SERMÃO 131
A recente obra de Deus na América do Norte
“Uma roda no meio de outra” — Wesley discerne as rodas da providência divina nos acontecimentos da América do Norte e no avanço do avivamento.
“O seu aspecto e a sua estrutura eram como se uma roda estivesse no meio de outra.”
(Ez 1.16, NAA)Antes de ler
Neste sermão, John Wesley interpreta dois acontecimentos paralelos como “rodas dentro de rodas” da providência divina. A primeira roda é o crescimento do avivamento e do metodismo nas colônias norte-americanas. A segunda é o movimento pela independência, que conduziu à guerra e à ruptura com a Grã-Bretanha.
Wesley era monarquista e se opôs à independência norte-americana. Considerava que os colonos já desfrutavam verdadeira liberdade debaixo da Coroa e descreve a Revolução Americana como fruto de orgulho, riqueza e rebelião. Seu relato é, portanto, claramente britânico e partidário. A história da independência norte-americana não pode ser compreendida adequadamente apenas por essa interpretação.
O sermão também mostra uma contradição significativa. Wesley foi vigoroso adversário da escravidão, mas, ao criticar a preguiça das classes ricas norte-americanas, menciona pessoas escravizadas como parte normal da organização doméstica. Sua observação não expressa aprovação explícita da escravidão, mas também não denuncia ali a injustiça que posteriormente condenaria de maneira tão clara.
Seu argumento central é que Deus poderá utilizar acontecimentos humanos complexos, inclusive situações más, para remover obstáculos à missão e produzir resultados que ninguém havia previsto. Isso não significa que toda guerra, pobreza ou calamidade seja desejada por Deus nem que os sofrimentos possam ser justificados simplesmente por seus possíveis resultados.
— Bispo Ildo Mello
1. Qualquer que seja o significado principal desta misteriosa passagem das Escrituras, muitos cristãos sérios, em todas as épocas, aplicaram-na, num sentido secundário, à maneira pela qual a adorável providência de Deus normalmente atua no governo do mundo.
Consideraram que essa expressão se referia claramente às rodas complexas da providência, pela qual Deus ajusta um acontecimento ao outro e realiza determinada coisa por meio de outra.
Em todo esse processo, existe variedade interminável de rodas dentro de rodas.
Elas, porém, são frequentemente dispostas e relacionadas de tal maneira que não conseguimos compreendê-las à primeira vista. Na realidade, raramente as compreendemos plenamente antes que sejam explicadas pelos próprios acontecimentos.
2. Talvez época alguma tenha oferecido exemplo mais impressionante do que a presente, nas ações da providência divina relacionadas às nossas colônias da América do Norte.
Para compreendermos isso claramente, segundo a medida de nosso fraco entendimento, procuremos:
Primeiramente, examinar cada roda separadamente;
Depois, considerar como as duas se relacionam e correspondem uma à outra.
A PRIMEIRA RODA: A OBRA DE DEUS E O CRESCIMENTO DAS RIQUEZAS
Não pretendo apresentar relato detalhado das recentes transações na América, mas somente sequência simples e direta de alguns fatos conhecidos.
Sei que este é assunto muito delicado e que é difícil, talvez impossível, tratá-lo sem ofender alguém, especialmente aqueles profundamente ligados a qualquer um dos partidos.
Não desejo voluntariamente ofender. Portanto, evitarei cuidadosamente toda linguagem áspera ou acusatória e utilizarei as expressões mais moderadas que puder, sem trair nem ocultar a verdade.
1. No ano de 1736, agradou a Deus começar obra de graça na recém-estabelecida colônia da Geórgia, que naquela época era o mais meridional de nossos territórios no continente americano.
Aos ingleses estabelecidos ali no ano anterior, juntaram-se um grupo dos chamados morávios e grupo ainda maior de pessoas expulsas da Alemanha pelo arcebispo de Salzburgo.
Eram pessoas que verdadeiramente temiam a Deus e praticavam a justiça.
Ao mesmo tempo, começou despertamento entre os ingleses, tanto em Savannah quanto em Frederica. Muitos perguntavam o que deveriam fazer para serem salvos e “produziam frutos dignos de arrependimento”.
