, a justificação pela fé.

Isso significa que essa pessoa nunca experimentou essa justificação ou que se esqueceu da purificação de seus pecados anteriores.

Esqueceu a experiência que teve e a maneira como Deus operou em sua alma quando seus antigos pecados foram apagados.

10. Até mesmo a experiência dos filhos deste mundo confirma a experiência dos filhos de Deus.

Muitas pessoas do mundo desejam agradar a Deus. Algumas fazem grande esforço para isso.

Entretanto, não consideram absurdo alguém afirmar que sabe que seus pecados foram perdoados?

Qual delas declara possuir esse conhecimento?

Apesar disso, muitas possuem consciência de sua sinceridade.

Sem dúvida, várias possuem, em alguma medida, o testemunho de seu próprio espírito: sabem que procuram agir corretamente.

Essa consciência, porém, não lhes concede a certeza de que foram perdoadas nem o conhecimento de que são filhas de Deus.

Na verdade, quanto mais sinceras são, mais inquietas geralmente permanecem por não possuírem essa certeza.

Isso demonstra claramente que não podemos conhecer satisfatoriamente nossa aceitação diante de Deus apenas pelo testemunho de nosso espírito, sem que Deus confirme diretamente que somos seus filhos.

IV. Respostas às principais objeções

1. Muitas objeções foram apresentadas contra essa doutrina. Convém examinar as mais importantes.

A primeira objeção é:

“A experiência não é suficiente para provar uma doutrina que não esteja fundamentada nas Escrituras.”

Isso é absolutamente verdadeiro e constitui um princípio importante.

Contudo, não se aplica à presente questão, pois já demonstramos que essa doutrina está fundamentada nas Escrituras.

A experiência é apresentada não para estabelecer a doutrina, mas para confirmá-la.

2. Alguém poderá dizer:

“Pessoas mentalmente perturbadas, falsos profetas e fanáticos de todas as espécies imaginaram que possuíam esse testemunho.”

Isso é verdade. Talvez alguns deles até tenham realmente recebido esse testemunho, embora não o tenham conservado por muito tempo.

Mas, mesmo que nenhum deles o tenha recebido, isso não demonstra que outras pessoas não o experimentaram.

O fato de uma pessoa perturbada imaginar que é rei não prova que não existam reis verdadeiros.

Outra objeção:

“Muitos dos que defenderam fortemente esse testemunho acabaram desprezando completamente a Bíblia.”

Talvez isso tenha acontecido.

Contudo, essa não foi uma consequência necessária da doutrina. Milhares de pessoas defendem o testemunho do Espírito e, ao mesmo tempo, possuem a mais elevada consideração pelas Escrituras.

Alguém ainda dirá:

“Muitas pessoas se enganaram fatalmente por causa dessa doutrina e se tornaram incapazes de receber qualquer correção.”

Mesmo assim, uma doutrina bíblica não deixa de ser verdadeira porque alguns a utilizam para a própria destruição.

3. Outra pessoa poderá afirmar:

“Considero uma verdade incontestável que o fruto do Espírito é o testemunho do Espírito.”

Não é uma verdade incontestável, pois milhares de pessoas duvidam dela ou a negam diretamente.

Mas deixemos isso de lado.

Se esse testemunho indireto fosse sempre suficiente, não haveria necessidade de qualquer outro.

Ele é suficiente, exceto em duas situações.

A primeira é quando o fruto do Espírito ainda está completamente ausente. Essa é a situação no momento em que o testemunho direto é concedido pela primeira vez.

A segunda é quando a pessoa não consegue perceber o fruto do Espírito em si mesma.

Alguém poderá responder:

“Defender o testemunho direto nesse segundo caso significa afirmar que uma pessoa pode estar no favor de Deus sem saber disso.”

Ela pode não reconhecer sua condição por meio do testemunho indireto, mas conhece sua aceitação pelo testemunho que Deus concedeu exatamente para esse propósito.

