SERMÃO 27
O jejum
Sétimo dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.
“Quando jejuarem, não se mostrem contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto, com o fim de parecerem aos homens que jejuam… Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto… e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.”
(Mt 6.16–18, NAA)Antes de ler
Poucos temas foram tão distorcidos quanto o jejum — uns o exaltaram além de toda medida, outros o desprezaram por completo. Wesley, com o equilíbrio que lhe é típico, mostra que a verdade está no meio: o jejum não é o fim nem é coisa nenhuma; é um precioso meio de graça, ordenado por Deus. Aqui ele expõe, com ordem admirável, a natureza e os graus do jejum, as razões e os fins (do luto pelo pecado à ajuda na oração), responde às objeções mais plausíveis e ensina como jejuar de forma agradável a Deus — sempre unindo o jejum à oração e à esmola, e sempre com o olhar posto na graça, e não no mérito.
— Bispo Ildo Mello
1. Tem sido empenho de Satanás, desde o princípio do mundo, separar o que Deus uniu; apartar a religião interior da exterior; pôr uma em desacordo com a outra. E nisto ele obteve não pequeno sucesso entre os que “ignoravam as suas maquinações”. Muitos, em todas as eras, tendo zelo por Deus, mas não com entendimento, apegaram-se estritamente à “justiça da lei”, ao cumprimento dos deveres exteriores, mas, ao mesmo tempo, foram totalmente descuidados da justiça interior, “a justiça que vem de Deus, pela fé”. E muitos correram para o extremo oposto, desprezando todos os deveres exteriores, talvez até “falando mal da lei e julgando a lei”, na medida em que ela ordena o cumprimento deles.
2. É por essa mesma artimanha de Satanás que a fé e as obras foram tão frequentemente postas em desacordo uma com a outra. E muitos que tinham verdadeiro zelo por Deus caíram, por um tempo, na cilada, de um lado ou de outro. Alguns exaltaram a fé a ponto de excluir totalmente as boas obras, não só de serem causa da nossa justificação (pois sabemos que o homem é justificado gratuitamente pela redenção que há em Jesus), mas de serem o fruto necessário dela; sim, de terem qualquer lugar na religião de Jesus Cristo. Outros, ansiosos por evitar esse perigoso erro, correram longe demais no sentido contrário, ou sustentando que as boas obras eram a causa, ao menos a condição prévia, da justificação, ou falando delas como se fossem tudo em tudo, a religião inteira de Jesus Cristo.
3. Do mesmo modo, o fim e os meios da religião foram postos em desacordo um com o outro. Alguns homens bem-intencionados pareceram colocar toda a religião em assistir às orações da Igreja, receber a Ceia do Senhor, ouvir sermões e ler livros de piedade, negligenciando, entretanto, o fim de tudo isso: o amor de Deus e do próximo. E isso mesmo confirmou outros na negligência, senão no desprezo, das ordenanças de Deus — tão miseravelmente abusadas para minar e derrubar o próprio fim que foram destinadas a estabelecer.
4. Mas, de todos os meios de graça, quase não há nenhum a respeito do qual os homens tenham corrido a maiores extremos do que aquele de que o nosso Senhor fala nas palavras acima citadas — refiro-me ao jejum religioso. Como alguns o exaltaram além de toda Escritura e razão; e outros o desprezaram por completo, como que vingando-se, subestimando-o tanto quanto os primeiros o superestimaram! Aqueles falaram dele como se fosse tudo em tudo; se não o próprio fim, ao menos infalivelmente ligado a ele. Estes, como se fosse simplesmente nada, um trabalho infrutífero, sem relação alguma com ele. Ao passo que é certo que a verdade está entre os dois. Não é tudo, nem tampouco é nada. Não é o fim, mas é um precioso meio para ele — um meio que o próprio Deus ordenou, e no qual, portanto, quando é devidamente usado, ele certamente nos dará a sua bênção. Para pôr isto na luz mais clara, procurarei mostrar, primeiro, qual é a natureza do jejum e quais os seus vários tipos e graus; segundo, quais são as razões, os fundamentos e os fins dele; terceiro, como podemos responder às objeções mais plausíveis contra ele; e, quarto, de que maneira ele deve ser praticado.
I. A natureza e os graus do jejum
1. Quanto à natureza dele, todos os escritores inspirados, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, tomam a palavra “jejuar” num só sentido: não comer, abster-se de alimento. Isto é tão claro que seria trabalho perdido citar as palavras de Davi, de Neemias, de Isaías e dos profetas que se seguiram, ou do nosso Senhor e dos seus apóstolos; todos concordando nisto: que jejuar é não comer por um tempo prescrito.
