Uma Só Carne · Curso para CasaisAula 7

Sexualidade: dádiva de Deus

“Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula.”Hebreus 13.4 · NAA

Bispo Ildo Mello e Ana Cristina MelloLeitura prévia: Gn 2.24-25; Pv 5.15-19; 1Co 7.3-5

Para começar

Desmitificando o sexo

Poucos assuntos acumularam tantos mitos, tabus e distorções quanto a sexualidade. E poucos assuntos precisam tanto de uma palavra bíblica clara dentro da igreja.

Esta aula nasce do material que eu e Ana Cristina preparamos para casais: uma conversa franca, reverente e bíblica sobre o sexo no casamento. O ponto de partida é este: foi o próprio Deus quem criou o ser humano como ser sexual, e chamou a sua criação de “muito boa” (Gn 1.27, 31). O sexo no casamento não é concessão à carne; é dádiva do Criador, para ser desfrutada sem culpa e sem inibições entre marido e mulher.

Panorama

O que inventaram sobre o sexo ao longo da história

Muitos tabus que carregamos não vêm da Bíblia; vêm da história. Um passeio rápido ajuda a separar o que é Palavra de Deus do que é invenção humana.

Correntes antigas. Fora da igreja, o gnosticismo desprezava o corpo e o mundo material. Dentro da história cristã, surgiram correntes ascéticas, de raízes variadas, que por vezes valorizaram o celibato e a abstinência a tal ponto que o prazer sexual dentro do casamento acabou visto com suspeita. Essas tendências não representam toda a tradição cristã, mas semearam tabus duradouros.
Idade Média. Nasce o amor cortês, semente do amor romântico; ainda assim, em muitos ambientes o sexo seguia sob suspeita, e o prazer conjugal raramente era celebrado como a Escritura o celebra.
Séculos XIX e XX. Do romantismo reprimido dos espartilhos ao casamento por amor, e então à revolução sexual dos anos 60 a 80: o pêndulo foi do sexo como tabu ao sexo como ídolo.
Hoje. A sexualidade é discutida abertamente em todos os meios, mas quase sempre desligada da aliança. O mundo banalizou o que Deus consagrou.

Repare: nem o tabu religioso que envergonha o leito do casamento, nem a banalização moderna que o profana, vêm das Escrituras. A Bíblia tem um caminho melhor que os dois extremos.

A Palavra

O que a Bíblia realmente diz

Ao contrário de vários sistemas religiosos e filosóficos, a visão bíblica da sexualidade é francamente positiva.

Sem vergonha: “o homem e sua mulher estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2.25). A nudez conjugal pertence ao projeto original, antes de qualquer pecado.
Com honra: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula” (Hb 13.4). O leito conjugal não é tolerado por Deus; é honrado por ele.
Com alegria: “Alegre-se com a mulher da sua mocidade… que os carinhos dela o satisfaçam em todo o tempo; e embriague-se sempre com o seu amor” (Pv 5.18-19). O texto sagrado usa a linguagem da embriaguez para o prazer conjugal.
Como dom para a vida toda: “Goze a vida com a mulher que você ama” (Ec 9.9). Prazer e companheirismo caminham juntos até o fim.

E o propósito? A Bíblia jamais reduz o sexo à procriação. Os filhos são bênção (Sl 127.3), mas os textos acima celebram o prazer e a união do casal como fins legítimos em si mesmos: “os dois serão uma só carne” (Gn 2.24).

Cântico dos Cânticos

A escola de Cantares

Deus incluiu no cânon um longo poema de amor entre um homem e uma mulher. Sua linguagem não deve ser espiritualizada a ponto de perder a franqueza e o deleite que ela celebra.

Cantares é uma escola prática do amor conjugal. Vejam o que ali se aprende:

A mulher toma a iniciativa. É ela quem abre o livro pedindo beijos e declara sem rodeios o seu desejo: “desfaleço de amor… a sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a direita me abrace” (Ct 2.5-6). A Bíblia não impõe à esposa um papel passivo; a busca é dos dois.
Perfume e clima. O nardo, a mirra, as flores de hena (Ct 1.12-14), os frutos reservados ao amado (Ct 7.13): o poema celebra o preparo, o cuidado, o clima de sedução dentro da aliança.
Palavras de apreciação. Os dois passam o livro elogiando um ao outro em detalhe: “como você é linda, querida minha” (Ct 1.15), “o seu falar é muitíssimo doce; ele é totalmente desejável” (Ct 5.16). Elogio sincero é linguagem do amor conjugal; a falta de elogios, veremos adiante, é uma das raposinhas.
Conquista constante. Cantares ensina a tratar o cônjuge como um prêmio a ser conquistado continuamente, não como território já anexado. Tem gente que enche o tanque com água e quer que o carro ande do mesmo jeito: casamento sem cortejo contínuo para de andar.