Defendemos, portanto, que o testemunho direto pode brilhar claramente enquanto o testemunho indireto permanece encoberto por uma nuvem.

4. Uma segunda objeção afirma:

“O propósito desse testemunho seria provar que nossa profissão de fé é verdadeira. Entretanto, ele não consegue provar isso.”

Respondo que esse não é o seu propósito.

O testemunho do Espírito é concedido antes de qualquer profissão de fé, exceto a confissão de que somos pecadores perdidos, culpados e incapazes de salvar a nós mesmos.

Seu propósito é assegurar àqueles que o recebem que são filhos de Deus e que foram justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.

Isso não pressupõe que seus pensamentos, suas palavras e suas ações anteriores estivessem de acordo com as Escrituras.

Pressupõe exatamente o contrário: que eram completamente pecadores, tanto no coração quanto na vida.

Se fosse diferente, Deus estaria justificando pessoas piedosas por causa de suas próprias obras, e essas obras lhes seriam contadas como justiça.

Temo que a suposição de que somos justificados pelas obras esteja na raiz de muitas dessas objeções.

Aquele que realmente crê que Deus concede justiça sem obras aos que são justificados não encontrará dificuldade em reconhecer que o testemunho de seu Espírito precede os frutos produzidos por esse testemunho.

5. Uma terceira objeção diz:

“Um evangelista afirma que o Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem. Outro evangelista chama a mesma coisa de boas dádivas. Isso demonstra que o Espírito testemunha concedendo boas dádivas.”

Entretanto, nenhuma dessas passagens está tratando do testemunho do Espírito.

Portanto, enquanto essa suposta demonstração não for realmente demonstrada, não podemos considerá-la uma prova.

6. Uma quarta objeção afirma:

“As Escrituras dizem: ‘A árvore é conhecida pelos frutos’; ‘examinem todas as coisas’; ‘ponham os espíritos à prova’; e ‘examinem a si mesmos’.”

Tudo isso é verdadeiro.

Portanto, toda pessoa que acredita possuir o testemunho dentro de si deve examinar se ele vem realmente de Deus.

Se os frutos aparecem, o testemunho vem de Deus. Caso contrário, não vem.

A árvore certamente é conhecida por seus frutos. É dessa maneira que comprovamos se a experiência procede de Deus.

Outra pessoa poderá dizer:

“O testemunho direto nunca é mencionado na Bíblia.”

Não é mencionado como um testemunho isolado e separado do outro.

Ele é apresentado em conexão com o testemunho de nosso espírito. Ambos oferecem um testemunho conjunto de que somos filhos de Deus.

Quem pode provar que esse testemunho conjunto não está incluído na passagem:

“Examinem a si mesmos para ver se permanecem na fé; provem a si mesmos. Ou não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês?”

(2Co 13.5, NAA)

Não está demonstrado que eles conhecessem a presença de Cristo somente por um testemunho distante e indireto.

Podiam reconhecê-la, primeiramente, por uma consciência interior direta e, depois, pelos frutos do amor, da alegria e da paz.

7. Outra objeção:

“O testemunho produzido pela transformação interior e exterior é constantemente mencionado na Bíblia.”

Isso é verdade.

Nós também o mencionamos constantemente para confirmar o testemunho do Espírito.

Alguém dirá:

“Todas as características que você apresentou para distinguir a ação do Espírito de Deus de um engano se referem à transformação realizada dentro de nós e em nossa vida.”

Isso também é inteiramente verdadeiro.

8. Uma quinta objeção afirma:

“O testemunho direto do Espírito não nos protege dos grandes enganos. Pode ser confiável um testemunho que não consegue provar aquilo que afirma e precisa recorrer a outra coisa para ser confirmado?”

Respondo que Deus nos concedeu dois testemunhos de que somos seus filhos exatamente para nos proteger de todos os enganos.

Esses dois testemunhos atuam conjuntamente.

