SERMÃO 25
A lei e o evangelho
Quinto dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.
“Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, vim cumprir… Pois eu lhes digo: se a justiça de vocês não exceder em muito a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.”
(Mt 5.17–20, NAA)Antes de ler
Este é um dos sermões mais importantes de Wesley para entender o metodismo, porque nele ele mantém unidos dois valores que muitos separam: a graça e a obediência. De um lado, combate os que acusavam a pregação da lei; do outro, combate os que, em nome do evangelho, dissolviam a lei — o erro chamado antinomismo. Sua tese luminosa: não há contradição entre a lei e o evangelho; o mesmo mandamento, visto como ordem, é lei; visto como promessa, é evangelho. E depois faz um exame incômodo: descreve a justiça real dos fariseus — que era muito maior do que imaginamos — para então perguntar se a nossa a alcança, e como a justiça cristã deve ir além, na pureza do coração.
— Bispo Ildo Mello
1. Entre a multidão de opróbrios que caíram sobre aquele que “era desprezado e rejeitado dos homens”, não podia faltar o de que ele era um mestre de novidades, um introdutor de uma nova religião. Isto podia ser afirmado com mais aparência de verdade porque muitas das expressões que ele usara não eram comuns entre os judeus: ou não as usavam de modo algum, ou não no mesmo sentido, não com significado tão pleno e forte. Acrescente-se a isto que o adorar a Deus “em espírito e em verdade” sempre há de parecer uma nova religião aos que até então nada conheceram senão a adoração exterior, nada senão a “forma de piedade”.
2. E não é improvável que alguns esperassem que fosse assim — que ele estivesse abolindo a antiga religião e trazendo outra, que eles poderiam lisonjear-se de ser um caminho mais fácil para o céu. Mas o nosso Senhor refuta, nestas palavras, tanto as vãs esperanças de uns quanto as caluúnias infundadas de outros. Vou considerá-las na mesma ordem em que estão, tomando cada versículo como um tema distinto do discurso.
I. “Não vim revogar, vim cumprir”
1. A lei ritual, ou cerimonial, entregue por Moisés aos filhos de Israel — contendo todas as prescrições e ordenanças relativas aos antigos sacrifícios e ao serviço do templo —, essa o nosso Senhor de fato veio revogar, dissolver e abolir por completo. Disto dão testemunho todos os apóstolos: não só Barnabé e Paulo, que veementemente resistiram aos que ensinavam que os cristãos deviam “guardar a lei de Moisés” (At 15.5); não só Pedro, que chamou a insistência nisso, na observância da lei ritual, de um “tentar a Deus” e “pôr sobre o pescoço dos discípulos um jugo que nem nossos pais”, diz ele, “nem nós pudemos suportar”; mas todos os apóstolos, presbíteros e irmãos, reunidos de comum acordo (At 15.22), declararam que ordenar-lhes guardar essa lei era “perturbar as suas almas”; e que “pareceu bem ao Espírito Santo” e a eles não impor sobre eles tal fardo (At 15.28). Esse “escrito de dívida das ordenanças” o nosso Senhor apagou, removeu e encravou na sua cruz.
2. Mas a lei moral, contida nos Dez Mandamentos e reforçada pelos profetas, essa ele não a removeu. Não era o propósito da sua vinda revogar parte alguma dela. É uma lei que jamais pode ser quebrada, que permanece firme como a fiel testemunha no céu. A lei moral assenta-se sobre um fundamento inteiramente diferente do da lei cerimonial ou ritual, que foi destinada apenas a uma contenção temporária de um povo desobediente e de dura cerviz; ao passo que esta existe desde o princípio do mundo, estando “escrita não em tábuas de pedra”, mas no coração de todos os filhos dos homens, quando saíram das mãos do Criador. E, ainda que as letras uma vez escritas pelo dedo de Deus estejam agora, em grande medida, apagadas pelo pecado, não podem ser inteiramente apagadas enquanto tivermos alguma consciência do bem e do mal. Cada parte desta lei permanece em vigor sobre toda a humanidade e em todas as eras, não dependendo do tempo, do lugar ou de qualquer outra circunstância sujeita a mudança, mas da natureza de Deus e da natureza do homem, e da relação imutável entre um e outro.
3. “Não vim revogar, vim cumprir.” Alguns entenderam que o nosso Senhor quis dizer: “Vim cumpri-la pela minha inteira e perfeita obediência a ela.” E não se pode duvidar de que ele, nesse sentido, cumpriu cada parte dela. Mas não parece ser isto o que ele pretende aqui, por ser alheio ao propósito do presente discurso. Sem dúvida, o seu sentido neste lugar é (coerentemente com tudo o que precede e o que segue): “Vim estabelecê-la na sua plenitude, a despeito de todas as interpretações dos homens; vim pôr à plena e clara vista tudo o que nela era obscuro; vim declarar o verdadeiro e pleno alcance de cada parte dela, mostrar o comprimento e a largura, toda a extensão de cada mandamento nela contido, e a altura e a profundidade, a inconcebível pureza e espiritualidade dela em todos os seus ramos.”