2. No mesmo ano, irrompeu maravilhosa obra de Deus em diversas partes da Nova Inglaterra.
Começou em Northampton e, em pouco tempo, apareceu nas cidades vizinhas. O senhor Edwards, ministro de Northampton, publicou relato específico e belo dessa obra.
Muitos pecadores foram profundamente convencidos do pecado e muitos verdadeiramente convertidos a Deus.
Suponho que não tivesse acontecido na América, durante os cem anos anteriores, obra da graça tão rápida e profunda; talvez nenhuma semelhante desde que os ingleses se estabeleceram ali.
3. No ano seguinte, a obra de Deus se espalhou gradualmente da Nova Inglaterra em direção ao sul.
Ao mesmo tempo, avançava lentamente da Geórgia para o norte.
A obra também se aprofundou em algumas pessoas, e algumas deram bom testemunho tanto na vida quanto na morte.
4. No ano de 1738, o senhor Whitefield viajou para a Geórgia com o propósito de auxiliar-me na pregação, seja aos ingleses, seja aos povos indígenas.
Como eu havia embarcado para a Inglaterra antes de sua chegada, ele pregou exclusivamente aos ingleses: primeiramente na Geórgia, à qual seu principal serviço era devido; depois, na Carolina do Sul e na Carolina do Norte; posteriormente, nas províncias intermediárias, até chegar à Nova Inglaterra.
Todas as pessoas reconheciam que Deus estava com ele onde quer que fosse, dirigindo chamado geral a grandes e pequenos, ricos e pobres, para que se arrependessem e cressem no evangelho.
Muitos não foram desobedientes ao chamado celestial. Arrependeram-se e creram no evangelho.
Por meio de seu ministério, formou-se uma linha de comunicação espiritual desde a Geórgia até a Nova Inglaterra.
5. Durante os anos seguintes, Whitefield realizou diversas outras viagens à América e percorreu novamente as províncias.
Em cada viagem, encontrava novos motivos para bendizer Deus, que continuava fazendo prosperar o trabalho de suas mãos.
Em todas as províncias, aumentava o número daqueles que descobriam que sua palavra era “o poder de Deus para a salvação”.
6. Na última viagem que realizou, porém, reconheceu diante de alguns amigos que possuía grande tristeza e sofrimento no coração por causa das multidões que, durante algum tempo, haviam corrido bem, mas depois “retrocederam para a perdição”.
Em poucos anos, a grande maioria daqueles que certa vez “receberam a palavra com alegria” e haviam até “escapado das corrupções existentes no mundo” ficaram novamente envolvidos e foram vencidos.
Alguns eram semelhantes àqueles que receberam a semente em terreno pedregoso e “no tempo da provação se desviaram”.
Outros eram semelhantes aos que receberam a semente entre os espinhos. Os espinhos rapidamente cresceram e sufocaram a Palavra.
Whitefield encontrou pouquíssimos que “produziram fruto até a maturidade”. A grande maioria havia “abandonado o santo mandamento que lhes havia sido entregue”.
7. Isso não seria surpreendente, pois era verdadeira a declaração comum na Igreja antiga: “A alma e o corpo formam o ser humano; o Espírito e a disciplina formam o cristão.”
Aqueles que foram alcançados, em maior ou menor grau, pela pregação do senhor Whitefield não possuíam disciplina alguma. Não possuíam sequer sua aparência.
Não foram organizados em sociedades. Não possuíam comunhão cristã uns com os outros nem foram ensinados a cuidar mutuamente da vida espiritual.
Portanto, caso alguém caísse na indiferença ou até no pecado, não existia quem o levantasse. Poderia cair cada vez mais e caminhar até a perdição, pois quem cuidaria dele?
8. Essa era a situação quando, aproximadamente onze anos antes, recebi diversas cartas da América, apresentando relato triste da condição religiosa na maioria das colônias e pedindo seriamente que alguns de nossos pregadores viajassem até lá para auxiliá-los.