2. A isto os antigos costumavam juntar outras circunstâncias, que não tinham conexão necessária com ele. Tais eram o descuido no vestir; o deixar de lado os ornamentos que costumavam usar; o vestir-se de luto; o lançar cinza sobre a cabeça; ou usar pano de saco junto à pele. Mas encontramos pouca menção, no Novo Testamento, de qualquer dessas circunstâncias indiferentes. Nem parece que os cristãos das eras mais puras lhes atribuíssem importância, ainda que alguns penitentes as usassem voluntariamente, como sinais exteriores de humilhação interior. Muito menos os apóstolos, ou os cristãos contemporâneos deles, feriam ou dilaceravam a própria carne: tal disciplina não era imprópria dos sacerdotes ou adoradores de Baal. Os deuses dos gentios não eram senão demônios; e sem dúvida era agradável ao seu deus-demônio quando os seus sacerdotes “clamavam em alta voz e se retalhavam, segundo o seu costume, até correr sobre eles o sangue” (1Rs 18.28). Mas não pode ser agradável, nem convém aos seguidores daquele que “não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-la”.
3. Quanto aos graus, ou medidas do jejum, temos exemplos de alguns que jejuaram vários dias seguidos. Assim Moisés, Elias e o nosso bendito Senhor, sendo dotados de força sobrenatural para esse fim, jejuaram, sem interrupção, “quarenta dias e quarenta noites”. Mas o tempo de jejum mais frequentemente mencionado na Escritura é um dia, da manhã até a tarde. E este era o jejum comumente observado entre os antigos cristãos. Além destes, tinham também os seus meios-jejuns, na quarta e na sexta-feira, ao longo do ano, nos quais não tomavam alimento até as três da tarde, hora em que voltavam do culto público.
4. Muito relacionado a isto está o que a nossa Igreja parece designar particularmente pelo termo abstinência, que pode ser usada quando não podemos jejuar por completo, por causa de doença ou fraqueza física. É o comer pouco; o abster-se em parte; o tomar uma quantidade menor de alimento do que o usual. Não me lembro de exemplo bíblico disto. Mas tampouco posso condená-lo, pois a Escritura não o faz. Pode ter a sua utilidade e receber de Deus uma bênção.
5. A forma mais baixa de jejum, se é que se pode chamá-la assim, é o abster-se de alimentos agradáveis. Disto temos vários exemplos na Escritura, além do de Daniel e dos seus companheiros, que, por uma consideração peculiar — a saber, para “não se contaminarem com a porção das iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia” —, pediram e obtiveram, do chefe dos eunucos, legumes para comer e água para beber (Dn 1.8). Talvez de uma imitação equivocada disto tenha surgido o antiquíssimo costume de abster-se de carne e vinho nos tempos reservados ao jejum e à abstinência — se é que não nasceu antes da suposição de que estes eram os alimentos mais agradáveis, e da crença de que era próprio usar o que fosse menos agradável nesses tempos de solene aproximação a Deus.
6. Na igreja judaica havia alguns jejuns fixos. Tal era o jejum do sétimo mês, ordenado pelo próprio Deus para ser observado por todo o Israel sob a mais severa pena: “Falou o Senhor a Moisés: no décimo dia deste sétimo mês, haverá o Dia da Expiação; e vocês afligirão a sua alma… para fazer expiação por vocês diante do Senhor, seu Deus. Pois toda alma que não se afligir nesse mesmo dia será eliminada do seu povo” (Lv 23.26–29). Em épocas posteriores, vários outros jejuns fixos foram acrescentados a estes. Assim, o profeta Zacarias menciona o jejum “não só do sétimo, mas também do quarto, do quinto e do décimo mês” (Zc 8.19). Na antiga Igreja cristã havia igualmente jejuns fixos, anuais e semanais. Do primeiro tipo era o que antecedia a Páscoa, observado por alguns por quarenta e oito horas; por outros, por uma semana inteira; por muitos, por duas semanas — não tomando alimento senão à noite de cada dia. Do segundo tipo, os da quarta e sexta-feira, observados (como escreve Epifânio, registrando-o como fato inegável) “em toda a terra habitada”, ao menos em todo lugar onde houvesse cristãos. Além dos fixos, em toda nação que teme a Deus sempre houve jejuns ocasionais, marcados de tempos em tempos, conforme as circunstâncias particulares de cada um requeressem. Assim, quando “os filhos de Moabe e de Amom vieram contra Josafá para a guerra, Josafá dispôs-se a buscar o Senhor e proclamou jejum em todo o Judá” (2Cr 20.1, 3). E, de modo semelhante, pessoas em particular, que atentam nos seus caminhos e desejam andar humilde e intimamente com Deus, acharão frequente ocasião para tempos privados de assim afligir a alma diante do seu Pai que está em secreto. E é a esse tipo de jejum que as orientações aqui dadas principalmente se referem.