4. E isto o nosso Senhor amplamente realizou nas partes anterior e posterior do discurso que temos diante de nós, no qual não introduziu no mundo uma nova religião, mas a mesma que existia desde o princípio — uma religião cuja substância é, sem dúvida, tão antiga quanto a criação, sendo coeva com o homem e tendo procedido de Deus no exato momento em que “o homem se tornou alma vivente” (digo a substância, pois algumas circunstâncias dela agora dizem respeito ao homem como criatura caída); uma religião atestada tanto pela Lei quanto pelos Profetas, em todas as gerações seguintes. Contudo, jamais foi tão plenamente explicada, nem tão perfeitamente entendida, até que o seu grande Autor mesmo se dignou a dar à humanidade este comentário autêntico sobre todos os seus ramos essenciais, declarando ao mesmo tempo que ela jamais seria mudada, mas permaneceria em vigor até o fim do mundo.
II. Nem um jota passará
1. “Pois em verdade lhes digo” (prefácio solene, que denota tanto a importância quanto a certeza do que é dito): “até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.” “Um jota”: é, literalmente, nem um iota, a menos considerável das vogais; “ou um til”: um cantinho, ou ponto de uma consoante. É uma expressão proverbial que significa que nenhum mandamento contido na lei moral, nem a menor parte de qualquer um, por insignificante que pareça, jamais será anulado. “Jamais passará da Lei”: a dupla negativa aqui usada reforça o sentido, de modo a não admitir contradição. E a palavra, pode-se observar, não é meramente futura, declarando o que será; mas tem também a força de um imperativo, ordenando o que deve ser. É palavra de autoridade, que exprime a soberana vontade e o poder daquele que falou — daquele cuja palavra é a lei do céu e da terra, e permanece firme para todo o sempre. “Nem um jota ou um til jamais passará, até que o céu e a terra passem”; ou, como se exprime logo em seguida, “até que tudo (ou antes, todas as coisas) se cumpra”, até a consumação de todas as coisas. Não há, portanto, lugar para aquela pobre evasão (com que alguns muito se comprazeram) de que “nenhuma parte da lei passaria até que toda a lei se cumprisse; mas ela foi cumprida por Cristo, e por isso agora deve passar, para que o evangelho se estabeleça”. Não é assim: a palavra “tudo” não significa “toda a lei”, mas “todas as coisas no universo”; assim como o termo “cumprir” não tem referência alguma à lei, mas a todas as coisas no céu e na terra.
2. De tudo isto podemos aprender que não há contrariedade alguma entre a lei e o evangelho; que não há necessidade de a lei passar para que o evangelho se estabeleça. De fato, nenhum dos dois substitui o outro; antes, concordam perfeitamente bem. Sim, as próprias palavras, consideradas sob aspectos diferentes, são partes tanto da lei quanto do evangelho. Se são consideradas como mandamentos, são partes da lei; se como promessas, do evangelho. Assim, “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração”, quando considerado como mandamento, é um ramo da lei; quando visto como promessa, é parte essencial do evangelho — sendo o evangelho nada mais que os mandamentos da lei propostos em forma de promessas. Assim, a pobreza de espírito, a pureza de coração e tudo o mais que é ordenado na santa lei de Deus não são, quando vistos à luz do evangelho, senão outras tantas grandes e preciosas promessas.
3. Há, portanto, a mais estreita conexão que se possa conceber entre a lei e o evangelho. De um lado, a lei continuamente abre caminho para o evangelho e nos aponta para ele; de outro, o evangelho continuamente nos conduz a um cumprimento mais exato da lei. A lei, por exemplo, requer que amemos a Deus, que amemos o próximo, que sejamos mansos, humildes, santos. Sentimos que não somos suficientes para estas coisas; sim, que “para o homem isto é impossível”. Mas vemos uma promessa de Deus, de nos dar esse amor e de nos tornar humildes, mansos e santos; lançamos mão desse evangelho, dessas boas-novas; faz-se conosco segundo a nossa fé; e “a justiça da lei se cumpre em nós”, pela fé que há em Cristo Jesus. Podemos ainda observar que todo mandamento na Sagrada Escritura é apenas uma promessa velada. Pois, por aquela solene declaração — “Esta é a aliança que farei depois daqueles dias, diz o Senhor: porei as minhas leis na mente deles e as escreverei no seu coração” —, Deus se comprometeu a dar tudo o que ordena. Ele nos ordena, então, “orar sem cessar”? “Alegrar-nos sempre”? “Ser santos como ele é santo”? Basta. Ele operará em nós exatamente isto. Far-se-á conosco segundo a sua palavra.