1 Coríntios 7.3-5

“Não se privem um ao outro”

Paulo, com uma ousadia notável para o seu tempo, estabelece a mutualidade completa no leito conjugal.

“O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido… Não se privem um ao outro, a não ser por mútuo consentimento, por algum tempo, para se dedicarem à oração” (1Co 7.3-5). Observe a simetria: num mundo em que a mulher era tratada como propriedade, Paulo declara que o corpo do marido pertence à esposa na mesma medida em que o dela pertence a ele. A vida íntima é, portanto, dever de amor recíproco: nenhum dos dois pode usá-la como moeda de barganha, prêmio ou castigo. A pausa de que Paulo fala é a abstinência combinada de comum acordo, temporária, para dedicação à oração; coisa diferente são as situações da vida real em que um dos dois não tem condições naquele momento, por doença, dor, exaustão, pós-parto ou sofrimento emocional: aí, amor é cuidar, não cobrar.

“O meu amado é meu, e eu sou dele” (Ct 2.16): pertencimento mútuo, entrega mútua, prazer mútuo.

Sabedoria prática

A dinâmica das emoções

O sexo é muito mais do que o ato em si. Ele começa no pensamento, no olhar, no falar, no toque, no ambiente, muito antes do quarto.

Muitos casais de longa data se queixam: “não fazemos sexo como antes”. Talvez a frase certa fosse: “não pensamos o sexo como antes”. Quando a relação íntima vira um esquema mecânico, com começo, meio e fim previsíveis, preocupada com a execução e não com as emoções envolvidas, tudo desanda em rotina. A expectativa criada ao longo do dia, o carinho fora de hora, a palavra doce, o cuidado com o ambiente, são ingredientes que dão à relação o seu toque de especialidade.

Essa compreensão também explica muitas dificuldades: a mulher relegada a segundo plano no prazer, e dificuldades que em muitos casos têm raiz psicológica e relacional, não biológica, nascem de ideias erradas sobre sexo e prazer. Conversar com franqueza, e quando necessário buscar ajuda médica ou de aconselhamento, é atitude de sabedoria, não de vergonha.

Cantares 2.15

Cuidado com as raposinhas

“Peguem as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor” (Ct 2.15).

Não são os lobos que destroem a vinha do amor; são as raposinhas: coisas pequenas, toleradas dia após dia. Eis a lista que apresentamos aos casais. Leiam e identifiquem as suas:

Nas palavras: apelidos desdenhosos, linguagem ofensiva, palavras desmotivadoras, crítica constante, falta de elogios, grosseria.
Nas atitudes: indiferença, desprezo, silêncio punitivo, ficar na defensiva, culpar o outro, ciúmes, mágoas guardadas.
Na convivência: tempo excessivo no celular, ausência de romance, solidão a dois, estresse, amizades sem os devidos limites, interferências da família, desentendimento no uso do dinheiro.
Na intimidade: desequilíbrio na vida sexual: um quer frequência, o outro quer qualidade; um deseja o que o outro não aceita; um quer tempo de carinho, o outro tem pressa. Sem diálogo e concessões mútuas, esse desequilíbrio desgasta profundamente a vida conjugal.

Raposinha se apanha enquanto é pequena. A vinha em flor, o amor vivo do casal, merece essa vigilância.

E os lobos do nosso tempo. Algumas ameaças à intimidade não são raposinhas, são lobos: a pornografia, a infidelidade virtual, o uso secreto de conteúdo sexual e qualquer forma de coerção. Essas não se resolvem com um elogio por dia; pedem conversa franca, arrependimento e, na maioria dos casos, ajuda pastoral ou profissional. Quanto antes forem trazidas à luz, maior a chance de restauração (Ef 5.11-13; 1Jo 1.7).

Para o casal

Para conversar a dois

Esta conversa é íntima por natureza: façam-na a sós, com carinho, sem acusações. Se algum ponto for delicado demais, anotem para tratar com calma em outro momento, ou com ajuda de aconselhamento.

