Contexto
Reconhecer o contexto em que as profecias foram proferidas: quem falou, para quem, em que momento da história.
“O Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o Senhor, e um só será o seu nome.”Zacarias 14.9
Para começar
Árdua tarefa interpretar corretamente as profecias bíblicas. Há muita controvérsia a respeito. Alguns princípios simples de hermenêutica são indispensáveis.
Reconhecer o contexto em que as profecias foram proferidas: quem falou, para quem, em que momento da história.
Levar seriamente em consideração as interpretações que Cristo e seus Apóstolos deram às profecias do Antigo Testamento.
Levar em conta as características peculiares da linguagem dos profetas: sonhos, visões, figuras e enigmas (Nm 12.6-8; Os 12.10).
Zacarias 14 é um campo de prova para esses três princípios. É um dos capítulos favoritos de quem espera um milênio literal com templo reconstruído e sacrifícios restaurados. Nesta aula, vamos deixar que Jesus e os Apóstolos nos mostrem como lê-lo.
Princípio 1
Zacarias é contemporâneo do profeta Ageu. Profetizou entre 520 e 518 a.C., na época da reconstrução do templo.
O templo havia sido destruído em 586 a.C. pelo exército de Nabucodonosor. Tal destruição se deu por conta do juízo de Deus contra a infidelidade do povo judeu à Aliança. O povo voltava agora do exílio babilônico, animado pelas profecias de Jeremias sobre os setenta anos (Dn 9.2) e pela visão das Setenta Semanas dada a Daniel.
A profecia de Zacarias fala do Messias que entraria em Jerusalém, seria ferido e abandonado, e mostra, na sequência, um novo juízo de Deus contra a cidade. Zacarias e Daniel descrevem o mesmo cenário: um texto lança luz sobre o outro. E mais luz ainda teremos ao examinar como Jesus e seus Apóstolos interpretaram tais profecias.
Para aprofundar: a visão das Setenta Semanas tem estudo próprio do Bispo: As Setenta Semanas de Daniel.
Princípio 2
O Novo Testamento cita Zacarias repetidas vezes, e sempre com o mesmo centro: Cristo. Veja o mapa.
O cumprimento histórico
“Eis que vem o Dia do Senhor… ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada” (Zc 14.1-2).
O exército do Império Romano, que englobava inúmeras nações, cercou e destruiu a cidade de Jerusalém e o templo em 67-70 d.C., conforme profetizou Zacarias. A angústia e a desolação de Jerusalém foram as maiores de toda a sua história. Veja como Jesus interpretou essa profecia, anunciando seu cumprimento naquela mesma geração:
“Quando virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação… Porque estes dias são de vingança, para se cumprir tudo o que está escrito… Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações; e, até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém será pisada por eles” (Lc 21.20-24).
“Tudo o que está escrito”
A frase indica que não foram poucas as profecias sobre uma nova destruição de Jerusalém. Zacarias 14 e Daniel 9 estão entre elas: o Dia do Senhor contra a cidade que rejeitou o Messias.
Dn 9.26; Zc 14.1-2; Lc 19.41-44
“Esta geração”
Jesus deixou claro que a destruição do templo e da cidade ocorreria naquela mesma geração (Mt 23.36; Mc 13.30; Lc 21.32). Foi o que aconteceu no ano 70 d.C.
Mt 24.34
Jesus é o melhor intérprete da profecia de Zacarias, de Daniel e de todos os demais profetas do Antigo Testamento.
O cuidado de Deus
“Fugireis pelo vale dos meus montes” (Zc 14.5). No juízo contra Jerusalém, Deus promoveu escape para o remanescente fiel que recebeu Jesus como Messias.
Jesus advertiu seus discípulos: “os que estiverem na Judeia fujam para os montes” (Mt 24.16). E eles realmente puderam escapar quando viram os exércitos romanos se aproximando de Jerusalém.
Interpretar Zacarias 14.4-5 como referência à Segunda Vinda de Cristo é complicado, porque não faria sentido que os que são de Deus tivessem que fugir exatamente quando Cristo vem para salvá-los. Quando Jesus retornar, seu povo não terá o que temer. Aquele não será o dia da nossa fuga, mas do nosso encontro com Ele.
As águas vivas. “Correrão de Jerusalém águas vivas, metade delas para o mar oriental, e a outra metade, até ao mar ocidental” (Zc 14.8). Ao fugirem de Jerusalém, os cristãos espalharam as Boas Novas pelo mundo. E foi na Festa dos Tabernáculos, referindo-se a essa esperança, que Jesus convidou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba… do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37-38), o que João explica como referência ao Espírito Santo (Jo 7.39). O rio chega à sua plenitude na Nova Jerusalém (Ap 22.1).
