SERMÃO 60

A libertação geral

Uma das raras vozes do século XVIII sobre o sofrimento e a redenção dos animais.

Rm 8.19–22, NAA ⏱ 21 min de leituraDeus, criação e providência

“A ansiosa expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação ficou sujeita à futilidade… na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.”

(Rm 8.19–22, NAA)

Antes de ler

Este é um dos sermões mais surpreendentes e ternos de Wesley — e notavelmente à frente do seu tempo. Enquanto quase ninguém no século XVIII se ocupava do sofrimento dos animais, Wesley dedica um sermão inteiro a perguntar: se Deus é bom e a sua misericórdia está sobre todas as suas obras, por que sofrem tanto as criaturas? E aonde vão elas? Ele organiza a resposta em três tempos: como era a criação animal no princípio (feliz, sem dor, canal das bênçãos de Deus através do homem); como está agora (sujeita à futilidade por causa da queda humana, presa da predação, da doença e da crueldade do próprio homem); e como será (libertada, restaurada e elevada, participando à sua medida da liberdade dos filhos de Deus, no novo céu e na nova terra de Isaías 11, onde o lobo habita com o cordeiro). Duas observações. Primeira, o cuidado pastoral: Wesley extrai daqui um chamado à compaixão — se o Pai não esquece um só pardal, como podemos maltratar as criaturas que ele ama? Segunda, o equilíbrio: ele afirma que Deus cuida dos animais, mas não os iguala ao ser humano, feito à sua imagem e capaz de conhecê-lo e amá-lo. A conclusão vira um apelo: o que distingue o homem do bruto é ser capaz de Deus — então conheça e ame o seu Criador, para ser verdadeiramente humano.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Nada é mais certo do que isto: assim como “o Senhor é bondoso para com todos”, também “a sua misericórdia está sobre todas as suas obras” — sobre tudo o que tem sentido, tudo o que é capaz de prazer ou dor, de felicidade ou miséria. Por isso, “ele abre a mão e sacia todo vivente conforme o seu desejo. Prepara alimento para o gado”, tanto quanto “a erva para os filhos dos homens”. Provê para as aves do céu, “dando aos filhotes do corvo o que eles clamam”. “Envia as fontes para os vales, que correm por entre os montes, para dar de beber a todos os animais do campo”, e para que “os jumentos selvagens matem a sede”. E, em conformidade com isto, ele nos ordena ser compassivos até com as criaturas mais humildes: “Não amordaçarás o boi quando pisa o trigo.” E isto de modo algum é contrariado pela pergunta de Paulo: “Porventura é com os bois que Deus se preocupa?” Sem dúvida é. O sentido do apóstolo é: será só isto o que o texto implica? Não terá um sentido mais amplo? Não nos ensina a alimentar o corpo daqueles de quem desejamos que alimentem a nossa alma? Entretanto, é certo que Deus “dá a erva para o gado”, tanto quanto “as plantas para o uso do homem”.

2. Mas como conciliar estas Escrituras com o estado presente das coisas? Como concordam elas com o que vemos diariamente ao redor, em toda parte da criação? Se o Criador e Pai de todo vivente é rico em misericórdia para com todos; se não despreza nenhuma das obras das suas mãos; se quer que até a mais humilde delas seja feliz, segundo o seu grau — como se explica que tal complicação de males as oprima e sobrepuje? Como é que a miséria de toda espécie cobre a face da terra? Esta é uma questão que confundiu os mais sábios filósofos de todas as eras, e não pode ser respondida sem recorrer aos oráculos de Deus. Mas, tomando-os por guia, podemos indagar: primeiro, qual foi o estado original da criação animal; segundo, em que estado ela está agora; e, terceiro, em que estado estará na revelação dos filhos de Deus.

