SERMÃO 74
Da igreja
O que é, afinal, a igreja — e o que significa andar de modo digno da vocação.
“Vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados […] fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há somente um corpo e um só Espírito […] um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos.”
(Ef 4.1–6, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley procura responder a duas perguntas fundamentais: o que é a Igreja e o que significa viver de maneira digna da vocação cristã?
Sua definição da Igreja é essencialmente espiritual e comunitária. A Igreja não é primeiramente um edifício ou uma estrutura institucional, mas o povo chamado por Deus para viver unido em Cristo, partilhando um só Espírito, uma só esperança, uma só fé, um só batismo e um só Deus e Pai.
Wesley permanece ligado à Igreja da Inglaterra e cita seu Décimo Nono Artigo de Religião. Ao mesmo tempo, apresenta uma compreensão ampla da Igreja universal, reconhecendo como seus membros todos os que possuem fé viva em Cristo, mesmo quando conservam opiniões equivocadas ou formas de culto que ele considerava supersticiosas.
— Bispo Ildo Mello
Quanto ouvimos falar quase continuamente sobre a Igreja! Para muitas pessoas, esse é um assunto de conversa diária. Entretanto, quão poucos compreendem aquilo sobre o que falam! Quão poucos sabem o significado do termo!
Dificilmente existe na língua inglesa uma palavra mais ambígua do que “Igreja”. Às vezes ela é empregada para designar um edifício separado para o culto público; outras vezes, para uma congregação ou grupo de pessoas unidas no serviço de Deus.
É somente neste último sentido que a palavra será empregada no discurso a seguir.
Ela pode ser aplicada a qualquer número de pessoas, seja pequeno, seja grande. Assim como, onde dois ou três se reúnem em nome de Cristo, ele está presente, também, para usar as palavras de Cipriano, “onde dois ou três cristãos se reúnem, ali está uma Igreja”.
É nesse sentido que Paulo, escrevendo a Filemom, menciona “a igreja que se reúne na casa dele” (Filemom 2), mostrando claramente que até mesmo uma família cristã pode ser chamada de Igreja.
Vários daqueles que Deus chamou para fora do mundo — que é o significado próprio da palavra original —, unindo-se em uma só congregação, formaram uma Igreja maior, como a Igreja em Jerusalém, isto é, todos aqueles em Jerusalém que Deus havia chamado.
Considerando, porém, como se multiplicaram rapidamente depois do dia de Pentecostes, não se pode imaginar que continuassem reunindo-se em um único lugar. Além disso, não possuíam naquela ocasião um edifício grande, nem lhes teria sido permitido construir um.
Consequentemente, mesmo em Jerusalém, devem ter se dividido em várias congregações distintas.
Da mesma maneira, quando Paulo, vários anos depois, escreveu à Igreja em Roma — dirigindo sua carta “a todos os amados de Deus que estão em Roma, chamados para ser santos” (Romanos 1.7) —, não podemos supor que possuíssem um único edifício capaz de receber todos eles. Estavam divididos em várias congregações, reunindo-se em diferentes partes da cidade.
A primeira vez que o apóstolo emprega a palavra “Igreja” é na introdução de sua Primeira Carta aos Coríntios: “Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Cristo Jesus […] à igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1.1-2).
O significado dessa expressão é determinado pelas palavras seguintes: “aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que, em toda parte” — não apenas em Corinto; portanto, a carta possuía, em certo sentido, um caráter circular — “invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Na introdução de sua Segunda Carta aos Coríntios, ele fala ainda mais explicitamente: “à igreja de Deus que está em Corinto e a todos os santos que estão em toda a Acaia” (2 Coríntios 1.1).
Aqui, ele inclui claramente todas as igrejas ou congregações cristãs existentes em toda a província.
Paulo emprega frequentemente a palavra no plural. Assim, em Gálatas 1.2: “Paulo, apóstolo […] às igrejas da Galácia”, isto é, às congregações cristãs espalhadas por aquela região.