Acreditava-se que poderiam confirmar muitos que estavam fracos ou indecisos e levantar muitos que haviam caído. Acreditava-se também que encontrariam na América fruto ainda maior de seu trabalho do que haviam encontrado na Inglaterra ou na Irlanda.
9. Essa questão foi amplamente considerada em nossa Conferência anual de Bristol, no ano de 1769.
Dois de nossos pregadores ofereceram-se voluntariamente: Richard Boardman e Joseph Pilmoor. Eram homens de bom testemunho diante de todos e, segundo acreditávamos, plenamente preparados para o trabalho.
Depois de passarem alguns dias em Londres, viajaram alegremente.
Trabalharam primeiramente em Filadélfia e Nova York e, depois, em muitos outros lugares.
Por toda parte, Deus estava de maneira extraordinária com eles e lhes permitia contemplar muito fruto de seu trabalho.
Aquilo que anteriormente faltava foi então suprido. Os que desejavam salvar a própria alma já não eram como corda formada somente por areia, mas uniam-se uns aos outros e começaram a cuidar-se mutuamente em amor.
Sociedades foram formadas, e a disciplina cristã foi introduzida em todos os seus aspectos.
Durante os anos seguintes, diversos outros pregadores se dispuseram a viajar para auxiliá-los.
Deus também levantou muitos naturais do país que aceitaram trabalhar em conexão com eles.
Finalmente, existiam vinte e dois pregadores itinerantes na América, que cumpriam seus circuitos tão regularmente quanto os pregadores da Inglaterra.
10. A obra de Deus não apenas se espalhou mais amplamente, especialmente na Carolina do Norte, Maryland, Virgínia, Pensilvânia e Nova Jersey, mas também se aprofundou muito mais do que anteriormente.
No início das recentes perturbações, existiam três mil pessoas reunidas em sociedades religiosas. Grande número delas testemunhava que o Filho de Deus possui poder na terra para perdoar pecados.
11. Nesse momento, porém, apareceu uma barreira e grande obstáculo ao progresso da religião.
O imenso comércio da América, proporcionalmente maior até do que aquele da metrópole, produziu imenso fluxo de riqueza, que continuava aumentando.
Comerciantes e profissionais de diversas espécies acumularam dinheiro sem limites e passaram da pobreza para grandes fortunas mais rapidamente do que seria possível na Europa.
As riquezas eram derramadas sobre eles como inundação, e tesouros eram acumulados como a areia do mar.
Disso surgiu naturalmente abundância ilimitada de todas as necessidades e comodidades, sim, até dos maiores excessos da vida.
12. Uma consequência geral disso foi o orgulho.
Quanto maior a quantidade de riquezas adquiridas, maior era a consideração recebida dos vizinhos como pessoas importantes e influentes.
Naturalmente, enxergavam a si mesmas de maneira pelo menos tão favorável quanto eram enxergadas pelos vizinhos.
À medida que subiam no mundo, subiam também na própria opinião.
Como geralmente se reconhece:
Mil libras conseguem suprir
A falta de vinte mil qualidades.
Portanto, quanto mais ricas se tornavam, maior era a admiração e o aplauso que recebiam.
A riqueza produzia mais elogios, e os elogios produziam maior orgulho, até que realmente imaginavam ser tão mais sábias do que os vizinhos quanto eram mais ricas.
13. Outra consequência natural da riqueza foi o luxo, especialmente na alimentação.
Somos inclinados a imaginar que coisa alguma poderia superar o luxo existente atualmente na Grã-Bretanha e na Irlanda.
Como, porém, isso se comparava àquilo que recentemente prevalecia em Filadélfia e em outras partes da América do Norte?
Um comerciante ou profissional de condição intermediária mantinha mesa comparável àquela de um nobre na Inglaterra, oferecendo aos convidados dez, doze e até vinte pratos de carne numa única refeição!
Essa prática estava tão distante de receber censura que era elogiada como generosidade e hospitalidade.
14. A ociosidade não se encontra naturalmente ligada à “abundância de pão”? A preguiça não nasce facilmente do luxo?
Isso aconteceu ali em grau extraordinário, numa forma de ociosidade dificilmente encontrada na Inglaterra.