I. O estado original

1. Indaguemos, primeiro, qual foi o estado original da criação animal. Não o podemos aprender do próprio lugar que lhe foi designado — o jardim de Deus? Todos os animais do campo e todas as aves do céu estavam com Adão no paraíso. E não há dúvida de que o seu estado convinha ao seu lugar: era paradisíaco, perfeitamente feliz. Sem dúvida guardava estreita semelhança com o estado do próprio homem. Tomando, pois, uma breve vista de um, podemos conceber o outro. Ora, “o homem foi feito à imagem de Deus”. Mas “Deus é Espírito”; assim, também o era o homem (só que esse espírito, destinado a habitar na terra, foi alojado num tabernáculo terreno). Como tal, tinha um princípio inato de automovimento, como parece ter todo espírito no universo — sendo esta a própria diferença entre espírito e matéria, que é totalmente passiva e inativa. Foi dotado, à semelhança do seu Criador, de entendimento — capacidade de apreender os objetos e julgar a respeito deles. Foi dotado de vontade, que se manifesta em vários afetos; e, por fim, de liberdade, ou livre-arbítrio, sem a qual todo o resto seria em vão, e ele não seria mais capaz de servir ao Criador do que um pedaço de terra ou de mármore. Nisto — no poder de automovimento, no entendimento, na vontade e na liberdade — consistia a imagem natural de Deus.

2. Até onde se estendia então o seu poder de automovimento, é-nos impossível determinar. É provável que tivesse grau muito mais alto de rapidez e força do que qualquer da sua posteridade jamais teve. É certo que tinha tal força de entendimento como nenhum homem depois teve. O seu entendimento era perfeito no seu gênero, capaz de apreender todas as coisas com clareza e julgá-las segundo a verdade, sem mistura de erro. A sua vontade não tinha inclinação errada de nenhuma espécie; todas as suas paixões e afetos eram regulares, firme e uniformemente guiados pelos ditames do seu entendimento infalível. A sua liberdade era também inteiramente guiada pelo entendimento. Acima de tudo — e esta era a sua mais alta excelência, mais valiosa que todo o resto —, ele era uma criatura capaz de Deus, capaz de conhecer, amar e obedecer ao seu Criador. E, de fato, conhecia a Deus, amava-o sem fingimento e obedecia-lhe uniformemente. Desta reta condição e reto uso de todas as suas faculdades fluía naturalmente a sua felicidade; e esta era aumentada por tudo o que o rodeava. Via, com indizível prazer, a ordem, a beleza e a harmonia de todas as criaturas; a serenidade dos céus, o sol a caminhar em esplendor, o vestuário docemente variado da terra, as árvores, os frutos, as flores. Nem este prazer era interrompido por mal algum: não tinha liga de tristeza ou dor, do corpo ou da mente. Pois, enquanto era inocente, era impassível, incapaz de sofrer. E, para coroar tudo, era imortal.

3. A esta criatura, dotada de tão excelentes faculdades, Deus disse: “Domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28). E assim o salmista: “Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos e sob os seus pés tudo puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo, as aves do céu, os peixes do mar” (Sl 8.6). De modo que o homem era o vice-regente de Deus na terra, o príncipe e governador deste mundo inferior; e todas as bênçãos de Deus fluíam por meio dele às criaturas inferiores. O homem era o canal de comunicação entre o seu Criador e toda a criação animal.

4. Mas que bênçãos eram essas então transmitidas por meio do homem às criaturas inferiores? Qual era o estado original dos animais, quando foram criados? Isto merece consideração mais atenta do que costuma receber. É certo que estes, tanto quanto o homem, tinham um princípio inato de automovimento, ao menos em grau tão alto quanto o desfrutam hoje. Foram também dotados de uma medida de entendimento, não menor do que a que possuem agora. Tinham igualmente uma vontade, com várias paixões, e liberdade, um poder de escolha, cujo grau ainda se acha em toda criatura viva. Nem podemos duvidar de que o seu entendimento também fosse, no princípio, perfeito no seu gênero, os seus afetos regulares, e a sua escolha sempre guiada pelo entendimento.

5. Qual é, então, a barreira entre o homem e os brutos, a linha que estes não podem cruzar? Não era a razão. Ponha de lado esse termo ambíguo e troque-o pela palavra clara, entendimento: e quem pode negar que os brutos o têm? Poderíamos igualmente negar que têm visão ou audição. Mas é isto: o homem é capaz de Deus; as criaturas inferiores não. Não temos fundamento para crer que sejam, em grau algum, capazes de conhecer, amar ou obedecer a Deus. Esta é a diferença específica entre o homem e o bruto, o grande abismo que eles não podem transpor. E, assim como uma amorosa obediência a Deus era a perfeição do homem, também uma amorosa obediência ao homem era a perfeição dos brutos. E, enquanto nisto permaneceram, foram felizes à sua maneira. Sim, tinham até uma sombra de bondade moral: pois tinham gratidão ao homem pelos benefícios recebidos, e reverência por ele; tinham igualmente uma espécie de benevolência uns para com os outros, sem mistura de temperamento contrário. E estavam todos cercados não só de alimento abundante, mas de tudo o que lhes pudesse dar prazer — prazer sem mistura de dor, pois a dor ainda não existia, não havia entrado no paraíso. E eram também imortais, pois “Deus não fez a morte, nem se compraz na perdição de nenhum vivente”.