Em todos esses lugares — e muitos outros poderiam ser citados —, a palavra “Igreja” ou “igrejas” não significa os edifícios nos quais os cristãos se reuniam, como frequentemente acontece na língua inglesa, mas as pessoas que costumavam reunir-se ali, uma ou mais congregações cristãs.
Algumas vezes, porém, a palavra “Igreja” é empregada nas Escrituras em sentido ainda mais amplo, incluindo todas as congregações cristãs existentes sobre a face da terra.
É nesse sentido que a compreendemos em nossa liturgia quando dizemos: “Oremos por toda a condição da Igreja de Cristo que milita aqui na terra.”
Sem dúvida, ela é empregada nesse sentido por Paulo em sua exortação aos presbíteros de Éfeso: “Cuidem […] da igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (Atos 20.28).
A Igreja aqui significa, sem dúvida, a Igreja católica ou universal, isto é, todos os cristãos debaixo do céu.
Quem são propriamente “a Igreja de Deus”? O apóstolo mostra isso de maneira extensa, clara e decisiva na passagem citada anteriormente. Nela, também ensina a todos os membros da Igreja como viver “de maneira digna da vocação” para a qual foram chamados.
Consideremos, em primeiro lugar, quem são propriamente a Igreja de Deus. Qual é o verdadeiro significado desse termo?
“A igreja em Éfeso”, conforme o próprio apóstolo explica, significa “os santos”, as pessoas santas que estavam em Éfeso e ali se reuniam para adorar a Deus Pai e seu Filho Jesus Cristo, fosse em um único lugar ou, como podemos razoavelmente supor, em vários lugares.
Entretanto, é a Igreja em geral, a Igreja católica ou universal, que o apóstolo considera aqui como um só corpo.
Ela compreende não apenas os cristãos da casa de Filemom ou de qualquer outra família; não apenas os cristãos de uma congregação, de uma cidade, de uma província ou de uma nação; mas todas as pessoas sobre a face da terra que correspondem à descrição apresentada aqui.
Podemos agora examinar mais distintamente os diferentes aspectos contidos nessa descrição.
“Há somente um Espírito”, que anima todos esses, todos os membros vivos da Igreja de Deus.
Alguns entendem que se trata do próprio Espírito Santo, a Fonte de toda vida espiritual. E é certo que, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Romanos 8.9).
Outros entendem que se refere aos dons espirituais e às disposições santas mencionadas posteriormente.
Em todos os que receberam esse Espírito existe “uma só esperança”, uma esperança cheia de imortalidade.
Eles sabem que morrer não significa deixar de existir. Sua visão se estende para além da sepultura.
Podem dizer com alegria: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança que não pode ser destruída” (1 Pedro 1.3-4).
“Há um só Senhor”, que agora exerce domínio sobre eles, estabeleceu seu Reino no coração deles e reina sobre todos os que participam dessa esperança.
Obedecê-lo e correr pelo caminho de seus mandamentos é sua glória e alegria.
Enquanto fazem isso com uma mente disposta, estão, por assim dizer, assentados “nas regiões celestiais em Cristo Jesus” (Efésios 2.6).
“Há uma só fé”, que é dom gratuito de Deus e fundamento da esperança deles.
Não se trata simplesmente da fé de um pagão, isto é, da crença de que Deus existe, que é bondoso e justo e que recompensa aqueles que o buscam diligentemente.
Também não se trata apenas da fé de um demônio, embora ela vá muito além da anterior. O diabo acredita — e não pode deixar de acreditar — que tudo o que está escrito tanto no Antigo quanto no Novo Testamento é verdadeiro.
Trata-se, porém, da fé de Tomé, que o ensinou a dizer com santa confiança: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20.28).
É a fé que capacita todo verdadeiro cristão a testemunhar com Paulo: “E esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2.20).