Portanto:

“O que Deus ajuntou não seja separado pelo homem.”

(Mt 19.6, NAA)

Enquanto permanecem unidos, não podemos ser enganados.

O testemunho conjunto pode ser plenamente confiável. Os dois testemunhos são inteiramente dignos de confiança e não necessitam de qualquer outra prova para confirmar aquilo que declaram.

Alguém ainda poderá dizer:

“O testemunho direto apenas afirma alguma coisa, mas não a prova.”

Por duas testemunhas toda palavra será confirmada.

Quando o Espírito de Deus testemunha juntamente com nosso espírito, como Deus determinou que acontecesse, fica plenamente comprovado que somos seus filhos.

9. Uma sexta objeção afirma:

“Você reconhece que a transformação realizada em nós é um testemunho suficiente, exceto durante provações muito severas, como a provação de Cristo na cruz. Nenhum de nós, porém, será provado dessa maneira.”

Você, eu e qualquer outro filho de Deus podemos ser provados de maneira tão intensa que se torne impossível conservar nossa confiança filial somente por meio do testemunho de nosso espírito.

Nessas circunstâncias, necessitaremos do testemunho direto do Espírito de Deus.

10. A última objeção diz:

“Algumas das pessoas que mais defendem essa doutrina estão entre as mais orgulhosas e menos amorosas que conhecemos.”

Talvez alguns dos defensores mais agressivos dessa doutrina sejam realmente orgulhosos e pouco amorosos.

Muitos de seus defensores mais firmes, porém, são notavelmente mansos e humildes de coração.

Em todos os demais aspectos, também demonstram ser verdadeiros seguidores de seu Senhor, manso como um cordeiro.

Essas são as objeções mais importantes que ouvi. Creio que nelas se encontra toda a força da posição contrária.

Entretanto, qualquer pessoa que considere calmamente e sem preconceitos tanto as objeções quanto as respostas perceberá que elas não destroem nem enfraquecem a grande verdade de que o Espírito de Deus testemunha direta e indiretamente que somos filhos de Deus.

V. Resumo e conclusões

1. Podemos resumir tudo da seguinte maneira:

O testemunho do Espírito é uma impressão interior na alma dos crentes, pela qual o Espírito de Deus comunica diretamente ao espírito deles que são filhos de Deus.

A questão não é se existe um testemunho do Espírito, mas se existe um testemunho direto.

Em outras palavras, existe algum testemunho além daquele que nasce da consciência de que possuímos o fruto do Espírito?

Cremos que existe.

Essa é a interpretação simples e natural do texto, esclarecida tanto pelas palavras anteriores quanto pela passagem paralela da Carta aos Gálatas.

Também é necessário que o testemunho preceda o fruto que nasce dele.

Além disso, esse significado evidente da Palavra de Deus é confirmado pela experiência de incontáveis filhos de Deus.

É confirmado ainda pela experiência de todas as pessoas convencidas do pecado, que não encontram descanso enquanto não recebem um testemunho direto do perdão.

Até mesmo os filhos deste mundo, que não possuem esse testemunho dentro de si, geralmente declaram que ninguém pode saber que seus pecados foram perdoados.

2. As principais objeções foram estas:

A experiência não seria suficiente para provar uma doutrina sem fundamento bíblico.

Pessoas perturbadas e fanáticas teriam imaginado possuir esse testemunho.

O propósito do testemunho seria comprovar a sinceridade de nossa profissão de fé, mas ele não conseguiria fazer isso.

As Escrituras ordenam que conheçamos a árvore por seus frutos, examinemos a nós mesmos e coloquemos todas as coisas à prova, enquanto o testemunho direto não seria mencionado na Bíblia.

O testemunho direto não nos protegeria dos grandes enganos.

Finalmente, a transformação realizada em nós seria um testemunho suficiente, exceto em provações tão severas quanto as que somente Cristo experimentou.