6. Quão verdadeira, então, é aquela palavra: “Viu Deus tudo quanto havia feito, e eis que era muito bom!” Mas quão longe está isto do estado presente! Em que condição está todo o mundo inferior! Desde que o homem se rebelou contra o seu Criador, em que estado se acha toda a natureza animada! Bem pôde o apóstolo dizer dela: “Toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.” Em que estado ela está no presente é o que agora devemos considerar.

II. O estado presente

1. Assim como todas as bênçãos de Deus no paraíso fluíam por meio do homem às criaturas inferiores, sendo o homem o grande canal de comunicação entre o Criador e toda a criação animal, assim, quando o homem se tornou incapaz de transmitir essas bênçãos, essa comunicação foi necessariamente cortada. Cessado o intercâmbio entre Deus e as criaturas inferiores, aquelas bênçãos já não podiam fluir sobre elas. E foi então que “a criação”, toda criatura, “ficou sujeita à futilidade”, à tristeza, à dor de toda espécie — não, porém, “voluntariamente”, não por escolha própria, “mas por causa daquele que a sujeitou”, pela sábia permissão de Deus, que determinou tirar deste mal temporário um bem eterno.

2. Mas em que sentido “a criação” foi então “sujeita à futilidade”? Que sofreram as criaturas mais humildes quando o homem se rebelou contra Deus? É provável que sofressem muita perda, mesmo nas faculdades inferiores: o vigor, a força, a rapidez. Mas sem dúvida sofreram muito mais no entendimento, mais do que facilmente concebemos. Talvez os insetos e os vermes tivessem então tanto entendimento quanto têm hoje os brutos mais inteligentes, ao passo que milhões de criaturas têm agora pouco mais entendimento que a terra sobre a qual rastejam. Sofreram ainda mais na vontade, nas paixões, que foram então variamente distorcidas. A sua liberdade também foi muito prejudicada; sim, em muitos casos, totalmente destruída. Estão ainda escravizadas a apetites irracionais, que as dominam por completo. Assim como o homem foi privado da sua perfeição, a amorosa obediência a Deus, também os brutos foram privados da sua, a amorosa obediência ao homem. A maior parte deles foge dele, evita cuidadosamente a sua presença odiada; a maioria dos demais o desafia abertamente, e até o destrói, se está em seu poder. Só uns poucos — os que comumente chamamos de animais domésticos — retêm, pela misericórdia de Deus, mais ou menos da sua disposição original, ainda o amam e lhe prestam obediência.

3. Postos de lado esses poucos, quão pouca sombra de bem, de gratidão, de benevolência, de qualquer reto temperamento se acha agora em alguma parte da criação animal! Pelo contrário, que ferocidade selvagem, que crueldade implacável se observam invariavelmente em milhares de criaturas — sim, são inseparáveis da sua natureza! Será só o leão, o tigre, o lobo, entre os habitantes da floresta; o tubarão, entre os das águas; ou a águia, entre as aves, que rasga a carne, suga o sangue e esmaga os ossos dos seus indefesos semelhantes? Não: a inofensiva mosca, a laboriosa formiga, a colorida borboleta são tratadas do mesmo modo impiedoso, até pelos inocentes cantores do bosque! As inumeráveis tribos de pobres insetos são por eles continuamente devoradas. E, ao passo que há na terra número comparativamente pequeno de feras de rapina, muito diferente é no elemento líquido: há poucos habitantes das águas que não devorem tudo o que possam dominar; sim, excedem nisto todas as feras da floresta e todas as aves de rapina. Pois nenhuma destas jamais foi observada a fazer presa da própria espécie: até os ursos ferozes não se dilaceram entre si. Mas os selvagens das águas engolem tudo, até dos seus, os menores e mais fracos. Sim, tal é agora a miserável constituição do mundo, a tal futilidade está sujeito, que uma imensa maioria de criaturas — talvez um milhão para um — não pode preservar a própria vida senão destruindo os seus semelhantes!