“Há um só batismo”, o sinal exterior que nosso único Senhor se agradou em estabelecer para representar toda a graça interior e espiritual que concede continuamente à sua Igreja.
É também um precioso meio pelo qual essa fé e essa esperança são concedidas àqueles que o buscam diligentemente.
Alguns têm se inclinado a interpretar isso em sentido figurado, como se fizesse referência ao batismo do Espírito Santo que os apóstolos receberam no dia de Pentecostes e que, em grau menor, é concedido a todos os cristãos.
É, porém, uma regra estabelecida na interpretação das Escrituras que jamais devemos abandonar o sentido claro e literal, a menos que ele implique um absurdo.
Além disso, caso interpretássemos dessa maneira, teríamos uma repetição desnecessária, porque esse batismo já estaria incluído na expressão: “Há somente um Espírito.”
“Há um só Deus e Pai de todos” os que possuem o Espírito de adoção, que clama no coração deles: “Aba, Pai!” e testemunha continuamente com o espírito deles que são filhos de Deus.
Ele está “acima de todos”: é o Altíssimo, Criador, Sustentador e Governador de todo o universo.
Ele age “por meio de todos”, penetrando todo o espaço, enchendo os céus e a terra:
Totam Mens agitans molem, et magno se corpore miscens.
[A seguinte é a tradução de Wharton para essa citação de Virgílio:
“A Alma universal vive nas partes
E movimenta o todo.” — Editor.]
E ele está “em todos vocês”, vivendo de maneira especial naqueles que constituem um só corpo por meio de um só Espírito:
“Fazendo da alma de vocês sua amada morada,
Templos do Deus que neles habita.”
Temos aqui, portanto, uma resposta clara e incontestável à pergunta: “O que é a Igreja?”
A Igreja católica ou universal é formada por todas as pessoas no universo que Deus chamou para fora do mundo de tal maneira que correspondam à descrição anterior: constituem “um só corpo”, unidas por “um só Espírito”, possuindo “uma só fé, uma só esperança, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual está acima de todos, age por meio de todos e está em todos”.
Aquela parte desse grande corpo, a Igreja universal, que habita em determinado reino ou nação pode ser propriamente chamada de Igreja nacional, como a Igreja da França, a Igreja da Inglaterra ou a Igreja da Escócia.
Uma parte menor da Igreja universal é formada pelos cristãos que habitam determinada cidade, como a Igreja de Éfeso e as demais sete igrejas mencionadas no Apocalipse.
Dois ou três cristãos unidos constituem uma Igreja no sentido mais restrito da palavra.
Assim era a Igreja que se reunia na casa de Filemom e aquela que se reunia na casa de Ninfa, mencionada em Colossenses 4.15.
Uma Igreja particular pode, portanto, ser composta de qualquer número de membros, sejam dois ou três, sejam dois ou três milhões.
Contudo, seja maior, seja menor, a mesma ideia deve ser preservada. Seus integrantes constituem um só corpo e possuem um só Espírito, um só Senhor, uma só esperança, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos.
Essa descrição está exatamente de acordo com o Décimo Nono Artigo de nossa Igreja, a Igreja da Inglaterra, embora o Artigo inclua um pouco mais do que o apóstolo expressou:
“DA IGREJA
A Igreja visível de Cristo é uma congregação de homens fiéis, na qual a pura Palavra de Deus é pregada e os sacramentos são devidamente administrados.”
Pode-se observar que, na mesma época em que os Trinta e Nove Artigos foram compilados e publicados, também foi publicada, pela mesma autoridade, uma tradução latina.
Nela, foram empregadas as palavras coetus credentium, “uma congregação de pessoas que creem”, mostrando claramente que, pela expressão “homens fiéis”, os compiladores queriam dizer homens dotados de fé viva.
Isso coloca o Artigo em concordância ainda maior com a descrição apresentada pelo apóstolo.
Pode-se questionar, porém, se o Artigo fala de uma Igreja particular ou da Igreja universal.