4. Mas, se assim é, não podemos ter dúvida sobre o que pensar dos que, em todas as eras da Igreja, se propuseram a mudar ou substituir alguns mandamentos de Deus, alegando fazê-lo por peculiar direção do seu Espírito. Cristo nos deu aqui uma regra infalível, pela qual julgar todas essas pretensões. O cristianismo, enquanto inclui toda a lei moral de Deus, tanto em forma de mandamento quanto de promessa — se lhe dermos ouvidos —, é destinado por Deus a ser a última de todas as suas dispensações. Não há outra a vir depois desta. Esta há de durar até a consumação de todas as coisas. Por consequência, todas essas novas revelações são de Satanás, e não de Deus; e todas as pretensões a outra dispensação mais perfeita caem por terra. “O céu e a terra passarão, mas esta palavra não passará.”
III. Fazer e ensinar os mandamentos
1. “Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no Reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos céus.” Quem são os que fazem da “pregação da lei” uma marca de opróbrio? Não veem sobre quem esse opróbrio há de cair, sobre que cabeça há de recair, por fim? Quem, com base nisso, nos despreza, despreza aquele que nos enviou. Pois pregou alguma vez algum homem a lei como ele, mesmo quando veio não para condenar, mas para salvar o mundo, quando veio propositadamente para “trazer à luz a vida e a imortalidade, pelo evangelho”? Pode alguém pregar a lei mais expressa, mais rigorosamente do que Cristo o faz nestas palavras? E quem é o que os há de corrigir? Quem é o que instruirá o Filho de Deus a pregar? Quem lhe ensinará um modo melhor de entregar a mensagem que ele recebeu do Pai?
2. “Aquele que violar um destes mandamentos”, ou um dos menores destes mandamentos. “Estes mandamentos”, podemos observar, é um termo usado pelo nosso Senhor como equivalente à Lei, ou à Lei e aos Profetas — o que é a mesma coisa, visto que os profetas nada acrescentaram à lei, mas apenas a declararam, explicaram ou reforçaram, movidos pelo Espírito Santo. “Aquele que violar um destes mandamentos”, especialmente se for feito deliberada ou presunçosamente. Um — pois “aquele que guarda toda a lei, mas” assim “tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos”; a ira de Deus permanece sobre ele tão certamente como se houvesse quebrado todos. De modo que não se concede indulgência a uma paixão predileta; nenhuma reserva para um só ídolo; nenhuma desculpa para abster-se de todos os demais pecados e dar lugar apenas a um pecado de estimação. O que Deus exige é uma obediência inteira; devemos ter o olhar em todos os seus mandamentos; do contrário, perdemos todo o trabalho que empregamos em guardar alguns, e perdemos a nossa pobre alma para todo o sempre. “Um dos menores”, ou um dos menores destes mandamentos: aqui se corta outra desculpa, com a qual muitos, que não podem enganar a Deus, miseravelmente enganam a própria alma. “Este pecado”, diz o pecador, “não é pequeno? Não me relevará o Senhor nesta coisa? Certamente não será rigoroso em observar isto, visto que não ofendo nas questões maiores da lei.” Vã esperança! Falando à maneira dos homens, podemos chamar estes de grandes e aqueles de pequenos mandamentos; mas, na realidade, não o são. Se usarmos a propriedade da fala, não existe pecado pequeno; sendo todo pecado uma transgressão da santa e perfeita lei, e uma afronta à grande Majestade do céu.
3. “E assim ensinar aos homens.” Em certo sentido, pode-se dizer que quem abertamente quebra qualquer mandamento ensina o mesmo aos outros; pois o exemplo fala, e muitas vezes mais alto que o preceito. Nesse sentido, é evidente que todo bêbado declarado é um mestre de embriaguez; todo profanador do sábado ensina constantemente o próximo a profanar o dia do Senhor. Mas não é tudo: um transgressor habitual da lei raramente se contenta em parar aqui; geralmente ensina outros a fazer o mesmo, por palavra e por exemplo, especialmente quando endurece a cerviz e odeia ser repreendido. Tal pecador logo se torna advogado do pecado; defende o que está resolvido a não abandonar; desculpa o pecado que não quer deixar e, assim, diretamente ensina cada pecado que comete. “Será considerado mínimo no Reino dos céus” — isto é, não terá parte alguma nele. É estranho ao Reino dos céus que está na terra; não tem porção naquela herança, nenhuma parte naquela “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”. Nem, por consequência, pode ter parte alguma na glória que há de ser revelada.
4. Mas, se aqueles que assim quebram, e ensinam outros a quebrar, “um dos menores destes mandamentos serão considerados mínimos no Reino dos céus”, não terão parte no Reino de Cristo e de Deus; se até estes serão lançados nas “trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes” — então onde aparecerão aqueles a quem o nosso Senhor principalmente visa nestas palavras: os que, tendo o caráter de Mestres enviados por Deus, contudo quebram eles mesmos os seus mandamentos; sim, e abertamente ensinam outros a fazê-lo, sendo corruptos tanto na vida quanto na doutrina?
5. Estes são de várias espécies. Da primeira são os que vivem em algum pecado deliberado e habitual. Ora, se um pecador comum ensina pelo exemplo, quanto mais um ministro pecador — mesmo que não tente defender, desculpar ou atenuar o seu pecado! Se o faz, é de fato um assassino; sim, o assassino-mor da sua congregação! Povoa as regiões da morte. É o mais escolhido instrumento do príncipe das trevas. Quando parte daqui, “o inferno lá embaixo se agita para vir ao seu encontro”. Nem pode afundar no abismo sem arrastar uma multidão após si.