II. As razões e os fins do jejum
1. Primeiro, os homens que estão sob fortes emoções, tomados de alguma paixão veemente, como a tristeza ou o medo, muitas vezes ficam nela absortos e até se esquecem de comer o seu pão. Em tais tempos, dão pouca atenção ao alimento, nem sequer ao necessário para sustentar a natureza, muito menos a qualquer iguaria ou variedade, ocupados que estão com pensamentos bem diferentes. Assim, quando Saul disse “estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se desviou de mim”, registra-se que “não tinha comido pão todo aquele dia, nem toda aquela noite” (1Sm 28.15, 20). Assim, os que estavam no navio com Paulo, “batidos por não pequena tempestade, e tirada toda a esperança de salvar-se”, “continuaram em jejum, nada tendo comido” — nenhuma refeição regular — por catorze dias (At 27.33). E assim Davi, e todos os homens que estavam com ele, quando souberam que o povo havia fugido da batalha, e que muitos haviam caído mortos, e que Saul e Jônatas também haviam morrido, “prantearam, choraram e jejuaram até a tarde, por Saul e por Jônatas, e pela casa de Israel” (2Sm 1.12).
2. Eis, então, o fundamento natural do jejum. Alguém que está sob profunda aflição, dominado pela tristeza por causa do pecado e por um forte temor da ira de Deus, sem regra alguma, sem saber ou considerar se é um mandamento de Deus ou não, “esquece de comer o seu pão”, abstém-se não só do alimento agradável, mas até do necessário — como Paulo, que, depois de conduzido a Damasco, “esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu” (At 9.9). Quão fortemente exprime isto a nossa Igreja na primeira parte da Homilia sobre o Jejum: “Quando os homens sentem em si o pesado fardo do pecado, veem que a condenação é o seu salário e contemplam, com os olhos da mente, o horror do inferno, tremem, estremecem e são interiormente tocados de tristeza de coração, e não podem senão acusar-se, abrir a sua dor ao Deus Todo-Poderoso e clamar a ele por misericórdia. Feito isto seriamente, a sua mente fica de tal modo ocupada, em parte com tristeza e abatimento, em parte com um ardente desejo de ser livre deste perigo do inferno e da condenação, que todo desejo de comida e bebida se põe de lado, e um enfado de todas as coisas e prazeres mundanos toma o seu lugar.”
3. Outra razão, ou fundamento do jejum, é esta: muitos dos que agora temem a Deus estão profundamente conscientes de quão frequentemente pecaram contra ele pelo abuso destas coisas lícitas. Sabem quanto pecaram pelo excesso de comida; quanto tempo transgrediram a santa lei de Deus quanto à temperança, se não também quanto à sobriedade; como cederam aos apetites sensuais, talvez até prejudicando a saúde do corpo, e certamente com não pequeno dano à alma. Pois com isso continuamente alimentavam e aumentavam aquela leviana insensatez, aquela frivolidade da mente, aquela leveza de ânimo, aquela alegre desatenção às coisas de mais profundo interesse, aquela tontura e descuido de espírito, que não eram senão uma embriaguez da alma, e que estupidificavam todas as suas mais nobres faculdades, tanto quanto o excesso de vinho ou de bebida forte. Para remover, portanto, o efeito, removem a causa. Mantêm-se à distância de todo excesso. Abstêm-se, tanto quanto possível, do que quase os precipitou na perdição eterna. Muitas vezes se abstêm por completo; sempre têm o cuidado de ser sóbrios e temperantes em tudo.