O título, “Da Igreja”, parece referir-se à Igreja católica. Entretanto, a segunda parte do Artigo menciona as Igrejas particulares de Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Roma.
Talvez a intenção tenha sido incluir ambas, definindo a Igreja universal de tal modo que também fossem consideradas as várias Igrejas particulares das quais ela é formada.
Considerando essas coisas, é fácil responder à pergunta: “O que é a Igreja da Inglaterra?”
Ela é aquela parte, aqueles membros da Igreja universal, que habitam na Inglaterra.
A Igreja da Inglaterra é aquele corpo de pessoas na Inglaterra em quem existe “um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor e uma só fé”, que possuem “um só batismo” e “um só Deus e Pai de todos”.
Isso, e somente isso, é a Igreja da Inglaterra segundo a doutrina do apóstolo.
A definição de Igreja apresentada no Artigo, porém, inclui não apenas isso, mas muito mais, por meio deste acréscimo notável: “na qual a pura Palavra de Deus é pregada e os sacramentos são devidamente administrados”.
Segundo essa definição, as congregações nas quais a pura Palavra de Deus — uma expressão muito forte — não é pregada não fazem parte nem da Igreja da Inglaterra nem da Igreja católica.
O mesmo aconteceria com aquelas nas quais os sacramentos não fossem devidamente administrados.
Não tentarei defender a precisão dessa definição.
Não me atrevo a excluir da Igreja católica todas as congregações nas quais doutrinas não bíblicas, que não podem ser consideradas “a pura Palavra de Deus”, são às vezes, ou até frequentemente, pregadas.
Também não me atrevo a excluir todas as congregações nas quais os sacramentos não são “devidamente administrados”.
Caso essas exigências fossem aplicadas de modo absoluto, a Igreja de Roma nem sequer seria parte da Igreja católica, visto que nela nem “a pura Palavra de Deus” é pregada nem os sacramentos são “devidamente administrados”.
Contudo, sejam quem forem aqueles que possuem “um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só Deus e Pai de todos”, posso tolerar facilmente que conservem opiniões equivocadas e até mesmo formas supersticiosas de culto.
Por causa dessas coisas, não hesitaria em incluí-los dentro dos limites da Igreja católica. Também não teria objeção a recebê-los, caso desejassem, como membros da Igreja da Inglaterra.
Passemos agora ao segundo ponto. O que significa viver “de maneira digna da vocação” para a qual fomos chamados?
Devemos sempre lembrar que a palavra “andar” ou “viver”, na linguagem do apóstolo, possui um significado muito amplo.
Inclui todos os nossos movimentos interiores e exteriores, todos os nossos pensamentos, palavras e ações.
Abrange não apenas tudo aquilo que fazemos, mas também tudo aquilo que falamos ou pensamos.
Portanto, não é pouca coisa viver, nesse sentido, “de maneira digna da vocação” para a qual fomos chamados: pensar, falar e agir, em todas as situações, de maneira digna de nossa vocação cristã.
Somos chamados, em primeiro lugar, a viver “com toda a humildade”: a possuir a mesma atitude que houve também em Cristo Jesus; a não pensar de nós mesmos além do que convém; a ser pequenos, pobres, insignificantes e desprezíveis aos nossos próprios olhos.
Devemos conhecer a nós mesmos como somos conhecidos por aquele diante de quem todos os corações estão abertos.
Devemos perceber profundamente nossa própria indignidade e a corrupção universal de nossa natureza — na qual não habita bem algum —, inclinada para todo o mal e resistente a todo o bem.
Estamos não apenas enfermos, mas mortos em delitos e pecados, até que Deus sopre sobre os ossos secos e produza vida pela palavra de seus lábios.
Suponhamos que isso tenha acontecido. Suponhamos que ele nos tenha vivificado, infundindo vida em nossa alma morta.
