Profecias do Antigo TestamentoAula 8

Jeremias 31: a Nova Aliança

“Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá.”Jeremias 31.31

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Jr 31.31-34; Lc 22.14-20; Hb 8

Para começar

A única “nova aliança” do Antigo Testamento

Em todo o Antigo Testamento, a expressão “nova aliança” aparece uma única vez: aqui, em Jeremias 31.31. E ela foi anunciada no pior momento possível.

Jeremias profetizou nas últimas décadas de Judá, vendo de perto a marcha da nação para o desastre de 586 a.C. Foi a um povo à beira do exílio, com a aliança do Sinai despedaçada pela infidelidade, que Deus anunciou que não desistiria: viria uma aliança nova, melhor, definitiva.

Esta aula liga três coisas que costumam andar separadas: a profecia de Jeremias, o sacramento da Ceia do Senhor e o fim do sistema antigo de sacrifícios. O Novo Testamento as amarra num único nó, e o nó é o sangue de Cristo.

O contexto

A aliança quebrada

“Não conforme a aliança que fiz com seus pais… aliança que eles anularam, apesar de eu os haver desposado” (Jr 31.32).

O problema nunca esteve na lei de Deus, que é santa, justa e boa (Rm 7.12). O problema estava no coração do povo: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr 17.9). A aliança do Sinai foi escrita em tábuas de pedra e quebrada por corações de pedra. Um pacto gravado do lado de fora do homem não tinha como sobreviver ao que morava do lado de dentro.

Por isso a nova aliança não é uma segunda tentativa do mesmo método. Ela ataca o problema na raiz: em vez de exigir de fora, Deus promete agir por dentro.

Jeremias 31.33-34

As quatro promessas

A nova aliança é anunciada com quatro promessas encadeadas, e a última sustenta as três primeiras.

1

A lei no coração

“Porei a minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração.” Não mais só em pedra, mas em pessoas: obediência que nasce de dentro.

2

Pertença mútua

“Eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” A fórmula da aliança, agora firmada em caráter definitivo.

3

Conhecimento direto

“Todos me conhecerão, desde o menor até o maior.” Não um saber de segunda mão, mas comunhão pessoal com Deus, ao alcance de todos no povo da aliança.

4

Perdão definitivo

Porque perdoarei as suas iniquidades e nunca mais me lembrarei dos seus pecados.” Repare no porquê: o perdão é o fundamento que torna possíveis as outras três promessas.

O cumprimento declarado

O cálice na véspera da cruz

Seis séculos depois de Jeremias, numa noite de Páscoa, Jesus tomou um cálice e disse quem cumpriria a profecia.

“Este cálice é a nova aliança no meu sangue derramado em favor de vocês” (Lc 22.20; 1Co 11.25).

É uma das declarações mais solenes de toda a Escritura. A única “nova aliança” prometida no Antigo Testamento é reivindicada por Jesus na véspera da cruz: o sangue que a firma é o dele. Como vimos na Aula 4, Daniel já apontava para o Ungido que “fará firme aliança com muitos” e faria cessar o sacrifício (Dn 9.27).

E aqui a profecia toca o sacramento: cada vez que a igreja se reúne à mesa do Senhor, ela proclama Jeremias 31 cumprido. “Todas as vezes que comerem deste pão e beberem do cálice, vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co 11.26). A Ceia é a nova aliança servida em pão e cálice, memória do perdão definitivo e antecipação do banquete do Reino.

A exposição apostólica

A citação mais longa do Antigo Testamento no Novo

Quando o autor de Hebreus quer provar que o sistema antigo chegou ao fim, ele não argumenta primeiro: ele cita. Hebreus 8.8-12 transcreve Jeremias 31.31-34 por inteiro, a mais longa citação do Antigo Testamento em todo o Novo.

Dois capítulos adiante, Hebreus volta a Jeremias 31 para dar o arremate que já encontramos nas Aulas 3 e 6: se a nova aliança traz o perdão definitivo, “onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado” (Hb 10.15-18). O fim dos sacrifícios não é uma inferência dos teólogos; é a leitura que o próprio Novo Testamento faz de Jeremias.