Pessoas na juventude e em perfeita saúde dificilmente aceitavam vestir a própria roupa. A pessoa escravizada precisava ser chamada para fazer isto, aquilo e todas as demais coisas, pois qualquer esforço parecia grande demais para o senhor ou a senhora.
Era surpreendente que ainda realizassem o esforço de levar o alimento à própria boca.
Por que não imitavam os ricos ociosos da China, que, segundo o relato utilizado por Wesley, eram alimentados por uma pessoa escravizada de cada lado?
15. Quem poderia surpreender-se caso a ociosidade produzisse sensualidade? Não foi esse seu efeito constante?
Quase dois mil anos antes, já se dizia:
Quaeritur, Aegisthus quare sit factus adulter?
In promptu causa est: desidiosus erat.
A tradução apresentada pelo editor declara:
A paixão que dominou Egisto
E o conduziu ao adultério e ao crime
Nasceu da ociosidade sem limites.
Quando a preguiça e o luxo se unem, não produzem numerosos descendentes?
Certamente fizeram isso naquelas regiões.
Alguns anos antes, fiquei surpreso com carta recebida da Filadélfia que continha aproximadamente estas palavras:
“Você pensa que muitas mulheres da Inglaterra não se destacam pela castidade. Apesar disso, a maioria das mulheres inglesas, comparada às nossas, quase poderia passar por virgens vestais.”
Essa combinação de orgulho, luxo, preguiça e sensualidade, surgida naturalmente de grande riqueza e abundância, constituiu o principal obstáculo à expansão da verdadeira religião nas cidades da América do Norte.
A SEGUNDA RODA: O ESPÍRITO DE INDEPENDÊNCIA
1. Vejamos agora a outra roda da providência divina.
Poderia ser razoavelmente suposto que as colônias da Nova Inglaterra, desde o princípio, possuíssem inclinação para a independência.
Dificilmente poderia ser diferente, considerando suas famílias, educação, relacionamentos e as ligações formadas antes de abandonarem o país natal.
Também foram conduzidas nessa direção pelo tratamento severo e injusto que muitas dessas pessoas haviam recebido na Inglaterra.
Isso poderia naturalmente produzir medo de que voltassem a experimentar o mesmo tratamento, desconfiança dos governantes e desejo de abandonar uma dependência com a qual nunca haviam concordado completamente.
Transmitiram o mesmo espírito aos filhos, dos quais passou à presente geração.
Nem mesmo todos os favores e benefícios que recebiam continuamente do governo inglês conseguiram apagá-lo.
2. Esse espírito já predominava de modo geral, especialmente em Boston, no ano de 1737.
Naquele ano, meu irmão permaneceu ali durante algum tempo e ficou profundamente surpreso ao ouvir praticamente em todas as reuniões — entre ministros, cavalheiros, comerciantes ou pessoas comuns —, sempre que o assunto era mencionado:
“Precisamos ser independentes!”
“Seremos independentes!”
“Não suportaremos mais o jugo inglês!”
“Seremos nossos próprios governantes!”
Já naquela época, esse parecia ser o desejo geral do povo, embora provavelmente não existisse plano organizado.
Não poderiam ser tão presunçosos a ponto de imaginar que fossem capazes de permanecer sozinhos contra o poder da Grã-Bretanha.
3. Um cavalheiro que esteve ali no ano seguinte observou o mesmo espírito em todos os cantos da cidade.
“Por que esses ingleses insensatos deveriam governar-nos?” era linguagem comum.
Como cada pessoa incentivava as demais, o espírito de independência cresceu cada vez mais, até começar a espalhar-se pelas colônias próximas à Nova Inglaterra.
Apesar disso, o temor dos vizinhos considerados perigosos, que ainda possuíam o Canadá, conservou-os dentro dos limites e durante algum tempo impediu que a chama irrompesse.
Quando os ingleses removeram esse temor e o Canadá foi cedido ao rei da Grã-Bretanha, o desejo amadureceu e se transformou em plano organizado. Faltava somente oportunidade conveniente.