Respondemos:

Primeiro, a experiência é suficiente para confirmar uma doutrina fundamentada nas Escrituras.

Segundo, o fato de muitas pessoas imaginarem possuir aquilo que não possuem não prejudica a realidade da experiência verdadeira.

Terceiro, o propósito do testemunho é assegurar-nos de que somos filhos de Deus, e ele cumpre esse propósito.

Quarto, o verdadeiro testemunho do Espírito é conhecido pelos frutos que produz: amor, paz e alegria. Esses frutos não o precedem, mas o seguem.

Quinto, não se pode provar que o testemunho direto e o indireto não estejam incluídos na passagem: “Não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês?”

Sexto, o Espírito de Deus, testemunhando juntamente com nosso espírito, protege-nos contra o engano.

Finalmente, todos estamos sujeitos a provações nas quais o testemunho de nosso espírito não será suficiente. Nessas circunstâncias, somente o testemunho direto do Espírito de Deus poderá assegurar-nos de que somos seus filhos.

3. Duas conclusões podem ser extraídas de tudo isso.

A primeira é:

Ninguém deve descansar em um suposto testemunho do Espírito que esteja separado de seus frutos.

Se o Espírito de Deus realmente confirma que somos seus filhos, a consequência imediata será o fruto do Espírito:

“Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.”

(Gl 5.22–23, NAA)

Durante períodos de forte tentação, esses frutos podem ficar temporariamente encobertos, de modo que a própria pessoa tentada não consiga percebê-los claramente enquanto Satanás a peneira como trigo.

Mesmo assim, a essência desses frutos permanece, ainda que esteja escondida sob uma nuvem espessa.

É verdade que a alegria no Espírito Santo pode ser retirada durante a hora da provação.

A alma pode ficar profundamente triste enquanto durarem a hora e o poder das trevas.

Geralmente, porém, essa alegria é restaurada com ainda maior intensidade, até que novamente nos alegremos com alegria indescritível e cheia de glória.

4. A segunda conclusão é:

Ninguém deve descansar em um suposto fruto do Espírito sem possuir o testemunho.

Podem existir antecipações da obra do Espírito antes do testemunho da adoção.

Uma pessoa pode experimentar antecipações de alegria, paz e amor que não são enganosas, mas realmente procedem de Deus, muito antes de possuir o testemunho dentro de si.

Isso pode acontecer antes que o Espírito de Deus confirme ao seu espírito que ela possui redenção pelo sangue de Jesus e o perdão dos pecados.

Também pode existir certo grau de paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio antes que a pessoa seja aceita no Amado e, consequentemente, antes que possua o testemunho de sua aceitação.

Não se trata apenas de uma aparência dessas virtudes. Pode ser um grau verdadeiro delas, produzido pela graça preveniente de Deus.

Entretanto, não é aconselhável descansar nessa condição.

Fazê-lo seria colocar a própria alma em perigo.

Se formos sábios, clamaremos continuamente a Deus até que seu Espírito clame em nosso coração:

“Aba, Pai!”

(Rm 8.15, NAA)

Esse é o privilégio de todos os filhos de Deus.

Sem isso, nunca poderemos possuir plena segurança de que somos seus filhos.

Sem esse testemunho, não conseguimos conservar uma paz firme nem evitar dúvidas e temores perturbadores.

Quando recebemos o Espírito de adoção, a paz que excede todo entendimento expulsa toda dúvida dolorosa e todo medo atormentador e guarda nosso coração e nossa mente em Cristo Jesus.

E quando esse testemunho produz seus frutos verdadeiros — toda santidade interior e exterior — certamente é vontade daquele que nos chamou conservar aquilo que concedeu.

Não existe necessidade de que sejamos novamente privados do testemunho do Espírito de Deus ou do testemunho de nosso próprio espírito: a consciência de que caminhamos em verdadeira justiça e santidade.

Newry, 4 de abril de 1767.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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