6. Ao lado destes estão os homens de boa índole, do tipo “bonzinho”: que vivem uma vida cômoda e inofensiva, não se incomodando nem com o pecado exterior nem com a santidade interior; homens que não se distinguem nem num sentido nem no outro, nem pela religião nem pela irreligião; que são muito regulares tanto em público quanto em particular, mas não pretendem ser mais rigorosos do que os vizinhos. Um ministro desse tipo não quebra apenas um, ou uns poucos, dos menores mandamentos de Deus, mas todos os grandes e importantes ramos da sua lei que dizem respeito ao poder da piedade, e todos os que nos requerem “passar em temor o tempo da nossa peregrinação”, “desenvolver a nossa salvação com temor e tremor”, ter os “lombos cingidos e as candeias acesas”, “esforçar-nos por entrar pela porta estreita”. E ensina os homens a fazê-lo, por toda a forma da sua vida e pelo teor geral da sua pregação, que uniformemente tende a embalar no seu agradável sonho os que se imaginam cristãos e não o são; a persuadir todos os que assistem ao seu ministério a continuar dormindo e a repousar. Não admira, portanto, se tanto ele quanto os que o seguem despertarem juntos nas chamas eternas.
7. Mas acima de todos estes, no mais alto grau dos inimigos do evangelho de Cristo, estão os que abertamente e explicitamente “julgam a própria lei” e “falam mal da lei”; que ensinam os homens a quebrar (a dissolver, a desatar a obrigação) não apenas um, seja dos menores, seja dos maiores, mas todos os mandamentos de um só golpe; que ensinam, sem disfarce algum, com todas as letras: “O que fez o nosso Senhor com a lei? Aboliu-a. Há apenas um dever, que é o de crer. Todos os mandamentos são impróprios para o nosso tempo. Por nenhuma exigência da lei está o homem obrigado hoje a dar um só passo, a doar um só centavo, a comer ou omitir um só bocado.” Isto é, de fato, conduzir as coisas com mão altiva; isto é resistir ao nosso Senhor face a face e dizer-lhe que ele não entendia como entregar a mensagem para a qual foi enviado. Ó Senhor, não imputes a eles este pecado! Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!
8. A mais surpreendente de todas as circunstâncias que acompanham esse forte engano é que os que a ele se entregam realmente creem que honram a Cristo ao derrubar a sua lei, e que exaltam o seu ofício enquanto destroem a sua doutrina! Sim, honram-no exatamente como Judas, quando disse “Salve, Mestre!” e o beijou. E ele pode, com igual justiça, dizer a cada um deles: “Com um beijo trais o Filho do Homem?” Não é outra coisa senão traí-lo com um beijo falar do seu sangue e tirar-lhe a coroa; dar pouco valor a qualquer parte da sua lei, sob o pretexto de promover o seu evangelho. Nem, de fato, pode alguém escapar dessa acusação, se prega a fé de tal modo que direta ou indiretamente tenda a pôr de lado qualquer ramo da obediência; que prega Cristo de modo a anular ou enfraquecer, de alguma forma, o menor dos mandamentos de Deus.
9. É impossível, de fato, ter estima demasiadamente alta pela “fé dos eleitos de Deus”. E devemos todos declarar: “Pela graça vocês são salvos, mediante a fé; não vem de obras, para que ninguém se glorie.” Devemos clamar em alta voz a todo pecador penitente: “Creia no Senhor Jesus Cristo, e você será salvo.” Mas, ao mesmo tempo, devemos ter o cuidado de fazer saber a todos que não estimamos fé alguma senão a que atua pelo amor (Gl 5.6); e que não somos salvos pela fé, senão na medida em que somos libertos do poder, tanto quanto da culpa, do pecado. E, quando dizemos “creia, e você será salvo”, não queremos dizer “creia, e você passará do pecado para o céu sem que nenhuma santidade venha no meio, suprindo a fé o lugar da santidade”; mas “creia, e você será santo; creia no Senhor Jesus, e terá, juntas, paz e poder: terá poder daquele em quem crê, para pisar o pecado sob os pés; poder para amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração, e servi-lo com toda a força; terá poder para, ‘com a perseverança no bem, buscar glória, honra e imortalidade’; você fará e ensinará todos os mandamentos de Deus, do menor até o maior; ensiná-los-á pela vida, tanto quanto pelas palavras, e assim ‘será considerado grande no Reino dos céus’.”
