Uma Só Carne · Curso para CasaisAula 6

Atravessando crises com Cristo

“Não temam… Lutem pelos seus irmãos, pelos seus filhos, pelas suas filhas, pelas suas mulheres e pelas suas casas.”Neemias 4.14 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Jo 2.1-11; Ne 4.13-14; Mc 5.18-20

Para começar

Toda casa atravessa invernos

Desemprego, doença, luto, filhos que sofrem, rotina que cansa, distância que se instala. A crise não pergunta se o casal é crente. A diferença do casal cristão não é a ausência de crises; é a presença de Cristo dentro delas.

Nesta aula vamos caminhar por quatro cenas bíblicas: uma festa em que o vinho acabou, um muro em ruínas, um homem restaurado que queria fugir de casa e uma mulher chorando no deserto. Nenhum desses textos trata diretamente do casamento; são cenas de que extraímos, com honestidade, ilustrações pastorais legítimas sobre como atravessar crises com Cristo. Em todas elas, a virada acontece quando Deus entra na cena.

João 2.1-11

Quando o vinho acaba: Jesus na festa

O primeiro milagre de Jesus aconteceu num casamento, e aconteceu porque algo deu errado na festa.

João diz com clareza qual é o ponto do texto: o sinal de Caná “manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo 2.11). O casamento é o cenário do sinal, não o seu tema. Mas, como ilustração pastoral, a cena fala fundo aos casais: o vinho, símbolo da alegria, acabou no meio da celebração, e é esse o retrato de muitos casamentos: começaram em festa, e num certo ponto a alegria terminou; sobrou a rotina, a água sem graça do dia a dia. Note três lições da cena:

Jesus foi convidado. A primeira pergunta da crise é esta: Jesus é convidado do nosso casamento, ou ficou de fora da festa? Casa onde Ele é hóspede permanente tem para onde levar a falta.
Alguém apresentou a falta a Jesus. Maria não escondeu o problema nem o anunciou aos convidados; levou-o a Jesus: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2.3). A crise conjugal deve ser tratada primeiro no altar, não na rede social nem no ouvido de todo mundo.
A obediência precedeu o milagre. “Façam tudo o que ele disser” (Jo 2.5). Os serviçais encheram talhas com água, trabalho comum, repetitivo, sem brilho. Foi essa água servida em obediência que virou o melhor vinho. Deus costuma transformar a rotina obedecida em alegria renovada: o melhor vinho pode vir no fim da festa.

Neemias 3-4

Cada um diante da sua própria casa

Na reconstrução dos muros de Jerusalém, um detalhe precioso: muitos repararam o muro “cada um defronte da sua casa” (Ne 3.28).

Quando o inimigo ameaçou a obra, Neemias posicionou o povo por famílias e ordenou: “Lutem pelos seus irmãos, pelos seus filhos, pelas suas filhas, pelas suas mulheres e pelas suas casas” (Ne 4.14). Há aqui um princípio para toda crise conjugal:

O muro em ruínas não se reconstrói sozinho. Casamento em crise não melhora por inércia; exige obra intencional, pedra sobre pedra, dia após dia.
Comece pelo trecho defronte da sua casa. Antes de diagnosticar o cônjuge, cada um assume o seu trecho do muro: o meu gênio, as minhas palavras, as minhas omissões.
Construa com uma mão e vigie com a outra. Os construtores trabalhavam armados (Ne 4.17). O casal em reconstrução precisa vigiar em oração, porque há um inimigo interessado na demolição da família.
Lute pela sua casa. Não é vergonha admitir que o casamento precisa de ajuda. Nas crises conjugais comuns, não desistimos precipitadamente: buscamos a restauração com oração, humildade e ajuda responsável. (Em situações de violência ou abuso, vale outra ordem: afastar-se para preservar a segurança é atitude legítima e necessária; veja o quadro “Quando procurar ajuda” adiante.)

Marcos 5.1-20

“Volte para casa”: a restauração começa no lar

O endemoninhado gadareno, liberto por Jesus, implorou para segui-lo no barco. Jesus disse não.

“Vá para casa, para os seus, e anuncie-lhes tudo o que o Senhor fez por você” (Mc 5.19). O primeiro campo missionário do homem restaurado foi a própria casa, justamente as pessoas que o tinham visto no pior. Quando Deus nos transforma, a prova da transformação não é o palco; é o lar. É mais fácil pregar para estranhos do que amar, com paciência renovada, o cônjuge que conhece todas as nossas cicatrizes. A crise, atravessada com Cristo, vira testemunho: a casa que viu a guerra precisa ver a paz.

Gênesis 21.14-19

Olhos abertos no deserto

Agar, expulsa, sem água, colocou o filho debaixo de um arbusto e afastou-se para não vê-lo morrer.

Então Deus “abriu os olhos dela, e ela viu um poço de água” (Gn 21.19). O poço já estava lá; a aflição é que a impedia de enxergar. Quantos casais em crise estão assim: a provisão de Deus ao alcance (a Palavra, a oração a dois, o pastor, um casal maduro que pode ajudar, o próprio cônjuge disposto a recomeçar) e os olhos fechados pelo desespero. A oração da crise é simples: “Senhor, abre os nossos olhos para ver o poço que já colocaste perto de nós”.

Parábola

O Pássaro Azul e a grama do vizinho

Na velha história do Pássaro Azul, os irmãos correm o mundo procurando o pássaro da felicidade, para descobrir, no fim, que ele sempre esteve na gaiola simples da sua própria casa.

A crise produz uma ilusão perigosa: a de que a felicidade está em outro lugar, em outra pessoa, em outra vida. É a mentira da “grama mais verde do vizinho”: verde porque é vista de longe, sem as pragas que só quem cuida conhece. Quem abandona o seu jardim para invadir o alheio descobre tarde que toda grama dá trabalho. A felicidade conjugal não é achada; é cultivada, regada com fidelidade exatamente onde Deus nos plantou (Pv 5.15-19).

Para o casal

Para conversar a dois

Reservem um momento sem pressa e sem telas. Se a crise for atual, comecem de mãos dadas em oração.

1. Em que área da nossa casa “o vinho está acabando” (ou já acabou): alegria, diálogo, intimidade, finanças, fé? Já apresentamos essa falta a Jesus, juntos, em oração?
2. Qual é o trecho do muro “defronte da minha casa” que cabe a mim reconstruir? (Cada um responde sobre si mesmo, não sobre o outro.)
3. Que “poços” Deus já colocou ao nosso alcance e ainda não usamos: aconselhamento pastoral, um casal mais experiente, um retiro, um horário fixo de oração a dois?

Exercício da semana: instituam o altar da crise: dez minutos, em dia e horário marcados, para orar a dois nominalmente pela área mais ferida do casamento, sem discutir o problema nesse momento, apenas apresentando-o a Jesus como Maria fez: “eles não têm mais vinho”. Repitam ao longo da semana e anotem o que Deus for mudando, primeiro em vocês, depois na situação.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

0 de 5

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Estamos numa crise séria e meu cônjuge não quer buscar ajuda nem orar comigo. O que eu faço?Ver resposta sugerida
Faça a sua parte do muro, e faça-a com esperança. Primeiro, não desista da oração só porque ela virou solitária: interceda diariamente pelo seu cônjuge, com nome e situação, lembrando que Deus trabalha em corações que não nos ouvem (1Pe 3.1-2 mostra que a conduta amorosa fala onde as palavras já não alcançam). Segundo, cuide da sua própria transformação: muitas vezes o cônjuge resistente começa a ceder quando percebe mudança real e persistente do outro lado, sem cobrança e sem teatro. Terceiro, busque você o aconselhamento pastoral, mesmo sozinho: você sairá mais forte e mais sábio para conduzir a casa nessa estação. Quarto, plante convites pequenos e sem pressão: uma refeição especial, um passeio, uma frase de gratidão, são “brasas vivas” que amolecem resistências. E guarde isto: a demora do outro não anula a promessa de Deus para você. Agar estava sozinha no deserto quando Deus lhe abriu os olhos. Uma ressalva final e importante: tudo isso vale para as crises conjugais comuns; em situação de violência ou abuso, o caminho não é permanecer passivamente fazendo a sua parte, é buscar segurança e ajuda imediata, como orienta o quadro “Quando procurar ajuda”.
A crise que atravessamos deixou marcas. É possível que o casamento fique melhor do que era antes dela?Ver resposta sugerida
É possível, e é frequente, quando a crise é atravessada com Cristo e não apenas suportada. Caná aponta exatamente para isso: o vinho servido depois da falta era melhor do que o servido antes (Jo 2.10). A crise tem esse poder paradoxal: derruba as ilusões (a de que o amor se sustenta sozinho, a de que o cônjuge existe para me completar sem custo) e obriga o casal a construir sobre a rocha o que estava apoiado na areia (Mt 7.24-27). Casais que passaram juntos por desemprego, doença ou luto costumam testemunhar uma intimidade que os anos de bonança nunca produziram: aprenderam a orar juntos de verdade, a pedir perdão de verdade, a valorizar o que é essencial. As marcas não desaparecem, mas mudam de significado: deixam de ser cicatrizes de guerra um contra o outro e passam a ser memoriais da fidelidade de Deus, como as doze pedras no Jordão (Js 4.6-7). O que a crise não pode fazer é ficar sem resposta: ou ela empurra o casal para longe um do outro, ou para mais perto de Deus e, nele, um do outro. Essa escolha é de vocês.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Releia João 2.1-11 sublinhando os verbos de obediência, e Neemias 3.28 e 4.13-18, observando a estratégia por famílias.

Tarefas

Manter o altar da crise durante a semana; cada um cuidar do seu trecho do muro sem fiscalizar o trecho do outro.

Aula 7

Sexualidade: dádiva de Deus. A visão bíblica positiva do sexo no casamento, o Cântico dos Cânticos e as raposinhas que devastam as vinhas. Ir para a Aula 7 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA). · Bispo Ildo Mello