Ainda assim, quanto da mente carnal permanece! Como nosso coração ainda se inclina a afastar-se do Deus vivo! Quanta tendência para o pecado permanece, embora saibamos que nossos pecados passados foram perdoados!
Quanto pecado, apesar de todos os nossos esforços, ainda se apega às nossas palavras e ações!
Quem pode compreender devidamente quanto ainda permanece nele da inimizade natural contra Deus ou até que ponto ainda está afastado de Deus por causa da ignorância que existe nele?
Suponhamos ainda que Deus tenha purificado completamente nosso coração e espalhado os últimos vestígios do pecado.
Mesmo assim, como poderíamos ter consciência suficiente de nosso desamparo e de nossa absoluta incapacidade para todo o bem, a menos que, a cada hora e a cada momento, recebamos poder do alto?
Quem é capaz de pensar um único pensamento bom ou formar um único desejo bom, a não ser por meio daquele poder todo-poderoso que opera em nós tanto o querer como o realizar, segundo a boa vontade de Deus?
Mesmo nesse estado de graça, precisamos estar profunda e continuamente penetrados pela consciência dessa verdade.
Caso contrário, estaremos em constante perigo de roubar a honra de Deus, gloriando-nos em alguma coisa que recebemos como se não a tivéssemos recebido.
Quando o mais profundo de nossa alma estiver inteiramente marcado por essa consciência, resta que nos revistamos de humildade.
A palavra empregada por Pedro parece indicar que devemos ser cobertos por ela como por uma veste exterior; que sejamos inteiramente humildade, tanto interior quanto exteriormente, deixando-a marcar tudo o que pensamos, falamos e fazemos.
Que todas as nossas ações procedam dessa fonte. Que todas as nossas palavras expressem esse espírito, para que todas as pessoas saibam que estivemos com Jesus e aprendemos dele a ser humildes de coração.
Sendo ensinados por aquele que era manso e humilde de coração, seremos então capacitados a viver “com toda mansidão”.
Isso implica não apenas domínio sobre a ira, mas também sobre todas as paixões violentas e turbulentas.
Implica manter todas as paixões na proporção correta: nenhuma excessivamente forte ou excessivamente fraca, mas todas devidamente equilibradas entre si; todas subordinadas à razão, e a razão dirigida pelo Espírito de Deus.
Que essa serenidade governe toda a alma de vocês. Que seus pensamentos fluam como uma corrente tranquila, e que o curso uniforme de suas palavras e ações corresponda a isso.
Nessa paciência, vocês possuirão a própria alma, pois ela não é verdadeiramente nossa enquanto somos lançados de um lado para outro por paixões descontroladas.
Por meio disso, todas as pessoas poderão reconhecer que somos realmente seguidores do Jesus manso e humilde.
Vivam também com toda “paciência”. Ela está intimamente relacionada à mansidão, mas implica algo mais.
Ela dá continuidade à vitória já conquistada sobre todas as paixões turbulentas, apesar de todos os poderes das trevas e de todos os ataques de pessoas ou espíritos malignos.
A paciência triunfa serenamente sobre toda oposição e permanece imóvel, mesmo quando todas as ondas e tempestades passam sobre ela.
Ainda que seja provocada repetidas vezes, permanece a mesma: tranquila e inabalável, jamais vencida pelo mal, mas vencendo o mal com o bem.
A expressão “suportando uns aos outros em amor” parece significar não apenas que não devemos guardar ressentimento nem nos vingar; não apenas que não devemos ferir, prejudicar ou entristecer uns aos outros por palavras ou ações.
Significa também carregar os fardos uns dos outros e, mais ainda, diminuí-los por todos os meios que estiverem ao nosso alcance.
Implica participar dos sofrimentos, das aflições e das fraquezas dos outros; sustentá-los quando, sem nosso auxílio, estariam prestes a afundar debaixo de seus fardos; procurar levantar sua cabeça abatida e fortalecer seus joelhos enfraquecidos.