IV. A justiça que excede a dos fariseus
1. Qualquer outro caminho que ensinemos para o Reino dos céus, para a glória, a honra e a imortalidade — chame-se caminho da fé, ou por qualquer outro nome —, é, na verdade, o caminho para a perdição. Não trará ao homem paz no fim. Pois assim diz o Senhor: “Eu lhes digo que, se a justiça de vocês não exceder em muito a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.” Os escribas, mencionados tantas vezes no Novo Testamento como alguns dos mais constantes e veementes opositores do nosso Senhor, não eram secretários, ou homens empregados apenas em escrever, como esse termo poderia levar-nos a crer. Nem eram advogados, no nosso sentido comum da palavra, embora o termo grego seja assim traduzido. A sua ocupação não tinha afinidade alguma com a de um advogado entre nós. Eram versados nas leis de Deus, e não nas leis dos homens. Estas eram o seu estudo; era o seu ofício próprio e peculiar ler e expor a Lei e os Profetas, particularmente nas sinagogas. Eram os pregadores ordinários e constantes entre os judeus. De modo que, se atendêssemos ao sentido da palavra original, poderíamos traduzi-la por “os teólogos”. Pois eram estes os homens que faziam da teologia a sua profissão; e eram geralmente (como o seu nome literalmente indica) homens de letras, os de maior renome em erudição que então havia na nação judaica.
2. Os fariseus eram uma seita, ou corpo de homens, muito antiga entre os judeus, originalmente assim chamados de uma palavra hebraica que significa “separar” ou “dividir”. Não que fizessem qualquer separação formal da igreja nacional, ou divisão nela. Distinguiam-se dos outros apenas por um maior rigor de vida, por maior exatidão de conduta. Pois eram zelosos da lei nos pontos mais ínfimos, pagando o dízimo da hortelã, do endro e do cominho; e por isso eram tidos em honra por todo o povo e geralmente estimados os mais santos dos homens. Muitos dos escribas eram da seita dos fariseus. Assim o próprio Paulo, que foi educado para escriba, primeiro na universidade de Tarso e depois em Jerusalém, aos pés de Gamaliel (um dos mais eruditos escribas ou doutores da lei que então havia na nação), declara de si mesmo diante do Conselho: “Sou fariseu, filho de fariseus” (At 23.6); e diante do rei Agripa: “Vivi fariseu, conforme a seita mais severa da nossa religião” (At 26.5). E todo o corpo dos escribas geralmente estimava os fariseus e agia em concerto com eles. Daí encontramos o nosso Salvador tão frequentemente juntando-os, por virem, em muitos aspectos, sob a mesma consideração. Neste lugar, parecem ser mencionados juntos como os mais eminentes professores de religião; os primeiros tidos por mais sábios, os segundos, por mais santos dos homens.
3. Não é difícil determinar o que era realmente “a justiça dos escribas e fariseus”. O nosso Senhor preservou um relato autêntico que um deles fez de si mesmo; e ele é claro e completo ao descrever a própria justiça, não se podendo supor que tenha omitido parte alguma dela. Subiu, de fato, “ao templo para orar”; mas estava tão absorto nas próprias virtudes que se esqueceu do propósito com que viera. Pois é notável que ele propriamente não ora de modo algum: apenas diz a Deus quão sábio e bom ele era. “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens: roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” A sua justiça, portanto, consistia em três partes: primeiro, diz ele, “não sou como os demais homens”, não sou roubador, nem injusto, nem adúltero, nem ainda como este publicano; segundo, “jejuo duas vezes por semana”; e, terceiro, “dou o dízimo de tudo quanto ganho”. “Não sou como os demais homens.” Isto não é coisa pequena. Não é todo homem que pode dizer isto. É como se dissesse: “Não me deixo arrastar por aquela grande torrente, o costume. Não vivo pelo costume, mas pela razão; não pelos exemplos dos homens, mas pela palavra de Deus. Não sou roubador, nem injusto, nem adúltero — por mais comuns que sejam esses pecados, mesmo entre os que são chamados povo de Deus (a extorsão, em particular, uma espécie de injustiça legal, não punível por lei humana alguma, o tirar proveito da ignorância ou da necessidade de outrem, encheu cada canto da terra); nem ainda como este publicano, não culpado de nenhum pecado aberto ou presunçoso; não um pecador exterior, mas um homem justo, honesto, de vida e conduta irrepreensíveis.”
4. “Jejuo duas vezes por semana.” Há mais implicado nisto do que talvez percebamos de início. Todos os fariseus mais rigorosos observavam os jejuns semanais, a saber, toda segunda e quinta-feira. No primeiro dia jejuavam em memória de Moisés ter recebido, nesse dia (como ensinava a sua tradição), as duas tábuas de pedra escritas pelo dedo de Deus; no segundo, em memória de ele as ter atirado das mãos, ao ver o povo dançando em torno do bezerro de ouro. Nesses dias não tomavam alimento algum até as três da tarde, a hora em que começavam a oferecer o sacrifício vespertino no templo. Até essa hora, era seu costume permanecer no templo, em algum dos seus cantos, salas ou átrios, para estarem prontos a assistir a todos os sacrifícios e a participar de todas as orações públicas. O tempo intermediário costumavam empregar em parte em súplicas particulares a Deus, em parte em perscrutar as Escrituras, lendo a Lei e os Profetas e meditando neles. Tudo isto está implicado em “jejuo duas vezes por semana”, o segundo ramo da justiça de um fariseu.