4. E não é a própria forma, a aparência exterior de muitas criaturas, tão horrenda quanto as suas disposições? Onde está a beleza que lhes foi impressa quando saíram pela primeira vez das mãos do Criador? Não resta dela o menor traço; tão longe disto que são chocantes de ver! Aliás, não só terríveis de olhar, mas deformadas, e em alto grau. E os seus traços, feios como já são, tornam-se frequentemente mais deformados quando distorcidos pela dor — que não podem evitar, tanto quanto os desventurados filhos dos homens. Dores de vários tipos, fraqueza, doença, enfermidades inumeráveis vêm sobre elas: talvez de dentro, talvez umas das outras, talvez da inclemência das estações, do fogo, do granizo, da neve ou da tempestade, ou de mil causas que não podem prever nem impedir.

5. Assim, “como por um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todos os homens” — e não só ao homem, mas também àquelas criaturas que “não pecaram à semelhança da transgressão de Adão”. E não veio sobre elas só a morte, mas todo o seu cortejo de males preparatórios: a dor e dez mil sofrimentos. E não só estes, mas também todas aquelas paixões desregradas, todos aqueles temperamentos ingratos (que nos homens são pecados, e mesmo nos brutos são fontes de miséria) “passaram a todos” os habitantes da terra, e permanecem em todos, exceto nos filhos de Deus.

6. Durante esta estação de futilidade, não só as criaturas mais fracas são continuamente destruídas pelas mais fortes, não só as fortes são frequentemente destruídas por outras de igual força, mas umas e outras estão expostas à violência e à crueldade daquele que é agora o seu inimigo comum: o homem. E, se a sua rapidez ou força não iguala a delas, a sua astúcia supre de sobra esse defeito. Por ela, elude toda a força delas, por maior que seja; frustra toda a rapidez; e descobre todos os seus refúgios. Persegue-as pelas mais vastas planícies e pelas mais espessas florestas; alcança-as nos campos do ar, encontra-as nas profundezas do mar. Nem as criaturas mansas e amigas, que ainda reconhecem o seu domínio e são obedientes às suas ordens, ficam por isso a salvo de violência mais que brutal. O generoso cavalo, que serve à necessidade ou ao prazer do dono com incansável diligência, ou o fiel cão, que atende ao aceno da sua mão, estão isentos disto? E que diferença pavorosa há entre o que sofrem dos seus semelhantes e o que sofrem do tirano homem! O leão, o tigre ou o tubarão lhes causam dor por mera necessidade, para prolongar a própria vida, e as livram da dor de uma só vez; mas o tubarão humano, sem tal necessidade, as atormenta por livre escolha, e talvez prolongue a sua dor por meses ou anos, até que a morte assine a sua soltura.

III. O estado futuro

1. Mas permanecerá “a criação”, permanecerá a criação animal, sempre nesta deplorável condição? Deus nos livre de afirmá-lo, ou sequer de acalentar tal pensamento! Enquanto “toda a criação geme a um só tempo” (atentem os homens ou não), os seus gemidos não se dispersam no ar vazio, mas entram nos ouvidos daquele que a fez. Enquanto as suas criaturas “suportam angústias juntas”, ele conhece toda a dor delas e as vai trazendo cada vez mais perto do parto, que se cumprirá no seu tempo. Ele vê “a ansiosa expectativa” com que toda a criação animada “aguarda” aquela final “revelação dos filhos de Deus”, na qual “também elas serão libertadas” (não pela aniquilação — a aniquilação não é libertação) “do” presente “cativeiro da corrupção, para” uma medida da “liberdade da glória dos filhos de Deus”.