4. Lembram-se igualmente de como a fartura de pão aumentava não só o descuido e a leveza de espírito, mas também os desejos insensatos e sem santidade, sim, os afetos impuros e vis. E isto a experiência põe fora de toda dúvida. Mesmo uma sensualidade fina e regrada continuamente sensualiza a alma e a rebaixa ao nível dos animais que perecem. Não se pode exprimir que efeito a variedade e o requinte da comida têm sobre a mente, tanto quanto sobre o corpo, tornando-a pronta para todo prazer dos sentidos, assim que a oportunidade a convide. Portanto, também por esse motivo, todo homem sábio refreará a sua alma e a manterá em baixa; desmamá-la-á cada vez mais de todas aquelas indulgências dos apetites inferiores, que naturalmente tendem a acorrentá-la à terra e a poluí-la, tanto quanto a rebaixá-la. Eis outra razão perpétua para jejuar: remover o alimento da concupiscência e da sensualidade, retirar os incentivos dos desejos insensatos e nocivos, dos afetos vis e vãos.
5. Talvez não devamos omitir de todo (embora não sei se seria acertado dar-lhe grande peso) outra razão para o jejum, sobre a qual alguns homens de bem insistiram amplamente: a de castigar-se por ter abusado dos bons dons de Deus, abstendo-se por vezes deles por completo; exercendo assim uma espécie de santa vingança contra si mesmos, pela insensatez e ingratidão passadas, ao converterem em ocasião de queda as coisas que deveriam ter sido para a sua saúde. Supõem que Davi tinha isto em vista quando disse: “Chorei e castiguei a minha alma com jejum”; e Paulo, quando menciona “que desforra” a tristeza segundo Deus produziu nos coríntios.
6. Uma quinta razão, e de mais peso, para o jejum é que ele é uma ajuda à oração, particularmente quando reservamos porções maiores de tempo para a oração particular. É então, especialmente, que Deus muitas vezes se compraz em elevar a alma dos seus servos acima de todas as coisas da terra, e às vezes em arrebatá-los, por assim dizer, ao terceiro céu. E é principalmente como ajuda à oração que ele tem sido tão frequentemente achado um meio, na mão de Deus, de confirmar e aumentar não uma só virtude, não só a castidade (como alguns tolamente imaginaram, sem fundamento algum na Escritura, na razão ou na experiência), mas também a seriedade de espírito, o fervor, a sensibilidade e a ternura de consciência, a morte para o mundo e, por consequência, o amor de Deus e todo afeto santo e celestial.
7. Não que haja conexão natural ou necessária entre o jejum e as bênçãos que Deus por ele concede. Mas ele terá misericórdia de quem tiver misericórdia; concederá o que lhe parecer bom pelos meios que lhe aprouver estabelecer. E ele, em todas as eras, estabeleceu este como meio de desviar a sua ira e de obter as bênçãos de que, de tempos em tempos, temos necessidade. Quão poderoso meio é este para desviar a ira de Deus, podemos aprender do notável exemplo de Acabe. “Ninguém houve como Acabe, que se vendeu” — que se entregou inteiramente, como um escravo comprado a dinheiro — “para fazer o que era mau.” Contudo, quando ele “rasgou as suas vestes, cobriu de pano de saco o corpo, jejuou e andava humildemente, veio a palavra do Senhor a Elias, dizendo: Não viste que Acabe se humilha diante de mim? Por isso que se humilha, não trarei o mal nos seus dias.” Foi para este fim — desviar a ira de Deus — que Daniel buscou a Deus “com jejum, pano de saco e cinza”. Isto aparece por todo o teor da sua oração, particularmente pela solene conclusão dela: “Ó Senhor, segundo toda a tua justiça”, ou misericórdias, “aparte-se a tua ira do teu santo monte. Ouve a oração do teu servo e faze resplandecer o teu rosto sobre o teu santuário assolado. Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende e age, por amor de ti mesmo” (Dn 9.3, 16–19).
8. Mas não é só do povo de Deus que aprendemos, quando a sua ira se move, a buscá-lo por jejum e oração, mas até dos gentios. Quando Jonas declarou “ainda quarenta dias, e Nínive será destruída”, o povo de Nínive proclamou jejum e se vestiu de pano de saco, desde o maior até o menor. “Pois o rei de Nínive se levantou do trono, tirou de si a capa, cobriu-se de pano de saco e se assentou sobre a cinza. E fez proclamar por toda Nínive: Nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma; não comam, nem bebam água” (não que os animais tivessem pecado ou pudessem arrepender-se, mas para que, pelo exemplo deles, o homem fosse admoestado, considerando que, por causa do seu pecado, a ira de Deus pairava sobre todas as criaturas); “quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?” E o seu esforço não foi vão. O furor da ira de Deus se desviou deles. “Viu Deus as suas obras” (os frutos daquele arrependimento e fé que ele havia operado neles pelo seu profeta); “e Deus se arrependeu do mal que dissera lhes faria, e não o fez” (Jn 3.4–10).