5. “Dou o dízimo de tudo quanto ganho.” Isto os fariseus faziam com a máxima exatidão. Não excetuavam a coisa mais insignificante; não, nem a hortelã, o endro e o cominho. Não retinham a menor parte do que criam pertencer propriamente a Deus, mas davam um dízimo completo de toda a sua substância anualmente, e de todo o seu aumento, qualquer que fosse. Sim, os fariseus mais rigorosos (como muitas vezes observaram os versados nos antigos escritos judaicos), não contentes em dar um dízimo da sua substância a Deus nos seus sacerdotes e levitas, davam outro dízimo a Deus nos pobres, e isso continuamente. Davam em esmolas a mesma proporção de tudo o que tinham que costumavam dar em dízimos. E isto igualmente ajustavam com a máxima exatidão, para não reter parte alguma, mas render plenamente a Deus as coisas que eram de Deus, como assim consideravam. De modo que, no todo, davam, de ano em ano, uma quinta parte inteira de tudo o que possuíam.
6. Esta era “a justiça dos escribas e fariseus”; uma justiça que, em muitos aspectos, ia muito além da ideia que muitos costumam ter dela. Mas talvez se diga: “Era tudo falso e fingido, pois eram todos um bando de hipócritas.” Alguns deles, sem dúvida, eram; homens que realmente não tinham religião alguma, nenhum temor de Deus ou desejo de agradá-lo; que não tinham preocupação com a honra que vem de Deus, mas somente com o louvor dos homens. E são estes que o nosso Senhor tão severamente condena e tão duramente repreende, em muitas ocasiões. Mas não devemos supor que, porque muitos fariseus eram hipócritas, todos o fossem. Nem, de fato, a hipocrisia é, de modo algum, essencial ao caráter de um fariseu. Não é esta a marca distintiva da sua seita. É antes esta, segundo a descrição do nosso Senhor: “Confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros.” Este é o seu genuíno distintivo. Mas o fariseu desse tipo não pode ser um hipócrita. Ele há de ser, no sentido comum, sincero; do contrário, não poderia “confiar em si mesmo, crendo que é justo”. O homem que aqui se recomendava a Deus sem dúvida se julgava justo. Por consequência, não era hipócrita; não tinha consciência de nenhuma insinceridade em si. Ele falava a Deus exatamente o que pensava, a saber, que era muito melhor do que os outros homens. Mas o exemplo de Paulo, ainda que não houvesse outro, basta para pôr isto fora de toda dúvida. Ele podia dizer não só, quando cristão: “Nisto me esforço por ter sempre uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens” (At 24.16); mas até a respeito do tempo em que era fariseu: “Irmãos, tenho vivido diante de Deus com toda a boa consciência até ao dia de hoje” (At 23.1). Era, portanto, sincero tanto quando fariseu quanto quando cristão. Não era mais hipócrita quando perseguia a Igreja do que quando pregava a fé que outrora perseguira. Acrescente-se, então, isto à “justiça dos escribas e fariseus”: uma sincera crença de que eram justos e de que, em tudo, “prestavam serviço a Deus”.
7. E, contudo, “se a justiça de vocês”, diz o nosso Senhor, “não exceder em muito a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Declaração solene e de peso, que convém a todos os que são chamados pelo nome de Cristo considerar séria e profundamente. Mas, antes de indagar como a nossa justiça pode exceder a deles, examinemos se, no presente, chegamos sequer a igualá-la. Primeiro, um fariseu “não era como os demais homens”. Nas coisas exteriores, era singularmente bom. Somos nós assim? Ousamos ser singulares em algo? Não nadamos antes com a correnteza? Não dispensamos muitas vezes a religião e a razão juntas, por não querermos parecer diferentes? Não temos, muitas vezes, mais medo de estar fora da moda do que de estar fora do caminho da salvação? Temos coragem de remar contra a maré, de ir na contramão do mundo, de “obedecer a Deus antes que aos homens”? Do contrário, o fariseu nos deixa para trás já no primeiro passo. Mas, para nos aproximarmos mais: podemos usar diante de Deus o seu primeiro argumento, que é, em substância, “não faço mal algum; não vivo em pecado exterior; não faço nada por que o meu próprio coração me condene”? Não? Tem certeza disso? Você vive em nenhuma prática por que o seu próprio coração o condene? Se você não é adúltero, se não é impuro, em palavra ou obra, não é injusto? A grande medida da justiça, tanto quanto da misericórdia, é: “Faça aos outros o que quer que eles lhe façam.” Você anda por essa regra? Nunca faz a alguém o que não quereria que lhe fizessem? Aliás, você não é grosseiramente injusto? Não é um extorsionário? Não tira proveito da ignorância ou da necessidade de alguém, seja no comprar, seja no vender? Suponha que você esteja no comércio: você exige, você recebe, não mais do que o valor real do que vende? Você exige do ignorante o mesmo que do entendido — de uma criancinha o mesmo que de um comerciante experiente? Se não, por que o seu coração não o condena? Você é um extorsionário descarado! Não exige mais do que o preço usual das mercadorias de quem está em premente necessidade, de quem precisa ter, e sem demora, aquilo que só você pode fornecer? Se exige, isto também é pura extorsão. De fato, você não chega à justiça de um fariseu.