2. Nada pode ser mais expresso. Fora com os preconceitos vulgares, e prevaleça a clara palavra de Deus. Elas “serão libertadas do cativeiro da corrupção, para a gloriosa liberdade” — sim, uma medida, conforme a sua capacidade, “da liberdade dos filhos de Deus”. Uma visão geral disto nos é dada no capítulo vinte e um do Apocalipse. Quando aquele que “se assenta no grande trono branco” tiver dito “Eis que faço novas todas as coisas”; quando se cumprir a palavra “O tabernáculo de Deus está com os homens, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles” — então a seguinte bênção se realizará (não só sobre os filhos dos homens, pois não há tal restrição no texto, mas) sobre toda criatura, segundo a sua capacidade: “Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima; e já não haverá morte, nem tristeza, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.”

3. Descendo a alguns pormenores: toda a criação animal será então, sem dúvida, restaurada não só ao vigor, à força e à rapidez que teve na sua criação, mas a um grau muito mais alto de cada um deles do que jamais desfrutou. Será restaurada não só àquela medida de entendimento que teve no paraíso, mas a um grau tão mais alto quanto o entendimento de um elefante está acima do de um verme. E os afetos que tiveram no jardim de Deus serão restaurados com vasto acréscimo, exaltados e refinados de um modo que nós mesmos ainda não podemos compreender. A liberdade que então tiveram será plenamente restaurada, e serão livres em todos os seus movimentos. Serão libertadas de todos os apetites desregrados, de toda paixão indomável, de toda disposição que seja má em si ou tenda ao mal. Nenhuma fúria se achará em criatura alguma, nenhuma ferocidade, crueldade ou sede de sangue. Tão longe disto que “o lobo habitará com o cordeiro, o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um pequenino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e o leão comerá palha como o boi. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte” (Is 11.6).

4. Assim, naquele dia, toda a futilidade a que estão agora irremediavelmente sujeitas será abolida; não mais sofrerão, nem de dentro nem de fora; findaram os dias do seu gemido. Ao mesmo tempo, não há dúvida razoável de que toda a hediondez da sua aparência se desvanecerá e será trocada pela sua beleza primeva. E com a beleza voltará a felicidade, à qual então não poderá haver obstáculo. Como nada haverá dentro, também nada haverá fora que lhes cause desassossego: nem calor nem frio, nem tempestade, mas uma perene primavera. Na nova terra, como nos novos céus, nada haverá que dê dor, mas tudo o que a sabedoria e a bondade de Deus possam criar para dar felicidade. Como recompensa do que outrora sofreram, sob o “cativeiro da corrupção”, gozarão de felicidade adequada ao seu estado, sem liga, sem interrupção e sem fim.

5. Mas, embora eu não duvide de que o Pai de todos tem terno cuidado até das suas mais humildes criaturas, e de que lhes fará ampla reparação por tudo o que sofrem, não ouso afirmar que ele tenha igual consideração por elas e pelos filhos dos homens. Não creio que ele “veja com olhos iguais, como Senhor de tudo, um herói perecer ou um pardal cair”. De modo algum. Isto é muito bonito, mas absolutamente falso. Pois, embora

a misericórdia, com verdade e infinita graça,

reine sobre todas as suas obras,

contudo, sobretudo se compraz em abençoar

a sua criatura predileta, o homem.

Deus tem grande consideração pelas suas mais humildes criaturas; mas tem muito maior pelo homem. Não considera igualmente um herói e um pardal, o melhor dos homens e o mais baixo dos brutos. “Quanto mais o vosso Pai celeste cuidará de vós!”, diz aquele “que está no seio do Pai”. Basta que Deus considere tudo o que fez, na sua ordem, e na proporção daquela medida da sua própria imagem que nele imprimiu.

6. Ser-me-á permitido mencionar aqui uma conjetura acerca da criação animal? Que tal, se aprouvesse então ao Criador sapientíssimo e clementíssimo elevá-las a um grau mais alto na escala dos seres? Que tal, se lhe aprouvesse, quando nos fizer “iguais aos anjos”, torná-las o que somos agora — criaturas capazes de Deus, capazes de conhecer, amar e desfrutar o Autor do seu ser? Se assim fosse, deveria o nosso olho ser mau porque ele é bom? Seja como for, ele certamente fará o que for mais para a sua própria glória.

7. Se a tudo isto se objetar (como muito provavelmente se fará): “Mas de que serventia serão essas criaturas naquele estado futuro?”, respondo com outra pergunta: de que serventia são agora? Se há (como comumente se supôs) oito mil espécies de insetos, quem nos pode dizer para que servem sete mil delas? Se há quatro mil espécies de peixes, quem nos dirá para que servem mais de três mil? Considere quão pouco sabemos até dos desígnios presentes de Deus, e então não estranhará que saibamos ainda menos do que ele projeta fazer no novo céu e na nova terra.

