Profecias do Antigo TestamentoAula 6

Ezequiel 40–48: o templo da visão

“E o nome da cidade, desde aquele dia, será: O Senhor Está Ali.”Ezequiel 48.35

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Ez 40.1-5; 43.1-12; 47.1-12; Ap 21.9-22.5

Para começar

A prova de fogo do literalismo

Nove capítulos inteiros medindo pátios, portões, câmaras e altares. Ezequiel 40–48 é o texto favorito de quem espera, para o milênio, um templo reconstruído em Jerusalém, com sacerdócio levítico e sacrifícios de animais. É também o texto em que essa leitura enfrenta as suas maiores dificuldades.

Antes de abrir a visão, vale lembrar o que o literalismo já fez com as palavras de Deus. Nicodemos, por conta do literalismo, concluiu que nascer de novo era voltar ao ventre da mãe (Jo 3.4). A mulher samaritana pediu daquela água para não precisar mais voltar ao poço (Jo 4.10-15). E os líderes judeus, quando Jesus falou do templo do seu corpo, entenderam pedra e cal, e usaram a frase para condená-lo (Jo 2.19-21; Mt 26.61).

Repare no detalhe: o erro dos líderes foi exatamente sobre a palavra templo. Se o literalismo errou o templo quando o Verbo estava em pé diante deles, convém humildade redobrada ao ler o templo de uma visão. Esta aula percorre Ezequiel 40–48 com o método do curso: contexto, Escritura interpretando Escritura e respeito à linguagem da profecia.

O contexto

Um sacerdote sem templo

“No ano vinte e cinco do nosso exílio… catorze anos depois de ferida a cidade” (Ez 40.1). Estamos em 573 a.C. Ezequiel, sacerdote levado cativo para a Babilônia, fala a um povo esmagado: Jerusalém caiu, o templo virou cinza.

Para aquele povo, a pergunta não era acadêmica. O templo era o lugar da presença; sem templo, Deus os teria abandonado? Ezequiel já havia respondido metade da pergunta anos antes, na sua visão mais dolorosa: por causa das abominações praticadas dentro do próprio santuário, a glória do Senhor se levantou, hesitou à entrada, e partiu da cidade (Ez 8–11; 11.23). O juízo de 586 a.C. apenas confirmou por fora o que já havia acontecido por dentro.

O panorama

O que Ezequiel viu

Num monte muito alto, um homem com aparência de bronze e uma cana de medir na mão conduz o profeta por um santuário perfeito (Ez 40.2-3).

Um templo medido em simetria perfeita (Ez 40–42). Pátios, portões idênticos, câmaras, tudo em quadrados e proporções exatas. A medição não é burocracia: é a mensagem de que nada ali é acaso.
A glória volta (Ez 43.1-5). Pelo mesmo caminho do oriente por onde partira, a glória do Senhor entra no templo, e a terra resplandece. É o clímax que desfaz a tragédia dos capítulos 8–11.
Ordenanças de santidade (Ez 43–46). Sacerdócio, altar, festas, ofertas: a vida inteira ordenada ao redor da presença.
O rio da vida (Ez 47.1-12). Das soleiras do santuário brota água que se torna rio; por onde passa, tudo revive.
A terra repartida e a cidade (Ez 47–48). Cada tribo com a sua porção, e no centro, a porção santa. A visão termina com o nome da cidade: O Senhor Está Ali (Ez 48.35).

Esse nome final é a chave de tudo. A visão não existe para exaltar um edifício; existe para prometer uma presença.

O propósito declarado

Um sermão em arquitetura

O próprio texto diz para que a visão foi dada, e não é para levantar paredes.

“Filho do homem, mostra à casa de Israel este templo, para que se envergonhe das suas iniquidades, e meça o modelo… Esta é a lei do templo: sobre o cimo do monte, todo o seu contorno ao redor será santíssimo” (Ez 43.10-12).

A finalidade declarada é produzir vergonha do pecado e zelo pela santidade. A “lei do templo” resume a visão inteira numa frase: tudo, no topo do monte, é santíssimo. Cada muro, cada medida, cada degrau prega o mesmo sermão: Deus é santo, o pecado afasta a sua glória, e a graça prepara um lugar onde a presença habita para sempre.

Por isso os pátios em quadrados perfeitos e os acessos guardados: a arquitetura é doutrina. Ezequiel, sacerdote, recebe um santuário desenhado como pregação, do mesmo modo que o tabernáculo de Moisés era “figura e sombra das coisas celestiais” (Hb 8.5).

O exame

O problema da leitura literal

A leitura dispensacionalista espera que esse templo seja construído em Jerusalém durante o milênio, com sacrifícios de animais oferecidos, dizem, apenas como memorial. O texto e o Novo Testamento criam três dificuldades sérias.

1

Os sacrifícios expiam, não relembram

Ezequiel diz que as ofertas serão “para fazer expiação por eles” (Ez 45.15, 17; cf. 45.20). Não é linguagem de memorial. E Hebreus é definitivo: depois do sacrifício único de Cristo, “onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado” (Hb 10.18).

2

A geografia é visionária

Um rio que brota de uma soleira e, sem receber nenhum afluente, em menos de dois quilômetros se torna torrente que não se pode atravessar (Ez 47.3-5), saindo de um monte “muito alto” que não corresponde ao relevo de Jerusalém (Ez 40.2). É linguagem de visão, como as que abrem o próprio livro (Ez 1).

3

O Novo Testamento silencia

Não existe um único texto do Novo Testamento que anuncie a reconstrução do templo destruído em 70 d.C. O que existe é o anúncio do templo maior: o corpo de Cristo e a sua Igreja (Jo 2.19-21; Ef 2.19-22).

Escritura interpretando Escritura

João lendo Ezequiel

O último livro da Bíblia percorre Ezequiel 40–48 quase cômodo por cômodo. Veja o mapa.

Ez 40.3 → Ap 21.15. O homem com cana de medir se torna o anjo “com uma cana de ouro para medir a cidade”.
Ez 40–42 → Ap 21.16. As simetrias quadradas do templo se tornam a cidade “quadrangular”, de comprimento, largura e altura iguais.
Ez 48.30-34 → Ap 21.12-13. As doze portas com os nomes das doze tribos, três para cada ponto cardeal, reaparecem uma a uma.
Ez 43.2-5 → Ap 21.11, 23. A glória que volta ao templo se torna a glória que ilumina a cidade, dispensando sol e lua.
Ez 47.1-12 → Ap 22.1-2. O rio que sai do santuário se torna o rio da água da vida que sai do trono de Deus e do Cordeiro.
Ez 47.12 → Ap 22.2. As árvores de fruto mensal, cujas folhas servem de remédio, se tornam a árvore da vida, “e as folhas da árvore são para a cura dos povos”.
Ez 48.35 → Ap 21.3. “O Senhor Está Ali” se torna “eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles”.

E o arremate de João: depois de percorrer Ezequiel inteiro, ele declara: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21.22). João não ignora o templo de Ezequiel; ele mostra que o cumprimento é maior do que a figura. A visão prometia a presença; a realidade É a presença, sem mediação de edifício algum.

O centro

O templo verdadeiro

O Novo Testamento conta a história do templo em quatro movimentos, e Ezequiel aponta para todos eles.

Em Cristo e sua Igreja, já nesta era, e ainda mais plenamente na Nova Jerusalém, é que a visão de Ezequiel se cumpre. O futuro é a consumação da realidade, não o retorno às sombras (Hb 10.1).

Ezequiel 47

O rio que sai do santuário

Das soleiras da casa, a água brota. Mil côvados: pelos tornozelos. Mais mil: pelos joelhos. Mais mil: pelos lombos. Mais mil: “um rio que eu não podia atravessar” (Ez 47.3-5). E por onde o rio passa, tudo vive: as águas do mar Morto saram, os pescadores estendem redes, as árvores dão fruto todo mês (Ez 47.8-12).

Jesus tomou essa imagem para si na Festa dos Tabernáculos: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”, o que João explica como referência ao Espírito Santo (Jo 7.37-39). O rio nasce no santuário, e o santuário é Cristo; a corrente passa pela Igreja e leva vida ao mundo, até chegar à sua plenitude no rio “que sai do trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22.1).

E há um convite pessoal na geografia do rio. Tornozelos, joelhos, lombos, águas de nadar: a mesma graça, em profundidades diferentes. O rio não é raso por falta de água; muitos é que preferem a margem. A pergunta da visão para cada crente é simples: até onde você deixa a corrente levar?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Em Ezequiel 8–11, a glória partiu do templo por causa do que acontecia lá dentro, e ninguém percebeu a partida. O que isso diz à igreja e ao crente de hoje?Ver resposta sugerida
Diz que a presença de Deus não se afasta por decreto barulhento, mas por profanação tolerada. No templo de Ezequiel 8, o culto continuava funcionando por fora enquanto as abominações moravam nas câmaras internas; a glória saiu em silêncio, e a rotina religiosa seguiu como se nada tivesse acontecido. O perigo moderno é o mesmo: cultos cheios e câmaras internas ocupadas por ídolos discretos, o dinheiro, a imoralidade escondida, a vaidade ministerial. Se somos santuário de Deus (1Co 3.16), a pergunta do texto é de auto-exame: o que mora nas minhas câmaras internas? A boa notícia de Ezequiel 43 permanece: a glória que parte por causa do pecado volta pelo caminho da graça, para o coração que se envergonha e se consagra (Ez 43.10-12; 1Jo 1.9).
Como conversar, com mansidão, com um irmão que espera a construção do templo de Ezequiel no milênio, com sacrifícios de animais?Ver resposta sugerida
Não comece pela planta do templo; comece pela cruz. Leia com ele Hebreus 10.11-18 e pergunte: depois do sacrifício único e perfeito, que lugar resta para ofertas pelo pecado, se “onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado”? Em seguida, mostre que Ezequiel chama as ofertas da visão de expiação (Ez 45.15, 17), o que impede a saída do “memorial”. Então leia João 2.19-21 e Apocalipse 21.22, deixando o próprio Novo Testamento dizer onde o templo se cumpre. Se ele ainda discordar, entregue-lhe a pergunta pastoral de Ezequiel 43.10, que serve às duas leituras: a visão foi dada para nos envergonhar do pecado e nos consagrar à santidade. Nisso vocês já podem caminhar juntos hoje, e a mansidão terá guardado a comunhão (2Tm 2.24-25).

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. O método desta aula está desenvolvido no estudo O literalismo dispensacionalista e suas inconsistências, do Bispo Ildo Mello, com vinte e duas inconsistências examinadas uma a uma.

Tarefas

Ler Ezequiel 40.1-5, 43.1-12 e 47.1-12 ao lado de Apocalipse 21.9-22.5, marcando cada paralelo que encontrar; e escrever, em meia página, a resposta que você daria à pergunta: os sacrifícios de Ezequiel 45 podem ser oferecidos depois de Hebreus 10?

Aula 7

Joel 2 e o Espírito derramado sobre toda a carne: o exemplo mais límpido de apóstolo interpretando profecia, quando Pedro declara em Pentecostes: isto é o que foi dito. Ir para a Aula 7 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello