“…a ordenar acerca dos que choram em Sião que se lhes dê glória em vez de cinza.”Isaías 61.3 · NAA
Para começar
A questão do divórcio e do novo casamento é complexa, com profundas implicações teológicas, éticas e pastorais. Para tratá-la, precisamos segurar duas cordas ao mesmo tempo: a vontade de Deus para o casamento e a misericórdia de Deus para com os que passaram pela ruptura.
Encerramos o curso com este tema de propósito. Depois de oito aulas construindo o casamento sobre a rocha, olhamos com honestidade para a realidade do pecado que quebra lares, e para o evangelho que restaura vidas quebradas. Nesta sala há, provavelmente, casais em primeira união, recasados e pessoas marcadas por divórcios na família. A Palavra tem direção e esperança para todos.
Gênesis 1-2
No relato da criação, o casamento é a união em “uma só carne” estabelecida por Deus num mundo ainda sem pecado (Gn 2.24). Nesse cenário, a dissolução do matrimônio era inconcebível.
Antes da Queda, homem e mulher foram criados à imagem de Deus (Gn 1.27) e chamados a exercer domínio sobre a criação como parceiros iguais (Gn 1.28). O pecado, porém, trouxe ruptura: entre o ser humano e Deus, e entre o homem e a mulher. Da desigualdade que o pecado introduziu (Gn 3.16, 19) nasceram práticas que jamais fizeram parte do plano original, como a poligamia (Gn 4.19; 16.3) e o divórcio (Dt 24.1-4).
Deuteronômio 24
“Moisés, por causa da dureza do coração de vocês, permitiu que se divorciassem; mas não foi assim desde o princípio” (Mt 19.8).
As disposições mosaicas sobre o divórcio foram concessões à dureza do coração humano. Na prática da época, homens podiam repudiar suas esposas, mas as mulheres não tinham o mesmo direito, ficando vulneráveis e muitas vezes expostas à miséria. Ainda assim, Deus, em sua misericórdia, estabeleceu regulamentos para mitigar o sofrimento, como a exigência da carta de divórcio, que protegia a mulher repudiada (Dt 24.1-4). A regulamentação mosaica não aprova o divórcio; reflete a compaixão divina diante das realidades de uma humanidade caída.
Mateus 19
“Portanto, o que Deus uniu ninguém separe” (Mt 19.6).
Jesus reafirmou o padrão original do casamento e retirou dos homens o direito autoritário de repudiar suas esposas por qualquer motivo. Ele limitou o divórcio aos casos de infidelidade conjugal: a palavra grega “porneia”, relações sexuais ilícitas, em Mateus 19.9, é a chave dessa exceção. Fora desse contexto, ensinou Jesus, divórcio e novo casamento equivalem a adultério (Mc 10.11-12; Lc 16.18).
A posição do Mestre é clara: o divórcio nunca foi parte do ideal de Deus, mas a separação em caso de adultério é permitida como recurso de misericórdia para o cônjuge inocente, que não é obrigado a sustentar sozinho uma aliança que o outro rompeu.
1 Coríntios 7
“Mas, se o descrente quiser se separar, que se separe; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus os chamou à paz” (1Co 7.15).
Paulo reafirma o ideal divino, mas, diante de casamentos mistos, reconhece uma segunda exceção: a deserção. Quando o cônjuge descrente abandona o lar, o crente abandonado “não fica sujeito à servidão”: a Igreja Metodista Livre, com boa parte da tradição protestante, entende que essa expressão indica que o cônjuge inocente está livre, inclusive para casar de novo. Essa exceção pastoral reconhece que Deus nos chama à paz.
E uma palavra necessária sobre a violência: diante de ameaça ou agressão, afastar-se imediatamente para preservar a vida e a segurança, própria e dos filhos, é sempre legítimo e pode ser urgente. Se a situação vem a fundamentar também divórcio e novo casamento é uma questão distinta, que deve ser tratada à luz das Escrituras e com acompanhamento pastoral cuidadoso, conforme a orientação da nossa igreja.
O evangelho
Jesus demonstrou compaixão diante do pecado, como na história da mulher adúltera (Jo 8.1-11): não negou a lei, mas abriu caminho de vida nova: “vá e não peque mais”.
A igreja deve seguir esse exemplo, equilibrando a proclamação do padrão divino com a oferta de perdão e restauração. E há uma verdade libertadora que precisa ser dita com todas as letras: o perdão de Deus cobre os pecados do passado, tornando o pecador uma nova criatura em Cristo (2Co 5.17). Por isso, na orientação da Igreja Metodista Livre, o divórcio ocorrido antes da conversão não constitui, por si só, impedimento para a plena participação na vida da igreja: o que ficou para trás está debaixo do sangue de Jesus. Situações que envolvem novo casamento devem ser tratadas à luz das Escrituras e com acompanhamento pastoral responsável.
Comunidade redentora
A igreja deve ser lugar de acolhimento, cura e restauração. Pessoas divorciadas frequentemente carregam cicatrizes profundas e precisam de apoio amoroso para reconstruir a vida.
Em resumo: a igreja proclama o padrão de Deus para o casamento e, ao mesmo tempo, ministra compaixão aos que sofrem as consequências do pecado. Verdade sem compaixão esmaga; compaixão sem verdade desorienta. O evangelho carrega as duas.
Para o casal
Última conversa do curso. Façam dela um marco: olhem para trás com gratidão e para a frente com aliança renovada.
Exercício de encerramento: escrevam juntos, à mão, um pacto de renovação da aliança: uma página com os compromissos que assumiram na pergunta 3, a data e as duas assinaturas. Se possível, apresentem esse pacto a Deus em oração, os dois de joelhos. Guardem-no na Bíblia da família e releiam-no a cada aniversário de casamento.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Para aprofundar. Leia o estudo completo A Igreja e o Divórcio e reveja as passagens-chave desta aula: Mt 19.3-9, 1Co 7.10-16 e Os 1-3.
Você concluiu
As 9 aulas do curso Uma Só Carne. Que o Senhor guarde a sua casa edificada sobre a rocha, e que o melhor vinho ainda esteja por vir.
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Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA). · Bispo Ildo Mello