9. E é um meio não só de desviar a ira de Deus, mas também de obter qualquer bênção de que tenhamos necessidade. Assim, quando as outras tribos foram feridas diante dos benjamitas, “todos os filhos de Israel subiram à casa de Deus, choraram e jejuaram naquele dia até a tarde”; e então o Senhor disse: “Suba” de novo, “pois amanhã os entregarei nas suas mãos” (Jz 20.26–28). Assim Samuel reuniu todo o Israel, quando estavam sob o cativeiro dos filisteus, “e jejuaram naquele dia” diante do Senhor; e, quando “os filisteus se aproximaram para a batalha contra Israel, o Senhor trovejou” sobre eles “com grande estrondo, e os aterrou; e foram feridos diante de Israel” (1Sm 7.6, 10). Assim Esdras: “Proclamei ali um jejum, junto ao rio Aava, para nos humilharmos diante do nosso Deus, a fim de lhe pedir caminho seguro para nós, para os nossos filhos; e ele atendeu às nossas súplicas” (Ed 8.21, 23). Assim Neemias: “Jejuei e orei perante o Deus dos céus e disse: dá bom êxito, hoje, ao teu servo e concede-lhe misericórdia perante este homem”; e Deus lhe concedeu misericórdia perante o rei (Ne 1.4–11).
10. De modo semelhante, os apóstolos sempre juntavam o jejum à oração quando desejavam a bênção de Deus sobre algum empreendimento importante. Assim lemos: “Na igreja de Antioquia havia profetas e mestres. Servindo eles ao Senhor e jejuando” (sem dúvida buscando direção neste mesmo assunto), “disse o Espírito Santo: Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, tendo” de novo “jejuado e orado, e imposto sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.1–3). Assim também o próprio Paulo e Barnabé, como lemos no capítulo seguinte, ao “voltarem a Listra, Icônio e Antioquia, fortalecendo a alma dos discípulos, e havendo-lhes constituído presbíteros em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor” (At 14.23). Sim, que se hão de obter, no uso deste meio, bênçãos que de outro modo não se alcançam, o nosso Senhor declara expressamente na resposta aos discípulos, que perguntavam: “Por que não pudemos nós expulsá-lo? Disse-lhes Jesus: por causa da pequenez da fé de vocês; porque em verdade lhes digo: se tiverem fé como um grão de mostarda, dirão a este monte: passa daqui para acolá, e ele passará; e nada lhes será impossível. Mas esta casta de demônios não se expele senão por meio de oração e jejum” (Mt 17.19–21) — sendo estes os meios estabelecidos para alcançar aquela fé pela qual os próprios demônios se sujeitam a vocês.
11. Estes eram os meios estabelecidos; pois não foi meramente pela luz da razão, ou da consciência natural, que o povo de Deus foi, em todas as eras, orientado a usar o jejum como meio para esses fins; mas foi-lhes ensinado, de tempos em tempos, pelo próprio Deus, por revelações claras e abertas da sua vontade. Tal é aquela notável, pelo profeta Joel: “Por isso, diz o Senhor: convertam-se a mim de todo o coração, com jejuns, com choro e com pranto. Quem sabe se ele não voltará e se arrependerá, e deixará após si uma bênção? Toquem a trombeta em Sião, santifiquem um jejum, convoquem uma assembleia solene. Então o Senhor se mostrou zeloso da sua terra e se compadeceu do seu povo. Sim, enviar-lhes-ei trigo, vinho e azeite. Nunca mais os entregarei ao opróbrio entre as nações” (Jl 2.12–19). Nem são só bênçãos temporais as que Deus orienta o seu povo a esperar no uso destes meios. Pois, ao mesmo tempo que prometeu aos que o buscassem com jejum, choro e pranto — “restituir-lhes-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto” —, acrescenta: “Comerão fartamente e ficarão saciados, e louvarão o nome do Senhor, seu Deus. Vocês saberão que eu estou no meio de Israel e que eu sou o Senhor, seu Deus.” E logo se segue a grande promessa do evangelho: “Derramarei o meu Espírito sobre toda carne; os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os seus velhos sonharão, e os seus jovens terão visões” (Jl 2.25–28).