1. Que ideias sobre sexo cada um de nós trouxe de casa, da cultura ou até de ensinos religiosos equivocados? Alguma delas precisa ser corrigida pela visão bíblica que estudamos?
2. Da lista das raposinhas, quais são as duas que mais têm devastado a nossa vinha? O que faremos, em termos práticos, para apanhá-las nesta semana?
3. Cada um responda com franqueza e gentileza: o que faz você se sentir amado(a), desejado(a) e valorizado(a)? (Lembrem-se: o “botão singular” do outro raramente é igual ao seu.)

Exercício da semana: pratiquem a escola de Cantares: durante a semana, cada um faça ao outro pelo menos um elogio sincero e específico por dia (da aparência, do caráter, de um gesto), e preparem juntos um encontro a dois com clima: sem celular, com cuidado no ambiente e tempo sem pressa. O objetivo não é “cumprir agenda”, é reacender a expectativa e o cortejo.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Cresci ouvindo que falar de sexo é falta de santidade, e sinto vergonha até no casamento. Como vencer isso?Ver resposta sugerida
Primeiro, com a verdade: a vergonha que você sente não veio da Bíblia, veio de tradições humanas que estudamos nesta aula, do gnosticismo aos tabus medievais, que trataram como sujo o que Deus declarou digno de honra (Hb 13.4). Reconhecer a origem do tabu já é meio caminho para desarmá-lo. Segundo, com a Palavra: leia Cantares com o seu cônjuge, sem pressa e sem constrangimento, notando que Deus incluiu no seu livro a iniciativa da esposa, o perfume, o elogio detalhado e o desejo declarado. O que Deus escreveu, o cristão não precisa corar para viver. Terceiro, com passos pequenos: a intimidade verbal costuma vir antes da desenvoltura; comecem conversando sobre o que cada um sente e prefere, com a gentileza de quem trata de algo precioso. Quarto, com oração: agradeça a Deus pela dádiva da sexualidade conjugal; é difícil continuar envergonhado daquilo por que se aprende a dar graças. E se a vergonha tiver raízes mais profundas (experiências dolorosas do passado, por exemplo), buscar aconselhamento pastoral ou terapêutico é atitude de fé, não de fraqueza: Deus restaura também essa área.
Nossos desejos são muito diferentes em frequência e forma. Quem deve ceder?Ver resposta sugerida
Os dois, e nenhum sozinho. O texto que rege essa conversa é 1Coríntios 7.3-5, e ele é deliberadamente simétrico: o corpo do marido pertence à esposa exatamente como o dela pertence a ele. Isso exclui os dois erros comuns: o de quem exige, transformando o leito em obrigação unilateral e cobrança, e o de quem priva, transformando-o em moeda de barganha ou castigo. O caminho bíblico é o “mútuo consentimento”: uma conversa franca, fora do quarto e fora do calor do momento, em que cada um expõe sem acusação o que deseja e o que o incomoda, e os dois constroem concessões recíprocas, o que inclui respeitar limites de consciência do outro sem ridicularizá-los, e também alargar com generosidade a própria disposição de agradar. Lembrem ainda o que a aula ensinou sobre a dinâmica das emoções: o cortejo, o elogio e o cuidado ao longo do dia favorecem muito o encontro, embora não sejam fórmula: o desejo também é afetado por fatores que não dependem de vontade, como depressão, ansiedade, traumas, medicamentos, alterações hormonais, menopausa, dores e outras condições de saúde; nesses casos, cuidar um do outro inclui buscar avaliação médica ou terapêutica sem vergonha e sem cobrança. Se mesmo com diálogo o desequilíbrio persistir e virar fonte de mágoa, procurem juntos aconselhamento: essa área é importante demais para ser entregue ao desgaste silencioso.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leiam juntos, ao longo da semana, o Cântico dos Cânticos (são apenas 8 capítulos), e releiam Provérbios 5.15-19 e 1Coríntios 7.3-5.

Tarefas

Um elogio específico por dia; o encontro a dois com clima; e apanhar as duas raposinhas identificadas na conversa do casal.

Aula 8

Dinheiro, trabalho e prioridades: quem governa a nossa casa? Mordomia, transparência financeira, contentamento e o princípio de Wesley. Ir para a Aula 8 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello e Ana Cristina Mello