Princípio 3
Uma interpretação literal de Zacarias 14 tem levado muitos a concluir que, num reino milenar, o sacerdócio levítico será restaurado, os sacrifícios de animais voltarão e o templo será mais uma vez reconstruído em Jerusalém.
Mas o templo se revestiu de um novo significado no Novo Testamento: tornou-se um tipo de Cristo e de sua Igreja (Ef 2.19-22; 1Co 3.16). No Apocalipse, o termo aparece sempre se referindo ao templo celestial ou ao próprio Deus: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21.22).
Jesus fez um sacrifício eficaz, pleno, uma vez por todas. Não há mais lugar para os cerimoniais e sacrifícios que eram sombras da realidade cumprida em Cristo (Hb 9-10). Falando à mulher samaritana, Jesus anunciou o tempo em que a adoração não estaria mais confinada ao templo de Jerusalém, mas seria realizada em espírito e em verdade (Jo 4.21-23).
Sombra
Templo de pedra, sacerdócio levítico, sacrifícios repetidos, festa celebrada em Jerusalém.
Realidade
Cristo e sua Igreja, o sacrifício único da cruz, a adoração em espírito e em verdade em toda a terra.
O futuro deve ser encarado como a consumação da realidade, e não como um retorno às sombras do passado. Defender a volta dos sacrifícios, ainda que como celebração simbólica, revela descaso para com o sacrifício supremo realizado por Cristo na cruz.
A colheita
“Todos os que restarem de todas as nações… subirão de ano em ano para adorar o Rei” (Zc 14.16). Restauração literal da festa judaica? Não: a profecia descreve as bênçãos espirituais futuras em termos próprios da religiosidade e da cultura de Israel.
A Festa dos Tabernáculos é a última das grandes festas de Israel, exatamente aquela que celebra a plenitude da colheita (Êx 23.16; Dt 16.13-15). Um paralelo pode ser traçado: a Páscoa diz respeito à redenção que temos em Cristo; o Pentecostes, aos primeiros frutos do Reino pelo poder do Espírito; e a Festa dos Tabernáculos celebra a plenitude da colheita do Reino de Deus.
A consumação
“O Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o Senhor, e um só será o seu nome” (Zc 14.9).
O Apocalipse responde: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). E a promessa de que “já não haverá maldição” (Zc 14.11) reaparece, palavra por palavra, na visão final: “Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22.3).
Até as coisas mais comuns serão consagradas: as campainhas dos cavalos receberão a inscrição que antes era exclusiva da mitra do sumo sacerdote, “Santidade ao Senhor” (Zc 14.20; Êx 28.36). Tudo santo, tudo consagrado, nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1).
Conclusão da aula. Devemos reconhecer o contexto das profecias e as peculiaridades da linguagem profética, e deixar que a Bíblia interprete a própria Bíblia, levando a sério as interpretações que Cristo e seus Apóstolos deram às profecias do Antigo Testamento. Em Cristo e sua Igreja, já nesta era e ainda mais plenamente na Nova Jerusalém, é que se cumprem as profecias sobre a restauração de Jerusalém e do reino de Israel (Rm 4.13; Hb 11.9-10).
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Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Para ver e rever
Se você preferir ouvir o argumento inteiro de uma vez, esta exposição do Bispo Ildo percorre o mesmo caminho da lição: o contexto, as citações de Zacarias no Novo Testamento e o cumprimento.
Zacarias 14 – Desvendando a profecia · Bispo Ildo Mello
Para aprofundar. Esta aula nasceu do estudo A interpretação da Profecia de Zacarias 14, do Bispo Ildo Mello, com o quadro completo das citações de Zacarias no Novo Testamento e a discussão do contexto histórico.
Tarefas
Ler Zacarias 14 inteiro e, ao lado, Lucas 21.20-24 e João 7.37-39, anotando cada eco entre os textos; e escrever, em poucas linhas, por que a fuga de Zacarias 14.5 combina melhor com o ano 70 d.C. do que com a Segunda Vinda.
Aula 4
Daniel 9 e as Setenta Semanas: a oração que abriu a visão, os seis propósitos cumpridos no Ungido, a conta dos 490 anos e a pergunta do parêntese. Ir para a Aula 4 →
Citações bíblicas: Almeida Revista e Atualizada (RA) e Nova Almeida Atualizada (NAA), conforme o estudo original. · Bispo Ildo Mello