12. Ora, quaisquer razões que houvesse para animar os antigos no zeloso e constante cumprimento deste dever, elas têm igual força para animar-nos ainda. Mas, acima de todas, temos uma razão peculiar para estar “em jejuns muitas vezes”, a saber, o mandamento daquele por cujo nome somos chamados. Ele, de fato, neste lugar, não ordena expressamente nem o jejum, nem a esmola, nem a oração; mas as suas orientações sobre como jejuar, dar esmola e orar têm a mesma força que tais ordens. Pois o mandar-nos fazer algo assim é uma ordem inquestionável de fazer aquilo, visto que é impossível fazê-lo assim, se não for feito de modo algum. E isto é um motivo e um encorajamento ainda maior para o cumprimento deste dever: a própria promessa que o nosso Senhor graciosamente anexou ao devido cumprimento dele: “Teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.”
III. Respondendo às objeções
1. Primeiro, tem-se dito frequentemente: “Que o cristão jejue do pecado, e não do alimento; é isto o que Deus requer das suas mãos.” De fato requer; mas requer também o outro. Portanto, isto se deve fazer, e aquilo não se deve deixar de fazer. Veja o seu argumento em toda a sua extensão, e facilmente julgará da sua força: “Se o cristão deve abster-se do pecado, então não deve abster-se do alimento; mas o cristão deve abster-se do pecado; logo, não deve abster-se do alimento.” Que o cristão deve abster-se do pecado é verdadeiríssimo; mas como se segue daí que não deve abster-se do alimento? Antes, que ele faça tanto uma coisa quanto a outra. Que se abstenha sempre do pecado, pela graça de Deus; e que se abstenha frequentemente do alimento, pelas razões e fins que a experiência e a Escritura claramente mostram serem por ele alcançados.
2. “Mas não é melhor” (assim se objetou, segundo) “abster-se do orgulho e da vaidade, dos desejos insensatos e nocivos, da irritabilidade, da ira e do descontentamento, do que do alimento?” Sem dúvida, é. Mas aqui, de novo, precisamos lembrar-lhe as palavras do nosso Senhor: “Estas coisas deveis fazer, e não deixar aquelas.” E, de fato, o segundo só existe em vista do primeiro; é um meio para aquele grande fim. Abstemo-nos do alimento com esta mira: que, pela graça de Deus transmitida à nossa alma por meio deste canal exterior, em conjunto com todos os outros canais da sua graça que ele estabeleceu, sejamos capacitados a abster-nos de toda paixão e disposição que não lhe seja agradável. Refreamo-nos de um, para que, revestidos de poder do alto, possamos refrear-nos do outro. De modo que o seu argumento prova exatamente o contrário do que você pretendia. Prova que devemos jejuar. Pois, se devemos abster-nos das más disposições e desejos, então devemos assim abster-nos do alimento, visto que estes pequenos exercícios de abnegação são os caminhos que Deus escolheu para conceder aquela grande salvação.
3. “Mas não é o que achamos, de fato” (esta é a terceira objeção): “jejuamos muito e frequentemente; mas de que adiantou? Não ficamos nem um pouco melhores; não achamos nisso bênção alguma. Aliás, achamo-lo antes um estorvo do que uma ajuda. Em vez de prevenir a ira, por exemplo, ou a irritação, foi um meio de aumentá-las a tal ponto que não podíamos suportar nem os outros nem a nós mesmos.” É bem possível que seja este o caso. É possível jejuar, ou orar, de tal maneira que você fique muito pior do que antes, mais infeliz e menos santo. Contudo, a falha não está no meio em si, mas no modo de usá-lo. Use-o ainda, mas use-o de maneira diferente. Faça o que Deus ordena, como ele ordena; e então, sem dúvida, a sua promessa não falhará: as suas bênçãos não serão mais retidas; mas, quando você jejuar em secreto, “aquele que vê em secreto o recompensará”.
4. “Mas não é mera superstição” (assim se objetou, quarto) “imaginar que Deus se importa com coisinhas dessas?” Se você diz que é, condena todas as gerações dos filhos de Deus. Mas dirá você que eram todos homens fracos e supersticiosos? Terá tal ousadia de afirmar isto, tanto de Moisés e Josué, de Samuel e Davi, de Josafá, Esdras, Neemias e de todos os profetas — sim, de um maior do que todos, o próprio Filho de Deus? É certo que tanto o nosso Mestre quanto todos esses seus servos imaginavam que o jejum não é coisa pequena, e que aquele que é mais alto do que o mais alto se importa com ele. Do mesmo juízo, é claro, foram todos os seus apóstolos, depois de “cheios do Espírito Santo e de sabedoria”. Quando tinham a “unção do Santo, ensinando-lhes todas as coisas”, ainda se recomendavam como ministros de Deus, “em jejuns”, tanto quanto “pelas armas da justiça, à direita e à esquerda”. Depois que “o esposo lhes foi tirado, então jejuaram naqueles dias”. Nem empreendiam coisa alguma em que a glória de Deus estivesse de perto envolvida, como o enviar obreiros à seara, sem solene jejum, tanto quanto oração.
5. “Mas, se o jejum é de fato de tão grande importância e acompanhado de tal bênção, não é melhor” — dizem alguns, quinto — “jejuar sempre, não de vez em quando, mas manter um jejum contínuo, usar a maior abstinência, em todos os tempos, que as nossas forças físicas suportem?” Não se desanime ninguém de fazer isto. De todo modo, use alimento tão pouco e simples, exercite tanta abnegação nisto, em todos os tempos, quanto as suas forças físicas suportem. E isto pode conduzir, pela bênção de Deus, a vários dos grandes fins acima mencionados. Pode ser uma ajuda considerável, não só à castidade, mas também à mentalidade celestial, a desmamar os seus afetos das coisas de baixo e fixá-los nas de cima. Mas isto não é jejum, jejum bíblico; nunca é assim chamado em toda a Bíblia. Em certa medida, atende a alguns dos fins dele; mas ainda é outra coisa. Pratique-o de todo modo, mas não de forma a com isso pôr de lado um mandamento de Deus, e um meio instituído para desviar os seus juízos e obter as bênçãos dos seus filhos.
6. Use, pois, continuamente tanta abstinência quanto quiser (a qual, tomada assim, não é senão a temperança cristã); mas isto não precisa, de modo algum, interferir na observância de tempos solenes de jejum e oração. Por exemplo: a sua abstinência ou temperança habitual não impediria você de jejuar em secreto, se de repente fosse dominado por imensa tristeza e remorso, e por horrível medo e consternação. Tal situação de alma quase o constrangeria a jejuar; você teria aversão ao seu alimento diário; mal suportaria tomar sequer o necessário para o corpo, até que Deus o “tirasse da cova horrível, pusesse os seus pés sobre uma rocha e firmasse os seus passos”. O mesmo se daria se você estivesse em agonia de desejo, lutando veementemente com Deus por sua bênção. Não precisaria que ninguém o instruísse a não comer pão até haver obtido o pedido dos seus lábios. E, se você estivesse com os irmãos em Antioquia, no tempo em que jejuavam e oravam antes do envio de Barnabé e Saulo, poderia imaginar que a sua temperança ou abstinência seria causa suficiente para não se unir a eles? Sem dúvida, se não o fizesse, logo seria cortado da comunidade cristã.
IV. O modo correto de jejuar
1. Primeiro, que seja feito para o Senhor, com o olhar unicamente fixo nele. Seja a nossa intenção esta, e esta somente: glorificar o nosso Pai que está nos céus; exprimir a nossa tristeza e vergonha pelas nossas muitas transgressões da sua santa lei; esperar um aumento da graça que purifica, atraindo os nossos afetos para as coisas do alto; acrescentar seriedade e fervor às nossas orações; desviar a ira de Deus e obter todas as grandes e preciosas promessas que ele nos fez em Cristo Jesus. Guardemo-nos de zombar de Deus, de transformar o nosso jejum, tanto quanto as nossas orações, numa abominação para o Senhor, pela mistura de qualquer vista temporal, particularmente pela busca do louvor dos homens. Contra isto o nosso bendito Senhor de modo especial nos previne nas palavras do texto. “Quando jejuarem, não se mostrem contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto”, não só por distorções desnaturadas, mas também cobrindo-o de pó e cinza, “com o fim de parecerem aos homens que jejuam” — este é o seu principal, se não único, desígnio. “Em verdade lhes digo: eles já receberam a recompensa”, a saber, a admiração e o louvor dos homens. “Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto” — faze como costumas fazer em outros tempos —, “para não parecer aos homens que jejuas” (não seja isto parte da tua intenção; se eles o souberem sem nenhum desejo teu, não importa, tu não és nem melhor nem pior), “mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.
2. Mas, se desejamos essa recompensa, guardemo-nos, segundo, de imaginar que merecemos coisa alguma de Deus pelo nosso jejum. Nunca seremos advertidos disto vezes demais, visto que o desejo de “estabelecer a nossa própria justiça”, de obter a salvação por dívida, e não por graça, está tão profundamente enraizado em todos os nossos corações. O jejum é apenas um caminho que Deus ordenou, no qual esperamos a sua misericórdia imerecida, e no qual, sem mérito algum nosso, ele prometeu dar-nos gratuitamente a sua bênção.
3. Não que devamos imaginar que a realização do mero ato exterior receberá alguma bênção de Deus. “Seria este o jejum que escolhi, diz o Senhor: um dia em que o homem aflija a sua alma? É, porventura, curvar a cabeça como o junco e estender debaixo de si pano de saco e cinza?” São estes atos exteriores, por mais estritamente cumpridos, tudo o que se entende por um homem “afligir a sua alma”? “Chamarias a isto jejum e dia aceitável ao Senhor?” Não, certamente: se for mero serviço externo, não passa de trabalho perdido. Tal prática pode, talvez, afligir o corpo; mas, quanto à alma, de nada aproveita.
4. Sim, o corpo pode às vezes ser afligido demais, a ponto de ficar inapto para as obras da nossa vocação. Também disto devemos diligentemente guardar-nos, pois devemos preservar a nossa saúde como um bom dom de Deus. Por isso, deve-se ter o cuidado, sempre que jejuamos, de proporcionar o jejum às nossas forças. Pois não devemos oferecer a Deus homicídio por sacrifício, nem destruir o corpo para ajudar a alma. Mas, nestes tempos solenes, podemos, mesmo em grande fraqueza de corpo, evitar aquele outro extremo pelo qual Deus condena os que outrora reclamavam com ele por não aceitar os seus jejuns. “Por que jejuamos nós, dizem eles, e tu não atentas nisso? Eis que, no dia do vosso jejum, achais o vosso próprio prazer, diz o Senhor.” Se não podemos abster-nos por completo do alimento, podemos, ao menos, abster-nos do alimento agradável; e então não buscaremos a sua face em vão.
5. Mas tenhamos o cuidado de afligir a alma, tanto quanto o corpo. Seja cada tempo, de jejum público ou privado, um tempo de exercitar todos aqueles afetos santos que se acham num coração quebrantado e contrito. Seja um tempo de devoto pranto, de tristeza segundo Deus por causa do pecado — tal tristeza como a dos coríntios, a respeito da qual o apóstolo diz: “Alegro-me, não porque fostes contristados, mas porque a vossa tristeza vos levou ao arrependimento. Pois fostes contristados segundo Deus… Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar.” Sim, e que o nosso pranto segundo Deus opere em nós o mesmo arrependimento interior e exterior; a mesma inteira mudança do coração, renovado à imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade; e a mesma mudança de vida, até que sejamos santos como ele é santo, em todo o nosso procedimento.
6. E ao jejum unamos sempre a oração fervorosa, derramando toda a nossa alma diante de Deus, confessando os nossos pecados com todas as suas agravantes, humilhando-nos sob a sua poderosa mão, expondo diante dele todas as nossas carências, toda a nossa culpa e impotência. Este é um tempo para alargar as nossas orações, tanto em favor de nós mesmos quanto dos nossos irmãos. Choremos agora os pecados do nosso povo e clamemos em alta voz pela cidade do nosso Deus, para que o Senhor edifique Sião e faça resplandecer o seu rosto sobre as suas ruínas. Assim, podemos observar, os homens de Deus dos tempos antigos sempre juntaram a oração e o jejum; assim os apóstolos, em todos os exemplos acima citados; e assim os une o nosso Senhor no discurso que temos diante de nós.
7. Resta apenas, para que observemos um jejum aceitável ao Senhor, que a ele acrescentemos a esmola — obras de misericórdia, na medida do nosso poder, tanto aos corpos quanto às almas dos homens: “com tais sacrifícios” também “Deus se compraz”. Assim o anjo declara a Cornélio, que jejuava e orava em sua casa: “As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus” (At 10.4). E isto o próprio Deus expressa expressa e amplamente: “Não é este, porventura, o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras do jugo, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Não é também que repartas o teu pão com o faminto, recolhas em casa os pobres desabrigados e, vendo o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Então, romperá a tua luz como a alva, e a tua cura brotará sem detença; a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então, clamarás, e o Senhor te responderá… Se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos… e serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas nunca faltam” (Is 58.6–11).
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.