4. Não demorou para que a oportunidade aparecesse.
A Lei do Selo foi aprovada e enviada à América. Os descontentes perceberam e aproveitaram a vantagem.
Apresentaram a questão como causa comum e, por meio de mensageiros apropriados, espalharam o próprio espírito de uma colônia para outra.
Por meio de publicações inflamadas de todas as espécies, agitaram a mente do povo.
Primeiramente, atacaram o governo inglês, apresentando seus ministros como as pessoas mais desprezíveis que existiam, destituídas de honestidade, honra e humanidade.
Depois, utilizando os mesmos métodos, inflamaram o povo em geral contra o Parlamento britânico, representando seus membros como os piores vilões da terra e como grupo de pessoas desprezíveis e sem princípios.
Ainda fingiam reverenciar o rei e falavam dele com grande respeito.
Isso, porém, durou pouco. Alguns meses depois, trataram o rei da mesma maneira pela qual haviam tratado os ministros e o Parlamento.
5. Considerando-se que a situação já havia avançado suficientemente, formou-se associação entre as colônias do norte e do sul.
As duas regiões tomaram armas e constituíram poder supremo ao qual chamaram Congresso.
Continuavam afirmando que todo seu propósito consistia em proteger a liberdade. Sugerir que desejavam alguma coisa além disso era considerado cruel e injusto.
Pouco tempo depois, porém, abandonaram a dissimulação e afirmaram claramente a própria independência.
O doutor Witherspoon, presidente do Colégio de Nova Jersey, em discurso dirigido ao Congresso — acrescentado a um sermão de jejum publicado em 3 de agosto de 1776 —, utiliza as seguintes palavras:
“Atualmente, está perfeitamente claro que, até período muito recente, aqueles que pareciam defender a América no Parlamento britânico nunca o fizeram com base nos princípios americanos. Não compreendiam ou não estavam dispostos a reconhecer toda a extensão de nossa reivindicação.
“Até mesmo o projeto de reconciliação do grande Lord Chatham não teria sido aceito aqui e não diferia materialmente daquilo que o governo estaria disposto a conceder.”
Nessas palavras, reconhece-se abertamente que a reivindicação era a independência e que não aceitariam coisa alguma inferior a ela.
6. Por meio desse afastamento público e declarado e desse desafio à metrópole — se isso era justificável ou não constitui outra questão —, pelo menos nove décimos do imenso comércio das colônias com a Europa, Ásia, África e outras partes da América foram interrompidos de uma só vez.
Em seu lugar, inicialmente obtiveram talvez cem mil libras anuais por meio dos numerosos navios corsários.
Mesmo nesse período, porém, não existia verdadeiro lucro geral, pois perdiam número de navios semelhante àquele que capturavam.
Posteriormente, passaram a capturar número cada vez menor.
Enquanto isso, perderam os quatro ou cinco milhões anuais — talvez seis ou sete — produzidos pelo comércio.
Qual foi a consequência necessária? Como a fonte das riquezas estava bloqueada, suas correntes precisavam diminuir cada vez mais até ficarem inteiramente secas.
Na época em que Wesley escreveu, considerava essas províncias tão pobres quanto as regiões mais pobres da Escócia ou da Irlanda.
7. A abundância diminuiu na mesma proporção que a riqueza, até instalar-se escassez geral.
Em pouco tempo, enfrentou-se por toda parte grande necessidade, não apenas de coisas supérfluas ou de comodidades comuns, mas até das necessidades básicas da vida.
Alimento saudável somente poderia ser obtido por preço muito elevado.
Não era possível encontrar roupas adequadas, nem mesmo nas grandes cidades.
Não somente veludos, sedas e ornamentos da moda — que poderiam facilmente ser dispensados —, mas até roupas de linho e lã não podiam ser compradas por preço algum.
8. Assim, observamos separadamente cada uma dessas rodas.
De um lado, o comércio, a riqueza, o orgulho, o luxo, a ociosidade e a sensualidade espalhavam-se amplamente pelas províncias americanas.