8. Um fariseu, segundo, usava todos os meios de graça. Como jejuava muito e frequentemente, duas vezes por semana, assim assistia a todos os sacrifícios. Era constante na oração pública e particular, e na leitura e audição das Escrituras. Você vai tão longe quanto isto? Você jejua muito e frequentemente — duas vezes por semana? Temo que não! Ao menos uma vez? Você jejua duas vezes por ano? Receio que alguns entre nós não possam alegar nem isto! Você não negligencia oportunidade alguma de assistir e participar do sacrifício cristão? Quantos há que se dizem cristãos e, contudo, são totalmente descuidados dele — que não comem daquele pão nem bebem daquele cálice por meses, talvez anos a fio? Você, todo dia, ou ouve as Escrituras, ou as lê e medita nelas? Une-se à grande congregação em oração, diariamente, se tem oportunidade; se não, sempre que pode, particularmente naquele dia que você “lembra de santificar”? Esforça-se por “criar oportunidades”? Alegra-se quando lhe dizem “vamos à casa do Senhor”? É zeloso e diligente na oração particular? Não deixa passar dia algum sem ela? Ou antes, alguns de vocês não estão tão longe de gastar nela (como o fariseu) várias horas num só dia, que julgam uma hora mais que suficiente, se não excessiva? Você gasta uma hora por dia, ou por semana, orando ao seu Pai que está em secreto? Sim, uma hora por mês? Já passou uma hora inteira em oração particular desde que nasceu? Ah, pobre cristão! Não se levantará o fariseu no juízo contra você e o condenará? A justiça dele está tão acima da sua quanto o céu está acima da terra!
9. O fariseu, terceiro, pagava dízimos e dava esmolas de tudo o que possuía. E de modo tão amplo! De sorte que era (como dizemos) “um homem que fazia muito bem”. Chegamos a igualá-lo aqui? Qual de nós é tão abundante quanto ele foi em boas obras? Qual de nós dá um quinto de toda a sua substância a Deus, tanto do capital quanto do aumento? Quem de nós, de (suponha) cem por ano, dá vinte a Deus e aos pobres; de cinquenta, dez; e assim em maior ou menor proporção? Quando chegará a nossa justiça, no uso de todos os meios de graça, na assistência a todas as ordenanças de Deus, no evitar o mal e no fazer o bem, a igualar sequer a justiça dos escribas e fariseus?
10. Ainda que a igualasse, de que aproveitaria? “Pois eu lhes digo: se a justiça de vocês não exceder em muito a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.” Mas como pode ela exceder a deles? Em que a justiça de um cristão excede a de um escriba ou fariseu? A justiça cristã excede a deles, primeiro, na sua extensão. A maioria dos fariseus, embora fossem rigorosamente exatos em muitas coisas, sentiam-se autorizados, pelas tradições dos anciãos, a dispensar-se de outras de igual importância. Assim, eram extremamente pontuais em guardar o quarto mandamento — não esfregariam sequer uma espiga no sábado —, mas não o eram de modo algum em guardar o terceiro, fazendo pouco caso do juramento leviano, ou até falso. De modo que a sua justiça era parcial; ao passo que a justiça de um verdadeiro cristão é universal. Ele não observa um, ou algumas partes, da lei de Deus e negligencia o resto; antes, guarda todos os seus mandamentos, ama a todos, valoriza-os acima do ouro e das pedras preciosas.
11. Pode ser, de fato, que alguns dos escribas e fariseus se esforçassem por guardar todos os mandamentos e, por consequência, fossem, quanto à justiça da lei, isto é, segundo a letra dela, irrepreensíveis. Mas, ainda assim, a justiça de um cristão excede toda essa justiça de um escriba ou fariseu, por cumprir o espírito, tanto quanto a letra, da lei; por uma obediência tanto interior quanto exterior. Nisto, na sua espiritualidade, não admite comparação. Este é o ponto que o nosso Senhor tão amplamente provou em todo o teor deste discurso. A justiça deles era apenas externa; a justiça cristã está no homem interior. O fariseu “limpava o exterior do copo e do prato”; o cristão é limpo por dentro. O fariseu trabalhava por apresentar a Deus uma boa vida; o cristão, um coração santo. Um sacudia as folhas, talvez os frutos, do pecado; o outro “põe o machado à raiz”, por não se contentar com a forma exterior da piedade, por mais exata que seja, a menos que a vida, o Espírito, o poder de Deus para a salvação, sejam sentidos no mais íntimo da alma. Assim, o não fazer mal, o fazer o bem, o assistir às ordenanças de Deus (a justiça de um fariseu) são todos externos; ao passo que, ao contrário, a pobreza de espírito, o pranto, a mansidão, a fome e sede de justiça, o amor ao próximo e a pureza de coração (a justiça de um cristão) são todos internos. E até a pacificação (ou o fazer o bem) e o sofrer por causa da justiça só têm direito às bênçãos a elas anexadas na medida em que implicam essas disposições interiores, em que delas brotam, as exercem e as confirmam. De modo que, enquanto a justiça dos escribas e fariseus era apenas externa, pode-se dizer, em certo sentido, que a justiça de um cristão é apenas interna: sendo todas as suas ações e sofrimentos como nada em si mesmos, e estimados por Deus somente pelas disposições de que brotam.