Finalmente, os verdadeiros membros da Igreja de Cristo se esforçam, com toda diligência possível, com todo cuidado e trabalho, com paciência incansável — e tudo isso ainda será pouco —, para “preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz”.
Procuram preservar intacto o mesmo espírito de humildade e mansidão, de paciência, tolerância mútua e amor.
Todas essas coisas são cimentadas e unidas por aquele vínculo sagrado: a paz de Deus enchendo o coração.
Somente assim podemos ser e continuar sendo membros vivos daquela Igreja que é o corpo de Cristo.
Por toda essa exposição, não fica claro por que, no antigo Credo, geralmente chamado Credo dos Apóstolos, chamamos a Igreja de universal ou católica — “a santa Igreja católica”?
Quantas razões extraordinárias já foram inventadas para explicar essa expressão!
Um homem instruído nos informa: “A Igreja é chamada santa porque Cristo, sua Cabeça, é santo.”
Outro autor importante afirma: “Ela é chamada santa porque todas as suas ordenanças foram destinadas a promover a santidade.”
Outro ainda diz: “Porque nosso Senhor desejava que todos os membros da Igreja fossem santos.”
Não! A razão mais breve, mais clara e a única verdadeira é esta: a Igreja é chamada santa porque ela é santa; porque todos os seus membros são santos, embora em diferentes graus, assim como é santo aquele que os chamou.
Como isso é claro!
Se a Igreja, em sua própria essência, é um corpo de pessoas que creem, ninguém que não seja um cristão verdadeiro pode ser membro dela.
Se todo esse corpo é animado por um só Espírito e dotado de uma só fé e de uma só esperança da sua vocação, então aquele que não possui esse Espírito, essa fé e essa esperança não é membro desse corpo.
Segue-se que não apenas nenhum blasfemador habitual, profanador do dia do Senhor, embriagado, sexualmente imoral, ladrão, mentiroso ou qualquer pessoa que viva em pecado exterior pode ser membro da Igreja.
Também não pode ser membro dela quem está debaixo do domínio da ira ou do orgulho, quem ama o mundo ou, em resumo, quem está morto para Deus.
Poderia existir algo mais absurdo do que pessoas gritarem: “A Igreja! A Igreja!”, fingindo possuir grande zelo por ela e apresentando-se como seus violentos defensores, quando elas mesmas não têm parte nem herança nela e nem sequer sabem o que a Igreja é?
Entretanto, até nisso a mão de Deus está presente! Até nisso sua maravilhosa sabedoria aparece, dirigindo o erro dessas pessoas para sua própria glória e fazendo “a terra ajudar a mulher” (Apocalipse 12.16).
Imaginando que sejam membros da Igreja, as pessoas do mundo frequentemente a defendem. Caso contrário, os lobos que cercam o pequeno rebanho por todos os lados logo o despedaçariam.
Por essa mesma razão, não é sábio provocá-las além do inevitável.
Também por esse motivo, quanto depender de nós, procuremos “ter paz com todos” (Romanos 12.18), especialmente porque não sabemos quando Deus poderá chamar também essas pessoas para fora do reino de Satanás e transportá-las para o Reino de seu Filho amado.
Enquanto isso, todos os que são verdadeiros membros da Igreja devem cuidar para viver de maneira santa e irrepreensível em todas as coisas.
“Vocês são a luz do mundo!” São “uma cidade situada no alto de um monte” e não podem ficar escondidos.
Que a luz de vocês brilhe diante das pessoas! Mostrem sua fé por meio das obras.
Que elas percebam, por todo o curso da vida de vocês, que sua esperança está inteiramente depositada no alto.
Que todas as suas palavras e ações demonstrem o Espírito pelo qual são animados.
Acima de todas as coisas, que seu amor seja abundante.
Que ele se estenda a todos os filhos dos seres humanos. Que transborde para todos os filhos de Deus.
Por meio disso, que todas as pessoas reconheçam de quem vocês são discípulos: porque amam uns aos outros.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.