Do outro, o espírito de independência difundia-se do norte para o sul.
Consideremos agora como as duas rodas se relacionavam e correspondiam uma à outra; como a sábia e bondosa providência divina utilizava uma para interromper o movimento da outra e até empregava — caso semelhante expressão seja permitida — Satanás para expulsar Satanás.
Provavelmente, aquele espírito astuto esperava que, acrescentando o espírito de independência a todos os demais vícios, conseguiria destruir toda a obra de Deus, assim como o governo britânico na América do Norte.
Aquele, porém, que está entronizado nos céus riu dele e apanhou os sábios na própria astúcia.
Por meio desse mesmo espírito, existiam razões para acreditar que Deus removeria todos os obstáculos à sua obra.
9. Vimos como, mediante a manifestação desse espírito em desafio aberto ao governo britânico, o comércio das colônias foi efetivamente interrompido.
Por meio de extraordinária decisão política, elas próprias abandonaram todo o comércio com a metrópole e com seus territórios dependentes.
Aprovaram lei proibindo os navios britânicos de entrar em seus portos.
Também prepararam inúmeros navios corsários, que capturavam todas as embarcações britânicas que conseguiam encontrar.
Os navios do rei capturavam número equivalente de embarcações americanas.
Desse modo, o comércio exterior das colônias também foi reduzido praticamente a nada.
Suas riquezas desapareceram juntamente com o comércio, especialmente porque não possuíam recursos internos suficientes.
Grande parte dos jovens que anteriormente trabalhava na agricultura havia sido levada para os exércitos. Assim, até as terras mais férteis permaneciam inúteis, pois quase ninguém havia ficado para cultivá-las.
Quando a riqueza desapareceu, como já foi observado, a abundância desapareceu juntamente com ela. A abundância de todas as coisas foi substituída pela escassez de todas as coisas.
10. A roda começou então a mover-se dentro da outra roda.
Quando o comércio e a riqueza dos americanos diminuíram, também diminuíram os principais estímulos do orgulho, pois poucas pessoas admiram ou bajulam os pobres.
Abandonados pela maioria de seus admiradores, já não admiravam tanto a si mesmos, especialmente quando descobriram, por meio da experiência, que haviam calculado de maneira profundamente equivocada as próprias forças, que consideravam suficientes para vencer toda oposição.
É verdade que muitos ainda exaltavam a si mesmos, mas outros foram verdadeira e profundamente humilhados.
11. A pobreza e a escassez resultante dela atingiram ainda mais diretamente a raiz do luxo.
Já não existia espaço para excesso desmedido de comida ou roupas.
Não procuravam mais — e frequentemente não conseguiam obter — quantidade suficiente nem mesmo de alimento simples para conservar a vida.
Ficavam satisfeitos quando conseguiam roupas grosseiras capazes de mantê-los limpos e aquecidos.
Desse modo, foram reduzidos praticamente à mesma condição exterior de seus antepassados quando a providência divina os havia levado para aquele país.
Seriam felizes caso também recebessem o mesmo espírito!
12. A pobreza e a necessidade também atingiram a raiz da ociosidade.
Já não era tempo de dizer: “Um pouco para dormir, um pouco para cochilar, um pouco para cruzar os braços e descansar.”
Caso alguém não trabalhasse, tornava-se evidente que não poderia comer.
Todo o esforço que uma pessoa conseguia realizar era pouco para obter as necessidades mais básicas da vida.
De um lado, pouquíssimas coisas permaneciam, porque os próprios exércitos haviam consumido aquilo que encontravam.
Do outro, aquilo que permanecia alcançava preço tão elevado que pouquíssimas pessoas conseguiam comprá-lo.
13. Assim, pela adorável providência de Deus, os principais obstáculos à sua obra eram removidos.
E de maneira tão extraordinária que jamais poderia ter entrado no coração humano imaginá-la!
Esses obstáculos haviam crescido e aumentado continuamente durante muitos anos.
Aquilo que Deus previa que se transformaria no remédio cresceu juntamente com a enfermidade. Somente quando a enfermidade alcançou o ponto mais elevado o remédio começou a atuar.