12. Quem quer que você seja, portanto, que traz o santo e venerável nome de cristão, cuide, primeiro, de que a sua justiça não fique aquém da justiça dos escribas e fariseus. Não seja você “como os demais homens”! Ouse ficar sozinho, ser “bom singularmente, contra o exemplo”. Se você “seguir a multidão” de algum modo, que seja apenas para “não fazer o mal”. Não sejam o costume ou a moda o seu guia, mas a razão e a religião. A prática dos outros nada é para você: “Cada um dará conta de si mesmo a Deus.” De fato, se você pode salvar a alma de outro, salve; mas ao menos salve uma — a sua. Não ande na estrada da morte por ela ser larga e muitos andarem nela. Aliás, por esse próprio sinal você pode reconhecê-la. É larga, movimentada e na moda a estrada em que você agora anda? Então ela infalivelmente conduz à perdição. Ó, não seja você “condenado por companhia”! Aparte-se do mal; fuja do pecado como da face de uma serpente! Ao menos, não faça mal algum. “Aquele que pratica o pecado é do diabo.” Não seja você achado nesse número. Quanto aos pecados exteriores, certamente a graça de Deus é, ainda agora, suficiente para você. “Nisto”, ao menos, “esforce-se por ter uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens”. Segundo, não fique a sua justiça aquém da deles quanto às ordenanças de Deus. Se o seu trabalho ou a sua força física não permitir jejuar duas vezes por semana, ainda assim trate fielmente com a sua própria alma e jejue com a frequência que as suas forças permitirem. Não omita oportunidade alguma, pública ou privada, de derramar a sua alma em oração. Não negligencie ocasião alguma de comer daquele pão e beber daquele cálice, que é a comunhão do corpo e do sangue de Cristo. Seja diligente em perscrutar as Escrituras: leia quanto puder e medite nelas de dia e de noite. Alegre-se em abraçar toda oportunidade de ouvir “a palavra da reconciliação” anunciada pelos “embaixadores de Cristo”. No uso de todos os meios de graça, numa assídua e cuidadosa participação em cada ordenança de Deus, viva à altura (ao menos até poder ir além) da “justiça dos escribas e fariseus”. Terceiro, não fique aquém de um fariseu no fazer o bem. Dê esmolas de tudo o que possui. Há algum faminto? Alimente-o. Está com sede? Dê-lhe de beber. Nu? Cubra-o com uma veste. Se você tem os bens deste mundo, não limite a sua beneficência a uma proporção mesquinha. Seja misericordioso até o limite do seu poder. Por que não, assim como este fariseu? Agora, “faça amigos”, enquanto é tempo, “por meio das riquezas da injustiça”, para que, quando estas faltarem, quando este tabernáculo terreno se desfizer, “eles o recebam nas moradas eternas”.
13. Mas não pare aqui. Que a sua “justiça exceda a justiça dos escribas e fariseus”. Não se contente em “guardar toda a lei e tropeçar num só ponto”. Guarde firmemente todos os mandamentos dele, e “todo caminho de falsidade deteste por completo”. Faça todas as coisas que ele ordenou, e isso com toda a sua força. Você pode todas as coisas em Cristo, que o fortalece; ainda que, sem ele, nada possa fazer. Acima de tudo, que a sua justiça exceda a deles na pureza e na espiritualidade dela. O que é para você a mais exata forma de religião, a mais perfeita justiça exterior? Vá mais alto e mais fundo do que tudo isto! Seja a sua religião a religião do coração. Seja você pobre de espírito; pequeno, humilde, desprezível e vil aos seus próprios olhos; maravilhado e humilhado até o pó pelo “amor de Deus, que está em Cristo Jesus, seu Senhor”! Seja sério: seja toda a corrente dos seus pensamentos, palavras e obras tal como flui da mais profunda convicção de que você está à beira do grande abismo — você e todos os filhos dos homens —, prestes a cair, ou na glória eterna, ou nas chamas eternas! Seja manso: encha-se a sua alma de brandura, gentileza, paciência e longanimidade para com todos os homens; ao mesmo tempo que tudo o que há em você tem sede de Deus, do Deus vivo, ansiando por despertar à sua semelhança e ficar satisfeito com ela. Seja você um amante de Deus e de toda a humanidade. Nesse espírito, faça e sofra todas as coisas. Assim “exceda a justiça dos escribas e fariseus”, e você “será considerado grande no Reino dos céus”.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.