8. “Mas que fim tem deter-se sobre este assunto, que tão imperfeitamente entendemos?” Considerar o quanto entendemos, o quanto Deus se dignou revelar-nos, pode servir a este excelente fim: ilustrar aquela misericórdia de Deus que “está sobre todas as suas obras”. E pode grandemente confirmar a nossa crença de que, muito mais, ele “é bondoso para com todo homem”. Pois com que razão podemos aplicar as palavras do nosso Senhor: “Não valeis vós muito mais do que elas?” Se, então, o Senhor cuida assim das aves do céu e dos animais do campo, não cuidará muito mais de vós, criaturas de ordem mais nobre? Se “o Senhor salva”, como afirma o escritor inspirado, “tanto o homem quanto o animal”, cada um no seu grau, por certo “os filhos dos homens podem confiar à sombra das suas asas!”

9. Não servirá isto a outro fim, a saber, fornecer-nos plena resposta a uma plausível objeção contra a justiça de Deus, em permitir que inúmeras criaturas que nunca pecaram sejam tão severamente castigadas? Não podiam pecar, pois não eram agentes morais. E, no entanto, quão severamente sofrem — sim, muitas delas, os animais de carga em particular, quase todo o tempo da sua estada na terra! De modo que não podem ter retribuição aqui embaixo. Mas a objeção se desvanece, se considerarmos que algo melhor resta, depois da morte, também para estas pobres criaturas; que também elas serão um dia libertadas deste cativeiro da corrupção, e receberão então ampla reparação por todos os seus presentes sofrimentos.

10. Mais um excelente fim, sem dúvida, pode ser servido pelas considerações precedentes: podem encorajar-nos a imitar aquele cuja misericórdia está sobre todas as suas obras. Podem abrandar o nosso coração para com as criaturas mais humildes, sabendo que o Senhor cuida delas. Pode alargar o nosso coração para com essas pobres criaturas refletir que, por mais vis que pareçam aos nossos olhos, nem uma delas é esquecida diante do nosso Pai que está nos céus. Através de toda a futilidade a que estão agora sujeitas, olhemos para o que Deus lhes preparou. Sim, habituemo-nos a olhar adiante, para além desta presente cena de cativeiro, para o feliz tempo em que serão dela libertadas, para a liberdade dos filhos de Deus.

11. Do que se disse, não posso deixar de tirar uma conclusão que homem de razão algum pode negar. Se é isto que distingue o homem dos brutos — que ele é criatura capaz de Deus, capaz de conhecê-lo, amá-lo e desfrutá-lo —, então todo o que está “sem Deus no mundo”, todo o que não conhece nem ama nem desfruta a Deus, e disso não se importa, de fato renuncia à natureza do homem e se degrada em bruto. Prestem tais pessoas um pouco de atenção àquelas notáveis palavras de Salomão: “Disse comigo mesmo, quanto aos filhos dos homens, que eles vejam que, por si mesmos, são como os animais” (Ec 3.18). Estes filhos dos homens são, sem dúvida, animais — e isto por seu próprio ato, pois deliberada e voluntariamente renunciam à única marca característica da natureza humana. É verdade que podem ter uma parcela de razão, têm fala e andam eretos; mas não têm a marca, a única marca que separa totalmente o homem da criação animal.

12. Tanto mais afirmem, pois, todos os de índole mais nobre a dignidade distintiva da sua natureza. Conheçam e mantenham a sua posição na escala dos seres. Não descansem enquanto não desfrutarem o privilégio da humanidade — o conhecimento e o amor de Deus. Levantem a cabeça, ó criaturas capazes de Deus! Elevem o coração à Fonte do seu ser! Deem o coração àquele que, junto com dez mil bênçãos, lhes deu o seu Filho, o seu único Filho! Seja a sua contínua “comunhão com o Pai, e com seu Filho, Jesus Cristo”! Esteja Deus em todos os seus pensamentos, e vocês serão homens de verdade. Seja ele o seu Deus e o seu Tudo — o desejo dos seus olhos, a alegria do seu coração e a sua porção para sempre.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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