O imenso comércio, a riqueza e a abundância produziram e alimentaram proporcionalmente o orgulho, o luxo, a ociosidade e a sensualidade.
Enquanto isso, o mesmo comércio, a mesma riqueza e a mesma abundância produziram ou alimentaram o espírito de independência.
Quem imaginaria que essa enfermidade má estabeleceria o fundamento para a cura de todas as outras?
Apesar disso, foi justamente o que aconteceu.
O espírito de independência, já amadurecido e recusando toda limitação, destruía rapidamente o comércio, a riqueza e a abundância que o haviam alimentado.
Com isso, preparava caminho para o feliz retorno da humildade, da moderação, da dedicação ao trabalho e da castidade.
De todo esse mal, o Deus plenamente sábio produz bem indescritível!
Desse modo, “a ira humana”, a ira dos americanos, “resulta em louvor a Deus”, embora num sentido muito diferente daquele imaginado pelo doutor Witherspoon.
14. Não podemos observar como, nessa grande cena da providência, uma roda corresponde exatamente à outra?
O espírito de independência, que nosso poeta chama adequadamente de:
A gloriosa falha dos anjos e dos deuses,
isto é, falando claramente, dos demônios; esse mesmo espírito que tantas pessoas chamam de liberdade é dirigido pela justiça e pela misericórdia de Deus, primeiramente para julgar aqueles pecados clamorosos e depois para curá-los.
Deus os disciplina por meio da pobreza, que chega como homem armado e percorre toda a terra; por meio de escassez como dificilmente havia sido conhecida durante os cem anos anteriores; por meio de necessidade de todas as espécies, incluindo roupas e alimento.
Com qual propósito realiza isso? Certamente para que a misericórdia triunfe sobre o juízo.
Disciplina para corrigir, para que primeiramente reconheçam os pecados — que qualquer pessoa com olhos para ver poderá ler no próprio castigo — e depois sejam conduzidos novamente ao espírito de seus antepassados: espírito de humildade, moderação, dedicação ao trabalho e castidade.
Sim, para que recebam disposição geral para ouvir e acolher a Palavra capaz de salvar sua alma.
“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos!”, exceto na medida em que são revelados em sua Palavra e explicados por sua providência.
15. Dessas coisas aprendemos que as bênçãos espirituais constituem a principal finalidade de Deus em todas essas severas disposições.
Ele deseja que todas cooperem para a destruição do reino de Satanás e a expansão do Reino de seu Filho amado.
Deseja que todas contribuam para a difusão geral da “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”.
Depois que os habitantes dessas províncias forem novamente conduzidos a “buscar primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça”, não poderá existir dúvida de que todas as demais coisas, todas as bênçãos temporais, também lhes serão acrescentadas.
Deus enviará novamente por toda aquela terra, juntamente com as necessidades e comodidades da vida, não a independência — que Wesley considerava pesada maldição para eles e para seus filhos —, mas a liberdade: a liberdade verdadeira e legal, que constitui bênção indescritível.
Acrescentará à liberdade cristã, à libertação do pecado, verdadeira liberdade civil: libertação de toda espécie de opressão e violência ilegal; liberdade para desfrutar a vida, a integridade pessoal e a propriedade; numa palavra, liberdade para ser governado em todas as coisas pelas leis do próprio país.
Segundo a expectativa de Wesley, voltariam a desfrutar da verdadeira liberdade britânica que possuíam antes dessas perturbações: nem menor nem maior do que aquela desfrutada desde o primeiro estabelecimento na América e semelhante àquela desfrutada pelos habitantes da metrópole.
Caso a metrópole tivesse desejado privá-los dessa liberdade, poderia tê-lo feito muito antes. O fato de isso nunca ter acontecido constituía, segundo Wesley, demonstração de que nunca havia existido semelhante intenção.
Deus, porém, permitiu que esse estranho medo de males imaginários se espalhasse entre todo o povo para demonstrar misericórdia a todos e fazer bem a todos, salvando-os da escravidão do pecado e conduzindo-os à “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.