A pergunta inevitável

Com quem é a aliança?

Jeremias diz: “com a casa de Israel e com a casa de Judá” (Jr 31.31). Como a Igreja entra nessa promessa?

A resposta apostólica é direta: Hebreus aplica o oráculo inteiro à comunidade cristã, e Jesus entrega o cálice da nova aliança aos seus discípulos, o núcleo do novo Israel. Paulo explica o mecanismo com a figura da oliveira: os gentios, que estavam “separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa”, foram “aproximados pelo sangue de Cristo” (Ef 2.12-13) e enxertados na mesma árvore (Rm 11.17).

O que não aconteceu

Deus não criou uma aliança paralela para a Igreja, deixando a de Jeremias guardada para outro povo e outra época.

O que aconteceu

Judeus e gentios crentes foram reunidos num só povo, numa só oliveira, sob a única nova aliança, firmada de uma vez por todas no sangue de Cristo (Ef 2.14-16).

Por isso a mesa da Ceia é uma só. Não há mesa dos judeus e mesa dos gentios: há o cálice da nova aliança, servido ao único povo de Deus.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Se cada Ceia proclama a nova aliança de Jeremias 31 cumprida, o que muda na maneira como você participa da mesa do Senhor?Ver resposta sugerida
Muda o tom. Quem entende o cálice deixa de participar por rotina ou por medo e passa a participar por memória e gratidão: aquele cálice anuncia que Deus escreveu a lei no meu coração, me fez seu, me deu conhecimento direto dele e nunca mais se lembrará dos meus pecados (Jr 31.33-34). O exame de consciência que Paulo pede (1Co 11.28) não é um tribunal para descobrir se mereço a mesa; ninguém merece. É o ajuste do coração à aliança: confissão sincera, reconciliação com os irmãos, fé no sangue que firma tudo. E há o horizonte: “até que ele venha” (1Co 11.26). Cada Ceia olha para trás, para a cruz, e para a frente, para o banquete do Reino. Participar bem é comer o pão como quem já tem lugar reservado na mesa definitiva.
Como responder, com mansidão, a quem diz que a Igreja “tomou para si” promessas que pertenciam somente a Israel?Ver resposta sugerida
Primeiro, concorde com o que há de verdadeiro: a promessa foi mesmo feita “à casa de Israel e à casa de Judá” (Jr 31.31), e a Igreja não deve arrogância nenhuma a Israel; Paulo adverte o gentio enxertado: “não se glorie contra os ramos” (Rm 11.18). Depois, mostre que não houve roubo, houve enxerto: os gentios não arrancaram a árvore de Israel; foram enxertados nela, pela fé, para participar da mesma raiz (Rm 11.17; Ef 2.12-13). Quem aplica Jeremias 31 à Igreja não é uma teologia posterior: é Jesus, entregando o cálice da nova aliança aos seus discípulos (Lc 22.20), e a carta aos Hebreus, citando o oráculo inteiro para a comunidade cristã (Hb 8.8-13). E termine com a esperança que Paulo guarda para Israel: a mesma oliveira permanece aberta, “se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados” (Rm 11.23). Um só povo, uma só aliança, um só Salvador.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. A objeção “a Nova Aliança é só com quem conhece o Senhor” (Jr 31.34) é examinada em detalhe na lição Por que batizamos os nossos filhos, do curso O Batismo, onde o próprio oráculo de Jeremias responde à pergunta (Jr 32.39).

Tarefas

Ler Jeremias 31.31-34 e Hebreus 8-10, sublinhando cada frase de Jeremias que Hebreus cita; e escrever, em poucas linhas, por que o perdão definitivo (Jr 31.34) torna impossível a volta dos sacrifícios.

Aula 9

Ezequiel 37, o vale de ossos secos: a ressurreição de um povo sem esperança, as duas varas que viram uma e o único rebanho do único Pastor. Ir para a Aula 9 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello